Todo mundo gosta de saber a origem dos ditos populares. Eu tenho a grata satisfação de – até onde sei – ter descoberto uma, a de “Queimar a língua” (aquela em que, quando alguém fala algo que não se confirma ou uma mentira posteriormente descoberta, dizemos que ele “queimou a língua”).
Até recentemente, quando havia duas testemunhas contando histórias conflitantes os beduínos árabes pediam que elas dessem suas versões e em seguida lambessem um ferro quente. Como a ansiedade faz a boca secar, com medo de ser descoberta a testemunha mentirosa produzia pouca saliva e acabava queimando a língua, revelando que sua história era a falsa. Embora tenha pesquisado bastante, até hoje não encontrei outra explicação para a origem da expressão “queimar a língua”, e por isso acredito que venha daí.
Esse estudo de como os estados emocionais alteram o funcionamento do corpo e vice-versa, numa via de mão dupla com tráfego intenso e constante, é chamado de psicofisiologia, e traz resultados práticos interessantes, não só para os beduínos de antigamente, mas também para os fóbicos sociais de hoje em dia.
Dois psiquiatras do Rio de Janeiro publicaram esse ano um relato de caso em que usam a toxina botulínica (os famosos Botox ou Dysport) no tratamento de um paciente com fobia social. Pessoas com tal transtorno sofrem de uma ansiedade patológica diante de situações de interação social. Dentre os sintomas, um dos que mais incomoda é a sudorese excessiva, pois visivelmente suados os pacientes pensam que todos estão percebendo (e muitas vezes estão), ficando mais ansiosos, suando mais ainda, numa espiral crescente de mal estar. A toxina botulínica reduz a atividade das glândulas sudoríparas, e foi assim capaz de quebrar esse círculo vicioso, auxiliando na aplicação da terapia cognitivo-comportamental. Embora a mente continuasse a influenciar o corpo, a influência desse sobre a mente foi freada à força, ajudando na remissão dos sintomas.
Mente e cérebro, corpo e alma, rugas e ansiedade. Posso afirmar que logo abandonaremos a distinção entre nossos lados “de dentro” e “de fora”. Espero não queimar minha língua.
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Kleinmuntz, B., & Szucko, J. (1984). Lie detection in ancient and modern times: A call for contemporary scientific study. American Psychologist, 39 (7), 766-776 DOI: 10.1037/0003-066X.39.7.766
Larissa da Rocha Lessa, & Leonardo F. Fontenelle (2011). Toxina botulínica como tratamento para fobia social generalizada com hiperidrose Revista de Psiquiatria Clínica, 38 (2) pp 84-86
OLÁ, DR., DANIEL M. BARROS ESTEJA BEM COM “DEUS”!!!
A ” ANSIEDADE ” PROVOCA UMA BAGUNÇA NAS EMOÇÕES E DE QUEBRA
AINDA REFLETE NA NOSSA SAÚDE… COMO DOMAR ESSE FURACÃO INTERNO??
O SOFRIMENTO E MUITO GRANDE E SE EXISTIR ALGUM TRATAMANTO ALTERNATIVO
EU PODEREI SER VOLUNTÁRIO PARA O BEM DA CIÊNCIA.
O SEU ARTIGO FICOU ÓTIMO… VALEU E ATÉ O PROXIMO. R.A.
Obrigado, Roberto.
responder este comentário denunciar abusoIsso explica por que algumas pessoas gostam tanto de usar betabloqueadores.
Dentre os medicamentos para hipertensão, os bloqueadores adrenérgicos beta, como propranolol e atenolol, mas existem estudos indicando que outros anti-hipertensivos, como hidroclorotiazida, enalapril, losartana e anlodipino são superiores, tanto no controle da pressão arterial quanto na prevenção de complicações (derrame, infarto) e no perfil de efeitos colaterais (incluindo alterações de exames de sangue).
Mas propranolol, atenolol e seus amigos têm duas vantagens. Uma delas é a diminuição da amplitude da variação da pressão arterial. Pessoas sem hipertensão, mas com grande variabilidade da pressão arterial, frequentemente recebem prescrição de betabloqueadores de cardiologistas, ainda que não existam estudos ligando essa variabilidade a complicações como infarto e derrame.
Mas o segundo, e aparentemente mais importante benefício é a prevenção de palpitações, mesmo das normais. Fazendo uma analogia com a experiência que você descreveu, Daniel, a limitação da frequência cardíaca ajudaria a pessoa a não se sentir tão ansiosa. Isso não deixa de ser irônico, levando em consideração a aparente propensão dos betabloqueadores de causar depressão do humor.
Seguindo essa linha de raciocínio, seria bem conveniente que se desenvolvesse um medicamento que limitasse, de forma segura, a hiperventilação das pessoas propensas a ataques de pânico. Mas parece que durante muitos anos o tratamento vai continuar sendo psicoterapia e psicofarmacologia.
Olá, Leonardo. Pois é, os betabloqueadores vêm sendo usados com sucesso no Transtorno de Estresse Pós-traumático justamente por isso.
Abraço.
Gostei muito da analogia.
Muito bom!
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