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Daniel Martins de Barros

Aborto é um tema difícil por si só, pois envolve questões como crenças religiosas, ideologias e tabus sociais. Agora vemos surgir no horizonte uma nova variável que, se entrar nesse caldeirão, nos colocará a caminho do caos. A comissão do Senado para a reforma do Código Penal propõe que o aborto não seja considerado crime se for feito “por vontade da gestante até a 12ª semana da gestação, quando o médico constatar que a mulher não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade” (Íntegra da proposta). Fora o erro óbvio de atribuir avaliação psicológica a médicos, é a própria essência da proposta que está equivocada.

Quando penso no espírito da lei, creio que ela não está falando sobre pessoas com transtornos mentais graves. A redação “condições psicológicas de arcar com a maternidade” aponta, a meu ver, para outra direção. Mesmo porque a existência de doenças psiquiátricas não retira, por si só, a capacidade de alguém ser mãe. O principal fator que prejudica a relação entre mãe e filho nas mulheres com transtornos mentais é a falta de insight, a baixa capacidade de perceber sua condição de doente, o que não se atrela automaticamente a um ou outro diagnóstico. Parece difícil que doenças tão graves que prejudiquem o insight, a ponto de incapacitar para a maternidade, não incapacitem também para tomar a decisão autônoma de fazer um aborto. A lei ficaria então incoerente ao se referir à “vontade da gestante”.

Mas se, como imagino, o que a lei pretende é levar em conta a opinião das mulheres que dizem não se sentir psicologicamente aptas para ter e criar um filho, o erro é achar que médicos seriam capazes de atestar se tal alegação é verdadeira. Não são. Nem médicos, nem psicólogos, nem qualquer categoria de profissionais tem treinamento técnico-científico suficiente para responder a essa pergunta de modo objetivo. Sendo a maternidade é uma condição essencialmente subjetiva, como verificar se existem condições de “arcar” com ela? Repito: não é possível. Mesmo os testes psicológicos, que pretendem objetivar um pouco o exame do psiquismo humano, são também sujeitos a interpretações; além disso não foram desenvolvidos para esse fim específico e portanto não existem evidências de que tenham correlação com os comportamentos maternais reais.

Penso em duas soluções possíveis para impedir que a confusão se arme. Das duas uma: ou bem a pergunta sobre “condições psicológicas” não deve ser feita ou bem só quem pode respondê-la é a própria mulher. Tenho o palpite de que a posição de cada um em relação à descriminalização do aborto determinará qual a opção preferida. Qual sua escolha?

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Mullick M, Miller LJ, & Jacobsen T (2001). Insight into mental illness and child maltreatment risk among mothers with major psychiatric disorders. Psychiatric services (Washington, D.C.), 52 (4), 488-92 PMID: 11274495

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Que as escolas de samba se movem perigosamente próximas a uma área de sombras, interagindo com grupos historicamente violentos como as torcidas organizadas, é senso comum. Embora tal fato não seja a causa dos tumultos ocorridos durante a apuração dos desfiles paulistanos, essa vizinhança pode ter potencializado o desdobrar dos acontecimentos.

O estudo formal do comportamento das massas teve seu início em meados do século XIX, justamente pela necessidade de as elites da Europa tentarem entender – e prevenir – os movimentos revolucionários da patuleia. À época, contudo, o pensamento científico era ainda contaminado por uma grande carga de preconceito, marcado por ideias como antropologia racial, atavismo dos instintos e criminosos biológicos. Durante muito tempo acreditou-se que a violência das multidões era consequência da degeneração de pessoas inferiores que perdiam sua individualidade nos tumultos – as massas seriam, portanto, irracionais, exibindo comportamentos sem qualquer sentido.

A partir do século XX, especialmente após os anos 60 – quando muitos dos cientistas sociais que estudavam os fenômenos das multidões acabaram tomando parte, eles mesmos, de passeatas contra a Guerra do Vietnã ou pelos direitos civis das minorias – o pensamento sobre as massas foi sendo gradualmente transformado, sobretudo em termos de sua racionalidade: diante do novo contexto já não era possível sustentar que as multidões eram acéfalas e incoerentes. O comportamento dos grupos passou a ser analisado em termos das relações intergrupos e dos contextos políticos e históricos dos indivíduos. De irracionais as multidões passaram a ser vistas como possuidoras de um pensamento, uma racionalidade que surgia não só do pano de fundo das pessoas, mas também da força da identificação entre elas. E o risco de o comportamento do grupo se tornar violento dependeria principalmente de dois fatores: o quanto de legitimidade se confere à polícia e o quanto de poder o grupo vê em si. A atuação policial agressiva poderia gerar um antagonismo na massa, que passaria a medir forças com os soldados.

As imagens dos sujeitos exibindo comportamentos de vandalismo ao longo da Marginal Tietê mesmo escoltados pela polícia pode ser analisada de acordo com esse modelo: as pessoas eram membros de torcidas organizadas, que têm um histórico muito rico de conflitos com a PM – isso lhes confere um senso de identificação interna muito grande, além de minar a legitimidade da atuação da polícia de seu ponto de vista. Além disso, o grande número de torcedores aumenta a sensação de poder na medida em que fica clara a insuficiência do contingente policial para conter seus atos de vandalismo. Com base nesse modelo, algumas experiências feitas na Europa para controlar o comportamento dos hooligans foram bem sucedidas, paradoxalmente, ao reduzir o policiamento ostensivo, marcando a presença do poder do estado mas desestimulando demonstrações de força policial.

Funcionaria para o Brasil? Não sei. Mas se quisermos preservar as imagens das tão decantadas “paixões nacionais” já passou da hora de pensarmos cientificamente na questão das torcidas organizadas, tanto no samba como no futebol.

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Drury, J., & Stott, C. (2011). Contextualising the crowd in contemporary social science Contemporary Social Science, 6 (3), 275-288 DOI: 10.1080/21582041.2011.625626

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“Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais”

Poucos ignoram a belíssima Tocando em frente, de Almir Sater e Renato Teixeira, que mostra um pouco da sabedoria caipira. Tenho guardado, em algum lugar da memória, misturada com entulhos de lembranças posteriores, uma entrevista do Almir Sater dizendo que a música fora inspirada por seu desejo de fazer algo tão belo como uma poesia de Drummond que havia lido. Não sei se é uma falsa memória, mas não me parece impossível que seja algo assim, pois a letra, muito simples e muito verdadeira, toca em temas inerentes à condição humana, elevando-a à categoria de arte, como um poema.

“Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente”

Tocar em frente parece ser um dos grandes segredos de uma vida boa. As alternativas – ficar parado ou olhando para trás – são fatores hoje reconhecidamente associados a depressão, e grande parte dos tratamentos para pacientes deprimidos passam justamente por tentar fazer com as pessoas deixem de remoer pensamentos e “toquem em frente”. Todos tendemos a dar valor negativo às situações adversas que ocorrem na vida. Mas a capacidade de reavaliá-las, no sentido literal da palavra, “rever o valor” que damos às coisas, parece ser uma das maneiras mais eficazes de lidar com os altos e baixos da vida. Tal habilidade só se desenvolve com o tempo, quer seja por maturação do córtex frontal do cérebro – fundamental para essa função – quer seja pela prática.

“Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias”

Os idosos, está comprovado, gastam menos tempo remoendo problemas do que os jovens. Tais ruminações, que levam o sujeito a adotar uma perspectiva pessimista da realidade, gastando mais energia com tais pensamentos negativos do que com atitudes positivas, estão associadas não somente a depressão como também a menores índices de satisfação com a vida. Mas parece que levamos um bom tempo para aprender que a maioria dos problemas pode ser vista – sem demora – de ângulos menos sombrios.

Percebendo essa realidade o velho caipira pode concluir:

“Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz”.

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Stefan Sütterlin, Muirne C.S. Paap, Stana Babic, Andrea Kübler, & Claus Vögele (2012). Rumination and age: some things get better Journal of Aging Research

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“Eu não sou elitista, só acho que exitem dois grupos: nós e o resto”, dizia o ímpar professor Juarez Montanaro, figura inesquecível para os que com ele estudaram medicina legal. A piada, como muitas outras, disfarça uma tendência comum a todo ser humano: julgar melhor os que são do “nosso grupo” (qualquer que seja ele) do que os que são de fora. Esse é um viés cognitivo chamado de viés intragrupo, e pode ser considerado um efeito colateral do amor. Isso mesmo, depois de tratarmos das belezas da occitocina e dos vínculos que ela ajuda a criar, vale a pena dar uma olhada num outro lado dessa história.

Do ponto de vista evolutivo foi um desafio explicar por que somos altruístas – se os genes são selecionados na medida em que ajudam a perpetuar a si mesmos, como seria possível o sacrifício em favor dos outros? Isso aparentemente contradizia a seleção natural. Embora o próprio Darwin já tivesse discutido a questão, foi na década de 60 que o biólogo Willian D. Hamilton desenvolveu melhor o conceito que ficou conhecido como “seleção de parentesco”. Segundo ele, quanto mais próximos forem os parentes, mais semelhantes serão suas cargas genéticas; assim, o sucesso reprodutivo não só de um indivíduo, mas também de sua família, seria favorecido pela evolução. Morrer por um filho, assim, embora impeça o sujeito de continuar passando adiante seus genes aumenta a chance de que seus descendentes o façam.

Fica claro que isso só tem sentido para relações próximas – biologicamente não há razão para ser altruísta com não-parentes. Agora, se lembrarmos que a occitocina fortalece os vínculos familiares, surge a pergunta: será que ela favoreceria o viés intragrupo? Ou seja: se biologicamente temos a tendência de nos sacrificarmos por parentes próximos, será que o efeito da occitocina poderia nos fazer mais prontos a agir em favor do nosso grupo, e não de grupos vistos como “outros”?

Parece que sim.

Estudando as atitudes de alunos holandeses com relação a mulçumanos e alemães, psicólogos descobriram que em cenários de um naufrágio, por exemplo, o uso de um spray de occitocina aumentava a chance de os voluntários salvarem um sujeito chamado Maarten (nome típico holandês), mas não alterava em nada sua tendência de salvar um Mohammed ou mesmo um Markus (nomes mulçumano e alemão, respectivamente). Da mesma forma, após uma dose de occitocina os sujeitos associavam com mais rapidez características positivas a holandeses e característcas negativas a mulçumanos e alemães. Os cientistas então sugerem que o etnocentrismo – favorecimento de seu grupo e não os outros – também tem raízes biológicas, e não apenas sócio-culturais.

É desnecessário dizer que isso tudo não justifica o preconceito ou a discriminação. Nossa biologia nos impõe uma série enorme de tendências, impulsos e inclinações contra as quais lutamos em prol de vivermos numa sociedade civilizada – são só as bestas-feras que cedem irrestritamente aos chamados da natureza (ok, alguns humanos também o fazem – por isso os denominamos animais). Combater o preconceito e relembrar que ser “dos nossos” não faz ninguém melhor do que ser “dos outros” é uma tarefa contínua, como contínuo deve ser o esforço para apagar as próprias fronteiras entre “nós” e “eles”.

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De Dreu, C., Greer, L., Van Kleef, G., Shalvi, S., & Handgraaf, M. (2011). Oxytocin promotes human ethnocentrism Proceedings of the National Academy of Sciences, 108 (4), 1262-1266 DOI: 10.1073/pnas.1015316108

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Por que as pessoas têm filhos? E, mais do que isso, por que gostam deles? Como se explica essa sensação única, que é sem paralelo na experiência humana? A fria ciência tem algumas respostas que, em princípio, nada têm a ver com o sublime amor paterno. Mas para mim isso não acaba com a poesia da história. No conto “Os nove bilhões de nomes de Deus”, de Arthur Clarke, quando a ciência descobre o verdadeiro nome do supremo criador as estrelas começam a se apagar uma a uma nos céus. Não sei se concordo. Não acho que a ciência retire o brilho das estrelas, como não creio que haver um fundo biológico para o amor aos filhos apague sua transcendência.

A verdade é que as pessoas têm filhos porque fazem sexo. Muito. Repetidamente. Pensando bem, isso é óbvio: ao longo da evolução, quem fazia mais sexo tinha prole maior do que os outros. Assim como acontece com a comida, o sexo não surgiu para dar prazer, mas quem trazia nos genes mais gosto por tais atividades comia e se reproduzia mais, tendo por isso maiores chance de sobreviver e se reproduzir. Esse gosto foi sendo transmitido aos numerosos filhos, que por isso também tinham mais filhos e assim por diante.

Isso explica por que temos filhos, mas não por que gostamos deles.

A sociobiologia tem uma explicação muito boa para isso também: por nascerem frágeis e dependentes de cuidados, crianças humanas são um desafio muito difícil para os pais, requerendo deles privação de sono, gasto de energia, investimento de tempo, praticamente a fundo perdido. Imagine então fazer isso na idade da pedra, quando não havia lei das palmadas ou conselho tutelar para fiscalizar o comportamento paterno – só mesmo com muito amor. Fica claro que os sujeitos que nasciam com uma propensão maior para amar seus filhos investiam mais neles, cuidando melhor e aumentando suas taxas de sobrevivência. Uma das principais substâncias atuantes nessa criação de vínculos é o neuropeptídeo occitocina, que recentemente se comprovou aumentar ao longo das primeiras semanas de paternidade (tanto nas mães como nos pais) e se correlacionar diretamente com comportamentos como a incontrolável necessidade de acariciar os rebentos ou encará-los por horas a fio (no caso das mães), ou ficar sacudindo-os para cima e para baixo, balançando objetos na frente deles até cansar (no caso dos pais). O amor pelos filhos (assim como o gosto por encomendá-los) tem evidentes origens biológicas.

Mas em minha opinião isso em nada diminui a beleza desse sentimento. O impulso por comida, por exemplo, pode ser satisfeito com raízes cruas, mas nos seres humanos deu origem a complexos rituais gastronômicos. Também o amor pelos filhos poderia ser resumido a cuidar deles. Mas nos homens leva a uma real transformação – ao menos é o que tem acontecido comigo. Experimentar esse amor tem me mostrado outro lado da realidade, que até então me era oculto: a mera possibilidade de se importar tanto com alguém, desejando-lhe o bem com uma intensidade que nem me sabia capaz, fez-me ver, nos seus olhos ainda semicerrados, a beleza que pode existir no mundo. E sem saber, provocando em mim o impulso biológico de cuidar dele, meu filho, com cinco dias, me faz querer de forma ardente trabalhar para aprimorar a criação. Assim, quem sabe, ele possa um dia ver a beleza que tão claramente me fez vislumbrar.

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Gordon, I., Zagoory-Sharon, O., Leckman, J., & Feldman, R. (2010). Oxytocin and the Development of Parenting in Humans Biological Psychiatry, 68 (4), 377-382 DOI: 10.1016/j.biopsych.2010.02.005

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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