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Daniel Martins de Barros

Vejam os dois desafios que enfrento: escrever sem poder utilizar acentos ou cedilha, pois o Mac que uso no momento rejeita qualquer tentativa de acentuar, e, muito pior, dirigir pela esquerda, com o volante no local onde a vida inteira andei como passageiro.

Viajando pelo Reino Unido tive que fazer como diz o ditado: em Roma, como os romanos. Mas a dificuldade foi grande: o volante no outro lado do carro e o carro do outro lado da rua. Em mais de uma curva me vi entrando errado, quase indo bater de frente com os motoristas escoceses. Isso sem (ainda) ter dado um gole sequer de whisky.

Mas acho que esse talvez seja um dos principais motivos pelos quais gosto de viajar: nunca se chega mais perto de saber como as meninas e meninos se sentem durante o crescimento – as regras ocultas, a dificuldade de entender totalmente a linguagem, a necessidade de adquiir nova habilidades, a nem sempre boa vontade dos outros em explicar as coisas. Assim como quando estamos crescendo, quando viajamos nos expomos ao desconhecido, tendo como pagamento nada mais do que ter a curiosidade de experimentar novidades satisfeita.

Para ver lugares, saber seu aspecto ou mesmo ter conhecimento de detalhes sobre sua cultura e seus costumes, hoje em dia basta clicar o mouse. Penso que viajar tenha outra finalidade: em vez de apenas conhecer, viver. Em lugar de meramente olhar, experimentar. Bater com o espelho retrovisor num carro parado no meio-fio, como fiz, fala mais sobre a dificuldade de reprogramar nossas sinapses do qualquer experimento laboratorial pode fazer. Por outro lado, aprender a contar moedas estrangeiras, decifrar menus misteriosos ou mesmo ligar as torneiras mais esquisitas, mostram como a plasticidade neuronal pode ser ativada mesmo na vida adulta.

Por tudo isso, encarecidamente rogo que me perdoem o estilo truncado desse post – foi uma dificuldade maior do que imaginara escolher palavras a dedo para contornar a falta de acentos. Mas foi apenas mais um aprendizado que as viagens proporcionam.

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Desde o Sassá Mutema um personagem tonto não fazia tamanho sucesso em novelas como Douglas (Ricardo Tozzi), que levou aos trending topics do Twitter o bordão “Pô, Bibi”, em alusão à noiva, interpretada pela excelente Maria Clara Gueiros, de quem sou fã confesso. Esses personagens meio burros fazem sucesso ao gerar em nós certa simpatia, ativando um instinto protetor – a lista é longa, indo do Quico (amigo do Chaves) ao Patrick (amigo do Bob Esponja).

Infelizmente, eles vivem menos. Ou, no mínimo, adoecem mais.

As boas notas, ao que parece, são fundamentais para uma vida longa e saudável. Pelo menos em Winsconsin (aliás, lar da divertidíssima série That 70′s show, que tinha em Ashton Kutcher – hoje em Two and Half Men – outro adorável burro, Michael Kelso). Um enorme estudo realizado naquele estado recolheu dados de mais de dez mil formandos do segundo grau (high school) em 1957, e desde então vem produzindo informações interessantes, sobre educação, economia, envelhecimento, trabalho etc.

Ao comparar as notas obtidas no segundo grau – ou ensino médio, como se diz hoje – cientistas mostraram que os alunos que quando se formaram se encontravam no quartil inferior (os 25% piores estudantes), ao chegar aos 60 anos tinham o dobro de chance dos 25% melhores de ter doenças crônicas, como diabetes ou problemas cárdio-respiratórios. Pamela Herd, pesquisadora principal, investigou se não seriam fatores de personalidade, como perseverança e determinação, que estariam por trás tanto das notas boas como da melhor saúde, mas não encontrou diferenças significativas entre as pessoas. E o efeito era independente do número de anos de estudo – outra variável já reconhecidamente envolvida na longevidade. Possivelmente as boas notas refletem uma boa capacidade de aprendizado, desenvolvimento de pensamento crítico e habilidades cognitivas, o que pode contribuir para opções saudáveis ao longo da vida.

É claro que ninguém pode controlar o futuro ou por conta própria evitar qualquer tipo de doença. Mas um boletim escolar bom parece ser capaz de adiar um boletim médico ruim.

ResearchBlogging.org Herd, P. (2010). Education and Health in Late-life among High School Graduates: Cognitive versus Psychological Aspects of Human Capital Journal of Health and Social Behavior, 51 (4), 478-496 DOI: 10.1177/0022146510386796

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“Foi por medo de avião
Que eu segurei
Pela primeira vez
A tua mão”.

Já dizia o reaparecido Belchior na música “Medo de avião“. Podem me chamar de brega, mas eu gosto da música dele – a voz rouca, as letras interessantes que muitas vezes dão o que pensar. Nessa, por exemplo, ele tinha boa dose de razão.

Descobri esses dias um estudo antigo, da década de 70, que mostra o papel do medo na atração entre os sexos. Oitenta e cinco rapazes bem intencionados foram divididos em dois grupos, um deles foi colocado numa daquelas pontes suspensas que dá muito medo atravessar, outro numa ponte que não dava medo. No meio da ponte eles encontravam uma entrevistadora bonita, que apresentava a figura de uma mulher com o rosto coberto e pedia que eles inventassem uma história para ela (era uma das imagens do famoso teste de apercepção temática – TAT). Ela descaradamente dava o telefone para os sujeitos, dizendo que estaria disponível para discutir a pesquisa mais tarde, naquela noite.

Nada menos que metade dos homens entrevistados na situação de medo ligaram para a bonitona. Isso é muito ou pouco? Não sei, mas sei que só 12,5% dos outros, que foram abordados na ponte “segura”, deu o telefonema. Quatro vezes menos. Além disso, a historinha que os estes voluntários contavam tinha muito menos conotação sexual do que dos outros.

Enfim, parece que fortes emoções facilitam mesmo a atração sexual. Deve ser porque o famoso frio na barriga que a gente sente no avião é praticamente o mesmo que acontece quando pegamos “naquela” mão.

Sábio Belchior.

ResearchBlogging.org Dutton, D., & Aron, A. (1974). Some evidence for heightened sexual attraction under conditions of high anxiety. Journal of Personality and Social Psychology, 30 (4), 510-517 DOI: 10.1037/h0037031

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Já viu um professor de química do colegial, à beira da morte, que quase nunca acerta, desbancar um dos médicos mais famosos do mundo, que quase nunca erra? Pois é o que vem acontecendo nos últimos anos: o ator Bryan Cranston, interpretando o professor Walter White, faturou o prêmio de melhor ator em série dramática nos últimos três anos, batendo Hugh Laurie com seu Dr. House. Sim, estou falando de Breaking Bad, o seriado que conta a história do professor White, que descobre ter câncer inoperável no pulmão e teme deixar o filho deficiente físico e a esposa grávida desamparados. Coincidentemente, ele descobre que um ex-aluno trafica metaanfetaminas, e propõe-se a fabricar a droga para garantir o futuro da família.

A força do drama vem do fato de ele ser um homem bom, pacífico, verdadeiramente honesto mas que de repente se vê fazendo mais e mais coisas ruins em nome de um fim bom. É uma versão dramatizada do famoso dilema de Heinz: um homem tem a esposa com uma doença fatal, mas só tem metade do dinheiro para comprar a única droga que pode salvá-la; o farmacêutico, que inventou tal droga, cobra 10 vezes o custo mas recusa-se a vendê-la mais barato. Deve o homem roubar o dinheiro? Por que? Embora haja só duas opções possíveis (roubar ou não), são as justificativas que interessam. E essas, há aos montes.

O professor White metaforicamente opta por “roubar o remédio”, decidindo quebrar leis em nome de um bem maior em que acredita. Poderíamos chamar essa opção de utilitarista. Para tal escola de pensamento moral (Utilitarismo), a ação correta é aquela que tem mais utilidade, medida pela geração de maior felicidade para o maior número de pessoas. O professor White tenta então se convencer que fabricar drogas para garantir o bem da sua família (lembrando que o filho é deficiente e que a esposa está grávida) faz mais bem do que mal no cômputo geral. Mas ele mesmo tem dificuldade em acreditar nisso.

Assistir a primeira temporada me fez lembrar de um estudo recente, que procurou relacionar os tipos de raciocínio moral com a personalidade das pessoas. Duzentas e oito pessoas responderam a 14 dilemas morais, semelhantes ao dilema de Heinz, e tiveram suas respostas correlacionadas com seus traços mais característicos. Eis que descobriu-se que, quanto mais próximo da psicopatia, mais utilitária era a pessoa. O que faz sentido, pois quanto mais indiferente se é aos outros, mais fácil de se ter frieza para raciocinar em termos de custos e benefícios, ignorando normas ou leis.

É por isso que os prêmios que Breaking Bad e seu protagonista vêm colecionando são mais do que justos: o ator consegue interpretar um mocinho que se torna vilão, cheio de remorso mas sem mudança de atitude. Seu conflito é tão intenso que me levou a acreditar que ser utilitarista é para quem pode, não para quem quer.

ResearchBlogging.org Bartels, D., & Pizarro, D. (2011). The mismeasure of morals: Antisocial personality traits predict utilitarian responses to moral dilemmas Cognition, 121 (1), 154-161 DOI: 10.1016/j.cognition.2011.05.010

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A prefeitura de São Paulo está disposta a retirar os usuários de crack das ruas, mesmo que seja à força, alegando, para tanto, que a dependência química é uma doença psiquiátrica, podendo justificar a internação involuntária desses indivíduos.

Embora sempre sujeitas a questionamentos por serem uma forma extra-judicial de restringir a liberdade de alguém, as internações involuntárias são uma das opções terapêuticas disponíveis em Psiquiatria, ainda que sejam medida de exceção. Os Estados de direito reconhecem a necessidade de legislar sobre a internação de pessoas que, em virtude de terem seu autocontrole ou sua capacidade racional prejudicadas por uma doença psiquiátrica reconhecida, coloquem em risco suas vidas ou a vida de terceiros. O que traz legitimidade a uma internação involuntária é a perda da autonomia do indivíduo, decorrente de uma condição médica que o impede de compreender e entender o caráter patológico de seu estado e, por isso, não consente com o tratamento. Quadros psicóticos graves que apresentem delírios ou depressão com risco de suicídio ilustram bem essa condição. Mas há quadros que, mesmo não apresentando quebra total com a realidade, não raras vezes colocam sujeitos em perigo e prejudicam a capacidade de consentimento dos pacientes; é o caso da anorexia com risco de morte ou de dependências químicas graves.

No Brasil, a Lei Federal 10.216/2001 se dispõe a proteger os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais. Com relação às internações psiquiátricas, no artigo 6º, parágrafo único define internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento escrito do usuário e a pedido de terceiro. Assim, embora a autonomia seja um dos pilares da atuação ética na assistência à saúde, há ocasiões em que a capacidade de decidir autonomamente do indivíduo está prejudicada, como pode ser o caso de dependentes químicos em estágios avançados. O grande risco é utilizar essa justificativa médica simplesmente como medida higienista, independente da real necessidade psiquiátrica de internação.

Cabe à sociedade em geral, e aos médicos em particular, a atenção para não deixar que isso ocorra.

ResearchBlogging.org Barros, Daniel Martins de, & Serafim, Antonio de Pádua. (2009). Parâmetros legais para a internação involuntária no Brasil Revista de Psiquiatria Clínica, 36 (4), 168-170

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19.julho.2011 23:45:53

A ciência no twitter

Não sei se já contei essa história por aqui, mas o jeito que eu decidi entrar no Twitter é um “case” tão clássico da luta envelhecimento x tecnologia que vale a pena conhecer.

Estava eu perto de um colega da velha que guarda que preparava uma aula no computador. Tudo bem que para ele já era uma vitória conseguir usar o powerpoint, mas lá pelas tantas ele se levantou e disse que precisava ir até a biblioteca, arranjar a foto de um neurônio. Demorei alguns segundos para compreender que, embora estivesse trabalhando num computador ligado à internet, ele queria um livro para encontrar uma figura. Expliquei-lhe as virtudes da rede e decidi imediatamente entrar no twitter. Pensei: “Hoje eu não entro aqui, amanhã não acompanho a próxima novidade e quando menos esperar estarei ultrapassado”.

E eis que me surpreendi com a famosa rede social. Alguém já disse que enquanto o facebook se tornou uma rede de relacionamentos, o twitter se estabeleceu como uma rede de informações. De fato. Eu mesmo encontrei algumas referências bibliográficas para minha tese de doutorado no bico do passarinho azul. E para confirmar tudo isso, encontrei na mesma rede de microblog um trabalho que comprovou sua utilidade, junto com uma plataforma de blogs científicos, na divulgação de informação de qualidade.

A pesquisa, de Sibele Fausto, Atila Iamarino, Luiz Bento e Tatiana Nahas, foi apresentada na décima terceira conferência da Sociedade Internacional para Cientometria e Infometria (ISSI, na sigla em inglês), e utilizou o twitter como fonte de dados. Eles investigaram a plataforma Researchblogging, que agrega blogs que postam artigos citando pesquisas científicas avalizadas (e da qual tenho privilégio de fazer parte), em sua versão na língua portuguesa, mostrando que num período de 20 meses, 571 textos dessa rede de blogs foram divulgados por meio do perfil @ResearchBlogsPT, citando 919 trabalhos de 404 revistas científicas. O Psiquiatria e Sociedade esteve num honroso segundo lugar em número de textos (acho que contou a nosso favor a regularidade de um texto por semana, mais do que qualquer outra coisa).

Os autores concluem que a plataforma de blogs científicos é um meio interessante de filtrar o conteúdo gigantesco da internet, ajudando a diferenciar ciência de bobagens, sendo o twitter um canal eficiente de divulgação.

Confirmou, para mim, que valeu a pena entrar no twitter. Além de me manter atualizado tecnologicamente, também me atualizo cientificamente, com o bônus de contribuir para a atualização de outras pessoas. Que venha a próxima novidade.

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Você, que fica adiando o começo da academia, saiba que é um profeta muito míope.

Essa é a conclusão de um estudo sobre a prática de atividade física realizada na University of British Columbia, no Canadá: as pessoas sempre acham que vão gostar menos de fazer exercícios do que acabam gostando no fim das contas. Isso parece acontecer porque nós ficamos pensando no esforço para quebrar a inércia, e – de modo míope – achamos que a atividade inteira será ruim. Essa baixa expectativa de prazer, dizem os cientistas, faz com que muita gente nem sequer comece a se mexer.

Para confirmar isso os pesquisadores pediram a dezenas de pessoas que já treinavam alguma coisa para atribuir uma nota de 0 a 10 para o quanto iriam gostar do treino. No final repetiram a pergunta, e demonstraram que os voluntários gostavam mais do que haviam previsto. Bolaram então um treinamento padronizado, com uma fase de aquecimento, uma fase intensa, e depois um fase de desaceleração. Quando questionadas sobre as expectativas para cada uma das fases, o aquecimento recebia as piores notas, mesmo sendo idêntico à fase final. E, novamente, após o treino todas as fases mostravam-se mais prazerosas do que o estimado.

A boa notícia é que quando pensavam nas fases separadamente, primeiro dando notas para cada um dos momentos e depois para o treino todo, esse acabava tendo uma avaliação mais positiva (e mais próxima do real), contrabalançando a miopia preditiva. E quanto melhor a expectativa de prazer, maiores as chances de a pessoa voltar a se engajar em exercícios.

Portanto, ânimo! Livre-se da visão de curto prazo e comece logo a se mexer. Acredite: você gostará mais do que consegue imaginar.

ResearchBlogging.org Ruby, M., Dunn, E., Perrino, A., Gillis, R., & Viel, S. (2011). The invisible benefits of exercise. Health Psychology, 30 (1), 67-74 DOI: 10.1037/a0021859

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Se eu tinha alguma dúvida, não tenho mais: Pirandello é mesmo meu autor favorito. Acabo de ler a peça Assim é (se lhe parece) e fiquei fascinado.

Conta a história de um funcionário novo que chega à cidade após um terremoto ter destruído completamente seu vilarejo. Ele vem com a esposa e a sogra, e o trio é cercado de mistérios, pois a mulher fica dia e noite trancada no alto de um prédio, só falando com a mãe pela janela. Os habitantes da cidade põe-se em polvorosa tentando descobrir as razões daquele arranjo tão singular, girando a peça inteira em torno das especulações e maquinações mil que se fazem para descobrir a verdade.

A primeira explicação é dada pela sogra, que diz que o genro a impede de ver a filha. “Ah, que cruel”, dizem todos. Na sequência vem o genro e diz que a sogra é louca, que não sabe que a filha morreu, mas que mantém a farsa para poupá-la. “Ah, que bondoso”, pensam. Contudo a sogra retorna e diz que sabe que o genro diz que ela é louca, e só não contesta para não criar um caso ainda maior. E assim “a verdade” parece estar sempre fugindo entre os dedos dos personagens, que a cada conversa ficam mais confusos. Apenas Laudisi, o cunhado impertinente, parece se divertir com a situação, justamente porque acredita ser impossível chegar à tal verdade, afirmando que cada um tem a sua versão, ambas “verdadeiras” para eles. Resignado, não sofre com a angústia da incerteza que aflige os outros.

É uma lição e tanto. Na prática clínica somos o tempo todo desafiados a chegar à verdade do que está acontecendo com o paciente, mesmo com informações incompletas. Imagine como isso é dificultado quando estamos falando de psiquiatria, onde a subjetividade impera. E ainda mais quando investidos do papel de peritos, com a função de produzir provas para a justiça (a prova pericial). Como na peça, a cada consulta a verdade parece ir de um lado para outro, dançando entre as versões sem parar em lugar algum. E é um exercício constante avaliar se conseguiremos chegar a algum lugar ou se teremos nós também que nos resignar com a dúvida angustiante.

A certa altura da história o prefeito é chamado a intervir, e impõe sua autoridade de forma violenta sobre o misterioso homem, mesmo já estando ele mortificado por tanta especulação sobre sua vida. Desnecessário dizer que é uma violência inútil para se chegar à verdade. E esse risco nós também corremos: obstinados em sair da incerteza utilizarmos nosso lugar de poder para devassar a vida e alma de pessoas, não raro inutilmente.

O debate sobre o tema é extenso e não admite respostas fáceis. O que eu acho é que estamos todos até hoje perplexos diante da pergunta de Pilatos: “Que é a verdade?” (que nem Jesus respondeu).

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Por esses dias tenho visto no facebook uma mensagem exaltando a infância do “tempo em que eu era criança”, quando não existiam videogames, PCs e “a gente brincava na rua”. Depois falam que eu sou do contra, mas não dá para concordar com essa história.

A mania de achar que antigamente era melhor tem até nome, “rosy retrospection”, ou, numa tradução livre, lembrança cor-de-rosa: é a tendência que temos de avaliar as experiências passadas de forma exageradamente positiva. Até onde sei o termo foi cunhado num estudo seminal de 1997, no qual os pesquisadores fizeram o seguinte: distribuíram questionários para 21 americanos que iam viajar para Europa, para 77 estudantes que iriam ter uma semana de férias e para 28 colegas que iriam viajar de bicicleta pela Califórnia. Os sujeitos respondiam perguntas sobre seus sentimentos em três momentos: antes, durante e depois do passeio. Embora os métodos variassem um pouco, em todos o resultado foi o mesmo: as pessoas achavam que ia ser melhor do que acabava sendo de fato, confirmando o ditado de que o melhor da festa é esperar por ela. Mas quando perguntadas como a experiência tinha sido poucos dias depois, as pessoas também davam notas de satisfação maiores do que tinham dado na ocasião dos eventos. Esquecendo-se rapidamente de pequenas distrações e frustrações que na hora roubavam um pouco da satisfação, guardavam mais as lembranças cor-de-rosa.

É como no mais recente filme de Woody Allen, Meia-noite em Paris. O escritor Gil (Owen Wilson, interpretando com maestria o papel “Woody”) acha que os “anos dourados” de Paris tinham sido os anos 20. Num passe de mágica ele vai parar lá, e descobre que as pessoas da época achavam que a “idade de ouro” terminara mesmo foi com a virada do século. Só que quem vivia esse período imaginava que a Renascença é que tinha sido boa. Gil vê que as pessoas sempre acham sua época meio insatisfatória, mas que isso não é culpa da época, “a vida é um pouco insatisfatória”, conclui.

Por isso que não concordo com a campanha no facebook. Como diz o personagem do Woody Allen, o passado pode até ter sido bom, mas pelo menos hoje nós temos antibióticos.

ResearchBlogging.org Mitchell TR, Thompson L, Peterson E, & Cronk R (1997). Temporal Adjustments in the Evaluation of Events: The “Rosy View” Journal of experimental social psychology, 33 (4), 421-48 PMID: 9247371

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Cansado de ver legisladores fazendo leis sem pé nem cabeça? Leis inúteis como a que obriga auto-escolas a darem aula noturna ou impõe placas mandando checar se o elevador está no andar? Eu também, e é por isso que venho a público com a proposta “Legislação baseada em evidências“: uma regra segundo a qual projetos de lei precisariam ter base em alguma evidência sólida, oriunda quer da literatura das ciências humanas, biológicas ou exatas, quer da experiência documentada de outros países ou regiões. Claro, sempre pode haver uma lei inovadora, propondo algo que nunca foi testado; nesse caso, ela deve dizer quais seus objetivos e quais serão as formas de medir os resultados, averiguando sua pertinência.

Se você acha impossível convencer vereadores e deputados a se submeter a regras assim, saiba que uma outra categoria de profissionais bem pouco humildes e flexíveis passou por uma revolução cultural dessa ordem nos últimos 15 anos: os médicos.

Até muito recentemente a Medicina era exercida por profissionais que baseavam suas decisões praticamente só em suas experiências pessoais somada ao que haviam aprendido há décadas. O problema é que embora nada substitua a experiência, ela sozinha não é uma boa conselheira por uma série de razões: o número de indivíduos que um médico atende é pequeno perto do necessário para conclusões firmes; o acompanhamento e mensuração dos resultados são enviesados pela subjetividade; o efeito placebo não é considerado etc. Até que na década de 90 do século XX surgiu o que ficou conhecido como Medicina Baseada em Evidências (MBE). Utilizando instrumentos da estatística, epidemiologia, informática, as antigas práticas começaram a ser avaliadas de forma objetiva, em estudos com enorme número de pacientes, duplo-cegos (nem o médico sabe se está dando remédio ou placebo, nem o paciente sabe o que está recebendo), e aleatórios (remédio ou placebo definidos ao acaso). Depois, diversos estudos desses passaram a ter seus resultados reunidos em meta-análises, ampliando a validade das conclusões. De repente os médicos viam que práticas até então consagradas não ajudavam os pacientes de fato: os digitálicos não aumentavam a sobrevivência dos pacientes cardíacos, a reposição hormonal na menopausa podia fazer mais mal do que bem para muitas mulheres, dentre muitos outros exemplos.

Assim, embora sempre cheios de si, os médicos já não se fiam só de suas opiniões, mas, em linha com a MBE, na “utilização conscienciosa, explícita e judiciosa da melhor evidência visando a tomada de decisão para o tratamento individual dos pacientes.” Hoje em dia pega mal para um médico dizer “é a minha experiência” e ignorar as evidências. Embora haja críticas sobre sua aplicação radical, é fato que a MBE trouxe avanços na eficácia e segurança dos tratamentos, ao substituir opiniões por conhecimentos.

Portanto, proponho a seguinte regra, a ser implementada nos níveis federal, estadual e municipal:

Legislação Baseada em Evidências

Artigo 1o: Somente serão apreciados por esta casa os projetos de lei que apresentarem justificativa baseada em evidências obtidas em pesquisa sólida, mesmo que sucinta, sobre o tema.

Parágrafo único – são consideradas evidências: revisões sistemáticas da literatura científica, artigos científicos publicados em revistas indexadas, livros ou capítulos de autores com reconhecido mérito acadêmico, experiências anteriores semelhantes documentadas.

2o. Projetos de lei para os quais não houver evidências somente serão apreciados se explicitarem quais seus objetivos e quais os meios de aferir se estes serão alcançados.

É só uma proposta, aberta a sugestões e críticas. Porque justamente se a debatermos, discutirmos, divulgarmos, colocarmos nas redes sociais, nos e-mails de nossos representantes, quem sabe isso não chega até algum legislador iluminado e não conseguimos elevar um pouco a pertinência e eficácia de nossas leis?

ResearchBlogging.org AVEZUM, �., CAVALCANTI, A., FARSKY, P., & KNOBEL, M. (2001). Transferindo as evidências da pesquisa clínica para a prática cardiológica Revista da Associação Médica Brasileira, 47 (2), 165-168 DOI: 10.1590/S0104-42302001000200036

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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