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Daniel Martins de Barros

15.fevereiro.2012 10:07:42

Aprender com os idosos a tocar em frente

“Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais”

Poucos ignoram a belíssima Tocando em frente, de Almir Sater e Renato Teixeira, que mostra um pouco da sabedoria caipira. Tenho guardado, em algum lugar da memória, misturada com entulhos de lembranças posteriores, uma entrevista do Almir Sater dizendo que a música fora inspirada por seu desejo de fazer algo tão belo como uma poesia de Drummond que havia lido. Não sei se é uma falsa memória, mas não me parece impossível que seja algo assim, pois a letra, muito simples e muito verdadeira, toca em temas inerentes à condição humana, elevando-a à categoria de arte, como um poema.

“Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente”

Tocar em frente parece ser um dos grandes segredos de uma vida boa. As alternativas – ficar parado ou olhando para trás – são fatores hoje reconhecidamente associados a depressão, e grande parte dos tratamentos para pacientes deprimidos passam justamente por tentar fazer com as pessoas deixem de remoer pensamentos e “toquem em frente”. Todos tendemos a dar valor negativo às situações adversas que ocorrem na vida. Mas a capacidade de reavaliá-las, no sentido literal da palavra, “rever o valor” que damos às coisas, parece ser uma das maneiras mais eficazes de lidar com os altos e baixos da vida. Tal habilidade só se desenvolve com o tempo, quer seja por maturação do córtex frontal do cérebro – fundamental para essa função – quer seja pela prática.

“Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias”

Os idosos, está comprovado, gastam menos tempo remoendo problemas do que os jovens. Tais ruminações, que levam o sujeito a adotar uma perspectiva pessimista da realidade, gastando mais energia com tais pensamentos negativos do que com atitudes positivas, estão associadas não somente a depressão como também a menores índices de satisfação com a vida. Mas parece que levamos um bom tempo para aprender que a maioria dos problemas pode ser vista – sem demora – de ângulos menos sombrios.

Percebendo essa realidade o velho caipira pode concluir:

“Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz”.

ResearchBlogging.org
Stefan Sütterlin, Muirne C.S. Paap, Stana Babic, Andrea Kübler, & Claus Vögele (2012). Rumination and age: some things get better Journal of Aging Research

comentários (6) | comente

  • A + A -
6 Comentários Comente também
  • 18/02/2012 - 06:31
    Enviado por: Dany

    Bonitos versos,principalmente os últimos.
    É legal essa mistura de psiquiatria com filosofia,e a transformação delas em poesia.
    Não sei se é verdade,mas li numa revista de ciência moderna que é publicada na França e países francófonos, que pesquisadores descobriram (isso agora) de que uma parte das doenças mentais são causadas por micróbios – vírus e bactérias – e que muitos doentes de depressão,esquizofrenia,etc,podem ter sido vítimas desses monstrinhos microscópicos sem saberem! Minha esperança é de que no futuro o homem consiga recuperar o cérebro humano pondo tudo em seus lugares,igual como quem trata de uma infecção viral ou mata bactérias com antibióticos. Mas por enquanto temos que aceitar que as doenças da “alma”,como dizem os especialistas, são genéticas ou adquiridas no meio social em que vivemos,e curadas ou aliviadas com remédios perigosos e a “palavra”.
    Estou torcendo pra que descubram que o cérebro sofre devido a infecções nele,como aconteceu comigo uma vez, que um dia antes de aparecerem os sintomas de uma lesão no ouvido interno (síndrome de não sei que),com tonturas fortes e enjoos, eu tive a sensação de cair numa depressão profunda e fiquei com medo de enlouquecer.Depois que os sintomas no ouvido (foi um vírus,me disse o médico) apareceram, o sentimento de depressão e morte iminente por incrível que pareça desapareceram.Estranho,não?

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  • 24/02/2012 - 06:30
    Enviado por: Dany

    Doutor,esqueci de dizer que acho muitíssimo importante num país das dimensões do Brasil – geograficamente e economicamente – cuidarmos dos idosos como eles merecem.
    Nesse país onde (fiquei sabendo hoje) existem tantos doutorandos e mesmo assim tivemos um Presidente sem diploma universitário,que eu saiba,podemos dizer que temos de tudo um pouco em termos de qualidade.E a velhice é uma qualidade,no final das contas.

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  • 01/04/2012 - 16:48
    Enviado por: eunice soares

    ola Dr. Daniel Martins
    E muito proveitoso o comentario q o sr. fez. Eu gostaria q , se possivel fosse mais detalhado, pois pretendo entender melhor esta letra de musica pelo social e psicologioco na sua grandeza de mengenm e poesia
    Se possivel me envie por e -mail . Obrigada

    responder este comentário denunciar abuso

    • 01/04/2012 - 18:15
      Enviado por: Daniel Martins de Barros

      Olá, Eunice.
      Publiquei tudo o que pensei – não tenho mais detalhes, ao menos por agora. Um abraço.

      responder este comentário denunciar abuso
  • 10/10/2012 - 09:37
    Enviado por: Carlos

    Dr. Daniel Martins,

    Em outubro de 2010 fui diagnosticado com depressão. Vejo, hoje, que conservar sentimentos ruins por muito tempo é um fator de grande importância no desenvolvimento da depressão. Algumas pessoas desvencilham-se de eventos emocionais adversos da vida com maior rapidez e facilidade, assim nunca desenvolvem a doença ou tem menor chance de desenvolver.
    Após minha recuperação fiquei com a impressão de que a depressão é um estado que o próprio doente cria e não percebe que o passar do tempo agrava seu estado.

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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