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Daniel Martins de Barros

Nessa terça-feira, dia 18 de setembro, Edimeire Celestino da Silva foi notícia mais uma vez. Há uma semana ela já estivera nas manchetes após uma tentativa um tanto aparvalhada de invadir o Palácio do Planalto e declarar seu amor pela presidente Dilma Rousseff. A segurança presidencial notou sua presença nas cercanias do Palácio da Alvorada, residência oficial da presidente, e acionou a polícia militar. Abordada, ela disse que só sairia dali depois de pedir Dilma em casamento, mas acabou dissuadida de insistir. Ao menos por ora.

O caso de Edimeire não é isolado, e remete a um fenômeno conhecido pelo termo inglês stalking, algo entre o assédio e a perseguição. Atores, cantores e políticos, dados sua proeminência e visibilidade, são especialmente vulneráveis a essa situação – no Canadá, por exemplo, estudos mostram que quase um terço dos políticos já foi vítima de algum tipo de perseguidor.

Como na maioria dos casos de stalking a celebridades, Edimeire sofre de um transtorno mental. Segundo sua mãe, assim que Dilma Rousseff saiu candidata a filha se apaixonou, cobrindo o quarto com fotos e pôsteres, mas só veio a se tratar justamente após uma crise envolvendo sua paixão. Em 2010 ela foi detida degolando pombos no centro de Campinas, onde mora. Segundo ela, essa era uma forma que encontrara de chamar a atenção de Dilma, num raciocínio tortuoso que lembra o de John Hinckley Jr., que em 1981 tentou assassinar o presidente americano Ronald Reagan para atrair a atenção da atriz Jodie Foster, por quem se apaixonara desde que vira o filme Taxi Driver. Assim como Edimeire, ele apresentava um transtorno mental. E embora alegadamente ela esteja em tratamento, por seu comportamento e suas declarações é difícil imaginar que ela esteja bem. Ao dizer ser homem, marido da presidente, tentando forçar sua entrada no Palácio do Planalto a despeito dos guardas, Edimeire dá sinais de que sua capacidade de ajuizar a realidade está, no mínimo, comprometida.

Sabe-se que entre 80 e 90% dos casos de assédio a famosos são perpetrados por pessoas com algum diagnóstico psiquiátrico, sobretudo os transtornos psicóticos, nos quais o paciente pode perder o contato com a realidade se não tratado de forma apropriada. Temas de paixão e hostilidade são os mais comuns, e o padrão é exatamente o oposto do encontrado em perseguidores a não famosos – nesses casos, na maioria das vezes trata-se de alguém que não aceita uma rejeição amorosa e passa a perseguir o objeto de seu desejo, mas só 20% das vezes o assediador tem algum diagnóstico psiquiátrico.

Nunca é demais lembrar que a maioria dos atos violentos no mundo é cometida por pessoas sem qualquer transtorno mental, e que os pacientes psiquiátricos não são mais perigosos do que qualquer pessoa – de forma geral eles envolvem-se até em menos agressões, na verdade. O caso de Edimeire vem reforçar que, no caso de pacientes psiquiátricos, a maior violência é permitir que eles fiquem sem tratamento adequado.

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James DV, Mullen PE, Pathé MT, Meloy JR, Farnham FR, Preston L, & Darnley B (2008). Attacks on the British Royal family: the role of psychotic illness. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 36 (1), 59-67 PMID: 18354125

Susan J. Adamsa, Tracey E. Hazelwoodb, Nancy L. Pitrec, Terry E. Bedardd, & Suzette D. Landrye (2009). Harassment of Members of Parliament and the Legislative Assemblies in Canada by individuals believed to be mentally disordered Journal of Forensic Psychiatry & Psychology, 20 (6) DOI: 10.1080/14789940903174063

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Celso Russomano será o novo prefeito de São Paulo. Não, não estou em campanha. Aliás, nem tenho filiação político-partidária. Adentro hoje no escorregadio território das previsões políticas.

Ocorre que você é um tremendo maria-vai-com-as-outras. Eu também. Todos nós somos, mesmo sem admitir. Isso já foi mais do que comprovado, mas um dos estudos que eu mais gosto tem a ver com toalhas em hotéis. Os pesquisadores passaram algums meses pendurando nos banheiros de uma rede de hotéis uma placa sugerindo que os hóspedes reutilizassem as toalhas, evitando trocas diárias. Partes das placas trazia um apelo ambiental, mostrando que isso era ecologicamente correto. Outra parte ia além, e dizia que quase 75% dos hóspedes vinha aderindo à iniciativa. Adivinhe. Nos quartos com a mensagem ecológica a taxa de reutilização foi de 35,1%, mas naqueles com a estratégia maria-vai-com-as-outras foi de 44,1%, um aumento de quase 10%. E o mais engraçado foi quando os pesquisadores mudaram um pouco a placa, dizendo que 75% dos hóspedes que tinham ficado naquele mesmo quarto reutilizara as toalhas. Com isso, a adesão subiu para praticamente 50%. Na ausência de parâmetro muito claros sobre como devemos nos comportar (o que ocorre na maioria das situações), tendemos a seguir a manada.

Esse movimento de manada já foi investigado várias vezes nas eleições. Alguns estudos mostram que os eleitores tendem a migrar para quem está ganhando, exatamente como no caso das toalhas. Alternativamente, existe também a hipótese do azarão, segundo a qual parte do eleitorado vota em quem está perdendo, visto como fraco e merecedor de uma espécie de compensação misericordiosa. Há muito debate e poucas evidências definitivas sobre qual dos dois efeitos é mais importante, mas acho que Russomano se beneficia de ambos: as pesquisas vêm consistentemente mostrando-o na dianteira, o que favorece o comportamento de manada. Por outro lado, os dois candidatos que vêm a seguir não se beneficiam do efeito azarão, pois fazem parte do status quo: José Serra é político tarimbado e conhecidíssmo, e Fernando Haddad foi ministro e é apoiado por ninguém menos que Lula e a presidente Dilma. O azarão é o próprio Russomano.

O efeito de manada pode ser usado para outros fins. Está ganhando força no Brasil o movimento de crowdfunding, ou “financiamento da galera”, numa tradução livre. Alguém tem um projeto que acredita ser interessante para uma galera e lança a ideia em sites criados especificamente para esse fim, onde as pessoas podem contribuir com recursos para que a iniciativa saia do papel. Eu mesmo fui entrevistado para um projeto de debates chamado diaLOGOS, que agora busca se viabilizar via crowdfunding (link). Conforme as doações vão se avolumando os internautas vão se empolgando, e quanto mais gente doa, mais incentivo há para que outros doem. Afinal, ninguém quer ajudar quem não mereça, mas sem critérios objetivos para definir quem merece, a aprovação dos outros acaba pesando. Por isso fica a dica: se quiser financiar seu projeto, empreste algum dinheiro para várias pessoas contribuírem com um pouco; depois disso, coloque o número explícito no site, junto com a mensagem: ” As X pessoas antenadas e generosas que visitaram esse projeto e são interessadas como você no desenvolvimento do seu país, já contribuíram. Junte-se a elas!”

É a estratégia dos candidatos que chegam na reta final liderando as pesquisas, quando divulgam nas campanhas frases como “A cidade já escolheu, está todo mundo votando no fulano!”. Eles sabem que existem diversos outros elementos que influenciam na eleição que não podem ser ignorados. Mas nessa hora jogam tudo no movimento de manada, pois quando a boiada estoura, muitos outros elementos acabam pisoteados.

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NOAH J. GOLDSTEIN, ROBERT B. CIALDINI, & VLADAS GRISKEVICIUS (2008). A Room with a Viewpoint: Using Social
Norms to Motivate Environmental
Conservation in Hotels JOURNAL OF CONSUMER RESEARCH, 35 DOI: 10.1086/586910

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“Eu não quero depender de remédios” é uma frase muito comum de se ouvir no consultório. A sombra de dependência que paira sobre os tratamentos psiquiátricos assusta muitos pacientes, e é um trabalho enorme explicar as diferenças entre necessidade, dependência, vício etc. O tema é quente, e o mais recente episódio do Profissão Repórter investigou o exagero de prescrições de calmantes no país. Embora a tarefa seja legítima, acredito que se perdeu a chance de expor para a população algumas distinções essenciais.

Um breve levantamento histórico dos termos usados na questão do uso de substâncias pode ajudar um pouco:

Inebriação (ou embriaguez) – termo famoso no Brasil na voz de Vicente Celestino (“Tornei-me um ébrio, e na bebida busco esquecer aquela ingrata que eu amava e que me abandonou…”), designava o uso habitual de álcool ou outras bebidas que causassem dependência. Muito associado a políticas públicas, estimulou a criação da Sociedade para o Estudo (e Cura) da Inebriação em 1884, no Reino Unido, com propostas de internação compulsória dos ébrios (filme que se repete ciclicamente).

Adição – embora tenha voltado à moda mais recentemente no anglicismo “drogadito” (má tradução de drug-addicted), remete ao início do século XX, quando era usado para descrever o uso compulsivo de droga, em substituição a “hábito”, “inebriação” e “morfinomania”.

Hábito – descrevia consumo compulsivo de drogas, mas ainda sem conotação médica – ter o hábito de alguma substância não era uma reprovação. Em 1957 a Organização Mundial da Saúde diferenciou hábito de adição, esta última referindo-se à tendência de aumentar as doses progressivamente. Substituiu ambos em 1964 por “dependência”.

Usuário problema – Usado desde fins do século XIX e começo do XX, rescendindo às teorias sociais das doenças mentais, quando o “problema” eram as más relações do homem com seu meio, veio a ser usado para o uso de álcool nos anos 70 e 80, mudando um pouco o foco da doença para as consequências na vida do sujeito.

Dependência – palavra que se tornou um diagnóstico em si, trazendo as implicações de dependência física e psicológica e ampliando o espectro de substâncias com potencial de dependência. Passou a constar da Classificação Internacional de Doenças, já com critérios mais claros, enfatizando o desejo intenso e a compulsão, além da crescente dificuldade de controlar o uso.

O remédio pode causar dependência? Na maioria dos casos, quando bem utilizados, não. Mas mesmo assim o uso de remédios é sempre uma questão de custo-benefício. Há custos em usar um medicamento, para o qual não devemos fechar os olhos: há custo financeiro, efeitos colaterais, estigmatização dentre vários outros. Mas há também benefícios: diminuir a duração da doença, ganhar qualidade de vida, impedir o agravamento do quadro e por aí afora. Os médicos às vezes se colocam na posição paternalista de saber mais do que o paciente o que é bom para ele, mas isso não é verdade. Já tive pacientes que, feitos esses cálculos, optaram por não se tratar. Paciência. Na minha opinião valia a pena. Mas, desde que o paciente não esteja fora da realidade, quem sou eu para impor a ele minha vontade? O papel do médico é ajudar os pacientes a fazer essas contas, esclarecendo, com o conhecimento de que dispõe, quais os reais riscos envolvidos. E é fundamental mostrar que na hora de pesar os custos, o risco de dependência é pequeno. Sim, há pessoas que passam mal quando param algumas drogas. “Percebi que eu dependo desse remédio, doutor.”, eles dizem. “Pois é, assim como os diabéticos dependem de insulina”, respondo. A dependência que muitos apresentam é, na verdade, uma necessidade: ainda têm sintomas que não estão controlados, e por isso se não se sentem bem ao parar a medicação. Não é um vício. O vício tem outras características: uma sensação de urgência na busca pela droga, um “ter que” usar, a redução do repertório das atividades, focando-se cada vez mais em torno do uso da substância, o aumento constante de doses, chegando a ponto de ir a vários médicos para pegar muitas receitas.

Há exagero na prescrição de calmantes no Brasil? É possível. Mas por ora é um hipótese ainda a ser confirmada. Vale a investigação, mas mostrar só esse lado da questão, sem lembrar que não tomar calmantes pode ser bem pior, dependendo do caso, contribui para a demonização dos medicamentos, aumentando o estigma e tornando a vida de todos ainda mais difícil.

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Virginia Berridge, & Sarah Mars (2004). History of addictions J Epidemiol Community Health, 58, 747-750 DOI: 10.1136/jech.2003.015370

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Com atraso só justificável pela presença de um bebê em casa, fui finalmente assistir o filme Batman, o cavaleiro das trevas ressurge, último da trilogia dirigida por Christopher Nolan. Mesmo que você não tenha interesse por blockbusters ou super-heróis, vale a pena. A atual leitura do homem-morcego pouco tem a ver com os seriados dos anos 60 e 70, sucesso na TV brasileira, e mesmo com o mega-sucesso de Tim Burton, nos anos 90. Ainda que com os limitados recursos disponíveis num filme para esse fim, ele discute a questão da angústia e do luto, individuais e coletivos.

Achei de uma coincidência ímpar um fato que até então não tinha me dado conta: o primeiro filme da trilogia, Batman Begins, estreiou no Brasil em 2005. A história mostrava uma Gotham City totalmente corrompida, com os três poderes afundados em falcatruas até um ponto sem volta, e era fácil fazer um paralelo com o escândalo recém descoberto do mensalão.

Sete anos depois, a história evoluiu para uma Gotham pacificada, na qual a corrupção está aparentemente controlada, mas em cujo subterrâneo um verdadeiro exército criminoso se prepara para tomar de assalto a cidade. Não é impossível fazer novamente uma analogia com o momento do país – quando vemos os primeiros réus do mensalão se encaminharem para uma condenação, é difícil refrear a sensação de que estamos entrando numa fase na qual a corrupção começa a ser punida, e quiçá coibida. Mas o que será que está acontecendo nos subterrâneos?

Uma das falas mais interessantes é quando o vilão diz que irá manter a esperança nas pessoas enquanto destrói a cidade, para que elas fiquem realmente desesperadas. Ele explica que somente enquanto acreditarem que podem sobreviver é que elas ficarão desesperadas, pois no momento em que acabassem as chances, terminaria esse desespero. Consciente disso ou não, ele distingue muito bem angústia e luto. Na angústia nós não sabemos mais o que fazer para mudar algo, enquanto no luto nós sabemos que não podemos fazer mais nada para mudar o que for.

A angústia de não saber se o julgamento do mensalão será eficaz para reduzir a corrupção, portanto, pode ser um bom sinal. Mostra que nós ainda acreditamos que podemos combatê-la, e que não chegou a hora de declar luto pelo país.

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Prepare-se para um furo – revelo, em primeira mão, que o julgamento do mensalão irá envolver um nome que até aqui vinha sendo poupado, mas cuja imagem sairá arranhada nos próximos dias. O jogador Neymar.

Não, ele não foi visto sacando dinheiro no Banco Rural, nem contratou Duda Mendonça para dar um tapa na sua imagem. Mas coincidentemente ou não, nos últimos dias venho notando uma progressiva rejeição ao “jeitinho brasileiro” com o qual ele tempera, infeliz e desnecessariamente, o talento que de fato tem. Vídeos na internet comparam seu comportamento com o do argentino Lionel Messi diante das faltas, mostrando que enquanto este último é duro de cair, Neymar rola no chão com as mãos na cabeça mesmo quando não é atingido.

Talvez não tenha absolutamente nada a ver com o julgamento do mensalão. Mas arrisco uma aproximação.

O jeitinho brasileiro é estudado com seriedade há algum tempo, e recentemente pesquisadores identificaram três componentes diferentes constituintes desse “talento”: a criatividade, a quebra de normas sociais e a corrupção propriamente dita. Tomei conhecimento do estudo no blog SocialMente, do talentoso estudante André Rabelo, e não me surpreendi com os resultados indicando que, embora as pessoas critiquem o jeitinho, sobretudo com relação à quebra de normas e corrupção, ainda assim elas praticam esses mesmos atos que condenam. Cria-se o paradoxo de uma cultura que é formada pela soma das atitudes de indivíduos que não concordam com a cultura que eles mesmo constroem. O círculo vicioso formado leva as pessoas a agirem de forma desonesta porque todo mundo faz o mesmo, e, o que é pior, tende a produzir uma sensação de indiferença à corrupção, além de tolerância a atos considerados menos graves quando comparados com “a roubalheira de Brasília”.

Indo além da pesquisa, talvez estejamos vendo algo que percebi à época do processo de impeachment do Collor. Por mais que as coisas nem sempre durem, que as mudanças não sejam definitivas, havia no ar um clima de intolerância, uma sensação de “chega” que invertia o círculo vicioso da corrupção – em vez de todo mundo roubar já que todo mundo roubava, via-se a possibilidade de as pessoas pararem de roubar porque não era mais assim que as coisas funcionavam.

Claro que não sou inocente a ponto de achar que o processo do mensalão acabará com a corrupção no Brasil. Mas ele vem sendo tão discutido, tão divulgado, que hoje a maioria dos brasileiros sabe do que se trata e deseja a condenação dos culpados. Pode ser otimismo, mas novamente sinto crescer a indignação com a corrupção. Isso diminui a tolerância com as quebras de normas para ganhar vantagens, e por consequência aumenta a condenação ao jeitinho brasileiro.

As crescentes críticas ao Neymar podem não ter nada a ver com isso, mas se eu fosse ele tentaria ficar mais firme, para não acabar sendo derrubado.

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Ferreira MC, Fischer R, Porto JB, Pilati R, & Milfont TL (2012). Unraveling the mystery of Brazilian jeitinho: a cultural exploration of social norms. Personality & social psychology bulletin, 38 (3), 331-44 PMID: 22143307

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16.agosto.2012 22:29:30

Nocaute técnico

Acostumado a se esquivar dos adversários e não se deixar abater nos ringues, David Lourenço dobrou as pernas com o golpe inesperado de não ter sido levado para as Olimpíadas nesse ano. Campeão mundial de 2010 na categoria juvenil e uma das grandes promessas do boxe brasileiro, David reunia chances reais de ir aos jogos de Londres, mas acabou sendo o único atleta cortado da delegação. A frustração parece ter sido demais.

Quando estamos em meio a situações geradoras de grande sofrimento mental é muito comum termos o desejo de desaparecer. Se, por um motivo ou por outro, a pessoa se vê incapaz de lidar com o problema, impossibilitada de sair do conflito, tal desejo pode atingir níveis patológicos, eventualmente levando a episódios de fuga dissociativa. Os transtornos dissociativos são análogos ao que antigamente se denominava histeria, nos quais ocorrem amnésias, alterações da consciência, perda de identidade e do controle dos movimentos, como paralisias. Os quadros não são uniformes, no entanto, e na fuga dissociativa o sujeito pode não ter muito sintomas além do comportamento de se deslocar a esmo, sem destino ou propósito, afastando-se da situação estressante e das pessoas envolvidas nela. É muito comum que, quando localizadas, sintam-se deprimidas, envergonhadas e eventualmente até agressivas, por serem forçadas a novamente lidar com o problema do qual tentavam, inconsciente e inutilmente, fugir.

Talvez seja isso o que tenha acontecido com David, já que o sentimento de rejeição é uma das causas desses comportamentos. Além disso, seu pai diz ter identificado nele os sinais de depressão que fazem parte do final da fuga. Claro que há a possibilidade de que ele tenha desenvolvido também um quadro depressivo, já que um transtorno não exclui o outro.

Se de fato for diagnostica a depressão é importante garantir tratamento adequado. Mas mais do que isso, o apoio da equipe, dos amigos e da família é essencial para auxiliá-lo a lidar com a situação de uma maneira saudável, para que ele possa superar esse episódio e se reerguer da lona.

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Não tem como escapar: volto à novela Avenida Brasil. À parte o prêmio Emmy de melhor atriz que Adriana Esteves merece pelo papel da Carminha, que garantiu seu ingresso no restrito clube de grandes atrizes da dramaturgia nacional, a Psiquiatria tornou-se protagonista nos últimos dias. Assédio moral, internação involuntária, surtos de agressividade, a novela está parecendo um compêndio de psiquiatria forense.

Para os que não sabem, a Carminha está sendo chantageada por sua ex-enteada, Nina, que armou uma vingança cruel. Sem entrar em detalhes, basta dizer que a moça colocou a ex-madrasta numa situação de absoluto cerco, submetida aos seus caprichos sem a menor possibilidade de escapar. Usando o poder que adquiriu sobre ela ao fotografá-la com o amante, subtraiu-lhe totalmente a autonomia, humilhou-a continuamente e a ameaçou durante dias. Essa é uma situação análoga ao assédio moral, tão em moda hoje em dia. Às vezes ouço pessoas preocupadas, dizendo que não se pode mais repreender um funcionário por medo de processos por assédio, mas na verdade não se trata disso. É essa situação de cerco inescapável armado por algum tipo de poder que caracteriza o assédio moral. Ele não é um transtorno psiquiátrico por si só, mas sim um problema jurídico. Ocorre que é muito comum as pessoas a ele submetidas não aguentarem a pressão e adoecerem ou “surtarem”, aí sim a questão se torna um problema médico. Ao que parece Carminha não surtou de fato, não adoeceu, mas perdeu o controle por diversos momentos, ficando agressiva, pulando a janela da casa até ser considerada louca pela família, que não sabe da chantagem.

Após algum tempo os parentes decidiram que ela estava mesmo fora do controle e resolveram interná-la. Obviamente, sabendo que não está doente, ela foi contra, o que motivou a sempre traumática internação involuntária. Embora possa parecer uma arbitrariedade, um abuso do poder médico, não é raro que tal modalidade de internação seja de fato necessária. Alguns pacientes perdem a noção da realidade por conta de suas doenças psiquiátricas, e passam a se recusar a tomar remédios, fazer exames ou ir a consultas. Não é uma decisão livre e racional, obviamente, mas fruto de delírios, ausência da capacidade de distinguir o real do irreal; por conta disso, desrespeitar tal “vontade” é o melhor que se pode fazer, tratando-os na marra até que o surto melhore, quando então a autonomia é recuperada, ao menos parcialmente (o que não costuma demorar). A lei brasileira é bastante clara com relação a essas internações: a psiquiatria é uma das poucas especialidades médicas que tem uma lei própria para sua regulamentação, justamente para evitar abusos.

E por fim o médico da novela disse que Carminha poderia ser bipolar, o que talvez explicasse seus comportamentos instáveis. Esse é mais um diagnóstico psiquiátrico que, caindo no gosto popular, vem sendo mal utilizado como sinônimo de instabilidade. Transtorno bipolar não é isso. Nele a pessoa tem fases claras de depressão, aquelas com profunda tristeza, desânimo, choro e pensamentos negativos durante um tempo, mas em outras ocasiões fica exatamente o oposto: com excessiva alegria (excessiva mesmo, exagerada), energia sem fim, desinibida, rindo à toa, falando muito rápido. E além disso, entre essas fases fica normal, sem qualquer sintoma. Ou seja, não basta estar um pouco mais triste num dia e feliz num outro. Nem sequer basta ser alguém “de lua”. Usar um diagnóstico de forma leviana pode estimular o uso de medicamentos de forma inadequada, com prejuízos para todos.

Pelo ritmo de seriado que essa novela tem imagino que a Carminha logo saia da tal clínica e novos elementos da história surgirão. Não sei não, mas acho que essa ainda não é a última vez que falamos sobre Avenida Brasil.

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Gostei bastante do novo quadro do Fantástico: Phantasmagoria. Com auxílio de um mágico profissional e ouvindo especialistas em diversas áreas, de engenharia a neurologia, o programa é uma mistura de reality show com reportagem investigativa, e promete tratar de diversos fenômenos paranormais frequentemente relatados em nossa cultura. Embora o tom da apresentação queira manter no ar certa dúvida, deixando em aberto se fantasmas existem ou não, o próprio nome do quadro já entrega o jogo. Phantasmagoria era uma técnica de ilusionismo muito famosa na época do Romantismo (quando as pessoas estavam fascinadas pelo oculto, pelo gótico) na qual imagens de esqueletos, espíritos e demônios eram projetadas em paredes, cortinas, na fumaça, dando a impressão – falsa – de um contato com o além. Ou seja, o quadro busca explicações naturais para os fenômenos investigados, mostrando que essas experiências podem no fundo ser apenas “normais”, sem o prefixo “para”.

No primeiro episódio um casarão com fama de mal-assombrado foi monitorado por câmeras, e três voluntários tinham que ficar sozinhos em seu interior, à noite e com as luzes apagadas, usando apenas lanternas. Cada um devia cumprir uma tarefa, como chamar um espírito, procurar vultos nas árvores ou nas escadarias. Durante todo o tempo eles eram filmados e carregavam suas próprias câmeras para registrar o que acontecia. Nem precisa ser esperto para adivinhar que todos ficaram com muito medo, tendo experiências como sentir cheiro de vela ou ter uma “sensação estranha”, mas nenhum espírito foi encontrado cara-a-car. Os especialistas foram então ouvidos, procurando explicações científicas para os fenômenos relatados. No fim, ficou a pergunta: você acredita nos cientistas ou nos fantasmas?

O que aconteceu com o trio bate com o que as pesquisas mostram sobre casas assombradas: o contexto e as expectativas levam as pessoas interpretar fenômenos comuns como sinais do além que esperam encontrar. Estudando quase mil relatos de experiências sobrenaturais descobriu-se que ver uma aparição nítida, de forma clara, é extremamente raro (menos de 1% dos casos). E praticamente só quando se está pegando no sono ou acordando, momento em que é comum haver episódios de alucinações passageiras. Fora isso, em um terço das vezes o que ocorre são visões rápidas, como vultos ou flashes de luz; em outro terço são sons que assustam, como passos ou batidas; e o restante são uma miscelânea, incluindo cheiros, sensações subjetivas, arrepios etc. Além de serem pouco consistentes, outro estudo mostrou como esperar tais sinais torna as pessoas sugestionadas. Vinte e dois voluntários foram levados para um teatro abandonado, metade deles achando que ele estava em reforma, metade que ele era mal-assombrado. As pessoas tinham que anotar qualquer experiência, como odores, barulhos, cenas, que pudessem ser interpretadas como estranhas ou incomuns, e – surpresa – as que achavam que o lugar era habitado por espíritos registraram muito mais fenômenos estranhos do que os outros, em todos os sentidos.

Por isso desejo que Phantasmagoria alcance boa audiência. Se as assombrações nascem da expectativa de encontrá-las, quanto mais as pessoas conhecerem explicações, menos acreditarão em fantasmas. É um quadro que, por trás de toda a pirotecnia inerente à TV, estimula o raciocínio crítico ao colocar em cheque algumas crenças pré-concebidas dos telespectadores. Num programa de TV, popular, domingo à noite, isso é quase sobrenatural.

Pós-escrito – quando escrevi esse post eu ainda não havia sido convidado para participar do quadro – seria elogio em causa própria, o que é muito feio.

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Lange R, Houran J, Harte TM, & Havens RA (1996). Contextual mediation of perceptions in hauntings and poltergeist-like experiences. Perceptual and motor skills, 82 (3 Pt 1), 755-62 PMID: 8774012
Lange R, & Houran J (1997). Context-induced paranormal experiences: support for Houran and Lange’s model of haunting phenomena. Perceptual and motor skills, 84 (3 Pt 2), 1455-8 PMID: 9229473

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Uma infeliz conjunção de fatores contribuiu para o bate-boca público em que a atleta Rafaela Silva se envolveu após ser desclassificada na competição de judô por ter aplicado um golpe irregular.

Para os que não acompanharam, o caso teve início poucas horas depois de a atleta sair dos jogos olímpicos por ter agarrado a perna da adversária com as mãos, o que não é mais permitido. Ao checar o que se estava comentando sobre o fato no twitter, Rafaela deparou-se com agressões violentas, chamando-a de macaca, desqualificando-a e dizendo que ela deveria voltar rastejando para o Brasil. Sua resposta foi imediata e no mesmo tom, dando origem a uma escalada de agressividade que foi parar no Comitê Olímpico Brasileiro.
Os fatores que tiveram esse desafortunado encontro foram o estado emocional predisposto à agressividade em que ela se encontrava e o mau uso das redes sociais que frequentemente vemos acontecer.

O judô, como todas as lutas e a maioria dos esportes, é uma maneira ritualizada de expressarmos as tendências agressivas que temos desde sempre, como já conversamos por aqui. Aliás, a luta é o esporte mais antigo da humanidade porque provavelmente foi só quando conseguimos colocar normas nas embates físicos que criamos algo que pudesse ser chamado de sociedade. Historicamente todos os períodos da humanidade conheceram formas de bater e apanhar com regras mínimas, da luta na antiguidade clássica, passando pelos gladiadores romanos, pelas justas na idade média, até chegar ao boxe moderno e finalmente ao MMA.Não espanta, portanto, que as pessoas envolvidas em torneios, sobretudo de lutas, apresentem um nível alto de agressividade, sem o qual nem adianta entrar na disputa. Foi com esse estado de espírito, potencializado pela raiva frustração pela derrota, que Rafaela deu de cara com as agressões na internet.

As redes sociais entraram como catalisadoras da reação, que se torna explosiva. De fato, não são poucos os casos que temos visto de brigas, discussões e ofensas por esses meios onde, envolvidos numa aparente imunidade dada pela sensação de distanciamento com que as pessoas interagem, verdadeiras guerras verbais acabam acontecendo. Associado à publicidade imediata e abrangente que esses meios trazem em si, os casos ganham uma repercussão enorme, e, o que é pior, duradoura.

No fim das contas Rafaela se desculpou e diz que não pretende levar o caso em frente. Melhor. Ela tem uma históriade vida emocionantes, tendo sido revelada para o mundo por um projeto social na Cidade de Deus, e como todos nós merece ser lembrada por suas conquistas, muito mais do que por seus tropeços.

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Recebi algumas críticas muito consistentes sobre a questão dos partos domiciliares e sua proibição pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro. Por isso, conforme prometido, volto ao tema.

Primeira crítica a meu post anterior: os dados não são tão simples. De fato, depois de ler trabalhos e artigos que me foram recomendados, vejo que, como quase tudo em ciência, a questão central não é destituída de controvérsia. Há evidências que mostram aumento do risco de morte para os recém-nascidos, outras que mostram risco igual. Aqui cada ideólogo escolherá os dados que melhor lhe convier. Como não sou ideólogo, escolho a angústia da incerteza, e não poderei me fiar dessas evidências para formar opinião.

Segunda crítica (autocrítica, essa): aumento de risco quando os números são muito pequenos podem não ser tão importantes – se ficar privado de determinada comida reduzir em 50% seu risco de ter uma doença grave e rara, por exemplo, o risco cairia de um em um cem mil para meio em cem mil – vale a pena o sacrifício? Eu não entrei nesse ponto, mas é porque creio que, SE o risco fosse realmente aumentado, mesmo que os números absolutos fossem pequenos, a decisão do CREMERJ estaria correta. Mas já não sei se o risco é ou não maior. Menos um ponto para me ajudar a decidir.

Agora a terceira crítica: se as pessoas farão partos domiciliares de qualquer jeito, não seria mais ético liberar a participação do médico, numa estratégia de redução de danos? Essa estratégia, para que não conhece, propõe que, se alguns comportamentos trazem risco para as pessoas mas são impossíveis de se coibir – como ingerir álcool em excesso, ter múltiplas relações sexuais etc – é mais proveitoso investir energia e dinheiro tentando fazer que com que os danos sejam reduzidos – como não dirigir, já que vai beber; usar preservativo, já que terá múltiplas relações. Por essa linha de raciocínio, já que não se quer proibir as mulheres de ter o filho onde quiserem, então pelo menos que haja um médico por perto, para reduzir os problemas que podem advir dessa prática.

Dessa não só discordo, como ela me ajudou a firmar opinião contrária à presença do médico em partos domiciliares: partos em casa são cuidadosamente escolhidos, e só as gestações com condições ideais é que terminam assim. Os riscos associados, são, portanto, baixos. A morte dos recém nascidos, quando ocorre, é por complicações respiratórias graves que carecem de intervenção médica em ambiente hospitalar, e portanto, não adiantaria nada ter um médico por perto. O treinamento dos obstetras, aliás, é justamente para fazer partos hospitalares, não domésticos. Não encontrei estudos sobre o tema, mas pela lógica (e até prova em contrário) a presença de médicos em partos domiciliares não faz diferença.

Conclusão: é ético (com o sentido de bom, não de lícito) proibir os médicos de participarem dos partos domiciliares? Tendo a manter a opinião de que é. Se os riscos forem de fato maiores (o que não sabemos ao certo), o CREMERJ acerta ao não compactuar com a prática arriscada, com o que pode desencorajar outras pessoas a adotá-la. E se forem os mesmos, a presença do médico não parece fazer diferença na mortalidade, não trazendo qualquer prejuízo a sua ausência.

Entre uma prática potencialmente benéfica e outra aparentemente inócua, na ausência de mais dados, fico com a primeira. Pode não resolver o debate para os leitores, mas para mim, foi suficiente.

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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  • Heitor: Boa reflexão Daniel. Contudo o próprio Georges Canguilhem não se aventura no campo da psiquiatria....
  • Incógnita: Se tu quer ser viado, que seja, mas não deixará de ser humano… Na verdade, NÃO sou contra a...
  • valdinéia: Bom Dia ! Toda essa discussão não levará a nada porque temos limitações,não consigo nem mesmo...
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