ir para o conteúdo
 • 

Daniel Martins de Barros

21.setembro.2011 14:33:43

Muito além das rugas – Botox contra ansiedade

Todo mundo gosta de saber a origem dos ditos populares. Eu tenho a grata satisfação de – até onde sei – ter descoberto uma, a de “Queimar a língua” (aquela em que, quando alguém fala algo que não se confirma ou uma mentira posteriormente descoberta, dizemos que ele “queimou a língua”).

Até recentemente, quando havia duas testemunhas contando histórias conflitantes os beduínos árabes pediam que elas dessem suas versões e em seguida lambessem um ferro quente. Como a ansiedade faz a boca secar, com medo de ser descoberta a testemunha mentirosa produzia pouca saliva e acabava queimando a língua, revelando que sua história era a falsa. Embora tenha pesquisado bastante, até hoje não encontrei outra explicação para a origem da expressão “queimar a língua”, e por isso acredito que venha daí.

Esse estudo de como os estados emocionais alteram o funcionamento do corpo e vice-versa, numa via de mão dupla com tráfego intenso e constante, é chamado de psicofisiologia, e traz resultados práticos interessantes, não só para os beduínos de antigamente, mas também para os fóbicos sociais de hoje em dia.

Dois psiquiatras do Rio de Janeiro publicaram esse ano um relato de caso em que usam a toxina botulínica (os famosos Botox ou Dysport) no tratamento de um paciente com fobia social. Pessoas com tal transtorno sofrem de uma ansiedade patológica diante de situações de interação social. Dentre os sintomas, um dos que mais incomoda é a sudorese excessiva, pois visivelmente suados os pacientes pensam que todos estão percebendo (e muitas vezes estão), ficando mais ansiosos, suando mais ainda, numa espiral crescente de mal estar. A toxina botulínica reduz a atividade das glândulas sudoríparas, e foi assim capaz de quebrar esse círculo vicioso, auxiliando na aplicação da terapia cognitivo-comportamental. Embora a mente continuasse a influenciar o corpo, a influência desse sobre a mente foi freada à força, ajudando na remissão dos sintomas.

Mente e cérebro, corpo e alma, rugas e ansiedade. Posso afirmar que logo abandonaremos a distinção entre nossos lados “de dentro” e “de fora”. Espero não queimar minha língua.

ResearchBlogging.org
Kleinmuntz, B., & Szucko, J. (1984). Lie detection in ancient and modern times: A call for contemporary scientific study. American Psychologist, 39 (7), 766-776 DOI: 10.1037/0003-066X.39.7.766
Larissa da Rocha Lessa, & Leonardo F. Fontenelle (2011). Toxina botulínica como tratamento para fobia social generalizada com hiperidrose Revista de Psiquiatria Clínica, 38 (2) pp 84-86

comentários (5) | comente

5 Comentários Comente também
  • 21/09/2011 - 15:41
    Enviado por: ROBERTO AUGUSTO

    OLÁ, DR., DANIEL M. BARROS ESTEJA BEM COM “DEUS”!!!
    A ” ANSIEDADE ” PROVOCA UMA BAGUNÇA NAS EMOÇÕES E DE QUEBRA
    AINDA REFLETE NA NOSSA SAÚDE… COMO DOMAR ESSE FURACÃO INTERNO??
    O SOFRIMENTO E MUITO GRANDE E SE EXISTIR ALGUM TRATAMANTO ALTERNATIVO
    EU PODEREI SER VOLUNTÁRIO PARA O BEM DA CIÊNCIA.
    O SEU ARTIGO FICOU ÓTIMO… VALEU E ATÉ O PROXIMO. R.A.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 22/09/2011 - 10:20
    Enviado por: Leonardo Fontenelle

    Isso explica por que algumas pessoas gostam tanto de usar betabloqueadores.

    Dentre os medicamentos para hipertensão, os bloqueadores adrenérgicos beta, como propranolol e atenolol, mas existem estudos indicando que outros anti-hipertensivos, como hidroclorotiazida, enalapril, losartana e anlodipino são superiores, tanto no controle da pressão arterial quanto na prevenção de complicações (derrame, infarto) e no perfil de efeitos colaterais (incluindo alterações de exames de sangue).

    Mas propranolol, atenolol e seus amigos têm duas vantagens. Uma delas é a diminuição da amplitude da variação da pressão arterial. Pessoas sem hipertensão, mas com grande variabilidade da pressão arterial, frequentemente recebem prescrição de betabloqueadores de cardiologistas, ainda que não existam estudos ligando essa variabilidade a complicações como infarto e derrame.

    Mas o segundo, e aparentemente mais importante benefício é a prevenção de palpitações, mesmo das normais. Fazendo uma analogia com a experiência que você descreveu, Daniel, a limitação da frequência cardíaca ajudaria a pessoa a não se sentir tão ansiosa. Isso não deixa de ser irônico, levando em consideração a aparente propensão dos betabloqueadores de causar depressão do humor.

    Seguindo essa linha de raciocínio, seria bem conveniente que se desenvolvesse um medicamento que limitasse, de forma segura, a hiperventilação das pessoas propensas a ataques de pânico. Mas parece que durante muitos anos o tratamento vai continuar sendo psicoterapia e psicofarmacologia.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 22/09/2011 - 12:58
    Enviado por: Daniel Martins de Barros

    Olá, Leonardo. Pois é, os betabloqueadores vêm sendo usados com sucesso no Transtorno de Estresse Pós-traumático justamente por isso.
    Abraço.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 29/09/2011 - 08:08
    Enviado por: Marcio

    Gostei muito da analogia.
    Muito bom!

    responder este comentário denunciar abuso

Deixe um comentário:

  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

Comentários recentes

  • Heitor: Boa reflexão Daniel. Contudo o próprio Georges Canguilhem não se aventura no campo da psiquiatria....
  • Incógnita: Se tu quer ser viado, que seja, mas não deixará de ser humano… Na verdade, NÃO sou contra a...
  • valdinéia: Bom Dia ! Toda essa discussão não levará a nada porque temos limitações,não consigo nem mesmo...
  • Lucas: Tratamento para “manter a espécie dentro dos trilhos” que tenta mudar a natureza de cada pessoa,...
  • ricardo: Estuda a bíblia “a anos” (sic)… Que pena que não estudou também português…...

Arquivos

Todos os Blogs
Fechar

Para continuar lendo o Estadão, faça já o seu cadastro. É rápido e fácil.

Seus dados serão guardados de forma segura e não serão compartilhados.

Quero me cadastrar Sou assinante Já sou cadastrado
SOU ASSINANTE - ACESSO
Esqueci minha senha
JÁ SOU CADASTRADO

Utilize os mesmos login e senha já cadastrados anteriormente no Estadão.

Esqueci minha senha
QUERO CRIAR MEU LOGIN

Se você é assinante do Jornal impresso, preencha os dados abaixo e cadastre-se para criar seu login e senha.

ESQUECI MINHA SENHA

QUERO ME CADASTRAR

Cadastre-se já e tenha acesso total ao conteúdo do site do Estadão. Seus dados serão guardados com total segurança e sigilo.

CADASTRO REALIZADO

Em instantes, você receberá uma mensagem no e-mail .
Clique no link fornecido e crie sua senha.


Importante!
Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail está ativado.

QUERO ME CADASTRAR

Estamos atualizando nosso cadastro, por favor confirme os dados abaixo.