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Daniel Martins de Barros

É muito interessante perceber que existem diagnósticos da moda e fora de moda. E entre eles, os com charme e os sem charme. Quando dou palestras e explico os critérios para determinar se alguém tem déficit de atenção, todo mundo leva as mãos à cabeça e pensa: “Meu Deus, eu tenho isso”; a mesma coisa acontece com ansiedade e até mesmo depressão. Já quando explico o que é psicopata e o que é histérica, novamente tudo mundo se desespera, mas dessa vez pensando: “Meu Deus, meu chefe é um psicopata” ou “Minha chefe é histérica” – ser deprimido ou desatento vá lá, mas psicopata ou histérico são só os outros.

Uma busca no acervo on-line do Estadão mostra um fenômeno curioso: da década de 80 para cá, o termo “histérica” aparece mais ou menos 15 vezes por ano no jornal, numa taxa estável. Já o termo “psicopata” subiu das mesmas 15 vezes por ano nos anos 80 para 45 vezes/ano nos anos 90 e chegou a quase 70 vezes/ano nos anos 2000. E só em 2010 a apareceu em 164 ocasiões no jornal. Já “déficit de atenção” começou a surgir nos anos 90 no jornal (4 vezes na década), subiu para 5 vezes por ano nos anos 2000 e em 2010 apareceu 30 vezes.

Arrisco uma explicação para essas tendências: o diagnóstico de histeria não consta mais dos manuais médicos desde os anos 80. Ao cair em desuso no meio acadêmico, com o tempo saiu também de moda entre a população geral. Fenômeno exatamente oposto ao da psicopatia e déficit de atenção. O primeiro foi resgatado pela academia a partir dos trabalhos do canadense de Robert Hare, nos anos 70, e após sua consolidação no meio científico foi sendo incorporado pela sociedade. E o diagnóstico “transtorno de déficit de atenção e hiperatividade” surgiu com esse nome no fim dos anos 80, seguindo a mesma via.

O conhecimento científico normalmente caminha dos periódicos técnicos para os veículos de divulgação de ciência, desses para a mídia leiga e finalmente ganham a massa. Mas essa é uma via de mão dupla, como fica claro quando lidamos com o comportamento humano: a psicologia do senso comum é influenciada pela ciência e ao mesmo tempo em que a influencia (antes de serem cientistas, os pesquisadores são pessoas).

Esse não é o problema – é bom que saiba-se que doenças existem e podem ser tratadas. O risco é que nesse verdadeiro telefone sem fio muitas vezes a informação vai sendo distorcida, levando a um abismo entre o que os cientistas dizem e o que as pessoas repetem. E na ânsia de encontrar explicações – e principalmente soluções – para seus sentimentos e sofrimentos, às vezes as pessoas começam a ver doença onde não tem, recorrendo remédios inutilmente.

Nesses casos, inverte-se a recomendação, pois ao persistirem os sintomas vemos que o médico nem deveria ter sido consultado.

ResearchBlogging.org
CALSAMIGLIA, H. (2003). Popularization Discourse Discourse Studies, 5 (2), 139-146 DOI: 10.1177/1461445603005002307

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O Brasil ficou mais burro nos últimos dias. E menos bem-humorado. Bom humor e inteligência, afinal, são (ou deveriam ser) parceiros de trabalho.

Com a morte de Chico Anysio e de Millôr Fernandes calam-se duas vozes que mostravam como o humor pode ser fundamental para uma sociedade ao criticar comportamentos, expor os desvãos, confrontar-nos com nossos pecados e defeitos nos levando a repensar valores e atitudes. Para rir, afinal, somos obrigados a pensar.

A teoria clássica do riso, cujas raízes remetem à Grécia antiga, particularmente a Aristóteles, dizia que o riso é sempre fruto do desprezo, da humilhação. Como Cícero escreveria em seu livro sobre a oratória, “a causa principal, se não a única causa, da hilaridade são aqueles tipos de observações que mencionam ou distinguem, de uma maneira que em si mesma não é inconveniente, algo que é de algum modo inconveniente ou indigno”. Na Renascença, com a retomada das ideias do classicismo, essa visão se manteve até mesmo entre os médicos que recomendava o riso como uma meio de regular os humores corporais: Laurent Joubert, importante médico-cientista francês, dizia que o riso está associado à alegria mas nunca fica dissociado da tristeza, pois “Como tudo que é ridículo se origina da feiúra e da desonestidade (…) qualquer coisa ridícula nos dá um prazer e uma tristeza combinados”. Essas teorias foram se modificando ao longo do tempo, mas até os tempos atuais acredita-se que o humor traga consigo sempre algo de agressivo, de violação. Como dizia Hobbes, fazer graça “consiste em descobrir e mostrar à nossa mente, com elegância, alguns absurdos cometidos pelos outros”. É aí que reside o dom dos humoristas talentosos.

Homens dotados de enorme inteligência, Chico e Millôr eram capazes de nos mostrar problemas sem perder a elegância, fazendo piadas, como recomendava Cícero, “de uma maneira que em si mesma não é inconveniente”. Eles sabiam que os defeitos e vícios que denunciavam, quer em textos, desenhos ou personagens, faziam rir não por agredir indivíduos, mas por se utilizar da possibilidade de um “riso não ofensivo” que o próprio Hobbes achava possível – aquele que ocorre quando rimos “dos absurdos e dos defeitos que abstraímos das pessoas, em situações nas quais todos podem rir em conjunto”.

Embora Chico Anysio dissesse que no humor ninguém é substituível, torço para que outros comediantes ocupem o nicho da crítica elegante, que faz pensar e rir ao mesmo tempo. Esse lugar fica praticamente desocupado quando comediantes voltam-se para ofensas pessoais em espetáculos “proibidões”. Como o stand-up, que vem dando o tom do humor no país, é novo por aqui (apesar de iniciativas isoladas anteriores, como do próprio Chico e alguns outros), acho que ele está passando por uma espécie de adolescência, fazendo da rebeldia gratuita sua bandeira e desqualificando como babacas quem levanta objeções. Tomara isso passe. Pois se virar adulto, quem sabe esse humor também trocará o ímpeto pela reflexão, como acontece quando amadurecemos, ganhando elegância e desenvolvendo a inteligência que sofre tanto com a partida de Chico e Millôr.

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A estreia do reality show “The Ultimate Fighter Brasil – Em busca de campeões”, no qual aspirantes a lutadores profissionais disputam vaga na maior competição mundial de vale-tudo, vem coroar o fenômeno que esse esporte se tornou. Na verdade vale-tudo é – paradoxalmente – o nome antigo de um esporte novo, o Mixed Martial Arts (artes marciais mistas), ou MMA para os iniciados. Eu não gosto particularmente, mas seu crescimento exponencial merece algumas reflexões.

Desde os primórdios da civilização nós humanos desenvolvemos meios ritualizados de expressar a agressividade inerente aos seres vivos. Encontrar maneiras de extravasar a violência sem nos matarmos deve ser até mesmo um pré-requisito para nos tornarmos civilizados. Não por acaso a luta é o esporte mais antigo da humanidade: colocar normas (criando um esporte) nos embates físicos deve ter sido uma das primeiras coisas que fizemos ao construir as sociedades. A partir de então, da luta na antiguidade clássica, passando pelos gladiadores romanos, pelas justas (combates de cavalaria) na idade média, até chegar ao boxe moderno, em cada período um jeito de bater e apanhar com regras conheceu a glória. A pós-modernidade nos trouxe o MMA.

Embora controverso e sujeito a múltiplas definições, o termo pós-modernidade foi consagrado no meio acadêmico e popular como justamente uma espécie de “vale-tudo” do pensamento. Para o filósofo Jean-François Lyotard, do ponto de vista acadêmico a pós-modernidade surge com o fracasso das grandes teorias que se propunham a explicar o mundo – fosse o marxismo, a psicanálise, o feminismo ou qualquer outra -, fracasso esse que traz a sensação de não ser possível chegar a uma verdade. Daí surge a ideia de que há várias verdades possíveis, e as ideologias passam a ser adotadas aos pedaços, conforme a escolha individual. No plano estético também o pós-modernismo é caracterizado pela mistura, pela apropriação de elementos do passado de forma acrítica. Segundo Fredric Jameson, ao contrário da paródia – que faz uma crítica histórica – trata-se de um pastiche, uma “canibalização aleatória de todos os estilos do passado, o jogo aleatório de alusões estilísticas”, que não mantém uma coesão com a história, nem para criticá-la nem para atualizá-la.

O MMA é assim. Como bem diagnosticou o colega Wilson Baldini Jr., no MMA o sujeito “é faixa-preta quarto dan de jiu-jitsu, sexto dan de taekwondo, sétimo de karatê, terceiro de judô… Caramba! Precisa de cinco vidas para somar tanta experiência.” Obviamente isso só é possível se não se domina plenamente uma técnica, mas apenas alguns golpes de uma e de outra. Como no caso das ideologias, pode-se montar um estilo aprendendo artes marciais aos pedaços. Mas essa apropriação superficial, desconectada da modalidade original, leva justamente ao pastiche, com grande prejuízo para a beleza da luta: enquanto o boxe é conhecido como “nobre arte” por requerer muita técnica e pouca briga, os próprios lutadores de MMA dizem que o trabalho deles é brigar.

Quem costuma ler esse blog sabe que não sou um saudosista revoltado. O MMA faz sucesso por refletir uma cosmovisão atual, não adianta lamentar-se e dizer que o boxe era mais nobre ou as justas mais elegantes. Ele também vai passar. Se tem uma coisa que a história ensina é que mais importante (e produtivo) do que lutar pelas coisas que mudaram é lutar contra aquelas que ainda precisam mudar.

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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