Não sei bem a razão, mas há tempos não vejo um lanterninha em ação – os mais jovens podem nem saber que essa categoria profissional já existiu. Quem chegava um pouco atrasado ao cinema, quando as luzes já se haviam apagado, tinha dificuldade de encontrar um lugar até que os olhos se acostumassem à escuridão. Era quando entrava em ação o lanterninha, um sujeito que, de posse de uma pequena lanterna a pilhas, ajudava o atrasado a se orientar dentro do cinema. Não encontro uma explicação definitiva para a extinção da classe, mas saúdo com alegria o lançamento de uma coleção de livros chamada justamente “Coleção lanterninha”, do selo Amarilys da editora Manole. A proposta é publicar livros que deram origem a filmes clássicos do cinema; o nome vem pois a calhar, já que tais obras sem dúvida ajudam o leitor/espectador a se orientar com relação ao filme em questão.
Li de uma sentada um dos primeiros livros, “O inquilino”, que inspirou o filme homônimo do perturbado(r) Roman Polanski, escrito pelo versátil e pouco conhecido entre nós Roland Topor. Conta a história de um rapaz que, após mudar-se para o apartamento de onde a antiga moradora saltara pela janela, progressivamente vai se convencendo de que os vizinhos estão mancomunados num plano para também levá-lo ao suicídio, fazendo-o enlouquecer. Lembro-me de ter visto o filme de Polanski no início da minha especialização em psiquiatria, por recomendação dos professores, justamente pela descrição – em primeira pessoa – da perda gradual do contato com a realidade. Num primeiro surto psicótico a angústia e a perplexidade vêm da sensação de que está tudo muito estranho, até que o delírio se instala definitivamente e o paciente “compreende tudo” – são os vizinhos que o estão espiando e tramando para matá-lo, ou coisas do gênero. Paradoxalmente, a angústia da não compreensão do que está acontecendo diminui, pois agora ele “sabe” qual o problema, mas a raiva aumenta diante da indignação com a injustificável perseguição.
Nesse mês foi publicado um estudo grande, com quase quinhentas pessoas em primeiro surto psicótico (o que é difícil conseguir, pois normalmente os pacientes chegam até os centros de pesquisa já com anos de história). O objetivo era saber se os delírios podiam fazer com que os pacientes se tornassem violentos. O relato de episódios de agressão durante os 12 meses anteriores ao início do tratamento, na presença de sintomas psicóticos, revelou que não são as ideias irreais que fazem, por si sós, aumentar o risco de violência dos pacientes. O que ocorre, e que tanto o filme como o livro descrevem bem, é que três categorias comuns de sintomas – a sensação de estar sendo espionado, perseguido e a existência de uma conspiração contra si – geram raiva em quem os experimenta, podendo levar a alguma reação contra os supostos perseguidores. Nesse estudo, 12% dos pacientes se envolveram em violência grave.
Por acaso ou não esses três sintomas ocorrem com o infeliz protagonista de O inquilino. Sua reação, contudo, é menos explosiva do que poderia, até por seu temperamento pacato prévio, o que a narrativa mostra com bastante coerência ao longo da história. É por essa e por outras que a arte é uma ferramenta preciosa para todos os que lidam com a doença mental – é das melhores formas, e talvez uma das únicas, de se conhecer o sofrimento psíquico dos pacientes de uma perspectiva interna.
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Coid JW, Ullrich S, Kallis C, Keers R, Barker D, Cowden F, & Stamps R (2013). The Relationship Between Delusions and Violence: Findings From the East London First Episode Psychosis Study. JAMA psychiatry (Chicago, Ill.), 1-7 PMID: 23467760
As imagens mostrando o corre-corre dos usuários de crack fugindo das abordagens da prefeitura são um prato cheio tanto para os que criticam como para os que apoiam as internações compulsórias. Isso porque essa questão vem sendo abordada por dois ângulos: o daqueles que são contrários, tidos habitualmente como liberais e de esquerda; o dos favoráveis, vistos como reacionários e de direita. Mas há uma outra maneira de enxergar a situação. Para chegarmos a ela é necessário primeiro despolitizar o fulcro do problema, para posteriormente retomar o aspecto político com outra visão.
Do ponto de vista estritamente técnico, pensando na saúde mental dos dependentes de crack que moram nas ruas é muito difícil negar que a internação contra a vontade de alguns deles seja por vezes necessária. Quando o vício se torna muito intenso o sujeito perde parcialmente sua autonomia, pois sua capacidade de não usar a droga está prejudicada (por isso mesmo a dependência é considerada uma doença, por fugir ao controle voluntário). Nos casos de uso de substâncias nem sempre é fácil distinguir quando o uso deixa de ser deliberado e passa a ser motivado pela dependência irrefreável – tanto é assim que é comuníssimo as pessoas dizerem que usam uma droga porque querem, que não desejam parar, e que quando quiserem, pararão (como ocorre com muitos fumantes). Mas quando consideramos com isenção os indivíduos que abandonaram família, emprego, amigos e foram para as ruas em função do crack, torna-se complicado negar que, para eles, a dependência química tomou totalmente conta de sua vontade, privando-os da possibilidade de se negar a usar o crack. Nesse contexto, o erro maior é não tratar dos pacientes, imaginando-se que se deva respeitar uma vontade que já não é autônoma, subjugada pela dependência.
Com isso em mente podemos voltar à política. Estabelecer ou não uma política de internações patrocinada pelo governo implica em um de dois riscos: não atuar nessas regiões, ou atuar sem a possibilidade de internações compulsórias, significa correr o risco de que esses dependentes nunca consigam sequer iniciar a abstinência das drogas, ficando sujeitos aos males da situação de rua e dependência grave. Por outro lado, a implementação de tal política traz consigo o risco de tornar os médicos e juízes instrumentos de interesses escusos dos governos, sejam econômicos, imobiliários ou quaisquer outros. Ou seja, não há saída sem riscos para situações tão graves e complexas como as das cracolândias.
Mas chega uma hora em que precisamos agir; nesse caso em particular, menos do que as inclinações políticas, deveríamos levar em conta qual risco queremos correr.
Envelhecer é difícil, confirmou o papa Bento XVI. Para além da agenda política que possa estar por trás de sua renúncia, dos interesses e pressões dos bastidores clericais, há que se levar em conta alguns aspectos inerentes à senescência humana.
Chamou-me a atenção, em sua carta, não os motivos declarados para sua decisão – o peso da idade e a falta de forças – mas a contextualização que ele dá para tal fraqueza: “no mundo de hoje, sujeito a rápidas transformações (…) é necessário também o vigor tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu em mim de tal forma que eis de reconhecer minha incapacidade para exercer bem o ministério que me foi encomendado”.
O avanço da idade não parece ser um peso per se, mas sim a inabilidade que ele traz para lidar com a velocidade das mudanças no mundo atual. E de modo muito significativo o pontífice invocou a cumplicidade de seu próprio rebanho, dando como certo que eles hão de reconhecer sua incapacidade.
Embora o emprego de papa não seja dos mais corriqueiros, o que dificulta sua comparação com trabalhos em geral, os estudos ao redor do mundo mostram que a produtividade das pessoas apresenta uma forma de U invertido, sendo menor no início de suas carreiras, atingindo o pico por volta dos 40 anos, quando inicia um declínio que fica mais evidente a partir dos 50 anos. Claro que isso varia entre as profissões, mas a principal razão, que perpassa qualquer área, é a redução nas habilidades cognitivas que ocorre com o envelhecimento. Algumas, como a velocidade de percepção e de aprendizado decaem mais rapidamente, impactando trabalhos que exijam solução de problemas e constante reciclagem. Outras, como a habilidade linguística, mudam menos, atrapalhando pouco tarefas nas quais se requer principalmente experiência e comunicação verbal.
Imagina-se que um papa precise justamente de sabedoria, experiência, habilidades verbais –menos afetadas pelo tempo. Mas Bento XVI entendeu que o papado requer mais do que isso – exige uma sintonia com um tempo que seu corpo e mente não mais acompanham. E isso, acredita ele, todos reconhecem.
Com sua renúncia, Joseph Ratzinger entra para a história como o primeiro papa a questionar a pertinência do papado vitalício. E o faz com razão, porque ainda não descobrimos como nossa mente pode lidar com uma expectativa de vida que aumenta enquanto a estabilidadde do mundo diminui.
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Skirbekk, V. (2004). Age and Individual Productivity: A Literature Survey Vienna Yearbook of Population Research, 1 (2004), 133-154 DOI: 10.1553/populationyearbook2004s133
Caro Pastor Silas,
Fique em dúvida se deveria ou não escrever-lhe, já que embora eu tenha apreço por polêmicas, não queria entrar em um embate com o senhor. Mas não tive escolha, pois em sua entrevista com a Marília Gabriela o Sr. tocou em temas que me são muito caros, como ciência, cristianismo, comportamentos e moral, expressando, no entanto, visões muito diferentes das minhas, mesmo eu também sendo um cristão confesso. Senti então ser meu dever escrever, se não para estabelecer um diálogo, no mínimo para apontar tais diferenças, sob pena de eu ser acusado de omissão.
Ao contrário do senhor, acredito que os homossexuais devam ser tratados com absoluta igualdade, sendo-lhes facultados direitos civis plenos, inclusive para adoção de filhos, casamento etc. Negar-lhes tais possibilidades é tratá-los como seres de uma classe diferente, inferior, o que, não tenho muitas dúvidas, vai contra a palavra de Cristo.
Antes que trechos bíblicos sejam vociferados contra mim, segure a bile e me acompanhe no resgate de alguns episódios da história da igreja cristã e sua relação com a moral da sociedade.
Tomemos o exemplo da escravidão. Até há poucos séculos ela não era considerada um problema ético na sociedade. Nessa época o discurso majoritário da igreja cristã era também favorável à prática, invocando falas do mesmo apóstolo Paulo que o senhor cita para condenar a homossexualidade. Mas com o amadurecimento das sociedades começou a crescer um sentimento de que a escravidão era um erro, a despeito da anuência da igreja. Até que no seio dessa mesma igreja houve um progressivo despertar das consciências, revendo as palavras da Bíblia à luz das novas configurações sociais; a partir daí os cristãos passaram a ter um papel fundamental no movimento abolicionista, sendo responsáveis pela fundação da primeira sociedade anti-escravagista do mundo, em 1775.
Para ficar ainda na questão racial, muito mais recentemente os negros eram ainda discriminados, tendo menos direitos dos que os brancos – e de forma absolutamente legalizada em países como os Estados Unidos, por exemplo. Novamente a pregação da igreja cristã justificava tais atitudes, não só dizendo que o certo era seguir as leis, como invocando argumentos teológicos para justificar a diferença entre negros e brancos. De novo, dentro da igreja as consciências foram tocadas e a pregação cristã de amar o próximo como a si mesmo levou à conclusão de que não poderia ser certo tratar pessoas como inferiores por conta da cor de suas peles, nas palavras de um pastor que era tão inflamado como o senhor, o reverendo Martin Luther King, Jr.
Agora chegando a um tempo que nós mesmos vivenciamos, há coisa de duas décadas a palavra “pastora” nem sequer existia no vocabulário evangélico, lembra-se? O mesmo Paulo era citado quando dizia ser imoral as mulheres falarem na igreja, e a elas era restrito o direito de intervir na liturgia ou assumir cargos na hierarquia eclesiástica. O que aconteceu nos últimos anos, que hoje há pastoras e até mesmo apóstolas? As palavras de Paulo não foram apagadas da Bíblia, simplesmente foram reinterpretadas à luz das mudanças da sociedade.
Esses são alguns exemplos de discriminações que eram sustentadas por argumentos bíblicos que caíram com o tempo. Gosto de ressaltar que os próprios cristãos perceberam que seguir a literalidade de alguns trechos da Bíblia feria a essência do cristianismo. Nessa hora é necessária muita coragem para mudar o discurso.
Não quero criar um embate, de coração. A única coisa que espero, como o senhor é um homem corajoso, é que no dia que sua consciência for tocada e o senhor perceber como vai contra as palavras do Cristo tratar alguém como inferior por conta de seu gosto sexual, o senhor se inspire nos heróis da fé e tenha brios para ajudar a sociedade a acabar também com essa discriminação.
Com amor fraterno,
Daniel
É difícil encontrar o tom correto para cobrir tragédias como o incêndio em Santa Maria. Excluídos veículos sensacionalistas, que fazem da repetição ad nauseum das imagens um chamariz para audiência, nem sempre é simples encontrar o meio termo entre a omissão e o exagero.
O risco de informar de menos é não transmitir a exata dimensão da tragédia, minimizando o ocorrido. Seria desrespeitoso com as vítimas, com seus familiares e com a opinião pública, que merece receber a notícia tão precisa quanto possível. Uma falsa sensação de amenidade poderia até mesmo levar a reduzir as implicações legais para os responsáveis pelo desastre.
Por outro lado, a facilidade com que se produzem e transmitem imagens hoje em dia, aliada à velocidade com que flui a informação, coloca nas mãos da mídia um poder amplificador sem precedentes. Cenas do incêndio, das tentativas de fuga, dos momentos do resgate, do desespero das pessoas, quando veiculadas num looping infinito, podem extrapolar o papel de informar e levar a um verdadeiro desespero contagioso e prejudicial.
Embora a relação ainda seja controversa e siga sob investigação, alguns estudos associam a exposição intensa a imagens de tragédias e o desenvolvimento de sintomas de estresse pós-traumático. De fato, os critérios diagnósticos para tal transtorno incluem a pessoa ter vivenciado ou testemunhado eventos que envolveram morte ou grave ferimento, sejam próprios ou de outros. Embora originalmente isso não diga respeito à transmissão eletrônica de imagens, há trabalhos mostrando risco três vezes e meia maior de desenvolvimento de estresse pós-traumático em pessoas que viram mais de doze horas de notícias sobre os ataques de 11 de setembro.
Isso acontece porque os seres humanos são empáticos por natureza – temos a tendência automática de nos colocarmos no lugar do outro, compartilhando suas emoções. E esse sofrimento conjunto é útil e bom, na medida em que nos mobiliza para tentar aliviar a dor alheia. Torço, pois, para que a imprensa brasileira faça uma cobertura adequada, transmitindo a dor das vítimas de Santa Maria não a ponto de nos levar ao desespero, mas o suficiente para trabalharmos no alívio de sua dor e na prevenção efetiva de novas tragédias como essa.
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Bernstein, K., Ahern, J., Tracy, M., Boscarino, J., Vlahov, D., & Galea, S. (2007). Television Watching and the Risk of Incident Probable Posttraumatic Stress Disorder The Journal of Nervous and Mental Disease, 195 (1), 41-47 DOI: 10.1097/01.nmd.0000244784.36745.a5
Causou furor essa semana uma pesquisa mostrando que usar o facebook faz mal: segundo um estudo alemão, na rede social as pessoas passam tempo testemunhando as notícias sobre as férias alheias e a vida social dos outros, sentido assim inveja, tristeza e solidão. A assessoria de imprensa da Universidade de Berlim caprichou no press release e a notícia bombou no mundo. Exercitando meu lado nerd e do contra, resolvi ler o artigo original e posso tranquilizar os leitores: não é bem assim.
A inveja é disseminada na nossa vida desde que somos seres sociais: vivendo em sociedade, necessitando de interações pessoais e coletivas de forma repetida no tempo, o exercício das comparações sempre foi inevitável. Das cavernas ao capitalismo financeiro estamos olhando em volta, para bem e para mal. Tanto que um dado assustador é que a maioria de nós preferiria um salário de R$ 5.000,00 se os amigos ganhassem em média R$ 3.000,00, do que um salário de R$ 8.000,00 se os outros ganhassem R$ 10.000,00. Estranho, não? Pois é: preferimos ter acesso a menos recursos, desde que isso seja mais do que os outros.
Se levarmos em consideração as nossas limitações mentais, no entanto, isso não fica tão absurdo. Nosso cérebro não sabe manipular muito bem valores absolutos, funcionando mais à base de comparações: para dizer se uma cor é clara, precisamos comparar com outras; segurar um objeto e estimar o peso é difícil, mas saber se ele é mais pesado do que outro é imediato. Os contrastes chamam nossa atenção mais do que a homogeneidade – tanto que conseguimos adormecer diante da televisão ligada se estamos no barulho, mas despertamos com pequenos ruídos se cochilamos em silêncio. Sobretudo para valores tão artificiais como salário, renda etc., a régua de medida acaba sendo mesmo a comparação.
Tanto que um dado não comentado nas notícias foi que no estudo, 70% da inveja nossa de cada dia foi sentida mesmo “offline” – é no dia-a-dia que o grosso das comparações ocorrem, e assim como nas redes sociais, as viagens alheias são o tema campeão na geração de inveja. Mais interessante ainda foram as diferenças: as mídias sociais não promovem a inveja do sucesso dos amigos, tema muito importante na “vida real” (como Oscar Wilde já sabia que “Qualquer um pode simpatizar com os sofrimentos de um amigo, mas é preciso que de fato se tenha muito boa índole para se simpatizar com o sucesso de um amigo”). E o lado bom também não foi ressaltado: o estudo concluiu que o problema é o acompanhamento passivo da vida dos outros, porque quem usa o facebook para interagir e se comunicar tinha té melhores índices de qualidade de vida.
Então, obviamente, o problema não está nas redes sociais. Na internet, assim como da janela de casa, nós podemos ficar apenas olhando e comentando a vida dos outros, ou então podemos buscar construir relacionamentos com aqueles que nos cercam. E isso, já foi provado, é o que torna a vida significativa.
Quase ninguém se sente seguro em São Paulo. Nada menos que 91% dos paulistanos consideram pouco ou nada seguro viver na cidade, índice recorde nesse tipo de pesquisa. Sentem-se “nada seguros” 45% dos cidadãos, e nenhum deles (de nós?), sente-se “muito seguro”.
O que poderia ser apenas mais um dado sobre as condições da metrópole ganha relevância maior quando levamos em conta que essa percepção de insegurança tem impactos diretos na saúde das pessoas, sobretudo na saúde psíquica, aumentando em muito o risco de adoecimento mental. Isso não apenas leva ao sofrimento individual, mas toda a estrutura social sofre, com perda de qualidade de vida, perda de produtividade, menor crescimento, nunca chegando a alcançar o verdadeiro potencial da cidade e dos cidadãos.
Na primeira metade do século XX o psicólogo americano Abraham Maslow escreveu um trabalho muito influente até hoje sobre a motivação humana, no qual propunha que nossas necessidades seguem uma hierarquia. Segundo ele, se não satisfazemos os níveis básicos não conseguimos subir na escala das realizações pessoais. Assim, se não temos comida, bebida, sono – necessidades fisiológicas em geral – não conseguimos pensar em outra coisa, permanecendo impossibilitados de buscar qualquer outro objetivo. Em segundo lugar vem a necessidade de segurança, pois enquanto nos sentimos inseguros não nos é possível investir energia na busca das outras coisas. Relacionamentos, estima e realização pessoal viriam na sequencia. Embora a teoria tenha recebido diversas críticas, sobretudo pela rigidez da hierarquização que propõe para cada nível, é difícil discordar que se sentir pouco ou nada seguro impõe uma carga constante sobre os indivíduos, levando inevitavelmente a um desgaste e prejudicando a qualidade de vida.
No ano passado foi publicada a maior pesquisa epidemiológica sobre saúde mental já realizada em São Paulo. Os números destoaram da média mundial – 29,6% dos indivíduos da Região Metropolitana de São Paulo apresentaram ao menos um transtorno mental no ano anterior à entrevista, colocando a cidade no topo do ranking entre os países pesquisados. Não por acaso os problemas ligados à ansiedade foram os mais comuns, com um em cada cinco paulistanos apresentando ansiedade patológica – basicamente medo e tensão acima do normal. Mas mesmo os transtornos mentais graves foram mais comuns na cidade, afetando 10% dos paulistanos, deixando cidades americanas num distante segundo lugar, com 5,7% de prevalência.
Se as questões próprias da vida urbana fossem os únicos fatores de risco para doenças mentais, como ritmo acelerado, menor contato interpessoal, distância do local de trabalho etc., não se esperaria uma disparidade tão grande entre São Paulo e o resto do mundo. Mas privados de algo tão básico como a sensação de estar seguro, o paulistano acaba por se tornar um dos cidadãos mais doentes do planeta.
Como é complicado ser gente. Ainda mais quando queremos construir uma sociedade justa, igualitária, levando em conta que somos todos tão únicos, embora tão parecidos. Preâmbulo bonito para tratar de um tema complicadíssimo, que é o imbróglio sobre esterilização compulsória de uma mulher com retardo mental, que vem ocorrendo na cidade de Amparo, interior de São Paulo.
Resumo: em 2004, quando tinha 19 anos, a moça andava vagando pelas ruas da cidade, sem cuidados familiares, e fora diagnosticada como tendo retardo mental moderado. Diante disso o Ministério Público solicitou a sua laqueadura, para evitar que ela engravidasse em suas andanças a esmo. Após decisão judicial favorável, ela foi encaminhada a uma equipe multidisciplinar de saúde, que sugeriu a colocação de DIU em vez da cirurgia, medida menos invasiva e mais facilmente reversível. Tal sugestão foi aceita e o caso não foi mais notícia. Passados oito anos, ela agora tem 27 anos, mora com a família, tem um relacionamento estável e precisaria trocar o DIU. No entanto ela se recusa, dizendo que quer ser mãe. A Defensoria Pública entrou com um pedido para revogar a ordem de esterilização, acatada em primeira instância. Mas o promotor ainda pode recorrer, e diz que abrirá processo de investigação criminal contra um parceiro que mantenha relações sexuais com ela, por estupro de vulnerável.
Trata-se de um dilema. Porque existe um conflito entre valores que queremos preservar, mas que, dado cenário, não podem ser mantidos ao mesmo tempo. Deseja-se garantir a autonomia da pessoa com deficiência, o respeito a sua integridade e inclusive à sua eventual decisão de ser mãe. Deseja-se “empoderá-la”, para usar um anglicismo bem a gosto da psicologia social. Mas ao mesmo tempo quer-se proteger sua integridade física e psíquica, garantido que ela não tome decisões para as quais não reúne condições por conta de sua deficiência. Ou um ou outro valor sairá lesado.
Confesso que, por mais que ela esteja num relacionamento, more com a família etc., se de fato ela tem um retardo moderado, não creio que tenha condições de aquilatar adequadamente tudo o que implica na decisão de ser mãe.
Só para lembrar, retardo mental moderado, segundo a Organização Mundial de Saúde, significa ter uma capacidade de abstração aproximada a de crianças entre seis e nove anos. Ainda que o diagnóstico esteja supervalorizado, e ela tenha só um retardo leve, isso equivale a um poder de raciocínio inferior a uma pessoa de doze anos. Ora, a sociedade brasileira entende que fazer sexo com alguém com menos de 14 anos é estupro, pois antes disso a pessoa não tem o discernimento adequado para consentir livremente com a relação. Então, até por coerência, o promotor está correto em investigar criminalmente um suposto parceiro sexual dessa mulher.
Mas pedir coerência é muito, quando, como disse, queremos construir uma sociedade justa, igualitária, levando em conta que somos todos tão únicos, embora tão parecidos.
Carlinhos Cachoeira, segundo seu advogado, está em depressão aguda depois de ter sido preso. A opinião pública tende a duvidar disso, no entanto, sobretudo diante das imagens de seu repouso na praia, supostamente seguindo recomendações médicas. De que lado estaria a verdade?
A simulação de problemas mentais é tão antiga quanto a humanidade. Encontramos sua presença desde os primórdios dos registros escritos da história, seja na Odisseia, onde consta que Ulisses se fez de louco para escapar da guerra de Troia, seja na passagem bíblica em que Davi literalmente finge babar para fugir do rei Saul. Fato é que os transtornos psiquiátricos são frequentemente alegados por pessoas que se encontram em maus lençóis.
Os motivos são vários. Em primeiro lugar, a subjetividade dos sintomas psiquiátricos torna difícil sua averiguação objetiva – é complicado provar que alguém não está sentindo o que diz sentir. Ademais, o sofrimento da alma alheia desperta nossa empatia, tornando-nos mais condescendentes. E por fim os transtornos mentais podem alterar a capacidade de entendimento do sujeito, e mesmo seu autocontrole, fato não raramente invocado por advogados de defesa. Tudo isso torna a loucura uma grande oportunidade de simulação.
Por outro lado, não se pode negar que o encarceramento abala psiquicamente as pessoas que passam por tal experiência. Independentemente das condições do local onde ocorre e da real culpa ou inocência do preso, a restrição forçada da liberdade de ir e vir é um dos mais duros golpes na autonomia individual. Transtornos ansiosos e transtornos depressivos estão entre as consequências mais comuns nesses casos. Em que pese a indignação das pessoas ao ver Cachoeira na praia, aparentemente bem, é necessário – mesmo que seja impopular – dizer que por uma foto não se pode afirmar ou negar qual o estado psíquico de qualquer pessoa. São comuns os casos em que os pacientes estão melhorando, conseguem desfrutar de bons momentos, mas ainda não estão recuperados emocionalmente de forma integral.
Tudo isso para dizer que Carlinhos Cachoeira pode ou não estar deprimido. No fundo, não é isso o que mais importa. O fundamental é que quando houver alegações levianas de doença mental estas sejam desmascaradas legitimamente, e não combatidas com avaliações superficiais, sob risco de incorrermos no mesmo erro que os desonestos.
“Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fale tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber esta situação.” Harry Gordon Frankfurt, 1986
“Com fim de aumentar a consciência pública sobre os benefícios a serem obtidos pela pesquisa sobre o cérebro, o Congresso designou a década que se inicia em 1 º de janeiro de 1990 como a ‘Década do Cérebro’.” George Bush, pai, 1990
Depois da neuroeconomia, do neuromarketing, da neuroética, neuroestética, eu proponho oficialmente a criação da neurobullshit. Li recentemente o ensaio On bullshit (Sobre falar merda, editora intrínseca, 2005) e percebi que esse fenômeno descrito pelo filósofo Harry Frankfurt no final dos anos oitenta antecipava exatamente o que viria a acontecer pouco depois com as neurociências. Finda a década do cérebro, nunca se falou tanta bobagem sobre o tema.
O essencial sobre a bullshit, Frankfurt teoriza, não é que se trate de mentiras deliberadas, nem tentativas de enganar. O ponto é que a “bullshitagem” (como já ficou conhecida no português informal) dá de ombros para a verdade. Se é mentira ou não pouco importa, porque o “bullshiteiro” (vocábulo corrente em agências de propaganda) quer mesmo é passar uma determinada impressão sobre si, seja de importância, de sabedoria etc. É aí que entra a neurobullshit – independentemente do rigor das pesquisas científicas citadas, mesmo se os resultados precisarem ser distorcidos para caber no discurso, acrescentar o prefixo “neuro” traz um ar de seriedade, sofisticação e modernidade quase irresistíveis. Daí que jornalistas, blogueiros, palestrantes, médicos, pedagogos, todos queiramos entrar para o clube do cérebro – já que está todo mundo nessa onda, não posso ficar de fora. Como ensina Frankfurt, no entanto, “a produção de merda é estimulada sempre que as obrigações ou oportunidades que uma pessoa tem de se manifestar sobre algum tópico excederem seu conhecimento dos fatos pertinentes”.
Lendo cerca de três mil notícias publicadas nos principais jornais do Reino Unido durante a “Década do cérebro”, entre os anos de 2000 e 2010, cientistas encontraram três grandes grupos de distorções nos artigos sobre neurociências: 1) tratar o cérebro como um capital – o órgão é retratado nessas notícias como um bem a ser trabalhado, aumentando seu poder e nos dando vantagens diversas; 2) usar as pesquisas como meio de segregação – diferenças entre cérebro de gordos e magros, criminosos e cidadãos de bem, homens e mulheres são relatadas como fatos, distorcendo o significado real das pesquisas; 3) invocar o cérebro como prova biológica – a subjetividade humana ganha um status de “real” e “natural” quando alocada no cérebro, por vezes justificando fenômenos como preconceito, teimosia e até mesmo a maldade, como se fossem biologicamente determinados. Na maioria das vezes as notícias eram a definição acabada de bullshit: indiferentes à correta interpretação dos dados, estavam mais preocupadas em produzir manchetes vistosas pincelando verniz de ciência do que em relatar a verdade dos fatos.
Ocorre que as pesquisas em neurociências são em sua maioria muito complexas, cheias de detalhes técnicos, tornando difícil sua interpretação mesmo por cientistas que não dominem a técnica específica usada nesse ou naquele artigo. Imagine a dificuldade de tradução para o público leigo.
Isso não quer dizer que tais pesquisas não devam ser levadas ao conhecimento geral. Ao contrário: a sociedade tem desejo cada vez maior por notícias sobre neurociências. Só que precisa ser informada com qualidade. Se em vez de nos contentarmos com as manchetes fáceis sobre o cérebro nós procurarmos obter maior rigor na informação que nos apresentam, forçando as nossas fontes a estudar mais seriamente o tema, com certeza reduziremos o espaço para a neurobullshitagem, pois, como bem diagnostica o ensaio de Frarkfurt, “É inevitável falar merda toda vez que as circunstâncias exijam de alguém falar sem saber o que está dizendo”.
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O’Connor, C., Rees, G., & Joffe, H. (2012). Neuroscience in the Public Sphere Neuron, 74 (2), 220-226 DOI: 10.1016/j.neuron.2012.04.004
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