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Daniel Martins de Barros

08.junho.2011 22:37:03

Carta aberta aos comediantes brasileiros

Caros comediantes brasileiros,

Analisar o humor é como dissecar um sapo, poucas pessoas se interessam e no final o sapo morre, disse o escritor E.B.White. Tudo bem, mas sem querer ensinar o padre a rezar a missa, acho que a ciência poderia ajudar vocês a evitarem alguns problemas judiciais sem perder – muito – a graça.

Tenho visto nos últimos tempos algumas polêmicas envolvendo piadas feitas por vocês. Isso acontece – vocês sabem – porque alguns temas são mais sensíveis do que outros, e não adianta reclamar do patrulhamento do politicamente correto, porque os tabus sempre existiram e vão continuar a existir. Por mais que a graça para uns dependa muitas vezes da desgraça de outros (Groucho Marx dizia que um comediante amador acha engraçado vestir um ator de velhinha e jogá-lo escada abaixo, mas um profissional sabe que isso só tem graça se for feito com uma velhinha de verdade) a arte do insulto consiste em dosar essa agressividade inerente ao humor.

Hoje em dia uma teoria que está na moda postula que as coisas são engraçadas quando provocam violações benignas. Primeiro porque desde Aristóteles o cômico está associado à agressão ou alguma outra forma de violação; segundo, e aparentemente contraditório, porque a graça também depende da percepção de certa segurança, garantindo a inocência da brincadeira. Assim, a teoria da violação benigna propõe que essas duas condições devam ser satisfeitas ao mesmo tempo. Para que a agressividade seja percebida como inocente – e portanto engraçada em vez de ofensiva – ao menos uma das seguintes condições deve ser preenchidas: 1) a regra violada deve ser contraditória com outra regra, que fica preservada, gerando uma contradição; 2) a regra violada é fraca, pouco importante para as pessoas; ou 3) a violação é psicologicamente distante do público. Essas características tornam a violação mais “aceitável”, garantindo que as pessoas se divirtam mais do que se enraiveçam.

Fica mais fácil de entender o porquê dos recentes protestos contra os senhores, não é mesmo? Fazer piada com estupro só teria graça talvez se a vítima fosse a Cleópatra ou a Mona Lisa, psicologicamente muito distantes das pessoas (afinal, comédia é tragédia mais tempo, como se diz). E pela imensidão do sofrimento causado, o holocausto só poderia eventualmente ser tema de piada para uma civilização alienígena.

Caros comediantes, despeço-me lembrando que o bobo da corte era o único que podia dizer certas verdades a respeito do rei e do reino, porque o fazia na forma de piada. Assim, desejo que vocês continuem sendo os bobos da corte modernos, mas que não se esqueçam que se ele errasse na mão e ofendesse o rei, acabava no calabouço ou sem cabeça.

Saudações.

ResearchBlogging.org McGraw AP, & Warren C (2010). Benign violations: making immoral behavior funny. Psychological science, 21 (8), 1141-9 PMID: 20587696

comentários (30) | comente

30 Comentários Comente também
  • 08/06/2011 - 23:32
    Enviado por: Leonardo Sauaia

    Brilliant! Espero que não tenham perdido a cabeça para entenderem.

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  • 09/06/2011 - 10:07
    Enviado por: pacheco

    excelente comentário! Deveria ser encaminhado direto para o Danilo Gentili, para ver se ele retoma a linha.
    ab

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  • 09/06/2011 - 10:13
    Enviado por: Jamille Daher

    Gostei do texto. Mas piada de estupro não tem graça nem com a Cleópatra ou qualquer outra mulher da História.

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  • 09/06/2011 - 12:58
    Enviado por: Tarilonte

    Papo furado.
    Criar regras para o limitar o humor é sinal de atraso intelectual e preconceito.

    O movimento ‘certinho’ é tão injusto, tão cruel, que – de má fé – quer fazer acreditar que os humoristas são a favor do estupro ou do holocausto. Não achar graça é natural, achar exagerado também, mas impor limites e criar todo esse alarde é babaquice e falta do que fazer, misturada com inveja.

    Você diz que “o holocausto só poderia eventualmente ser tema de piada para uma civilização alienígena”. Quem disse? É porque você acha que não deve? Então a sua moral é a regra para a sociedade? Parece muito pretencioso e muito mais nocivo do que as próprias piadas.

    Vejamos, você acha que piadas de estupro não tem graça e são ofensivas, por isso devem ser banidas. Eu acho que cultos religiosos na tv são ofensivos, apesar de engraçados, e por isso devem ser banidos, cascaínos acham que jogos do flamengo são ofensivos e devem ser banidos. E por aí vai.

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    • 04/10/2011 - 21:25
      Enviado por: Ana

      Acho que o colunista não está ditando regras para os comediantes, mas sim enriquecendo um pouco sobre as teorias do humor que eu tenho CERTEZA que essa nova geração de humoristas não conhece. Ninguém quer censura, e os defensores fanáticos do Rafinha estão revoltados à toa. As pessoas querem menos TOSQUICE, menos CANALHICE, MENOS ABUSOS contra a moral de pessoas conhecidas ou não. Já vi muitas coisas do RAFINHA e ele é bem melhor, bem mais engraçado sem ser misógino, sem falar baixarias. Então, a troco de quê fazê-lo? Para gerar comentários no Twitter, para receber processos? Não consigo entender. Para aumentar a popularidade sobre si Custe o que Custar? E sim, frases de mau gosto são feitas pelos políticos sempre. INclusive no CQC de ontem foi ótima a matéria do RAfael Cortez sobre a ignorância no Congresso e já estamos movimentando uma revolta. Não nesta coluna. Agora um erro não justifica o outro. Viemos comentar sobre ESTE energúmeno e não aquele BANDO de BRASILIA, certo?

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    • 06/10/2011 - 00:23
      Enviado por: Érica

      Caro Tarilonte, as pessoas não se revoltaram porque a piada é moralmente incorreta para apenas um indivíduo, mas por grande parte da sociedade. Estupro é crime, o holocausto foi uma barbárie.
      Já, os exemplos que você citou não gostar, não prejudicam ninguém, não são atos criminosos. Seus argumentos não fazem o menor sentido.
      Não existe um conceito universal de “certo” ou “errado”, apenas em sociedade pode-se distinguir o que é moralmente aceitável ou não.
      Por acaso piadas com apologia ao crime parecem aceitáveis?

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    • 08/10/2011 - 14:42
      Enviado por: Alexandremk

      E quem sugeriu isso, o que você está alegando?
      Não vi nem de forma subliminar a censura que você menciona.
      Oras, não viaje na maionese!
      Longe disso, o texto sugere o uso do bom senso, com argumentações históricas e até filosóficas.
      O colunista poderia até mencionar a ironia que o filósofo Sócrates usava nas suas refutações num debate filosófico.
      Ironia que trazia por sua vez embaraço e até a ira de alguns.

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  • 09/06/2011 - 13:02
    Enviado por: marcosfaria

    Perfeito.

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  • 09/06/2011 - 17:14
    Enviado por: NightHiker

    Daniel,

    Talvez a hipótese das violações benignas seja válida, talvez não. Mas vejo dois problemas no seu texto, pelo menos da maneira como foi apresentado. Mesmo que a hipótese seja válida, faltou a você demonstrar porque o assunto “holocausto” deveria ser excluído de tentativas de fazer humor. Aí houve um salto lógico, uma falácia – você misturou a sua opinião com a hipótese, tentando angariar o aval da “ciência” (o que isso significa, aliás?). Segundo, que para decidir o que é uma violação “benigna” ou não, não existe outro jeito a não ser emitir um juízo de valor (nem que seja esse “juízo de valor da média das pessoas”). Nesse sentido, qualquer ofensa, dependendo do contexto, poderia legitimar essa hipótese, já que sempre haverá alguém para se ofender com alguma idéia, seja qual for (isso me faz ter um pouco de problema em avaliar tal falseabilidade). Portanto, sua alegação de que a hipótese é falseável, mesmo que seja verídica, está longe de garantir que ela seja universal – humor nunca pode ser dissociado de um contexto – e uma mesma piada pode ser hilária em uma situação e ofensiva em outra. Talvez o público de tais comediantes não seja a “média das pessoas”, seja lá o que for que isso signifique.

    Ofereço um texto (que já afirmo não tem nada de científico) do Doug Stanhope, um comediante que faria esses comediantes brasileiros a quem você faz alusão parecerem meninos inocentes (e que inclusive já fez muitas piadas sobre estupro e holocausto), tratando justamente disso. É um pouco longo, mas já que você tem interesse no assunto, recomendo (em inglês): http://www.heraldscotland.com/mobile/comment/guest-commentary/doug-stanhope-on-offensive-comedy-1.1083012

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  • 10/06/2011 - 00:44
    Enviado por: José Carlos Vicente

    Gostei do artigo.
    Que bom seria se tudo o que ouvimos de forma oficial através dos noticiários sobre políticas e políticos não passassem de pura brincadeira e fossem apenas piadas.
    Mas no mundo real é assim mesmo , muitos perdem a cabeça, mesmo sem ser preciso uma ordem especifica de algum “Rei”.
    E ,mesmo assim corremos o risco de irmos parar nos calabouços da vida …
    Parece piada né…..que bom se fosse apenas piada ….
    Assinado:
    José Carlos Vicente
    São joão da Boa Vista
    São Paulo
    Brasil

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  • 11/06/2011 - 12:32
    Enviado por: Sibele

    Excelente discussão. Parabéns, Daniel.

    Só fico me perguntando se a tal “liberdade de expressão” tão invocada pelo articulado NightHiker é, também ela, um valor pleno e universal.

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  • 14/06/2011 - 15:29
    Enviado por: ricardo

    È um absurdo, a comédia é importante, eles fazem piada com gordo, pobre, bêbado, policial e etc… nada mais justo que fazer com homossexuais… é lamentável a mordaça que os homossexuais querem colocar na sociedade. abaixo a pl122!

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  • 14/06/2011 - 15:56
    Enviado por: Nicolas

    Carta estupida e imbecil,o humor nao tem limites o dia que tiver deixa de ser humor!Se nao gostam de certas piadas ignore-as,mas nao queiram censurar os humoristas isso é coisa de gente ultrapassada,desatualizada e sem senso de humor

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  • 14/06/2011 - 16:03
    Enviado por: Marcos

    O fato é, piada só tem graça quando vc está fora dela, eu já fui vidraça e uma pedrada dói, dói muito…A dita “liberdade” de criação acaba, em alguns casos, ferindo o bem estar de outros. Piadas de mau gosto fazem muito mal e quem pode dizer isso são os negros, os nordestinos, os caipiras, as mulheres e sim, os homossexuais que ao contrário do que se diz por aí, essas pessoas citadas anteriormente não fazem parte de uma minoria, termo usado para camuflar outros preconceitos.

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  • 14/06/2011 - 16:19
    Enviado por: Marcos

    Ah! só pra completar meu raciocínio, vcs não acham estranho que a maioria dos temas abordados em piadas sempre se referem às categorias sociais que já sofrem repressão?!? Ou vocês conhecem piadas com aquilo que a sociedade exalta?? Algumas piadas sempre reforçam a subordinação da mulher, a ingenuidade do matuto, e assim vai por outros clichês tão bem explorados pelos digníssimos comediantes de programas de grande alcance. Programas esses que acabam, de certa forma, formando a maneira de pensar da população que repete incessantemente os seus bordões e trejeitos até mesmo quando querem ofender alguém no seu círculo de relações. Existe algo realmente podre em tudo que se faz…e isso não é piada.

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  • 14/06/2011 - 16:41
    Enviado por: Alberto deAvyz

    Agradeço pelos que usam da já citada liberdade de expressão para criticar com humor o nosso cotidiano e suas vicissitudes. E temo pelos que se autoidolatram por conta de errarem a mão nessa crítica, pois servem de exemplos negativos para pertetrarem e ufanarem maus modos e/ou modelos.
    Dizem esses que fazem humor inteligente; mas pecam pela falta de inteligência em saber dosar seus modos…

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  • 14/06/2011 - 17:16
    Enviado por: Arquimedes

    Eu só diria que falta bom senso. O cuidado com as palavras e com aquilo que elas querem expressar perdeu-se a muito tempo. O jeito é aquele que se sente ofendido, deve no máximo escutá-la repetidas vezes até que tenha sido esquecida. Já que os comediantes continuaram a perder o bom senso, ou na realidade, já não o tem. Piadas sempre serão reflexo do oportunismo do riso. Chamo de oportunismo porque tal piada vem carregada de intenção, ou vocês acham que nada é pensado, e que tudo é feito só para distrair. É obvio que o ridículo do riso, deixou de ser algo “inocente” e se torna cada vez mais deprimente. Rir da desgraça alheia sempre foi o mote de uma parte da risada. No filme Se beber não case, parte II, tem um comentário em forma de piada racista, pergunta se alguém no cinema riu nessa parte? É óbivio que não, é crime. Então por essa lógica tudo então terá que ser criminalizado para que os ditos excessos não sejam realizados? Não sei de verdade, só sei que os comediantes terão uma dura batalha pela frente, fazer rir, sem fazer chorar.

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  • 14/06/2011 - 21:41
    Enviado por: Daniel M Barros

    Não estou querendo censurar não…

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  • 03/10/2011 - 22:30
    Enviado por: geraldo rodrigues

    A sociedade é hipócrita,,,,,
    Frases de mal gosto são feitas pelos polícos,,,,,
    todos os dias
    e ninguem se manifesta,,,,,,,,,,,,,

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  • 09/10/2011 - 01:06
    Enviado por: Anna

    Não, não existe assunto proibido ou iminentemente sem graça.
    Porém existem maneiras EXTREMAMENTE sem graça de tratar certos assuntos. O humor que questiona, inverte valores para mostrar ângulos diferentes, subverte o óbvio, mostra o absurdo de uma situação é engraçado. O humor que pura e simplesmente PERPETUA PRECONCEITOS, não é. E esse é o problema dessa “nova safra de humoristas” que há por aí: perpetuam preconceitos de maneira extremamente sem graças, com piadas velhas, rebuscadas, óbvias, sem nenhum elemento de contestação, exposição do ridículo das situações. Ao invés disso, preferem tomar o caminho fácil e fazer piadas que mantem tudo como está.
    O pior de tudo é se esconderem atrás do argumento de que “é só uma piada”. Só me resta perguntar: o que é uma piada sem o seu contexto? E que ponto de vista do contexto as suas piadas exibem? É isso que vai determinar se você é engraçado ou não.

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  • 14/10/2011 - 12:46
    Enviado por: Ercy Soar

    Prezado Daniel,
    somente agora li este post, e te parabenizo pela coragem e pela propriedade com que vc trata desta questão. É uma pena que a grande maioria dos comediantes brasileiros – exatamente aquela que precisa saber disso – provavelmente não tenha a capacidade de entender a mensagem. Abr.

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  • 31/03/2012 - 11:17
    Enviado por: Jime

    Muito bom.

    Obrigada.

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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