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Daniel Martins de Barros

13.dezembro.2011 19:39:03

Crack e as metáforas – epidemia ou não epidemia?

Polêmica: é certo permitir a internação compulsória dos usuários de crack? Ok, é um assunto polêmico. Mas já falei dele antes (aqui), e acho que há outro debate importante nessa questão para a qual não se deu até agora a devida importância: afinal, o crack é ou não uma epidemia?

Enquanto Paulina Duarte, a secretária nacional de Políticas Sobre Drogas, diz que falar isso é “bobagem” que alimenta a “pedagogia do terror”, o ministro da Saúde Alexandre Padilha afirmou que “No conceito técnico, estamos diante de uma epidemia de crack”. Até onde vi a mídia só repercutiu a história no nível do bate-boca político, mas há uma segunda camada de leitura muito mais profunda e com impactos sérios na forma como abordaremos o problema do crack, pois as palavras que usarmos podem ditar os rumos que tomaremos.

Para quem acha exagero, vale a pena citar um trabalho que esse ano mostrou o impacto das metáforas na definição de políticas públicas. Dois cientistas da Universidade de Stanford pediram a 485 estudantes que propusessem soluções para os crimes numa determinada cidade. O cenário era descrito num breve parágrafo, mas para metade deles comparava-se a criminalidade a um vírus que se disseminava, e para os outros, a uma fera predadora à solta. Analisando as respostas notou-se diferença significativa entre os dois grupos: os que leram o texto pensando em vírus sugeriram mais ações preventivas e de identificação das causas do crime, enquanto os que pensaram no predador apresentaram mais propostas repressivas e de encarceramento dos criminosos. Mas praticamente nenhum dos voluntários (3%) notou a influência da metáfora nas suas sugestões: independente da solução proposta, quase todos disseram que foram as estatísticas apresentadas (as mesmas nos dois grupos) que os levaram àquelas ideias.

Portanto acho capcioso falar em epidemia de crack. Quando se diz isso pode-se apenas estar querendo dizer que houve um grande aumento do seu uso num determinado período de tempo. Mas a palavra epidemia arrasta nosso pensamento para a ideia de contágio e de um agente causal (bactéria, vírus). E sem perceber acabamos por acreditar que este é um problema que a Medicina irá resolver.

Ocorre que a questão, sobretudo nos moldes que o uso dessa droga tomou no país, vai muito além de uma temática exclusivamente médica. Sua complexidade é tal que não pode ser reduzida aos seus aspectos psiquiátricos, sendo primordial levar em conta as interfaces sociais, policiais, educacionais, familiares, urbanísticas, éticas. Até onde percebo nenhuma dessas esferas é incluída na metáfora da epidemia, mas se elas não forem consideradas, não estaremos nem perto de lidar seriamente com ela.

ResearchBlogging.org
Thibodeau, P., & Boroditsky, L. (2011). Metaphors We Think With: The Role of Metaphor in Reasoning PLoS ONE, 6 (2) DOI: 10.1371/journal.pone.0016782

comentários (2) | comente

2 Comentários Comente também
  • 13/12/2011 - 20:04
    Enviado por: Fernando

    É bom encontrar um psiquiatra e um profissional da saúde que presta atenção nos últimos resultados científicos sobre o comportamento humano, de maneira multidisciplinar. Essa pesquisa sobre o uso de metáforas em políticas públicas só mostra o como o problema é mais sistemático e complexo do que a metáfora “epidemia do crack” pode ensejar. Obrigado pelo artigo Daniel.

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  • 14/12/2011 - 06:05
    Enviado por: Dany

    Pior que falar em epidemia é estigmatizar o indivíduo que se tornou dependente dessa droga terrível.Ele se autodestrói e não percebe ?Por que não tratam os toxicômanos como qualquer outro doente de doença crônica?Vale se perguntar se este aumento no consumo de drogas não está ligado ao aumento de consumo no país e na falta de diálogo,na pobreza,na ausência dos pais em casa educando seus filhos e tudo mais que possa influir? Combater o vício somente não adianta,eu acho.
    Epidemia é uma palavra muito forte,não seria melhor falar em síndrome?
    Ótimo post o de hoje,doutor Daniel.

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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