Não sei se você já percebeu como os animais facilitam a conversa. Quando existe um cachorro presente raramente falta assunto para as pessoas, e as relações humanas parecem facilitadas. Se em vez de um cão forem duzentos animais selvagens, vários deles ameaçados de extinção, além de uma boa conversa isso pode render um bom filme.
Compramos um zoológico, filme do diretor Cameron Crowe com Matt Damon e Scarlett Johansson, retrata essa situação. É a história real do escritor americano Benjamin Mee que decidiu, junto com a mulher, dois filhos, o irmão e a mãe comprar um zoológico falido, mudando-se com a família para lá. Durante o processo, logo antes da inauguração, a esposa faleceu de um tumor cerebral, mas o projeto foi em frente, não apenas ressuscitando o zoo mas dando origem a um livro e posteriormente ao filme homônimo. No filme a história foi ligeiramente modificada, mas a “essência foi preservada”, de acordo com o próprio autor.
Matt Damon está mais velho e com cara de paizão (às vezes lembra o Philip Seymour Hoffman), e Scarlett Johansson está “tão feia quanto é possível”, como disse o crítico Luiz Carlos Merten. Melhor, porque assim presta-se menos atenção neles e mais nos personagens – pessoas comuns tendo que dar um jeito de lidar com crises universais: sobrecarga de trabalho, orçamento curto, frustrações familiares. É onde entram os bichos.
Embora o efeito terapêutico do contato com animais seja algo intuitivo, é uma área só recentemente estudada de forma científica. Os benefícios, no entanto, já vêm sendo estabelecidos, e não apenas para o convívio animais domésticos, mas também com animais de grande porte, sobretudo quando isso implica a aquisição de novas habilidades. Quatro mecanismos principais formam a base teórica para a eficácia dessas intervenções: 1) os animais atuam como mediadores sociais, facilitando a comunicação entre as pessoas; 2) aumentam a auto-confiança e eficácia, já que lidar com eles leva a necessidade de realizar tarefas específicas; 3) tornam-se objetos de afeto, ajudando a preencher a necessidade de ligação que todos têm; 4) promovem alterações fisiológicas, tendo sido demonstrado desde redução da pressão arterial até aumento de neurotransmissores.
Fora o item 4, todos os outros são explícitos em Compramos um zoológico. Com destaque para o papel dos animais na interação humana, na bela cena em que pai e filho, que passam o filme todo sem conseguir falar um com o outro, conseguem fazê-lo indiretamente, diante de um tigre à beira da morte.
Talvez não seja uma obra que entre para a história do cinema. Mas vale a visita por ser um filme que lida honestamente com o luto, a resiliência e as dificuldades e alegrias de ser gente, ambas amplificadas pelo monte de bichos em volta.
![]()
Bente Berget, & Bjarne Olai Braastad (2008). Theoretical Framework for Animal-Assisted Interventions – Implications for Practice therapeutic communities international journal of therapeutic communities, 29 (3), 323-337
Neste Natal, o meu gato (ou melhor, do filho que se casou e deixou-o em casa) teve 40° de febre e foi para o hospital. Tristeza
Hoje, está medicado e já se alimentou. Alegria
Tenho ainda um cachorro (ou melhor, da filha que casou e deixou-o em casa) está velho, surdo, tem catarata, cardiopata, alérgico e etc. Tristeza
Sempre que chego em casa ele faz festa , assiste TV no meu colo, chora toda hora pedindo biscoito. Alegria
“Alegrias e tristezas de bichos e humanos” só quem vive este misto de sentimentos sabe da verdade deste tema.
No fundo, acho que são alegrias e tristezas de interagir com o outro, afinal…
responder este comentário denunciar abusoBoa tarde, Daniel! Fiquei feliz ao ler um comentário sobre este livro/filme. Durante minhas buscas de Natal, passei um tempo na livraria lendo breves trechos deste livro. Não fosse o orçamento apertado devido aos presentes, teria adquirido um exemplar. Esta superação humana envolvendo animais chamou minha atenção. No último Natal, num dado momento, os cachorros fizeram por nós o que o tigre fez pelo pai e filho. Eles simplesmente tem esta capacidade! Adoro animais! Penso que, exatamente por serem seres menos complexos que nós, eles ainda não conseguiram se perder em pequenas (ou grandes) confusões dentro de si e ainda vivem o que realmente importa!
Abraço,
Camila
Como disse certa vez a boneca Emília, quanta confusão não trazem as palavras… Um abraço.
responder este comentário denunciar abuso
2012
2011
2010
Deixe um comentário: