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Daniel Martins de Barros

Não é fácil a vida de terapeuta. As pessoas os procuram por ajuda, mas raramente dizem a verdade – ao menos a verdade completa. Eles são hostilizados, desqualificados, questionados. E não é raro sofrerem calotes. A vida de Theo não é exceção. Sua semana anda cheia. Na segunda-feira vê uma médica apaixonada por ele, num processo que o jargão chama de transferência – quando sentimentos de outros tempos e lugares são transferidos para o aqui e agora do terapeuta. Nem sempre é fácil segurar esse rojão, ainda mais se a paciente é Maria Fernanda Cândido.

Na terça, o foco é oposto: vemos Theo transferir emoções e sentimentos, hostis, para o atirador de elite narcisista que matou um inocente em ação policial. Quarta, uma adolescente de quem se suspeita ter tentado suicídio quer dele um atestado de sanidade, mostrando que é normal. O pior vem na quinta, quando um casal o procura para que ele diga se devem ou não fazer um aborto, já que o marido quer o filho, mas a esposa não tem certeza. A pressão é forte, e faz Theo voltar a conversar com Dora, uma terapeuta que fora sua supervisora no passado. Como seus pacientes, nem ele tem bem claro o que quer dela.

O segredo da terapia, aprende-se com o tempo, é frequentemente o mesmo da poesia: “Tudo é sempre outra coisa”, como ensinou Mário Quintana. O casal fala do futuro da gravidez, mas quer saber é do futuro da relação; o policial sente atração por um amigo gay e nem se dá conta; por trás do acidente da menina adolescente há pressão por performance e frustração com a mãe, temas que permanecem submersos.

O próprio Theo não aceita a sugestão de Dora de que sua irritação atual tenha relação com suas reações inconscientes diante da paixão da paciente. O trabalho do terapeuta é esse: muitas vezes tem de encontrar brecha no que diz o paciente, abrindo uma fresta para que ambos espiem juntos por trás da cortina do discurso aparente e tenham pelo menos um vislumbre da verdade. Se a vida dos terapeutas é dura, por outro lado eles têm a chance de acompanhar o desenrolar da história humana, com seus dramas e alegrias, no momento mesmo em que ela acontece.

E como todos somos fascinados por histórias, querendo sempre saber como as coisas chegaram a ser o que são e o que acontecerá com elas, a tendência é que Sessão de Terapia (2.ª a 6.ª, 22h30, GNT) tenha sucesso: é a chance que temos de compartilhar o privilégio dos terapeutas, sem os riscos da transferência e contratransferência.

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Não tem como escapar: volto à novela Avenida Brasil. À parte o prêmio Emmy de melhor atriz que Adriana Esteves merece pelo papel da Carminha, que garantiu seu ingresso no restrito clube de grandes atrizes da dramaturgia nacional, a Psiquiatria tornou-se protagonista nos últimos dias. Assédio moral, internação involuntária, surtos de agressividade, a novela está parecendo um compêndio de psiquiatria forense.

Para os que não sabem, a Carminha está sendo chantageada por sua ex-enteada, Nina, que armou uma vingança cruel. Sem entrar em detalhes, basta dizer que a moça colocou a ex-madrasta numa situação de absoluto cerco, submetida aos seus caprichos sem a menor possibilidade de escapar. Usando o poder que adquiriu sobre ela ao fotografá-la com o amante, subtraiu-lhe totalmente a autonomia, humilhou-a continuamente e a ameaçou durante dias. Essa é uma situação análoga ao assédio moral, tão em moda hoje em dia. Às vezes ouço pessoas preocupadas, dizendo que não se pode mais repreender um funcionário por medo de processos por assédio, mas na verdade não se trata disso. É essa situação de cerco inescapável armado por algum tipo de poder que caracteriza o assédio moral. Ele não é um transtorno psiquiátrico por si só, mas sim um problema jurídico. Ocorre que é muito comum as pessoas a ele submetidas não aguentarem a pressão e adoecerem ou “surtarem”, aí sim a questão se torna um problema médico. Ao que parece Carminha não surtou de fato, não adoeceu, mas perdeu o controle por diversos momentos, ficando agressiva, pulando a janela da casa até ser considerada louca pela família, que não sabe da chantagem.

Após algum tempo os parentes decidiram que ela estava mesmo fora do controle e resolveram interná-la. Obviamente, sabendo que não está doente, ela foi contra, o que motivou a sempre traumática internação involuntária. Embora possa parecer uma arbitrariedade, um abuso do poder médico, não é raro que tal modalidade de internação seja de fato necessária. Alguns pacientes perdem a noção da realidade por conta de suas doenças psiquiátricas, e passam a se recusar a tomar remédios, fazer exames ou ir a consultas. Não é uma decisão livre e racional, obviamente, mas fruto de delírios, ausência da capacidade de distinguir o real do irreal; por conta disso, desrespeitar tal “vontade” é o melhor que se pode fazer, tratando-os na marra até que o surto melhore, quando então a autonomia é recuperada, ao menos parcialmente (o que não costuma demorar). A lei brasileira é bastante clara com relação a essas internações: a psiquiatria é uma das poucas especialidades médicas que tem uma lei própria para sua regulamentação, justamente para evitar abusos.

E por fim o médico da novela disse que Carminha poderia ser bipolar, o que talvez explicasse seus comportamentos instáveis. Esse é mais um diagnóstico psiquiátrico que, caindo no gosto popular, vem sendo mal utilizado como sinônimo de instabilidade. Transtorno bipolar não é isso. Nele a pessoa tem fases claras de depressão, aquelas com profunda tristeza, desânimo, choro e pensamentos negativos durante um tempo, mas em outras ocasiões fica exatamente o oposto: com excessiva alegria (excessiva mesmo, exagerada), energia sem fim, desinibida, rindo à toa, falando muito rápido. E além disso, entre essas fases fica normal, sem qualquer sintoma. Ou seja, não basta estar um pouco mais triste num dia e feliz num outro. Nem sequer basta ser alguém “de lua”. Usar um diagnóstico de forma leviana pode estimular o uso de medicamentos de forma inadequada, com prejuízos para todos.

Pelo ritmo de seriado que essa novela tem imagino que a Carminha logo saia da tal clínica e novos elementos da história surgirão. Não sei não, mas acho que essa ainda não é a última vez que falamos sobre Avenida Brasil.

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Gostei bastante do novo quadro do Fantástico: Phantasmagoria. Com auxílio de um mágico profissional e ouvindo especialistas em diversas áreas, de engenharia a neurologia, o programa é uma mistura de reality show com reportagem investigativa, e promete tratar de diversos fenômenos paranormais frequentemente relatados em nossa cultura. Embora o tom da apresentação queira manter no ar certa dúvida, deixando em aberto se fantasmas existem ou não, o próprio nome do quadro já entrega o jogo. Phantasmagoria era uma técnica de ilusionismo muito famosa na época do Romantismo (quando as pessoas estavam fascinadas pelo oculto, pelo gótico) na qual imagens de esqueletos, espíritos e demônios eram projetadas em paredes, cortinas, na fumaça, dando a impressão – falsa – de um contato com o além. Ou seja, o quadro busca explicações naturais para os fenômenos investigados, mostrando que essas experiências podem no fundo ser apenas “normais”, sem o prefixo “para”.

No primeiro episódio um casarão com fama de mal-assombrado foi monitorado por câmeras, e três voluntários tinham que ficar sozinhos em seu interior, à noite e com as luzes apagadas, usando apenas lanternas. Cada um devia cumprir uma tarefa, como chamar um espírito, procurar vultos nas árvores ou nas escadarias. Durante todo o tempo eles eram filmados e carregavam suas próprias câmeras para registrar o que acontecia. Nem precisa ser esperto para adivinhar que todos ficaram com muito medo, tendo experiências como sentir cheiro de vela ou ter uma “sensação estranha”, mas nenhum espírito foi encontrado cara-a-car. Os especialistas foram então ouvidos, procurando explicações científicas para os fenômenos relatados. No fim, ficou a pergunta: você acredita nos cientistas ou nos fantasmas?

O que aconteceu com o trio bate com o que as pesquisas mostram sobre casas assombradas: o contexto e as expectativas levam as pessoas interpretar fenômenos comuns como sinais do além que esperam encontrar. Estudando quase mil relatos de experiências sobrenaturais descobriu-se que ver uma aparição nítida, de forma clara, é extremamente raro (menos de 1% dos casos). E praticamente só quando se está pegando no sono ou acordando, momento em que é comum haver episódios de alucinações passageiras. Fora isso, em um terço das vezes o que ocorre são visões rápidas, como vultos ou flashes de luz; em outro terço são sons que assustam, como passos ou batidas; e o restante são uma miscelânea, incluindo cheiros, sensações subjetivas, arrepios etc. Além de serem pouco consistentes, outro estudo mostrou como esperar tais sinais torna as pessoas sugestionadas. Vinte e dois voluntários foram levados para um teatro abandonado, metade deles achando que ele estava em reforma, metade que ele era mal-assombrado. As pessoas tinham que anotar qualquer experiência, como odores, barulhos, cenas, que pudessem ser interpretadas como estranhas ou incomuns, e – surpresa – as que achavam que o lugar era habitado por espíritos registraram muito mais fenômenos estranhos do que os outros, em todos os sentidos.

Por isso desejo que Phantasmagoria alcance boa audiência. Se as assombrações nascem da expectativa de encontrá-las, quanto mais as pessoas conhecerem explicações, menos acreditarão em fantasmas. É um quadro que, por trás de toda a pirotecnia inerente à TV, estimula o raciocínio crítico ao colocar em cheque algumas crenças pré-concebidas dos telespectadores. Num programa de TV, popular, domingo à noite, isso é quase sobrenatural.

Pós-escrito – quando escrevi esse post eu ainda não havia sido convidado para participar do quadro – seria elogio em causa própria, o que é muito feio.

ResearchBlogging.org
Lange R, Houran J, Harte TM, & Havens RA (1996). Contextual mediation of perceptions in hauntings and poltergeist-like experiences. Perceptual and motor skills, 82 (3 Pt 1), 755-62 PMID: 8774012
Lange R, & Houran J (1997). Context-induced paranormal experiences: support for Houran and Lange’s model of haunting phenomena. Perceptual and motor skills, 84 (3 Pt 2), 1455-8 PMID: 9229473

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Fui convidado para dar uma palestra sobre a influência dos desenhos animados no comportamento das crianças. Adorei o convite, já que agora tenho filho pequeno e em breve me depararei com a pergunta: será que o que as crianças assistem modifica sua forma de agir?

Nos anos 60 os trabalhos do psicólogo Albert Bandura fizerem um tremendo sucesso por comprovar, pela primeira vez, o que muitos pais já tinham percebido desde a popularização da TV anos antes: as crianças tendem a imitar o que assistem. Videos de adultos agredindo, xingando e hostilizando um boneco joão-bobo eram apresentados para crianças antes de elas brincarem numa sala onde, entre vários brinquedos, havia o bobo. Os resultados gerais mostraram que quem tinha visto o vídeo com atos agressivos demonstrava o dobro de atitudes violentas na sala de brinquedos.

Descobri que esse assunto foi bastante estudado na esteira do Bandura, nas décadas de 60 e 70, mas depois disso parece que perdeu o apelo, talvez porque já se considere essa uma pergunta respondida, talvez porque as preocupações tenham se voltado para os videogames a partir dos anos 80. De qualquer forma, em 2006 foi feita uma revisão da literatura específica sobre desenhos animados, que buscou reunir os principais achados das pesquisas, tanto em laboratório como no ambiente natural das crianças; o resumo da ópera é o seguinte:

1 – o humor atenua a percepção da violência, e provavelmente é por cauda disso que desenhos como Papa-léguas, Pica-Pau ou Pernalonga, mesmo com muitas cenas agressivas, não modifica o comportamento das crianças;
2 – a ausência de humor torna a agressão mais evidente, e estudos de laboratório e de campo (nos quais as crianças passavam alguns dias vendo desenhos de super-heróis, por exemplo) mostraram que essas animações sim, aumentava a expressão de comportamentos agressivos, tanto na escolha de brinquedos, como nas relações inter-pessoais;
3 – a influência dos desenhos é mais evidente em crianças que já tenham distúrbios do comportamento. Isso mostra que os desenhos animados são apenas uma dentre as muitas variáveis que interferem com as atitudes das crianças; aquelas que têm maior capacidade de se controlar lidam melhor com tais fatores;
4 – o principal meio de evitar a influência negativa da violência da TV é assisti-la junto com os filhos. A mediação ativa, na qual se conversa sobre o que está sendo visto, apontando não apenas os comportamentos negativos dos personagens, mas também as consequências para as vítimas, é eficiente em evitar a imitação de comportamentos agressivos.

Para mim, numa interpretação livre e algo controversa desses dados, pode-se concluir que a qualidade da TV para as crianças é diretamente proporcional à qualidade dos seus pais.

ResearchBlogging.org
Steven J. Kirsh (2006). Cartoon violence and aggression in youth Aggression and Violent Behavior, 11, 547-557 DOI: 10.1016/j.avb.2005.10.002
Bandura, Albert;, Ross, Dorothea;, & Ross, Sheila A. (1963). Imitation of film-mediated aggressive models. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 66 (1) DOI: 10.1037/h0048687

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É coisa rara eu recomendar novela. A última vez que lembro de ter tratado do tema de forma empolgada foi na época em que Wagner Moura encarnava um executivo conflituosamente apaixonando-se por uma prostituta, interpretada pela Camila Pitanga. Se volto ao assunto é porque tenho visto novamente grandes talentos sendo usados em favor de personagens bem construídos. Já tinha falado de Avenida Brasil, mas gostaria de aprofundar dois aspectos da entrevista que dei para o Caderno 2 que fazem dela uma novela diferente.

Embora traga tramas paralelas que seguem a fórmula padrão, de conflitos que se arrastam ao longo da história toda, o núcleo da narrativa é muito mais ágil do que as novelas usuais, e os personagens mais complexos. A vilã é carola, e embora seja de péssimo caráter ama o filho com afeto genuíno. A mocinha é bondosa mas de uma frieza ímpar quando o que está em jogo é sua vingança, motivo pelo qual ela está disposta até mesmo a abrir mão do amor.

Além da velocidade de resolução dos conflitos, que não passam duas semanas sem ser resolvidos, a construção dos personagens e das histórias também é mais sofisticada. Não sou teórico das letras, mas arrisco uma comparação literária: as novelas brasileiras estão para os seriados americanos atuais como o romantismo estava para o realismo. Enquanto o primeiro trazia personagens idealizados e histórias menos complexas, o último abandonou tais convenções, substituindo os heróis por pessoas comuns, cujas contradições criavam cenários mais complicados.

Torço para que a dramaturgia brasileira siga nesse caminho de sofisticação. Não porque devemos imitar os americanos. Mas porque personagens nem totalmente bonzinhos nem cem por cento malévolos refletem a ambiguidade que existe em todos nós, e por isso conseguem gerar mais identificação. A empatia, afinal, pressupõe certa capacidade de identificação: o campo de estudo da “teoria da mente” afirma que a cognição e a interação social adequadas só são possíveis quando conseguimos atribuir estados mentais aos outros, imaginando o que eles estão pensando ou sentindo. E é mais fácil se identificar com desejos ruins que um personagem bom com raiva possa ter do que com heróis totalmente abnegados. E mesmo uma vilã que consegue amar é mais próxima das pessoas comuns do que alguém absolutamente incapaz de afetos.

Afinal de contas, nós mesmos estamos bem longe de ser personagens ideais.

ResearchBlogging.org
Brown EC, & Brüne M (2012). The role of prediction in social neuroscience. Frontiers in human neuroscience, 6 PMID: 22654749

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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