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Daniel Martins de Barros

25.novembro.2011 18:40:35

Convulsão ou histeria?

Acho que não demora muito e começarão a aparecer relatos de pessoas que convulsionaram dentro dos cinemas brasileiros ao assistir o filme Amanhecer. A notícia de que um rapaz teve que ser levado às pressas para um hospital fazendo barulhos estranho e sem conseguir respirar após ver a cena do parto da protagonista foi logo seguida pela descoberta de outros casos semelhantes nos Estados Unidos. Ao que parece a sequência do parto é composta por um padrão alternante de luz branca, vermelha e preta, o que foi logo invocado como causa das “convulsões”.

Provavelmente o público-alvo da saga Crepúsculo não era nascido quando um episódio semelhante ocorreu no Japão, durante a transmissão do desenho Pokémon, febre nos anos noventa. Em 16 de dezembro de 1993 Pikachu, o monstro protagonista do desenho, usou seus poderes para disparar um “ataque elétrico”, o que foi representado por luzes piscando. Naquela noite a agência de defesa do Japão relatou que 618 crianças foram levas a pronto-socorros com sintomas variados, indo desde convulsões e desmaios a dores de cabeça e mal-estar. A mídia repercutiu o caso com grande intensidade e preocupação, reprisando a cena e levando a uma segunda onde de crises, cujos números são desconhecidos. Três dias depois, embora o número de crianças levadas a hospitais não fosse modificado, já se falava em cerca de 12.000 afetados com sintomas diversos.

Antes de desistir de ver o filme (por esse motivo), é preciso calma.

Em diversas análises retrospectivas de milhares de estudantes japoneses afetados, descobriu-se que uma parcela mínima deles apresentou de fato convulsões. Ocorre que existem casos de epilepsia sensíveis a certos padrões de estimulação luminosa, mas sua ocorrência é rara (estimada em 1/4.000, ou 0,025% da população), o que não explica a ocorrência maciça daqueles eventos. Levando em conta a grande diversidade de sintomas, a maioria inespecíficos e nada característicos de convulsões epilépticas, o mais provável é que tenha se tratado de um contágio psicológico, uma espécie de histeria coletiva, em grande parte alimentada por coberturas sensacionalistas.

Agora, pensando no sucesso esmagador da série Crepúsculo (praticamente metade de todas as salas de cinema do Brasil exibiram o filme Amanhecer na estreia, recorde absoluto), o alto grau de sugestionabilidade da faixa etária do público-alvo (na maioria adolescentes), e a velocidade de divulgação das notícias em tempos de rede social, imagino ser questão de horas até ouvirmos os primeiros relatos no país. Tomara que esteja errado.

ResearchBlogging.org

Radford B, & Bartholomew R (2001). Pokémon contagion: photosensitive epilepsy or mass psychogenic illness? Southern medical journal, 94 (2), 197-204 PMID: 11235034

comentários (2) | comente

2 Comentários Comente também
  • 29/11/2011 - 07:28
    Enviado por: Dany

    O público é sugestionado por todo tipo de “alarme”,isso é previsível.O que não entendo é porque tantos vão ao cinema ver um filme que não é genial e se arriscam a ficar doentes por causa dele.Acho que estamos caminhando pra entrar na era da robotização do ser humano,com gente que se movimenta por telecomando,que age conforme as máquinas querem,etc.Esse futuro está bem próximo e acho que uma contracorrente tem que vir pra diminuir a ânsia desses que querem uma sociedade bem comportada e conformista, o público reagindo por impulsos e sem qualquer espírito crítico.
    Desculpe o ardor,acho que já me emocionei demais hoje e não depois de ver certos filmes…

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  • 28/12/2011 - 23:00
    Enviado por: Anita

    Tem quem não entenda porque o filme faz tanto sucesso. Nesse Amanhecer o ponto dramatico foi a Bella, mas nos outros 3 com certeza as lutas. Todas cenas de luta e perseguição são ótimas. E também o figurino, muito bonito.
    Enquanto a “convulsão”, gostei da explicação.

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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