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Daniel Martins de Barros

“Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fale tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber esta situação.” Harry Gordon Frankfurt, 1986

“Com fim de aumentar a consciência pública sobre os benefícios a serem obtidos pela pesquisa sobre o cérebro, o Congresso designou a década que se inicia em 1 º de janeiro de 1990 como a ‘Década do Cérebro’.” George Bush, pai, 1990

Depois da neuroeconomia, do neuromarketing, da neuroética, neuroestética, eu proponho oficialmente a criação da neurobullshit. Li recentemente o ensaio On bullshit (Sobre falar merda, editora intrínseca, 2005) e percebi que esse fenômeno descrito pelo filósofo Harry Frankfurt no final dos anos oitenta antecipava exatamente o que viria a acontecer pouco depois com as neurociências. Finda a década do cérebro, nunca se falou tanta bobagem sobre o tema.

O essencial sobre a bullshit, Frankfurt teoriza, não é que se trate de mentiras deliberadas, nem tentativas de enganar. O ponto é que a “bullshitagem” (como já ficou conhecida no português informal) dá de ombros para a verdade. Se é mentira ou não pouco importa, porque o “bullshiteiro” (vocábulo corrente em agências de propaganda) quer mesmo é passar uma determinada impressão sobre si, seja de importância, de sabedoria etc. É aí que entra a neurobullshit – independentemente do rigor das pesquisas científicas citadas, mesmo se os resultados precisarem ser distorcidos para caber no discurso, acrescentar o prefixo “neuro” traz um ar de seriedade, sofisticação e modernidade quase irresistíveis. Daí que jornalistas, blogueiros, palestrantes, médicos, pedagogos, todos queiramos entrar para o clube do cérebro – já que está todo mundo nessa onda, não posso ficar de fora. Como ensina Frankfurt, no entanto, “a produção de merda é estimulada sempre que as obrigações ou oportunidades que uma pessoa tem de se manifestar sobre algum tópico excederem seu conhecimento dos fatos pertinentes”.

Lendo cerca de três mil notícias publicadas nos principais jornais do Reino Unido durante a “Década do cérebro”, entre os anos de 2000 e 2010, cientistas encontraram três grandes grupos de distorções nos artigos sobre neurociências: 1) tratar o cérebro como um capital – o órgão é retratado nessas notícias como um bem a ser trabalhado, aumentando seu poder e nos dando vantagens diversas; 2) usar as pesquisas como meio de segregação – diferenças entre cérebro de gordos e magros, criminosos e cidadãos de bem, homens e mulheres são relatadas como fatos, distorcendo o significado real das pesquisas; 3) invocar o cérebro como prova biológica – a subjetividade humana ganha um status de “real” e “natural” quando alocada no cérebro, por vezes justificando fenômenos como preconceito, teimosia e até mesmo a maldade, como se fossem biologicamente determinados. Na maioria das vezes as notícias eram a definição acabada de bullshit: indiferentes à correta interpretação dos dados, estavam mais preocupadas em produzir manchetes vistosas pincelando verniz de ciência do que em relatar a verdade dos fatos.

Ocorre que as pesquisas em neurociências são em sua maioria muito complexas, cheias de detalhes técnicos, tornando difícil sua interpretação mesmo por cientistas que não dominem a técnica específica usada nesse ou naquele artigo. Imagine a dificuldade de tradução para o público leigo.

Isso não quer dizer que tais pesquisas não devam ser levadas ao conhecimento geral. Ao contrário: a sociedade tem desejo cada vez maior por notícias sobre neurociências. Só que precisa ser informada com qualidade. Se em vez de nos contentarmos com as manchetes fáceis sobre o cérebro nós procurarmos obter maior rigor na informação que nos apresentam, forçando as nossas fontes a estudar mais seriamente o tema, com certeza reduziremos o espaço para a neurobullshitagem, pois, como bem diagnostica o ensaio de Frarkfurt, “É inevitável falar merda toda vez que as circunstâncias exijam de alguém falar sem saber o que está dizendo”.

ResearchBlogging.org
O’Connor, C., Rees, G., & Joffe, H. (2012). Neuroscience in the Public Sphere Neuron, 74 (2), 220-226 DOI: 10.1016/j.neuron.2012.04.004

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“Resoluções para 2013: começar a cumprir as promessas feitas em 2009″.

Essa piadinha que está rolando nas redes sociais ilustra um dos primeiros princípios de como não fazer resoluções de ano novo. Um pouco de evidência científica nesse tema tão batido pode nos dar algumas dicas de como não planejar mudanças para 2013. O profícuo Richard Wiseman estudou três mil voluntários ao longo de 2007 e compilou resultados interessantes.

Em primeiro lugar, não voltar a decisões antigas evita frustrações. Eventualmente, abordar o mesmo problema por vias diferentes pode ser uma saída – em vez de se propor a emagrecer, planejar como comer melhor, por exemplo.

Além disso, metas genéricas são muito mais difíceis de seguir. Em lugar de resolver fazer mais exercícios, é melhor definir qual atividade física será, em quais dias da semana, onde e em qual horário. Há que se manter humilde, também: estabelecer muitos objetivos de uma só vez é pedir para acumular fracassos, pondo todo o resto a perder.

Finalmente houve algumas diferenças específicas para os gêneros. Com homens funcionou melhor propor objetivos intermediários, e não apenas um grande objetivo final (ex.: “ler um livro por mês”, em vez de “ler ao menos dez livros no ano”), estabelecendo recompensas para cada pequena vitória. Já para as mulheres foi mais útil tornar as metas públicas, comentando com familiares e amigos, não só pelo suporte recebido, mas também pela sensação de maior compromisso que isso traz. Além disso, para elas foi importante tranquilizar-se diante de recaídas, reafirmando que falhas pontuais não significam um fracasso global.

Frase ideal, aliás, para fechar o ano e adotar como lema para 2013: “falhas pontuais não significam um fracasso global”. Feliz ano novo!

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Volto de férias e me deparo com a capa da Veja mostrando que a medicina “acaba de descobrir” que maconha faz mal. Sério? Quer dizer que colocar fogo em alguma coisa e ficar respirando a fumaça pode ser prejudicial à saúde? Como ninguém descobriu isso antes?

Acho muito interessante esse movimento de colocar na conta da medicina a responsabilidade pela proibição de qualquer coisa quando fica comprovado que algo “faz mal”. Isso não vale só para as drogas – vai de alimentos a hábitos, do corpo à mente. Com relação ao uso de substâncias, em particular, a autoridade é delegada na maioria das vezes ao psiquiatra, com argumentos na linha “não me venha pedir para essa droga ser liberada porque os médicos já comprovaram que vicia e faz mal”.

Eu não vou advogar a liberação nem a proibição desta ou daquela droga, mas é preciso criticar esse tipo de argumento, que tenta simplificar grosseiramente a questão, minimizando o problema que, no fundo, é de uma complexidade que não cabe numa revista semanal, num jornal ou num blog.

Em primeiro lugar, a definição do que é lícito ou ilícito usar numa sociedade não pode se dar com base só em “descobertas científicas”. A ciência, por definição, tem que ser “falseável” – ou seja, é preciso que seja possível desmentir um achado para que ele seja considerado científico. Se não for possível testá-lo e negá-lo, não é ciência, é dogma, religião. Logo, descobertas científicas são mutáveis, e estabelecer o que é certo ou errado com base nelas é construir leis em solo instável – basta ver o exemplo do ovo, do café ou do chocolate – numa época a ciência canta suas virtudes, tempos depois condena seu consumo, e agora volta a recomendar seu uso. É assim mesmo, o conhecimento científico muda muito, tornando difícil estabelecer prescrições morais a partir dele.

Além disso, a adoção de qualquer comportamento é sempre uma questão de risco x benefício. Comer, dormir, fazer sexo, usar drogas ou tomar remédios, submeter-se a uma cirurgia, exercitar-se – todas as atividades humanas trazem riscos (engordar, ficar vulnerável, morrer, ter efeitos colaterais) e benefícios (repor energia, descansar, ficar mais disposto, livrar-se de uma doença). A sociedade opta por estimular algumas coisas e proibir outras não é em função de que elas possam “fazer mal”, mas sim se o risco desse mal é compensado pelos benefícios que traz. Drogas como heroína, por exemplo, eram vendidas livremente como remédios para tosse, numa época em que a única coisa que se podia fazer para combater a tuberculose era diminuir seu sintoma mais visível. Quando a ciência provou que ela viciava, o uso não foi banido, foi apenas exigido receita médica. Décadas passaram antes que a droga fosse proibida, pois mesmo já se conhecendo seus males, esses eram superados pelos benefícios nos cálculos da sociedade. Hoje, sabe-se que a Ritalina, remédio para déficit de atenção, pode viciar e também ter efeitos colaterais importantes, mas precisamos tanto de foco em nossos dias que optamos por manter seu uso legal, exigindo prescrição médica – como será que o futuro julgará essa decisão?

Meu ponto é: liberar a maconha, proibir o tabaco, restringir o álcool ou recomendar corridas diárias são apenas superficialmente decisões médicas. Não nego que o papel do conhecimento é importante nessa equação, mas é preciso ter a clareza que as descobertas científicas são apenas uma das variáveis a pesar nesse cálculo se quisermos aprofundar realmente esse debate.

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Ainda era adolescente quando tive um insight na fila do MacDonalds. De repente me dei conta de que era inútil preencher, ainda na fila, um papelzinho dizendo qual era o meu pedido – se na hora em que eu chegava no caixa a pessoa ainda me fazia outras perguntas, por que raios o papel? Ele não acelerava o processo nem facilitava a compra. Foi necessário um nova camada de compreensão, tempos depois, até entender a estratégia – aquele funcionário que percorre a fila perguntando o que quero comer, se desejo sobremesa etc., tem o propósito de me fazer sentir atendido: assim que ele me aborda eu mudo de patamar – comecei a ser atendidos, afinal, e portanto não estou apenas esperando. Mas eis que descubro, anos depois, que a coisa não para por aí. Mais um nível de compreensão se abriu quando descobri que, além de reduzir minha percepção de espera, a estratégia diminui bastante a chance de eu desistir da minha compra e abandonar a fila. Sim, agora me parece bastante óbvio, mas eu nunca havia pensado nesses termos, nem me deparado com uma prova objetiva.

Pesquisadores canadenses descobriram que nossa postura durante a espera é bastante manipulável. A simples presença de dicas visuais, mesmo que nada tenham a ver com a tarefa que estamos para realizar, é suficiente para mudar nossa atitude. Por exemplo, há dados que mostram que as filas de caixas automáticos de banco têm, normalmente, entre 3 e 9 pessoas, que esperam entre 5 e 10 minutos para usar a máquina. Além disso, em média 20 a 25% abandona a fila, a maioria deles nos primeiros 3 minutos. Colocando postes-guias na fila, ou mesmo tapetes, que chegavam até a sexta ou sétima pessoa esperando, no entanto, os cientistas viram a taxa de abandono cair de 26% para 14% no local da pesquisa. O comportamento das pessoas também mudava apenas por terem essa sensação de “entrarem no sistema”: independente da distância em que estavam do caixa os sujeitos que pisavam no tapete ou passavam do primeiro poste-guia já pegavam a carteira ou tiravam o cartão do bolso, preparando-se para começar a tarefa – mesmo que ainda houvesse sete pessoas na sua frente.

E note como mexer em nossa cabeça é fácil: com outro grupo, os pesquisadores pediram que voluntários fizessem duas tarefas quaisquer, uma na sala 1, outra na sala 2. Na transição entre as duas salas ficavam alguns minutos numa área de espera localizada entre elas, e enquanto aguardavam tinham que responder quantas vezes achavam que acertariam uma bola de golfe a 5 metros do buraco, em 100 tentativas. Em metade das vezes um pesquisador ficava na porta da sala 1, de onde os voluntários estavam saindo, e dizia “Esperem aqui dentro da área de espera”; na outra metade ele ficava na porta da sala 2, para onde eles iriam, e dizia “Esperem aqui fora na área de espera”. Só isso já foi suficiente para fazer uma diferença significativa: os que se achavam “dentro” imaginaram que acertariam 48% das vezes, contra 31% dos que se viam ainda “fora”, revelando uma disposição mental diferente entre os sujeitos nas duas condições.

Filas, MacDonalds e caixas automáticos – à primeira vista, tudo isso pode parecer apenas curiosidade para conversar no bar ou, na melhor das hipóteses, um estudo para o próximo prêmio IgNobel. Mas as implicações podem ser maiores quando levamos em conta situações em que permanecer firme na espera pode fazer ser realmente importante – pense na fila para transplante de órgãos, ou na espera por lides judiciais. Em casos como esses, criar dispositivos que façam as pessoas se sentirem inseridas no processo pode fazer a diferença entre persistir ou desistir.

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Zhao M, Lee L, & Soman D (2012). Crossing the Virtual Boundary: The Effect of Task-Irrelevant Environmental Cues on Task Implementation. Psychological science PMID: 22915084

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Gostei bastante do novo quadro do Fantástico: Phantasmagoria. Com auxílio de um mágico profissional e ouvindo especialistas em diversas áreas, de engenharia a neurologia, o programa é uma mistura de reality show com reportagem investigativa, e promete tratar de diversos fenômenos paranormais frequentemente relatados em nossa cultura. Embora o tom da apresentação queira manter no ar certa dúvida, deixando em aberto se fantasmas existem ou não, o próprio nome do quadro já entrega o jogo. Phantasmagoria era uma técnica de ilusionismo muito famosa na época do Romantismo (quando as pessoas estavam fascinadas pelo oculto, pelo gótico) na qual imagens de esqueletos, espíritos e demônios eram projetadas em paredes, cortinas, na fumaça, dando a impressão – falsa – de um contato com o além. Ou seja, o quadro busca explicações naturais para os fenômenos investigados, mostrando que essas experiências podem no fundo ser apenas “normais”, sem o prefixo “para”.

No primeiro episódio um casarão com fama de mal-assombrado foi monitorado por câmeras, e três voluntários tinham que ficar sozinhos em seu interior, à noite e com as luzes apagadas, usando apenas lanternas. Cada um devia cumprir uma tarefa, como chamar um espírito, procurar vultos nas árvores ou nas escadarias. Durante todo o tempo eles eram filmados e carregavam suas próprias câmeras para registrar o que acontecia. Nem precisa ser esperto para adivinhar que todos ficaram com muito medo, tendo experiências como sentir cheiro de vela ou ter uma “sensação estranha”, mas nenhum espírito foi encontrado cara-a-car. Os especialistas foram então ouvidos, procurando explicações científicas para os fenômenos relatados. No fim, ficou a pergunta: você acredita nos cientistas ou nos fantasmas?

O que aconteceu com o trio bate com o que as pesquisas mostram sobre casas assombradas: o contexto e as expectativas levam as pessoas interpretar fenômenos comuns como sinais do além que esperam encontrar. Estudando quase mil relatos de experiências sobrenaturais descobriu-se que ver uma aparição nítida, de forma clara, é extremamente raro (menos de 1% dos casos). E praticamente só quando se está pegando no sono ou acordando, momento em que é comum haver episódios de alucinações passageiras. Fora isso, em um terço das vezes o que ocorre são visões rápidas, como vultos ou flashes de luz; em outro terço são sons que assustam, como passos ou batidas; e o restante são uma miscelânea, incluindo cheiros, sensações subjetivas, arrepios etc. Além de serem pouco consistentes, outro estudo mostrou como esperar tais sinais torna as pessoas sugestionadas. Vinte e dois voluntários foram levados para um teatro abandonado, metade deles achando que ele estava em reforma, metade que ele era mal-assombrado. As pessoas tinham que anotar qualquer experiência, como odores, barulhos, cenas, que pudessem ser interpretadas como estranhas ou incomuns, e – surpresa – as que achavam que o lugar era habitado por espíritos registraram muito mais fenômenos estranhos do que os outros, em todos os sentidos.

Por isso desejo que Phantasmagoria alcance boa audiência. Se as assombrações nascem da expectativa de encontrá-las, quanto mais as pessoas conhecerem explicações, menos acreditarão em fantasmas. É um quadro que, por trás de toda a pirotecnia inerente à TV, estimula o raciocínio crítico ao colocar em cheque algumas crenças pré-concebidas dos telespectadores. Num programa de TV, popular, domingo à noite, isso é quase sobrenatural.

Pós-escrito – quando escrevi esse post eu ainda não havia sido convidado para participar do quadro – seria elogio em causa própria, o que é muito feio.

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Lange R, Houran J, Harte TM, & Havens RA (1996). Contextual mediation of perceptions in hauntings and poltergeist-like experiences. Perceptual and motor skills, 82 (3 Pt 1), 755-62 PMID: 8774012
Lange R, & Houran J (1997). Context-induced paranormal experiences: support for Houran and Lange’s model of haunting phenomena. Perceptual and motor skills, 84 (3 Pt 2), 1455-8 PMID: 9229473

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Você não precisa ir ao médico para ter uma ideia do que está acontecendo com você, e mesmo quais as possíveis soluções. Nem precisa ir à escola para ter acesso ao conhecimento de qualquer matéria que seja. Claro que, sendo as áreas do saber cheias de jargões, cada qual com um vocabulário próprio que extrapola o idioma, no final das contas uma ajuda para lidar com as informações pode ser bem vinda. E aí é que entra o novo médico, o novo professor, o novo advogado – quem antes tinha que transmitir o conhecimento, que só ele sabia, passa agora a ter o papel de gerenciar as informações a que todos têm acesso.

A disponibilidade praticamente irrestrita do conhecimento, no entanto, embora desejável, tem efeitos colaterais deletérios dependendo de como se lida com ela. A falta de capacidade crítica, de embasamento sólido para opiniões, de saber formular hipóteses, testá-las e não tirar conclusões apressadas, que sempre deu margem à proliferação de muita bobagem, é um fenômeno potencializado como nunca na internet.

Por isso entro numa campanha. Ideológica. Panfletária. Pela volta da coleção “Os cientistas”.

Talvez a maioria não conheça. Essa coleção foi uma iniciativa da saudosa Abril Coleções nos anos 70, que a cada 15 dias trazia às bancas fascículos sobre um cientista famoso que continham kit para realizar um experimento relacionado a sua área e o manual de instruções correspondente. Num Brasil em que moravam 90 milhões de pessoas, sem a pujança econômica de hoje, e quando ser “CDF” era ainda xingamento, foram vendidos quase 300.000 exemplares nos primeiros 15 dias. Hoje, que somos 200 milhões, com menos pobres e mais nerds, imagino que as vendas explodiriam.

Mais do que isso, no entanto, a ignorância poderia diminuir. E isso já foi testado com essa mesma coleção. Em 1974 a Profa Bernadete Gatti publicou um artigo no qual comparava a postura científica, por meio da capacidade de lidar com problemas novos e experimentos inéditos, de dois grupos de alunos da então 8a série. Quarenta e oito jovens foram divididos em dois grupos. Num eles passavam cinco dias trabalhando com kits de 4 cientistas diferentes, e no final tinham que montar um experimento do Newton, sem o manual de instruções completo. O outro grupo só participava dessa etapa final, não lidando antes com os kits. Ela concluiu que “o trabalho com os ‘kits’ da série Os Cientistas teve como efeito desenvolver conhecimento de conceitos e terminolo­gia, habilidades de compreensão e aplicação de prin­cípios, rigor na observação e mensurações, capacidade de solucionar problemas através de teste experi­mental de hipótese, o que, em conclusão, permite afirmar que, a longo prazo, o material se presta ao desenvolvimento do que chamamos de comportamen­to científico”.

Por isso estou em campanha. Há uma iniciativa em curso de um grupo de pesquisadores brasileiros para ressuscitar a coleção (mais informações aqui). Sou a favor. Panfletário. Piqueteiro. A luta continua. Abaixo a ignorância científica.

Perdão. Fiquei empolgado.

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Gatti, Bernadete Angelina, & Goldberg, Maria Amélia Azevedo (1974). A influência dos Kit’s “Os Cientistas” no desenvolvimento do comportamento cientifico em adolescentes. Cadernos de Pesquisa (Fundação Carlos Chagas), São Paulo, , 10, 13-24

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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