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Quem apanha em dia de jogo?

Daniel Martins de Barros

24 junho 2014 | 11:51

nos dias em que a Inglaterra jogou houve aumento de violência doméstica em todos as Copas analisadas. Pior do que isso, se o time ganhava o aumento era de 26%, mas quando a Inglaterra perdia o aumento era de 38%. Esse efeito durou pelo menos 24 horas, pois no dia seguinte, independente do resultado do jogo, ainda se registrava um aumento de 11% nas ocorrências.

Sempre achei divertido ver meus amigos que levavam futebol a sério quando era moleque. Sendo um rematado perna de pau, nas desafortunadas vezes em que jogava bola eu invariavelmente ouvia xingamentos pela minha performance. Como em outras áreas de incompetência pessoal encontrei na ironia uma eficiente maneira de lidar com aquelas partidas e passei a achar engraçado a importância que algumas pessoas davam ao jogo. Com o tempo, no entanto, fui percebendo que aquela seriedade podia ser exagerada, chegando a se tornar perigosa, descambando não raras vezes para discussões e mesmo brigas. Para minha felicidade e segurança nessa época eu já não precisava entrar em campo.

Essa associação entre violência e futebol pode contaminar não apenas os torcedores nos estádios, sobretudo quando reunidos torcidas organizadas, mas também os distantes telespectadores, com perdão do pleonasmo. Diversos efeitos no comportamento e na própria fisiologia dos fãs vêm sendo estudados nos últimos anos, em diversos esportes. Com relação ao futebol, e mais especificamente à Copa do mundo, chama atenção um tema tão inusitado como importante: violência doméstica.

No ano passado pesquisadores do Reino Unido publicaram um estudo da frequência de violência doméstica relatada à polícia durante as Copas de 2002, 2006 e 2010, comparando-a com os dados dos anos anteriores. Os resultados são algo perturbadores: nos dias em que a Inglaterra jogou houve aumento de violência doméstica em todos as Copas analisadas. Pior do que isso, se o time ganhava o aumento era de 26%, mas quando a Inglaterra perdia o aumento era de 38%. Esse efeito durou pelo menos 24 horas, pois no dia seguinte, independente do resultado do jogo, ainda se registrava um aumento de 11% nas ocorrências.

Provavelmente não é coincidência um fato identificado em outro estudo com torcedores na Copa de 2010: durante a final entre Espanha e Holanda cinquenta espanhóis tiveram seus níveis de cortisol e testosterona monitorados. Associado ao estresse, o cortisol aumentou de forma diretamente proporcional ao fanatismo dos torcedores. A testosterona também subiu, mas isso foi interpretado pelos cientistas como coerente com a chamada “hipótese do desafio”, segundo a qual esse hormônio sobe em situações em que o status social do sujeito – e as consequentes oportunidades reprodutivas – é desafiado. Tal elevação tornaria os indivíduos mais propensos à agressividade para defender seu status.

A violência é um fenômeno complexo, com diversas variáveis envolvidas em sua origem, não podendo ser reduzida a uma relação causal direta com um fator isolado. Corretamente interpretados, esses estudos não pretendem apontar a causa final do intricado problema da violência doméstica, mas apontam para um fator de risco real que não pode ser ignorado.

ResearchBlogging.org
Kirby, S., Francis, B., & O’Flaherty, R. (2013). Can the FIFA World Cup Football (Soccer) Tournament Be Associated with an Increase in Domestic Abuse? Journal of Research in Crime and Delinquency, 51 (3), 259-276 DOI: 10.1177/0022427813494843
van der Meij L, Almela M, Hidalgo V, Villada C, Ijzerman H, van Lange PA, & Salvador A (2012). Testosterone and cortisol release among Spanish soccer fans watching the 2010 World Cup final. PloS one, 7 (4) PMID: 22529940