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Daniel Martins de Barros

Sexo, drogas e futebol. Ou música. Dois personagens resgatados nos últimos tempos que tiveram suas vidas marcadas pelo exagero desses elementos estão em cartaz em interpretações que vão marcar a história da dramaturgia nacional. Sem exagero.

Em ordem cronológica, comecemos com Heleno de Freitas, jogador de futebol que foi um dos primeiros popstars dos gramados. Formado em Direito, vindo de família abastada, Heleno tinha a empáfia de quem sabe que é melhor do que os outros e uma arrogância que o impedia de disfarçar que sabia disso. Viciado em lança perfume e mulherengo, briguento e estourado, contraiu sífilis jovem e morreu aos 39 anos, quando a doença, atingindo seu cérebro, deixou-o – literalmente – louco. O filme Heleno, do diretor José Henrique Fonseca, traz Rodrigo Santoro no papel título do jogador, numa interpretação cuja força pode ser atestada na balança: para retratar a fase final de Heleno, internado num asilo em Barbacena, Santoro emagreceu doze quilos. Levando em conta que ele já estava em forma para interpretar um atleta de ponta, tem-se a dimensão da entrega ao personagem. É o tipo de sacrifício que o faria por as mãos no Oscar, fosse nos Estados Unidos. Ao fugir da caricatura e optar por mostrar o personagem como um todo, Santoro mergulhou no papel – estudou durante cinco anos para o filme – e voltou à tona com uma das melhores, se não a melhor interpretação de sua carreira.

Entrega semelhante pode ser vista na interpretação teatral que Tiago Abravanel faz de Tim Maia. Após ser aprovado para o papel do músico tijucano, Abravanel fez um laboratório intensivo de seis semanas, não só estudando a biografia de Tim, na qual o espetáculo se baseia, mas assistindo 20 horas de gravações do cantor. Seria injusto dizer que se trata de uma boa imitação. Muito mais do que isso, ele representa a vida de Tim Maia da juventude até a morte – com 55 anos – mudando não só o tamanho da barriga, mas a própria forma de cantar: é notável perceber como a voz límpida do início da carreira vai dando lugar à rouquidão com a decadência física do cantor. Como os grandes ícones da música mundial, a vida de Tim Maia foi vivida numa intensidade incompatível com a longevidade, com romances violentos e, sobretudo, excesso de drogas. Desde que foi introduzido ao mundo dos psicotrópicos não parou mais, experimentando muito de tudo, de maconha a LSD, de álcool a cocaína, por vezes tudo ao mesmo tempo. Os prejuízos não foram só na saúde, mas a carreira e a vida pessoal seguiram o mesmo rumo, história que a peça pontua com canções interpretadas com maestria por Tiago Abravanel em quase três horas de espetáculo.

Popstars morrem mais cedo mesmo. Não é mito: a vida extremada, o contínuo estresse pela performance, a disponibilidade de álcool e drogas, tudo isso faz com que os famosos, pelo menos do mundo da música, morram 70% a mais do que a população geral nos anos seguintes ao sucesso. Só após vinte e cinco anos do início da fama os índices de mortalidade voltam ao normal. Significativo é perceber que o risco era maior para os que estouraram antes de 1980 – do final do século para cá parece que as pessoas estão menos tresloucadas.

Alguns podem achar que é a caretice da nossa época, preocupada demais com a saúde e com o politicamente correto, e que só essa loucura produz verdadeiros talentos. Mas talvez seja o contrário. Heleno de Freitas teve que implorar para conseguir jogar uma só partida no Maracanã – que era seu sonho – por causa de sua decadência física, e Tim Maia viu seus shows rarearem e os discos encalharem depois que sua carreira desandou. Pode ser caretice, mas fico com a impressão que essa loucura toda mais atrapalhou do que ajudou, impedindo-os de brilhar ainda mais.

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Bellis, M., Hennell, T., Lushey, C., Hughes, K., Tocque, K., & Ashton, J. (2007). Elvis to Eminem: quantifying the price of fame through early mortality of European and North American rock and pop stars Journal of Epidemiology & Community Health, 61 (10), 896-901 DOI: 10.1136/jech.2007.059915

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Na semana que passou tive o grande prazer de assistir John Malkovich no Teatro Municipal de São Paulo na peça The infernal comedy. No papel de Johann Unterweger, Malkovich contracena com duas sopranos, que, cantando trechos de óperas famosas, pontuam seu monólogo de pouco menos de duas horas sobre as desventuras desse famoso serial killer. A peça é uma comédia a la Guilherme Arantes, na qual não é possível “sorrir sem um travo de amargura”.

Embora eu seja um crítico implacável da banalização do diagnóstico de psicopatia, hoje em dia utilizado levianamente como sinônimo de vilania ou maldade, acredito que Unterweger tenha sido mesmo um psicopata. Mas sua história ilustra dois aspectos dessas pessoas: há uma linha de estudo nova que procura diferenças entre os psicopatas bem e mal-sucedidos. E ele foi um pouco de cada.

Com uma carreira criminal de início precoce, passou a adolescência e início da idade adulta entrando e saindo de reformatórios e prisões, até ser preso por assassinar uma prostituta em Viena, estrangulando-a com seu próprio sutiã. Até aqui ele não se diferenciava dos psicopatas mal-sucedidos. Mas então ele começou a escrever. E seus artigos passaram a fazer sucesso entre a elite austríaca. Convenceu escritores e intelectuais de sua reabilitação e levou-os a interceder por ele junto à justiça, conseguindo finalmente uma condicional em sua sentença (originalmente prisão perpétua). Libertado, o que já seria por si só um sinal de sucesso, passou a escrever regularmente para revistas sobre prostituição e criminalidade, o que lhe dava acesso irrestrito (e insuspeito) a prostitutas, chegando a acompanhar diligências policiais em investigações de novos assassinatos. Foram necessários mais alguns anos para que se descobrisse que após sua libertação ele matara mais seis prostitutas em Viena, e outras três em Los Angeles, onde fora morar no ano seguinte, sempre estranguladas com seus sutiãs. Condenado, cometeu suicídio ao saber da sentença, usando uma corda feita de cadarços com nós idênticos aos utilizados no assassinato das suas vítimas.

Tem-se proposto que os psicopatas de sucesso são aqueles mais para manipuladores do que para violentos, muitas vezes conseguindo escapar das condenações, ao contrário dos mal-sucedidos, que são mais agressivos, impulsivos e que acabam por ser presos. Os primeiros resultados das pesquisas apontam para diferenças no funcionamento fisiológico e cognitivo, sendo os bem sucedidos menos prejudicados em termos de capacidade de planejamento, condicionamento pelo medo e mesmo empatia.

Johann Unterweger transitou entre os dois universos – conseguiu manipular e fugir da justiça, mas não abandonou os crimes violentos que acabaram por condená-lo definitivamente. A explicação, no seu caso, pode ser menos neuropsiquiátrica e mais biográfica: como ele mesmo diz na peça (quando ressuscita para lançar sua autobiografia), antes de matar pela primeira vez ele era só mais um bandido. Depois do primeiro homicídio ganhou certo status, adquirindo respeito e mesmo uma identidade “respeitada”. A chave da resposta talvez esteja, portanto, seja sua própria frase: “Entre ser um assassino e ser ninguém, prefiro ser um assassino”.

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Gao, Y., & Raine, A. (2010). Successful and unsuccessful psychopaths: A neurobiological model Behavioral Sciences & the Law DOI: 10.1002/bsl.924

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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