Se você usa o tempo que gastaria assistindo Big Brother Brasil para algo mais saudável, como ler jornais ou se manter informado, provavelmente deve ter se deparado, mesmo assim, com o infame BBB nos últimos dias. Uma grande polêmica se armou quando um dos integrantes foi acusado de, aproveitando-se da embriaguez de uma das moças da casa, ter relações sexuais enquanto ela estava inconsciente.
Segundo o código penal, estupro é “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” (Art. 213). O artigo 217, descreve o estupro de vulnerável: “ter relações com alguém de menos de 14 anos”, e no parágrafo primeiro diz que “incorre na mesma pena quem pratica as ações com alguém que (…) por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”. Ou seja, se de fato a moça estava dormindo sob efeito do álcool, incapaz de resistir ao ato sexual, este poderá ser considerado estupro.
É a típica situação em que surgem gritas de ambos os lados, uns culpando a vítima, que deveria saber que não se deve convidar um homem para passar a noite em sua cama após uma festa regada a álcool, outros linchando o rapaz como um estuprador em série. Arriscando-me a desagradar aos dois lados (mais uma vez), acho que cabem algumas ponderações.
Em geral, os homens percebem mais interesse sexual por parte das mulheres do que elas realmente demonstram: quase duas em cada três mulheres dizem que já foram mal interpretadas, quando rapazes confundiram amizade com interesse. A cantora Mariana Aydar mesmo já avisou na música Lá em casa: “Só não vá confundir/ Todo esse amor/ Se eu te dou carinho é só/ Pra ser bom/ Nunca passou de amizade”. É óbvio que só uma pequena minoria de pessoas irá ter “comportamentos impróprios”, para usar o termo da Globo, ao julgar erroneamente as intenções alheias, mas existem alguns fatores de risco que contribuem para isso: as características pessoais do sujeito, o comportamento dos envolvidos e o uso de álcool. E pelos menos dois deles estavam presentes nesse caso.
Quanto mais estereotipada a visão do homem sobre as mulheres, maior a chance de ele julgá-las mais interessadas do que estão. Não conheço a visão de mundo do acusado e portanto não sei se esse fator de risco estava presente. Já no quesito “comportamento dos envolvidos”, sabe-se que convidar para a cama é universalmente considerado um sinal de interesse sexual, não só para homens. A pista dada por ela aqui, convenhamos, não ajudou muito. E a situação fica mais embaralhada pelo uso do álcool por ao menos dois motivos: 1) ele dificulta a interpretação correta dos sinais dados pela outra pessoa; 2) e também interfere com a capacidade de uma das pessoas perceber que está sendo mal interpretada e corrigir os sinais que vem demonstrando. Tanto que seu uso é relatado em 30% das relações coercitivas, pelo homem, mulher ou ambos.
Tudo isso contribui para deixar o caso BBB bastante complexo: nada é claro, nem os sinais de interesse, nem o consentimento prévio, nem mesmo a materialidade da relação (perícias estão sendo feitas nas roupas íntimas, algo que não era notícia desde o caso Monica Lewinsky). Concordo que, se houve sexo sem consentimento, isso é sim problema e que não se pode culpar a vítima. Mas tendo em conta o contexto em que as coisas se deram, embora o rapaz tenha responsabilidade, não acho que demonizá-lo seja uma postura ponderada.
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Farris, C., Treat, T., Viken, R., & McFall, R. (2008). Sexual coercion and the misperception of sexual intent Clinical Psychology Review, 28 (1), 48-66 DOI: 10.1016/j.cpr.2007.03.002
Foi simplesmente o melhor texto que lí até agora sobre o tema! PARABÉNS
Daniel
sob o ponto de vista dos dois envolvidos, tua análise é perfeita e inquestionável. Entretanto, não poderemos deixar de lado o contexto. Dentro dele existe a emissora de TV que monta um confinamento, estimula os participantes ao afloramento das instintividades sexuais, inclusive com a facilitação ao uso abusivo dos etílicos. e, finalmente, a receptividade que estas ações têm para o público que, além de perder o seu tempo com tais iniquidades, ainda paga para manter ou afastar participantes desta orgia televisiva. É uma pena, mas o “arquétipo” das arenas romanas ainda estão muito presentes na atualidade.
ab
pacheco
Demonizar é muito forte.Mas doutor,quando a mulher diz “não” quer dizer “não” e muito menos “talvez”.Quando ela diz “não” está falando sério.Acontece que muitas não sabem dizer essa palavra,para não deixarem pensar que são puritanas,bobocas.
Já li na internet uma queixa de que certo psiquiatra falou pra uma garota que tinha sofrido abuso sexual de um “amigo”, que às vezes tem mulher que gosta de se sentir estuprada (fantasia sexual) ou de ser realmente violentada.Não quis acreditar nessa história,porque naturalmente um psiquiatra falar tal asneira é impensável ,parece conversa de metidos a conselheiros e não de um médico que deve ter ética e compreender mais que qualquer um a situação de fragilidade em que se encontra quem foi estuprada e por isso traumatizada.
Acima dos estudos e da formação – diploma e tal – o profissional deve pensar duas vezes antes de falar qualquer coisa.
E tem estupro simples, por favor ?
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