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Daniel Martins de Barros

A psicologia das massas ajuda a explicar manifestações como essa, que descambam para violência e vandalismo. Quando uma multidão se junta, por qualquer motivo, o comportamento das pessoas deixa de ser individual. É como se fosse uma entidade se comportando: a massa. O indivíduo diminui seus freios e ganha coragem. Como a responsabilidade é dividida, a pessoa acaba fazendo coisas que não faria se estivesse sozinha.

Isso não significa que seja um comportamento justificável; é compreensível. O comportamento da massa, aliás, nem sempre é negativo. A gente vê reuniões de milhares de pessoas que não descambam para atitudes violentas. A Marcha para Jesus e a Parada Gay são exemplos. São mobilizações que têm um objetivo e esse fundamento é traduzido no comportamento da massa.

Alguns teóricos dizem que esse comportamento nunca é totalmente irracional. Poderíamos arriscar uma interpretação livre: “O aumento da tarifa reduz minha mobilidade e agora vou reduzir a mobilidade da cidade”. Não por acaso picharam ônibus e obstruíram o trânsito em vários pontos.

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As imagens mostrando o corre-corre dos usuários de crack fugindo das abordagens da prefeitura são um prato cheio tanto para os que criticam como para os que apoiam as internações compulsórias. Isso porque essa questão vem sendo abordada por dois ângulos: o daqueles que são contrários, tidos habitualmente como liberais e de esquerda; o dos favoráveis, vistos como reacionários e de direita. Mas há uma outra maneira de enxergar a situação. Para chegarmos a ela é necessário primeiro despolitizar o fulcro do problema, para posteriormente retomar o aspecto político com outra visão.

Do ponto de vista estritamente técnico, pensando na saúde mental dos dependentes de crack que moram nas ruas é muito difícil negar que a internação contra a vontade de alguns deles seja por vezes necessária. Quando o vício se torna muito intenso o sujeito perde parcialmente sua autonomia, pois sua capacidade de não usar a droga está prejudicada (por isso mesmo a dependência é considerada uma doença, por fugir ao controle voluntário). Nos casos de uso de substâncias nem sempre é fácil distinguir quando o uso deixa de ser deliberado e passa a ser motivado pela dependência irrefreável – tanto é assim que é comuníssimo as pessoas dizerem que usam uma droga porque querem, que não desejam parar, e que quando quiserem, pararão (como ocorre com muitos fumantes). Mas quando consideramos com isenção os indivíduos que abandonaram família, emprego, amigos e foram para as ruas em função do crack, torna-se complicado negar que, para eles, a dependência química tomou totalmente conta de sua vontade, privando-os da possibilidade de se negar a usar o crack. Nesse contexto, o erro maior é não tratar dos pacientes, imaginando-se que se deva respeitar uma vontade que já não é autônoma, subjugada pela dependência.

Com isso em mente podemos voltar à política. Estabelecer ou não uma política de internações patrocinada pelo governo implica em um de dois riscos: não atuar nessas regiões, ou atuar sem a possibilidade de internações compulsórias, significa correr o risco de que esses dependentes nunca consigam sequer iniciar a abstinência das drogas, ficando sujeitos aos males da situação de rua e dependência grave. Por outro lado, a implementação de tal política traz consigo o risco de tornar os médicos e juízes instrumentos de interesses escusos dos governos, sejam econômicos, imobiliários ou quaisquer outros. Ou seja, não há saída sem riscos para situações tão graves e complexas como as das cracolândias.

Mas chega uma hora em que precisamos agir; nesse caso em particular, menos do que as inclinações políticas, deveríamos levar em conta qual risco queremos correr.

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Envelhecer é difícil, confirmou o papa Bento XVI. Para além da agenda política que possa estar por trás de sua renúncia, dos interesses e pressões dos bastidores clericais, há que se levar em conta alguns aspectos inerentes à senescência humana.

Chamou-me a atenção, em sua carta, não os motivos declarados para sua decisão – o peso da idade e a falta de forças – mas a contextualização que ele dá para tal fraqueza: “no mundo de hoje, sujeito a rápidas transformações (…) é necessário também o vigor tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu em mim de tal forma que eis de reconhecer minha incapacidade para exercer bem o ministério que me foi encomendado”.

O avanço da idade não parece ser um peso per se, mas sim a inabilidade que ele traz para lidar com a velocidade das mudanças no mundo atual. E de modo muito significativo o pontífice invocou a cumplicidade de seu próprio rebanho, dando como certo que eles hão de reconhecer sua incapacidade.

Embora o emprego de papa não seja dos mais corriqueiros, o que dificulta sua comparação com trabalhos em geral, os estudos ao redor do mundo mostram que a produtividade das pessoas apresenta uma forma de U invertido, sendo menor no início de suas carreiras, atingindo o pico por volta dos 40 anos, quando inicia um declínio que fica mais evidente a partir dos 50 anos. Claro que isso varia entre as profissões, mas a principal razão, que perpassa qualquer área, é a redução nas habilidades cognitivas que ocorre com o envelhecimento. Algumas, como a velocidade de percepção e de aprendizado decaem mais rapidamente, impactando trabalhos que exijam solução de problemas e constante reciclagem. Outras, como a habilidade linguística, mudam menos, atrapalhando pouco tarefas nas quais se requer principalmente experiência e comunicação verbal.

Imagina-se que um papa precise justamente de sabedoria, experiência, habilidades verbais –menos afetadas pelo tempo. Mas Bento XVI entendeu que o papado requer mais do que isso – exige uma sintonia com um tempo que seu corpo e mente não mais acompanham. E isso, acredita ele, todos reconhecem.

Com sua renúncia, Joseph Ratzinger entra para a história como o primeiro papa a questionar a pertinência do papado vitalício. E o faz com razão, porque ainda não descobrimos como nossa mente pode lidar com uma expectativa de vida que aumenta enquanto a estabilidadde do mundo diminui.

ResearchBlogging.org
Skirbekk, V. (2004). Age and Individual Productivity: A Literature Survey Vienna Yearbook of Population Research, 1 (2004), 133-154 DOI: 10.1553/populationyearbook2004s133

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Carlinhos Cachoeira, segundo seu advogado, está em depressão aguda depois de ter sido preso. A opinião pública tende a duvidar disso, no entanto, sobretudo diante das imagens de seu repouso na praia, supostamente seguindo recomendações médicas. De que lado estaria a verdade?
A simulação de problemas mentais é tão antiga quanto a humanidade. Encontramos sua presença desde os primórdios dos registros escritos da história, seja na Odisseia, onde consta que Ulisses se fez de louco para escapar da guerra de Troia, seja na passagem bíblica em que Davi literalmente finge babar para fugir do rei Saul. Fato é que os transtornos psiquiátricos são frequentemente alegados por pessoas que se encontram em maus lençóis.

Os motivos são vários. Em primeiro lugar, a subjetividade dos sintomas psiquiátricos torna difícil sua averiguação objetiva – é complicado provar que alguém não está sentindo o que diz sentir. Ademais, o sofrimento da alma alheia desperta nossa empatia, tornando-nos mais condescendentes. E por fim os transtornos mentais podem alterar a capacidade de entendimento do sujeito, e mesmo seu autocontrole, fato não raramente invocado por advogados de defesa. Tudo isso torna a loucura uma grande oportunidade de simulação.

Por outro lado, não se pode negar que o encarceramento abala psiquicamente as pessoas que passam por tal experiência. Independentemente das condições do local onde ocorre e da real culpa ou inocência do preso, a restrição forçada da liberdade de ir e vir é um dos mais duros golpes na autonomia individual. Transtornos ansiosos e transtornos depressivos estão entre as consequências mais comuns nesses casos. Em que pese a indignação das pessoas ao ver Cachoeira na praia, aparentemente bem, é necessário – mesmo que seja impopular – dizer que por uma foto não se pode afirmar ou negar qual o estado psíquico de qualquer pessoa. São comuns os casos em que os pacientes estão melhorando, conseguem desfrutar de bons momentos, mas ainda não estão recuperados emocionalmente de forma integral.

Tudo isso para dizer que Carlinhos Cachoeira pode ou não estar deprimido. No fundo, não é isso o que mais importa. O fundamental é que quando houver alegações levianas de doença mental estas sejam desmascaradas legitimamente, e não combatidas com avaliações superficiais, sob risco de incorrermos no mesmo erro que os desonestos.

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03.julho.2012 11:50:11

Luto

Para minha irmã Tati, pessoa especial como poucas, e para meu cunhado Marcelo, irmão mais velho que não tive.

Parece um sonho

“Parece um sonho que ela tenha morrido!”
diziam todos… Sua viva imagem
tinha carne!… E ouvia-se, na aragem,
passar o frêmito do seu vestido.

E era como se ela houvesse partido
e logo fosse regressar da viagem…
- até que em nosso coração dorido
a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora
menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora…

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
Parece um sonho que ela tenha vivido!”

Desde a primeira vez que li essa poesia de Mário Quintana, há mais de dez anos, ela me impressionou pela extrema delicadeza com que descreve o papel da memória no processo do luto. Foi só com Quintana que finalmente aprendi a apreciar a poesia.

A última vez que declamei esse poema foi há alguns dias, num dos momentos mais duros que nossa família já enfrentou. Meu sobrinho Henrique, de quatro anos faleceu subitamente. Ele tinha uma irmã gêmea, Débora, que é quem tem conseguido manter o astral da família. Ainda parece um sonho que ele tenha morrido.

Parece um sonho, e é como se ele “logo fosse regressar da viagem”, porque todas as representações mentais da realidade ainda o incluem: quando víamos a Débora logo em seguida víamos o Henrique; quando um chamava o outro respondia; quando abríamos a porta, ambos acorriam aos gritos. Esses eventos repetidos e repetidos condicionam os próprios neurônios, e quando vemos a irmã já visualizamos – literalmente – a presença do irmão; por isso que, no luto recente, a “viva imagem tinha carne” – a área visual do cérebro forma a imagem da criança, mas ela não vem. No nosso cérebro sua voz, sua figura, os afetos que ele desperta, ainda estão ativos na sua ausência, não muito diferente do que se ele estivesse na escola. Mas de repente lembramos que ele não vai voltar. É um susto, pois a realidade nega o que o cérebro informa. Parece mesmo um sonho. E é nessa hora que a dor crava “seu punhal selvagem” “em nosso coração dorido”.

Mas novas memórias vão aos poucos sendo construídas. Depois de um tempo os neurônios reaprendem e já não antecipam a visão dele. Quando isso ocorre, a imagem se torna “menos dos olhos, mais do coração”, pois as áreas visuais já não se adiantam criando sua figura. Mais cedo ou mais tarde o cérebro irá se desfazer dessas vívidas representações, acabando com a expectativa de encontrar o Henrique a qualquer momento. E como estamos passando esse processo amparados por tantos amigos e irmãos, tendo na fé não uma forma de negar a dor, mas ao contrário, uma possibilidade de sofrê-la em sua totalidade sem desmoronar, chegará a hora em que nossa saudade o sorrirá, não mais chorará.

Por fim, quando a realidade remodelar o cérebro construindo novas representações sem o Henrique, não será mais espanto lembrar de sua ausência, mas sim de sua existência. E embora a saudade seja eterna, o tempo roubará da dor sua força, pois a partir de então parecerá “um sonho que ele tenha vivido”.

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09.junho.2012 20:36:05

Crimes por paixão

Ainda é muito cedo para saber exatamente o que se passou no caso do assassinato e esquartejamento do empresário Marcos Kitano Matsunaga. Não é por acaso, no entanto, que já se fala nos casos extraconjugais que ele teria e também na apólice de seguros que beneficiaria a viúva: homicídios, quando envolvendo pessoas comuns, frequentemente são motivados por paixões; e sabemos muito bem que sexo e dinheiro figuram entre os principais objetos da paixão humana.

A viúva Elize Matsunaga disse que atirou no marido após ser agredida numa discussão, o que é compatível com um ato cometido no calor da hora, mobilizado pela emoção. Mas ao mesmo tempo parece ter havido alguma preparação, dado o aparentemente planejamento prévio do esquartejamento e sumiço do corpo.

Isso não é necessariamente uma contradição: embora o crime passional seja mais frequentemente associado atos realizados num arroubo de raiva, o planejamento não impede que se trate sim de um crime movido por paixão – por isso chamado passional. Estados afetivos muito intensos, dificultando a correta avaliação do comportamento, são chamados de catatimia, que significa “em acordo com as emoções”. Nesses casos a intensidade dos afetos da pessoa é de tal monta que pode distorcer o raciocínio, os pensamentos, levando eventualmente ao que o psiquiatra alemão Fredric Wertham chamou de “crise catatímica”. Não que o estado emocional por si só leve ao ato criminoso, mas emoções muito intensas geram ideias distorcidas, medo ou tensão crescentes, até dar lugar à tal crise, quando o balanço entre lógica e afetividade fica perturbado e a pessoa conclui que o ato violento é a única saída. Normalmente ela consegue adiar o ato por um tempo, mas chega o ponto em que o conflito se torna insuportável e o crime finalmente ocorre.

Para a lei, no entanto, esse estado não pode ser invocado como superior à capacidade racional do indivíduo. No Código Penal brasileiro consta, no artigo 28, que “Não excluem a imputabilidade penal: I – a emoção ou a paixão”. Ou seja: mesmo que motivada por estados afetivos intensos, como ocorre na catatimia, a pessoa continua sendo responsável por seus atos, uma vez que não teve um prejuízo real e global em sua racionalidade.

Assim, como o que define o ser humano – ao menos até hoje – é ser um animal racional, a opção da lei é somente excluir a pena quando ao criminoso falta o discernimento ou autocontrole em virtude de doença mental. O crime passional, portanto, muitas vezes invocado como justificativa para atos extremos, não isenta as pessoas de sua responsabilidade, pois estar “louco de amor” é bem diferente de estar mentalmente doente.

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Achei comovente a foto do Lula careca e sem barba, junto a sua esposa. Havendo ou não cálculo político por trás da cena, ela é corajosa por expor uma situação de grande fragilidade pessoal.

Os pelos corporais são parte da nossa imagem, por isso mudanças radicais no cabelo, barba etc., sobretudo quando ocorrem no contexto do adoecimento, podem ser bastante traumáticas. No caso específico da perda de cabelos por conta do tratamento de câncer existem ainda implicações mais profundas: comparando as consequências emocionais desse efeito colateral em homens e mulheres identificou-se que, embora o impacto nos homens seja subestimado (o que se nota pela escassez de estudos sobre o tema), a calvície decorrente da quimioterapia traz para o sexo masculino a sensação de exposição, de perda de controle sobre a doença, fazendo-os se sentirem julgados e estigmatizados como “cancerosos”. E ainda mais do que as mulheres eles se ressentem da perda dos pelos de outras regiões corpóreas. Por outro lado, é interessante notar que raramente se sugere ao homem que utilize uma peruca para minimizar a mudança no visual, como é a regra no caso das mulheres. Mas o uso de perucas, tanto quanto a calvície, é também visto como uma agressão ao impor uma alteração na imagem corporal do doente contra sua vontade.

O caso de Lula tem atenuantes, mas também agravantes.

Uma das principais queixas dos pacientes é que perder os cabelos revela às pessoas que eles estão com câncer, coisa que geralmente se prefere esconder. Como o ex-presidente já viera a público declarar sua doença, esse desconforto pode não lhe ser tão penoso. No entanto, existe toda uma sociologia dos cabelos (literalmente, como mostra o título do estudo abaixo), segundo a qual os sinais que mostram os pelos corporais são símbolos poderosos. Por exemplo, “ideologias opostas têm pelos opostos”: se a regra é ter cabelos curtos, usá-los longos será um sinal de protesto; a barba, que era o padrão no século XIX tornou-se mais rara no século XX, fazendo seu uso ser também revestido, em certa medida, de uma postura anti-establishment (há empresas que até hoje as proíbem aos funcionários). No caso de Lula isso foi mais do que evidente: nos anos oitenta, quando encarnava a própria oposição, sua barba era vasta e vistosa, mas com o passar do tempo, conforme foi se aproximando da situação ela foi minguando. Ainda assim, era para ele um símbolo forte cuja perda deve ter causado um impacto que não pode ser menosprezado. E como estamos falando de um político os cabelos são de importância ímpar, pois segundo essa sociologia capilar a calvície é vista como sinal de envelhecimento e, portanto, de fraqueza e aproximação da morte (vide a história de Sansão e Dalila), péssimos na política. Pode ser exagero interpretativo, mas o fato é que raramente vemos políticos calvos eleitos para cargos majoritário (a última vez em que os americanos elegeram um careca presidente dos EUA foi em 1956, antes da massificação das transmissões de TV).

Por isso que, sem entrar em ideologias partidárias ou políticas, considerei a foto comovente: porque vi ali a imagem de um homem forte o bastante para não esconder sua fraqueza.

ResearchBlogging.org
(I) Hilton, S., Hunt, K., Emslie, C., Salinas, M., & Ziebland, S. (2008). Have men been overlooked? A comparison of young men and women’s experiences of chemotherapy-induced alopecia Psycho-Oncology, 17 (6), 577-583 DOI: 10.1002/pon.1272
(II) Synnott, A. (1987). Shame and Glory: A Sociology of Hair The British Journal of Sociology, 38 (3) DOI: 10.2307/590695

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Desafio: duvido você conseguir prestar atenção nesse texto até o fim. Sem abrir outras janelas na internet. Sem falar no Messenger. Sem mandar torpedos. Só ler o texto e pensar nele. Aposto que você não conseguirá, mesmo sendo um texto bem curtinho.

E agora? Será que você sofre de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)? Pelo visto você preenche alguns dos critérios diagnósticos: incapacidade de se focar numa única atividade, dificuldade de concentração, atenção dispersa em diversos estímulos… hum, não sei não. Que tal um remedinho?

Esse parece ser o caminho que tem sido tomado por muitas pessoas no Brasil de acordo com uma pesquisa divulgada no 3o Congresso Internacional de TDAH. Os resultados já causam polêmica, mas vale a pena olhá-los com certo cuidado:

Os pesquisadores entrevistaram 5961 sujeitos entre 4 e 18 anos, bem como seus pais e professores, em 87 cidades de 18 estados brasileiros, utilizando instrumentos padronizados para o diagnóstico de TDAH. Descobriram que quase 500 pessoas já haviam recebido esse diagnóstico por um médico, mas apenas 23,7% destas preenchiam critérios rigorosos para serem ditas portadoras de TDAH. E dos que tomavam remédios apenas 27,3% se enquadravam nos mesmo padrões. O nível econômico das famílias interferiu diretamente com esses resultados: a alta renda favorecia o erro diagnóstico e se associava a mais uso de medicamentos. Paradoxalmente, das crianças que deveriam ter sido diagnosticadas de acordo com as regras internacionais, 58,4% nunca tinham sido identificadas.

Fica claro que fazer o diagnóstico de déficit de atenção é fácil, difícil é fazê-lo corretamente. Os autores imaginam – e eu com eles – que existam pressões sociais mais pronunciadas nas classes abastadas para que as crianças sejam tratadas. Mas eu arrisco ainda mais um fator: quando maior o nível social, mais acesso a estímulos dispersivos que simulam um déficit de atenção, como computador, video game, iPad, smartphone, PSP e por aí vai. E se você conseguiu cumprir o desafio de só ler esse texto e mais nada nos últimos minutos, pode atestar como é difícil não ser capturado por esse mar de informações, não é verdade?

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ResearchBlogging.org Marco Arruda, Maria Valeriana Moura-Ribeiro, José Hércules Golfeto, Marcelo E. Bigal, & Guilherme Polanczyk (2011). Are psychostimulants overprescribed in Brazilian school-aged children? A nationwide study 3 rd International Congress of ADHD

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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