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Daniel Martins de Barros

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Inteligência: sinônimo de riqueza e fidelidade? Como havia prometido, volto ao tópico: duas pesquisas recentes mostram resultados interessantes advindo de um maior QI relacionados a temas que costumam dar muita audiência – dinheiro e sexo.

Como não podia deixar de ser, o trabalho sobre dinheiro foi feito por economistas (1), correlacionando o QI com os ganhos médios anuais de 12.500 pessoas ao longo de quase trinta anos. Constatou-se que os inteligentes ganhavam pouco além de cem dólares por mês a mais do que os menos dotados no início da carreira, chegando a superá-los, contudo, em mais de três mil dólares por mês após 28 anos de trabalho. Segundo os cálculos isso significava ter ganho meio milhão de dólares a mais por volta da meia idade. Isso ocorre não apenas porque eles adquiriram mais conhecimentos e habilidades, mas também por saber usar melhor seus talentos e se vender bem dentro de suas carreiras.

Vamos ao sexo. Num outro estudo (2) um psicólogo evolucionista testou a hipótese de que assumir comportamentos “novos”, ou seja, não programados geneticamente, demandaria esforço cerebral. Nesse modelo, a fidelidade masculina exigiria inteligência, pois evolutivamente os machos em geral não são direcionados para a monogamia. Entrevistando mais de cinco mil adultos, a hipótese foi comprovada, encontrando-se relação direta entre o QI e fidelidade, indicada pelo grau de concordância com a afirmação de que a monogamia é um elemento fundamental para um casamento ou relacionamento bem sucedidos.

O fato de a inteligência ser um conceito fluido, difícil de definir e mais ainda de relacionar com variáveis diversas, não impede que algumas estimativas como o QI, ainda que criticáveis, pareçam mesmo ter correlações comportamentais. Independentemente do que signifique ser inteligente, provavelmente isso está relacionado de alguma forma a flexibilidade mental, criatividade e improvisação, além manipulação de conceitos abstratos. Antecipar resultados, planejar no longo prazo e adiar gratificações são alguns elementos chave, e sem dúvida conferem vantagens competitivas na política profissional e na disputa por parceiros.

Com certeza o sucesso (reprodutivo, financeiro ou o que for) não é exclusividade dos inteligentes, mas os dados mostram que possivelmente os menos espertos têm que ralar mais para chegar lá.

Research Blogging Awards 2010 Finalist(1)Judge, T., Klinger, R., & Simon, L. (2010). Time is on my side: Time, general mental ability, human capital, and extrinsic career success. Journal of Applied Psychology, 95 (1), 92-107 DOI: 10.1037/a0017594 (2)Kanazawa, S. (2010). Why Liberals and Atheists Are More Intelligent Social Psychology Quarterly DOI: 10.1177/0190272510361602

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Já ouvi alguma vezes que a existência do Dia Internacional da Mulher é bobagem, que as mulheres já conseguiram seu lugar e que isso seria um reforço ao preconceito. Discordo.

As mulheres ainda podem ser consideradas minorias. São minoria não por estar em menor número, mas porque têm menos acesso a direitos e garantias, sofrem discriminação. No mercado de trabalho, por exemplo, elas já estão em maior número, mas ganham em média menos do que os homens, mesmo exercendo as mesmas funções. Uma data dedicada a elas, portanto, é bem vinda por nos lembrar do preconceito que ainda viceja nas relações de gênero.

É necessário, contudo, fugir do radicalismo que propõe a plena igualdade entre homens e mulheres. Um exemplo interessante das diferenças homem x mulher diz respeito às reações diante das ameaças. Durante muitas décadas acreditou-se que a única resposta ao estresse era a de fuga-ou-luta, até que uma pesquisadora questionou tal modelo. Os estudos eram quase todos realizados com machos e quase nunca com fêmeas; mas se o papel deles era lutar com o inimigo ou fugir, talvez a evolução inclinasse as fêmeas não para fugir nem para combater, mas para cuidar de sua prole. No início da década Shelley Taylor publicou um artigo que modificou o paradigma no estudo do estresse (1), mostrando que em fêmeas a adrenalina não agia sozinha na hora do perigo, mas era contrabalançada pela occitocina, neuropeptídeo sabidamente envolvido no comportamento afetivo e na maternagem, e diversas pesquisas vêm comprovando esse modelo desde então.

Preconceitos e determinantes culturais à parte, essas pesquisas mostram que o instinto feminino é diferente do masculino, o que é, no fim das contas, algo que sempre imaginamos: os homens estão mais prontos para briga, as mulheres, mais preocupadas com os filhos. Se é na diversidade que está a riqueza é bom que homens e mulheres sejam diferentes. O ruim é fazer dessas diferenças motivo de discriminação e preconceito.

Feliz Dia Internacional da Mulher para todas e todos.

Mulheres e homens: diferença e preconceito – baixe em PDF

Research Blogging Awards 2010 Finalist(1)Taylor, S., Klein, L., Lewis, B., Gruenewald, T., Gurung, R., & Updegraff, J. (2000). Biobehavioral responses to stress in females: Tend-and-befriend, not fight-or-flight. Psychological Review, 107 (3), 411-429 DOI: 10.1037//0033-295X.107.3.411

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04.março.2010 14:22:24

Velhinhos e CDFs…

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Nunca esqueço de uma questão que errei na prova do concurso para residência médica: qual o fator que mais reduz a mortalidade no trânsito? Lembro que marquei uso do cinto de segurança, mas o fiz com muita dúvida, pois no fundo achava que a correta poderia ser “investir em educação”. Era.

Qual o segredo? Cinto de segurança não é importante? É, e muito. Mas quando há mais educação as pessoas não só usam mais o cinto, como também adotam outros comportamentos seguros e saudáveis. Essa é a principal hipótese a explicar porquê os anos de estudo são a variável que mais prolonga a expectativa de vida de uma pessoa (1). Não é o fato de pessoas que estudam mais terem maior probabilidade de ter mais dinheiro – mesmo após controlar fatores como renda, raça, sexo, exposição a violência, os economistas veem maior longevidade quanto mais se estuda, o que é provavelmente fruto da maior capacidade de tomar atitudes não imediatistas, adiando gratificações em nome da saúde: por exemplo, cada ano a mais de educação equivale a 1,4% menos chance de ser obeso (2). No Brasil, uma dissertação de mestrado recente mostrou correlação positiva entre nível de escolaridade e realização de atividades físicas de lazer (Link – em pdf).

Quanto mais a pessoa estuda, inferem os cientistas, mais ela se torna capaz de traduzir o conhecimento em ações. Não se trata de saber mais, mas de processar a informação de forma distinta, pagando muitas vezes um preço desconfortável no presente (como fazer dieta ou exercícios físicos) em nome de um ganho futuro (mais saúde e um envelhecimento com qualidade).

Será que é por isso que pessoas inteligentes ganham até meio milhão de dólares a mais ao chegar à meia idade? E também a razão para homens com QI mais baixo traírem mais suas esposas? Temas interessantes que estarão disponíveis só para quem conseguir adiar a gratificação.

Research Blogging Awards 2010 Finalist (1) Lleras-Muney, A. (2005). The Relationship Between Education and Adult Mortality in the United States Review of Economic Studies, 72 (1), 189-221 DOI: 10.1111/0034-6527.00329 (2) Cutler, D., & Lleras-Muney, A. (2010). Understanding differences in health behaviors by education Journal of Health Economics, 29 (1), 1-28 DOI: 10.1016/j.jhealeco.2009.10.003

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02.março.2010 10:28:41

Salve-se quem puder

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Os pesquisadores estão cansados de mostrar que uma coisa é perguntar no laboratório “O que você faria em tal situação”, e outra bem diferente é ver o que acontece na prática. As pessoas dão menos dinheiro do que imaginam que dariam, os religiosos ajudam os outos menos do que aconselham que se faça e assim por diante.

Agora os economistas, que adoram aplicar fórmulas na previsão e análise de comportamentos humanos, resolveram analisar diferenças surgidas na vida real.

Comparando os dados de mortalidade de dois grandes naufrágios ocorridos no início do século XX (o famoso Titanic e o de um navio chamado Lusitania, que afundou três anos depois), os pesquisadores perceberam que havia muita diferença entre quem viveu e quem morreu em cada um dos casos. No Lusitania, homens jovens tiveram chance 7,9% maior de sobreviver do que os outros passageiros, enquanto no Titanic tiveram 6,5% mais chance de morrer. As crianças, por sua vez, tinham 30,9% mais chance de sair com vida do Titanic do que adultos acima de 35 anos, mas não tiveram vantagem alguma no Lusitania. Mulheres, finalmente, tinham probabilidade 53% maior do que os homens de sobreviver no Titanic, contra 11% no Lusitania.

Feitas as análises estatísticas, a maior diferença entre os dois casos foi o tempo de tragédia: o Titanic levou duas horas e quarenta minutos para afundar, enquanto o Lusitania submergiu totalmente em dezoito minutos. Para os economistas essa é a chave da diferença: com tempo escasso, valeu a lógica do salve-se quem puder, possivelmente numa reação instintiva de sobrevivência diante da descarga de adrenalina. Com mais tempo para pensar e agir, no Titanic o “salve-se quem puder” deu lugar ao “mulheres e crianças primeiro”, explicando as distintas chances de sobrevivência nos dois casos.

A hipótese de que a primeira reação de manter a própria sobrevivência foi seguida por uma racionalização de autossacrifício pelo próximo é plausível do ponto de vista neurocientífico: os reflexos instintivos são muito mais rápidos em nosso cérebro, mas a atividade do córtex é mais lenta. E é justamente essa a parte “civilizada” do nosso cérebro, sobretudo na região pré-frontal, que nos ajuda a antever consequências, planejar atitudes etc.

Ou seja, não é vergonha nenhuma ter uma reação imediata egoísta, desde que, pensando melhor, consigamos superar nossos instintos, com as atitudes altruístas que são (ou deveriam ser) parte essencial de nossa “racionalidade”.

Research Blogging Awards 2010 Finalist Frey, B., Savage, D., & Torgler, B. (2010). Interaction of natural survival instincts and internalized social norms exploring the Titanic and Lusitania disasters Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.0911303107

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Em post anterior discuti um pouco sobre as catástrofes naturais e as responsabilidades envolvidas, mostrando que quem tem mais preconceito tende a colocar a culpa nas vítimas, enquanto quem tem menos tende a considerar tudo uma tragédia.

Eis que o terremoto no Chile vem a reforçar uma outra leitura, divulgada no Brasil em artigo de João Pereira Coutinho na Folha: a culpa maior é da pobreza. Estudo analisando o resultados de catástrofes ao redor do globo por mais de 20 anos (1) mostra que o PIB do país atingido está inversamente relacionado ao número de mortos – quanto mais rico, menos baixas. A pobreza do país reflete uma (e se reflete na) estrutura de organização social precária, instituições frágeis e consequente capacidade de reação menor.

Os terremotos do Haiti e do Chile diferem bem mais do que cinquenta dias que os separam, as disparidades são bem maiores: o PIB per capita do primeiro é US$1.900,00, contra US$ 14.000,00 do segundo; o terremoto no Haiti atingiu 7 pontos na escala Richter e no Chile chegou a 8.8 (como a escala é exponencial, significa um abalo mais de 30 vezes mais intenso); mas a diferença mais gritante é que, enquanto no Chile os mortos contam-se às centas, no Haiti fala-se em três centenas de milhar.

Talvez a responsabilidade não seja nem de Deus nem das vítimas, mas de todos nós, daquilo que construímos como sociedade. Afinal, o salmista já tinha avisado que “Os céus são os céus do Senhor, mas a terra, deu-a ele aos filhos dos homens” (Salmo 115:16).

ResearchBlogging.org (1)Kahn, M. (2005). The Death Toll from Natural Disasters: The Role of Income, Geography, and Institutions Review of Economics and Statistics, 87 (2), 271-284 DOI: 10.1162/0034653053970339

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Assistir ao documentário O equilibrista (Man on wire), que ganhou Oscar de melhor documentário em 2009 me levou a uma série de reflexões: até onde se pode ir na busca de um sonho, como são borrados os limites entre a autonomia do sujeito e a proteção do Estado, qual a força da amizade, como avaliar a beleza de uma conquista. De todas, gostaria de aprofundar-me brevemente em uma, tema central desse blog: o desafio da psiquiatria para diferenciar os loucos dos doentes mentais. Explico.

No senso comum, qualquer pessoa que aja de forma diferente da norma é anormal. Mas a minoria é doente. Como Philippe Petit, equilibrista que andou por quase uma hora entre as torres gêmeas num cabo preso clandestinamente por sua equipe. “Esse cara é louco”, pensamos ao ver sua proeza. Tanto assim que, logo após ser detido, foi imediatamente levado aonde? A um psiquiatra. Divertidíssimo vê-lo contando que o médico lhe perguntava se ele havia bebido. “Você está louco?” redarguia Petit “Você sabe o quê eu acabei de fazer? Como me pergunta se eu bebi?”. De fato, se alguém pretende se equilibrar num cabo a quase meio quilômetro do chão, a última coisa que deve fazer é beber.

No final das contas o médico sensatamente dá alta ao “nefelibata” (aquele que anda nas nuvens), não tendo diagnosticado qualquer transtorno mental. Mesmo ele sendo “doido”.

Penso, enfim, que a maior dificuldade não é diferenciar os loucos dos doentes. Tecnicamente isso não é assim tão complicado na maioria das vezes. O difícil mesmo é, feita essa distinção, explicar para a sociedade que, apesar de ser anormais, algumas pessoas não são doentes. Afinal, a gente está sempre em busca de uma causa para os comportamentos excêntricos. Mas como disse o próprio Petit, nem sempre temos as razões: “Não tem um porquê, essa é a beleza da coisa”.

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Sabe o que você vai fazer assim que acabar de ler esse texto? Não, você não sabe. Nem eu, mas a matemática é capaz de prever.

Embora nós gostemos de achar que somos dotados de pleno livre-arbítrio, a verdade é que, se nossas ações não são pré-determinadas, são – para dizer o mínimo – muito previsíveis.

Acaba de ser publicado um estudo (1) mostrando que nossos movimentos são até 93% previsíveis – isso usando uma base da dados de apenas 3 meses. A partir dos dados recolhidos de cinquenta mil telefones celulares, os cientistas conseguiram montar um padrão dos movimentos das pessoas, sendo capaz de prever em até 9 de 10 vezes onde eles estariam num determinado momento. Mais do que isso, a previsão é possível não apenas para os dias da semana – compreensivelmente mais previsíveis – mas também para os sábados e domingos; claro que, dependendo do horário (como hora do almoço) e dia, como finais de semana, o padrão é menos fixo, mas ainda assim chega a 70% a margem de acerto.

Vale a ressalva óbvia de que as previsões são estatísticas, e não significa que estamos predestinados a ir para casa ou para o trabalho exatamente no mesmo horário nos mesmos dias. Sempre é possível resolver dar o cano na empresa ou fazer uma happy hour antes de voltar ao lar. O que o estudo deixa claro no entato, é que, embora possível, é bem pouco provável.

ResearchBlogging.org (1)Song, C., Qu, Z., Blumm, N., & Barabasi, A. (2010). Limits of Predictability in Human Mobility Science, 327 (5968), 1018-1021 DOI: 10.1126/science.1177170

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16.fevereiro.2010 22:19:32

Loucas letras

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Atribui-se a uma passagem de As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, a primeira descrição da Demência de Alzheimer (1) – numa das ilhas que o protagonista visita há seres que não morrem. O que inicialmente o viajante toma por benção revela-se uma verdadeira maldição: as pessoas envelhecem, envelhecem e seguem envelhecendo, perdendo funções, reduzindo sua vitalidade, sem ter o alívio final da morte. A narrativa do início do processo, particularmente no que se refere às capacidades cognitivas, assemelha-se bastante à demência que anos mais tarde vitimaria o próprio Swift.

Esse é apenas um dos muito exemplos de que a literatura tem uma profunda relação com a Psiquiatria, aliás, numa via de mão dupla.

Lançado esse ano, o livro Aqueronte, o rio dos infortúnios, da jornalista Cláudia Belfort, adentra essa mata densa da interface entre as letras e a loucura. E loucura é o termo correto – na acepção foucaultiana do termo, abarcando não apenas os pacientes com transtornos mentais, mas os desajustados e marginais, interrelacionando pessoas e patologias, desajustes e sofrimentos. Como um de seus personagens, a autora se inspira em figuras reais, utilizando não os fatos brutos, mas suas “íntimas sutilezas” para acender uma lanterna em meandros escuros da existência. As descrições vão de uma internação psiquiátria à narrativa da morte do ponto de vista do próprio moribundo, passando por um escritor deprimido e sua personagem em crise, pela genética e pela sociedade.

Obras assim são muito bem vindas, pois mesmo o sisudo mundo acadêmico tem se voltado para a importância da literatura para a medicina em geral – psiquiatria em particular – como atesta o editorial “Literature and Psychiatry”, de 2002, publicado no Pychiatric Bulletin pelo professor da Universidade de Birmingham, Femi Oyebode (2). Com atraso, na verdade, pois em 1907 Freud já dissera que “o escritor criativo não pode esquivar-se do psiquiatra, nem o psiquiatra esquivar-se do escritor criativo”. Mais claro, impossível.

ResearchBlogging.org
(1)Boller, F. (1998). History of dementia and dementia in history: An overview Journal of the Neurological Sciences, 158 (2), 125-133 DOI: 10.1016/S0022-510X(98)00128-2
(2)Oyebode, F. (2002). Literature and psychiatry Psychiatric Bulletin, 26 (4), 121-122 DOI: 10.1192/pb.26.4.121

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Mais lenha acaba de ser adicionada à fogueira acesa por Dostoievski: seria verdade que, se Deus não existe, tudo é permitido?

Essa semana uma cientista finlandesa e um americano publicaram um artigo comentando diversos estudos sobre psicologia moral e religião, argumentando que a moralidade é independente da (e anterior à) religiosidade.

Para variar, minha opinião tem tudo para desagradar os dois lados.

Como comentado em post anterior, até os ratos sabem o que é certo – existe um senso de cooperação, que é um dos componentes da ética, em animais muitíssimo anteriores na escala evolutiva, que não têm qualquer esboço de religiosidade (a não ser que O guia do mochileiro das galáxias seja não-ficção). Logo, me parece evidente que elementos cognitivos nos trazem um senso de certo e errado muito antes de haver crenças religiosas.

No entanto, não é possível a um observador (tentanto ser) neutro negar outro fato:  desde a Grécia antiga já vigia como parâmetro ético a Regra de ouro, ”não faça para os outros o que não gostaria que fizessem para você”, regra presente com diferentes formulações nas mais diversas culturas. O advento do cristianismo, contudo, elevou o patamar moral ao transformar o princípio que era passivo – não fazer algo – em ativo: faça para os outros o bem, independente de seus méritos (“ama o teu inimigo”). Muitos não entendem que “amar” não significa gostar ou ter apreço (o que tornaria essa máxima puro non sense)  mas quer dizer trabalhar ativamente para o bem de todos, independente dos seus méritos. Tal princípio foi de tal forma enraizado na cultura ocidental que mesmo os que buscam uma ética ateia não podem prescindir deste aspecto pró-ativo da moral.

Ou seja, a mim me parece claro que moralidade, lato sensu, é anterior à religião, fincada evolutivamente em nosso cérebro dadas as vantagens de sobrevivência grupal que nos trouxe. A nossa moral coletiva, no entanto,  nosso senso ético,  já não é separável da influência religiosa, sejamos crentes ou não.

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Pyysiäinen, I., & Hauser, M. (2010). The origins of religion : evolved adaptation or by-product? Trends in Cognitive Sciences DOI: 10.1016/j.tics.2009.12.007

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Se você já assistiu Avatar e se impressionou com o realismo das imagens em 3 dimensões agradeça à sua natureza carnívora. Pode parecer contraditório com a mensagem algo new age do filme, mas a verdade é que a ilusão de imagens em 3D só é possível devido à configuração do aparelho visual humano, característica dos animais predadores.

Pode reparar: peixes, bois, tucanos, cavalos, todos têm os olhos na região lateral da cabeça, dando uma visão muito ampla do do ambiente. Isso acontece porque, por serem presas, eles precisam estar atentos aos predadores que se aproximem. Já tubarões, leões, águias, crocodilos, homens, têm os olhos na frente da cabeça; predadores que são, precisam identificar a presa e dar o bote certeiro. Para isso precisam ter uma noção correta de perspectiva, calculando a distância do seu alvo.

A visão em profundidade acontece porque cada um dos olhos vê as imagens por um ângulo ligeiramente diferente (se você fechar um olho de cada vez olhando para o seu dedo irá perceber). O cérebro recebe as duas imagens planas e, fundido-as, compõe uma cena tridimensional, já com a profundidade ajustada. Se a cena está longe, no entanto, os olhos não percebem diferenças significativa entre seus ângulos; é por isso que paisagens distantes parecem mais planas e chapadas do que os detalhes de nossa mão, por exemplo. Esse fenômeno é chamado estereopsia, e o cinema 3D o imita por uma técnica conhecida como estereoscopia: na tela são projetadas duas imagens ao mesmo tempo, tomadas com pequena diferença de ângulo. Os óculos que usamos servem para fazer com que apenas uma delas chegue a cada um dos olhos e a partir daí o cérebro faz o que está acostumado: funde as duas imagens numa só, dando-lhe volume e profundidade.

O esforço conjunto da musculatura ocular e do cérebro para esse trabalho explica porquê muitas pessoas têm tido dores de cabeça ao final do filme. Quem tem dificuldades oftalmológicas também pode não conseguir experimentar a sensação da tridimensionalidade, já que ambos os olhos devem estar saudáveis.

A tecnologia em 3D é a grande aposta atual do cinema e cada vez mais obras são rodadas nesse formato. Se nosso cérebro e olhos aguentarem, há de chegar o dia em que filmes em duas dimensões serão relíquias como são hoje os filmes mudos ou em preto-e-branco.

ResearchBlogging.orgUKAI, K., & HOWARTH, P. (2008). Visual fatigue caused by viewing stereoscopic motion images: Background, theories, and observations Displays, 29 (2), 106-116 DOI: 10.1016/j.displa.2007.09.004

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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