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Daniel Martins de Barros

Não vou comentar a entrevista da Xuxa. Não assisti, mas soube que ela disse ter sido abusada e sentido algo muito comum em vítimas de abuso: culpa. A experiência foi uma das causas de ela se tornar a rainha dos baixinhos. Quero aproveitar esse gancho improvável para conversarmos sobre a Comissão da Verdade.

Sim, porque esse sentimento não é exclusivo das vítimas de crimes sexuais. Em suas memórias, Pérsio Arida, torturado na época da ditadura, diz que se sentia envergonhado por isso: “Era um constrangimento por ter passado por uma experiência vexaminosa, como se, de alguma forma, fosse minha a culpa por tudo o que me aconteceu.(…) Minha vergonha era mais próxima àquela do estuprado, a vergonha por não ter sido capaz de se proteger da maldade do mundo.” O episódio mudou o rumo de seus estudos, ele foi para economia e acabou se tornando um dos pais do Plano Real.

Mas o que a Comissão da Verdade pode fazer diante desse sentimento? Pouco e muito.

Evidentemente trazer à luz a verdade dos fatos, o detalhe sobre as torturas, a realidade de o Estado ter imposto humilhação e desamparo inimagináveis não desfará o que foi feito. Por esse prisma, a Comissão pouco pode fazer.

Mas os seres humanos buscam reconciliação. Se pensamos de forma abstrata num mal-feito, imaginamos que adoraríamos nos vingar. Mas diante dos casos concretos as pessoas preferem a reconciliação – desde que se assumam os erros. Um caso famoso foi o do Hospital de Veteranos em Lexington, nos EUA. Até meados dos anos 80 esse era um dos hospitais da rede de veteranos que mais gastava com indenizações por erros médicos. Então, em 1987, após perder dois processos somando 1,5 milhão de dólares, a diretoria resolveu radicalizar, passando a assumir prontamente todo erro que ocorresse, mesmo que a família ou o paciente não notassem que houvera um problema. Uma reunião era convocada pela equipe com o paciente e o chefe do departamento de risco assumia a culpa, pedia desculpas formalmente e combinava o que poderia ser feito dali por diante. Em menos de uma década o hospital passou a ser um dos que menos gastava com processos. A raiva que sentiam as famílias diante da negação dos responsáveis, motivo de boa parte dos processos, deixava de ser um fator relevante na causa.

Desse ponto de vista a Comissão da Verdade pode contribuir muito, fazendo que responsabilidades sejam assumidas. Não por vingança. Mas porque quando um torturador diz “Sim, eu fiz”, ele mitiga a culpa que sente o torturado: “Foi ele, então; não fui eu”. E a raiva diminui. O filme “A morte e a donzela”, do Roman Polanski, ilustra com maestria essa situação. Nele a atriz Sigourney Weaver interpreta uma vítima de tortura num país recentemente redemocratizado. Certa noite ela e o esposo recebem a visita de um médico, interpretado brilhantemente por Ben Kingsley, cuja voz reconhece como sendo um de seus algozes. Ela consegue amarrá-lo a uma cadeira, mas o marido intervém tentando dissuadi-la de torturá-lo. Ela não quer se vingar, no entanto. Diz que pensou em estuprá-lo, em seviciá-lo, em humilhá-lo além da conta; mas quando se encontrou diante dele percebeu que só queria que ele falasse com ela, que assumisse o mal que praticara – se fizesse isso ela não só poderia deixá-lo viver, mas poderia ela mesma enfim seguir com sua vida.

Não se trata, pois, de revanchismo. Trata-se, isso sim, de finalmente deixar o passado no passado. E seguir em frente.

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Cohen, J. (2000). Apology and Organizations: Exploring an Example from Medical Practice SSRN Electronic Journal DOI: 10.2139/ssrn.238330

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Seu filho pequeno pode ser um psicopata? Seu sobrinho, irmãozinho? O tema se impõe por conta de uma longa reportagem na revista do jornal The New York Times que repercutiu mundo a fora: “Você pode chamar uma crianças de 9 anos de psicopata?”.

A discussão central é: 1) Se é possível estabelecer esse diagnóstico em crianças pequenas, já que nelas múltiplos sintomas se misturam, dificultando uma classificação precisa; e 2) se existiriam mesmo crianças tão más que chegam a ser incorrigíveis. Para discutir o tema, hoje não recorrerei à literatura técnica, mas aos dois maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

Para mostrar a dificuldade diagnóstica, chamo Machado de Assis. Em seu conto “Verba testamentária” ele descreve uma criança com comportamento tão ruim que só consegue atribuir a uma doença: “Sim, leitor amado, vamos entrar em plena patologia. Esse menino que aí vês (…) não é um produto são, não é um organismo perfeito. Ao contrário, desde os mais tenros anos, manifestou por atos reiterados que há nele algum vício interior, alguma falha orgânica. Não se pode explicar de outro modo a obstinação com que ele corre a destruir os brinquedos dos outros meninos (…). Menos ainda se compreende que, nos casos em que o brinquedo é único, ou somente raro, o jovem Nicolau console a vítima com dois ou três pontapés; nunca menos de um.” “A rua em que ele residia, contava um sem-número de caras quebradas, arranhadas, conspurcadas. As coisas chegaram a tal ponto, que o pai resolveu trancá-lo em casa durante uns três ou quatro meses”. “Mas nem admoestações, nem castigos, valiam nada. O impulso interior do Nicolau era mais eficaz do que todos os bastões paternos”. Com o tempo o menino cresceu e seu comportamento passou a revelar sinais de depressão: “A doença apoderara-se definitivamente do organismo. Nicolau ia, a pouco e pouco, recuando na solidão”. Até que a moléstia foi “descoberta; era um verme do baço”. Logo “a secreção do baço tornou-se perene, e o verme reproduziu-se aos milhões”, até que ele morreu: “Quis ele deixar-se morrer? Assim se poderia supor, ao ver a impassibilidade com que rejeitou os remédios dos principais médicos da corte”.

Claro que a depressão não é causada por um verme no baço, mas a questão levantada no conto é que, mesmo com um comportamento tão disfuncional, no fim das contas o pequeno Nicolau talvez não fosse um psicopata mirim, mas sim que apresentasse sinais de depressão, que na criança não são facilmente identificáveis. É por isso que os entrevistados na matéria do New York Times já receberam literalmente dezenas de diagnósticos diferentes.

Mas existem sim crianças muito más. Cruéis. E incorrigíveis. Chamo agora o médico Guimarães Rosa, que descreve em “Grande sertão: veredas” outro menino mau. “Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou nele, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha pequena que pega; uma vez, encontrou uma crioula benta-bêbada dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três pontos a popa da perna dela. O que esse menino babeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar…” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça – o vôo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a ele do sangue, com cuia de salmoura”.

Aqui a conclusão do sertanejo mostra o niilismo que surge diante de crianças muito más; ao dizer que quando o passarinho se debruça o vôo já está pronto, fica patente que, independente das correções – até brutas – dos pais, o menino se encaminhava para a maldade, inexoravelmente.

Os dois escritores no confirmam então que 1) estabelecer diagnósticos em crianças é difícil – pois os comportamentos são muito variáveis – e também temerário – pois pode representar um estigma impossível de se remover, selando seu destino. E que 2) existem mesmo crianças que parecem predestinadas para a maldade, para as quais não há correção ou tratamento possível. No entanto, como as pesquisas mostram que 50% das que têm comportamentos antissociais acabam melhorando com o tempo, vale a pena manter a esperança, pois parece que só metade dos passarinhos que debruçam acabam mesmo decolando.

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Estou assistindo com entusiasmo a série Once upon a time. Pensada para atrair um público mais jovem, a produção mirou no que viu a atingiu o que não viu: a estreia rendeu o primeiro lugar ao canal Sony entre o público brasileiro de 25 a 49 anos. Não sei se o ritmo se manterá ao longo da temporada, mas o início é promissor: uma maldição lançada sobre os personagens dos contos de fadas os transfere para o nosso “mundo real”; eles trazem consigo suas histórias mas não sabem – nem se perguntam – de onde vieram. Presos no tempo, são condenados a reviver continuamente seus dramas essenciais – “Finais felizes, nunca mais”, diz a bruxa.

Existem diversas chaves de interpretação para os contos de fada – psicanalíticas, sociológicas, pedagógicas e até marxistas. Há os que acham que eles ajudam as crianças a entrar em contato com seus medos, outros que vêem neles instrumentos de propaganda dos sistema. Eu vejo sobretudo a paixão humana por histórias. Desde a Ilíada e a Odisseia, passando pelas narrativas bíblicas, as novelas de cavalaria, o romance moderno e o sucesso mundial as séries e novelas, as pessoas adoram acompanhar a história de personagens mais diversos – seja o herói impossível, seja o semelhante num reality show. A publicidade vem se dando conta disso, e cada vez mais campanhas acompanham histórias de protagonistas que se desenvolvem no tempo.

Mas o que achei mais interessante na proposta do seriado é o paralelo, que até aqui vem sendo muito bem feito, entre o conto original e seu aggiornamento. Como cada episódio mostra simultaneamente os personagens como eram no mundo da fantasia e como estão em sua nova vida real, isso permite aos roteiristas resgatar a própria essência dos temas, que soam um pouco datados nas histórias antigas. Por exemplo: a bruxa má que espalhava medo controlando o poder das trevas, agora é prefeita da cidade, e impõe o mesmo medo controlando o poder institucional. Se na história de Rumpelstiltskin a mocinha, arrependida de ceder ao imediatismo, tem que vencer pela esperteza de um mago, no mundo real é a esperteza de advogados que pode livrá-la do contrato abusivo. Assim, os elementos medievais, como pestes, florestas, lobos e carestia, dão lugar a temas modernos como o estresse, mundo corporativo e violência urbana para traduzir, de forma contextualizada, os mesmos dramas universais como medo, solidão, carência e desejo. E a maldição da bruxa má, de acabar com a possibilidade de finais felizes ao eliminar a magia, é derrotada quando o poder mágico é substituído pelo poder da razão, da urbanidade, da democracia e da ciência.

Talvez esse poder, das instituições modernas, também não passe de um conto da carochinha. Mas hoje é o que temos de melhor, e que tem se revelado mais eficaz do que as velhas poções mágicas. Acho que vem daí o sucesso da série entre o público adulto – renovar a esperança de haver finais felizes mesmo num mundo onde não há mais magia.

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Sabe todos os seus conceitos sobre como a memória funciona? Com o perdão do trocadilho, esqueça-os. Talvez não todos, mas provavelmente boa parte do que você imagina está errado. Duvida? Então diga se você concorda ou não com as quatro afirmações abaixo:

1) Quando uma pessoa sofre de amnésia, normalmente ela não consegue se lembrar de seu nome ou sua identidade.
2) A palavra de uma testemunha honesta, que tem certeza do que viu, poderia bastar para condenar alguém judicialmente.
3) A memória humana funciona aproximadamente como uma câmera, gravando sons e imagens do que acontece para que possamos posteriormente rever na memória.
4) Uma vez que algo tenha sido gravado na memória, essa lembrança não se modifica mais.

E então, qual o escore? Com quantas você concorda? Se acredita que qualquer uma delas está certa, errou. Todos os conceitos são incorretos. Talvez o único consolo é que você não está sozinho: entrevistados 1500 americanos, de todas as camadas sociais, 82,7% das pessoas acreditavam na primeira frase, 37,1% na segunda, 63% na terceira e 47,6% na quarta. E a ficção é em grande parte culpada por isso.

Poucos sintomas neuropsiquiátricos são tão caros ao cinema e à literatura como a amnésia, mas poucos são tão distorcidos. A história típica é a de uma pessoa que leva uma pancada na cabeça, esquece de tudo, inclusive de quem ela é, e só ao levar uma segunda pancada recupera a memória. Mas na verdade traumatismos cranianos raramente produzem essa amnésia total. Ela até pode acontecer diante de traumas psíquicos, mas é raríssima. E obviamente não pode ser revertida com outra pancada. Já a ideia de que temos uma filmadora na cabeça, registrando tudo e guardando em arquivos que podemos posteriormente acessar tem grande apelo justamente pela metáfora tecnológica. Mas não é assim que funciona: quando lembramos de algo nós reconstruímos a cena. Guardamos apenas alguns elementos chave, repletos de lacunas que só são preenchidas pelo cérebro na hora de reencenar a lembrança. Por isso mesmo existem muitas distorções: o contexto em que estamos, as dicas que usamos para lembrar, as expectativas envolvidas, tudo isso influencia nessa reconstrução, podendo levar até mesmo à formação de falsas memórias.

Estive pensando nisso enquanto lia o excelente livro Antes de Dormir (Editora Record), aclamado romance de estreia de S.J. Watson. Ele também usa um conceito incorreto sobre a memória: uma mulher acorda a cada dia sem se lembrar de nada. Exatamente como a Drew Barrymore em Como se fosse a primeira vez. Mas não se trata de uma comédia romântica, e sim de um suspense tão envolvente que percorri as quatrocentas páginas em quatro dias. A criativa estrutura do livro nos coloca na perspectiva da narradora, inicialmente no dia de hoje, quando ela recupera um diário que vinha fazendo há algumas semanas. A segunda parte se constrói toda sobre o diário, que lemos junto com a protagonista descobrindo com ela o que está acontecendo. Na última parte voltamos para o dia de hoje, após terminar de ler as anotações. Só que ao longo das páginas as dúvidas foram se acumulando, pois sem ter memórias sobre as quais construir o conhecimento, ficamos, narradora e leitores, à mercê do que os outros lhe contaram e ela conseguiu escrever. Nem tudo é o que parece, e ao comparar as versões ela vai depurando a história, construindo uma trama que não nos deixa fechar o livro antes do fim. Difícil falar mais alguma coisa sem estragar as surpresas.

Como muitas obras de ficção, esse livro abusa da liberdade poética para tecer sua história, cometendo alguns equívocos graves com relação à memória. Mas é tão bem escrito que, novamente com perdão do trocadilho, são falhas que vale a pena esquecer.

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Simons DJ, & Chabris CF (2011). What people believe about how memory works: a representative survey of the U.S. population. PloS one, 6 (8) PMID: 21826204

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Sexo, drogas e futebol. Ou música. Dois personagens resgatados nos últimos tempos que tiveram suas vidas marcadas pelo exagero desses elementos estão em cartaz em interpretações que vão marcar a história da dramaturgia nacional. Sem exagero.

Em ordem cronológica, comecemos com Heleno de Freitas, jogador de futebol que foi um dos primeiros popstars dos gramados. Formado em Direito, vindo de família abastada, Heleno tinha a empáfia de quem sabe que é melhor do que os outros e uma arrogância que o impedia de disfarçar que sabia disso. Viciado em lança perfume e mulherengo, briguento e estourado, contraiu sífilis jovem e morreu aos 39 anos, quando a doença, atingindo seu cérebro, deixou-o – literalmente – louco. O filme Heleno, do diretor José Henrique Fonseca, traz Rodrigo Santoro no papel título do jogador, numa interpretação cuja força pode ser atestada na balança: para retratar a fase final de Heleno, internado num asilo em Barbacena, Santoro emagreceu doze quilos. Levando em conta que ele já estava em forma para interpretar um atleta de ponta, tem-se a dimensão da entrega ao personagem. É o tipo de sacrifício que o faria por as mãos no Oscar, fosse nos Estados Unidos. Ao fugir da caricatura e optar por mostrar o personagem como um todo, Santoro mergulhou no papel – estudou durante cinco anos para o filme – e voltou à tona com uma das melhores, se não a melhor interpretação de sua carreira.

Entrega semelhante pode ser vista na interpretação teatral que Tiago Abravanel faz de Tim Maia. Após ser aprovado para o papel do músico tijucano, Abravanel fez um laboratório intensivo de seis semanas, não só estudando a biografia de Tim, na qual o espetáculo se baseia, mas assistindo 20 horas de gravações do cantor. Seria injusto dizer que se trata de uma boa imitação. Muito mais do que isso, ele representa a vida de Tim Maia da juventude até a morte – com 55 anos – mudando não só o tamanho da barriga, mas a própria forma de cantar: é notável perceber como a voz límpida do início da carreira vai dando lugar à rouquidão com a decadência física do cantor. Como os grandes ícones da música mundial, a vida de Tim Maia foi vivida numa intensidade incompatível com a longevidade, com romances violentos e, sobretudo, excesso de drogas. Desde que foi introduzido ao mundo dos psicotrópicos não parou mais, experimentando muito de tudo, de maconha a LSD, de álcool a cocaína, por vezes tudo ao mesmo tempo. Os prejuízos não foram só na saúde, mas a carreira e a vida pessoal seguiram o mesmo rumo, história que a peça pontua com canções interpretadas com maestria por Tiago Abravanel em quase três horas de espetáculo.

Popstars morrem mais cedo mesmo. Não é mito: a vida extremada, o contínuo estresse pela performance, a disponibilidade de álcool e drogas, tudo isso faz com que os famosos, pelo menos do mundo da música, morram 70% a mais do que a população geral nos anos seguintes ao sucesso. Só após vinte e cinco anos do início da fama os índices de mortalidade voltam ao normal. Significativo é perceber que o risco era maior para os que estouraram antes de 1980 – do final do século para cá parece que as pessoas estão menos tresloucadas.

Alguns podem achar que é a caretice da nossa época, preocupada demais com a saúde e com o politicamente correto, e que só essa loucura produz verdadeiros talentos. Mas talvez seja o contrário. Heleno de Freitas teve que implorar para conseguir jogar uma só partida no Maracanã – que era seu sonho – por causa de sua decadência física, e Tim Maia viu seus shows rarearem e os discos encalharem depois que sua carreira desandou. Pode ser caretice, mas fico com a impressão que essa loucura toda mais atrapalhou do que ajudou, impedindo-os de brilhar ainda mais.

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Bellis, M., Hennell, T., Lushey, C., Hughes, K., Tocque, K., & Ashton, J. (2007). Elvis to Eminem: quantifying the price of fame through early mortality of European and North American rock and pop stars Journal of Epidemiology & Community Health, 61 (10), 896-901 DOI: 10.1136/jech.2007.059915

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Se você tem estômago fraco, não leia esse post. Eu bem que não queria escrever sobre canibalismo, mas não tenho como fugir.

Para quem ainda não teve o desgosto de ouvir a narrativa do crime bizarro, trata-se de um homem, Jorge Negromonte da Silveira, que fundou uma seita chamada “Cartel” e vive com a esposa Isabel Cristina Torreão Pires da Silveira e a amante de Bruna Cristina Oliveira da Silva, com quem se envolveu quando ela tinha 16 anos, situação aceita pela esposa. Esse trio foi preso por homicídio de várias mulheres (as mortes podem chegar a oito, suspeita-se), cujos corpos foram consumidos como refeições rituais. Segundo Jorge existem duas entidades que falam com ele desde jovem, às quais ele chama de arcanjo e querubim, escolhem quem serão as vítimas, mortas em missões para eliminar mulheres do mal que estariam superpovoando a Terra, e o canibalismo completava o ritual de purificação. A carne estocada, além de consumida durante alguns dias, acabou sendo usada para rechear os salgados que Isabel vendia na cidade. Com eles morava ainda uma menor de idade, provavelmente filha de uma das vítimas, que também era inserida nas práticas canibais. Se não bastasse, há ainda um vídeo de Isabel contando alguns detalhes dos crimes, e um filme caseiro, chamdo Espírito, teria sido encontrado, no qual haveria cenas de homicídios e canibalismo.

Enauseante a história. Faço aqui uma pausa, para o leitor retomar o fôlego. O pior do relato já foi. Só faltou dizer que Jorge diz ser esquizofrênico, mas parou de tomar os remédios quando jovem e não acha que é louco, embora os outros digam o contrário. Ele mesmo registrou em cartório um livro com título “Revelações de um esquizofrênico”, no qual detalha sua seita e sua missão.

Mas seriam essas pessoas todas doentes mentais? Quais são as chances de três pessoas com o mesmo transtorno terem o mesmo tipo de delírio, a ponto de se reunirem nessa quadrilha macabra? Posso estar errado, mas avaliando a situação aqui de longe me parece ser um caso de transtorno psicótico induzido. Já conversamos sobre esse diagnóstico antes, quando um artigo nosso no British Journal of Psychiatry mostrou que a doença havia sido descrita num conto de Machado de Assis antes de sua descoberta (leia). Trata-se de um problema que se caracteriza pelo aparecimento de sintomas psicóticos coincidentes nos membros da família vivendo isolados e em estreita associação, pela transmissão de delírios de uma pessoa doente para uma ou mais pessoas saudáveis. Tenho a impressão que Jorge, que parece ser a pessoa mais articulada, desenvolveu essas crenças delirantes e as transmitiu para as suas mulheres.

Se for esse mesmo o caso, a situação jurídica do trio pode dar muito pano para manga. Mais de uma vez já se alegou transtorno psicótico induzido nos tribunais americanos, mas tem sido raro os sujeitos serem considerados inocentes por conta dele. Isso acontece porque é difícil delimitar, sobretudo em casos de seitas, onde termina uma crença mística e onde começa o delírio – ou seja, não é simples dizer que o sujeito deixou de ser apenas um fiel seguidor para se tornar um doente inimputável.

Sempre vale a pena ressaltar que a maioria esmagadora dos esquizofrênicos não comete crimes e lembrar que pacientes psiquiátricos são muito mais vítimas do que perpetradores de violência. Aliás, nem tenho certeza absoluta de que essas pessoas sejam doentes. Mas dessa vez acho que eu até prefiro acreditar que sim.

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Newman WJ, & Harbit MA (2010). Folie a deux and the courts. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 38 (3), 369-75 PMID: 20852223

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“Estupra mas paga”, parece ter sido a decisão do Superior Tribunal de Justiça quando decidiu relativizar a violência de se fazer sexo com meninas de doze anos, desde que elas sejam prostitutas.

Antes de explicar porque discordo da decisão, devo dizer que compreendo o raciocínio que levou a ela. A ministra do STJ, Maria Thereza de Assis Moura, entendeu que não foi “violado, verdadeiramente, o bem jurídico tutelado – a liberdade sexual –, haja vista constar dos autos que as menores já se prostituíam havia algum tempo”. A lei do estupro dizia, até 2009, que quando a relação sexual se dava com menor de 14 anos, mesmo que não houvesse sinais de agressão presumia-se ter existido violência. Por quê? Porque no início da adolescência a pessoa não tem ainda maturidade suficiente para consentir com o ato sexual, e portanto deveria ter sido induzida de alguma forma a isso – ou por ameaças, promessas ou mesmo sedução. A violência não era física, mas o próprio fato de fazer sexo com alguém não preparado para decidir de forma plenamente consciente, mesmo que não impusesse resistência. A ministra acha que, já que as meninas em questão eram prostitutas, elas sabiam bem o que era o sexo e portanto não foram ludibriadas, enganadas ou forçadas ao ato; logo, sua liberdade sexual não fora violada. Eu entendo o que ela pensou. Mas discordo com muita veemência.

Discordo porque a violência prevista na lei não desaparece se uma menina faz do sexo sua profissão. Mesmo que ela não tenha sido levada a praticar sexo contra sua vontade explícita, se ela tem apenas 12 anos seu cérebro e seu aparelho psicológico não adquiriram habilidades especiais pelo fato de ser prostituída, por isso sua “vontade explícita” não pode ser invocada como álibi. A lei considerava haver violência, e ainda hoje considera estupro ter relação com alguém com menos de 14 anos, porque a decisão de engajar-se em qualquer comportamento, sobretudo um tão complexo como o sexual, depende de uma série de competências e habilidades ainda não plenamente desenvolvidas nessa idade. Nossas decisões se dão em função de nossas intenções. A inteção, por sua vez, depende de dois fatores: da postura/opinião do sujeito sobre o comportamento (quão desejável ele é), e também da percepção sobre as normas gerais referentes àquele comportamento (o que os outros pensam que eu devo fazer). As consequências das decisões (por exemplo, engravidar) são levadas em conta nesse raciocínio, e se baseiam nas crenças sobre a probabilidade de elas ocorrerem (quais as chances de engravidar?) e no valor que elas terão (quão ruim é ficar grávida?). As considerações normativas, por fim, dependem não só de saber o que os outros acham, mas também do valor que se dá para a opinião do meio e do quanto a pessoa quer se conformar a ele.

Sim, é complicado mesmo. E é por isso que a sociedade entende que uma pessoa de 12 anos não é capaz de decidir fazer sexo. Mesmo que queira. Mesmo que já o faça. Minha principal discordância da ministra é que, para mim, a violência está implícita no próprio ato de ter relação sexual com um pré-adolescente, não em como se chegou a esse ponto. A lei, afinal, não existe para impedir os menores de fazer sexo com adultos. É justamente o contrário.

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Gillmore, M., Archibald, M., Morrison, D., Wilsdon, A., Wells, E., Hoppe, M., Nahom, D., & Murowchick, E. (2002). Teen Sexual Behavior: Applicability of the Theory of Reasoned Action Journal of Marriage and Family, 64 (4), 885-897 DOI: 10.1111/j.1741-3737.2002.00885.x

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Vingança. Esse parecer ser o tema da semana. Ao nos aproximarmos do marco de um ano do massacre de Realengo temos notícia do crime em massa em Oakland, nos Estados Unidos. Enquanto isso, na ficção, o desejo por retaliação é a mola mestra da novela Avenida Brasil, que promete trazer a ambiguidade psicológica para a dramaturgia popular.

Os crimes como o de Realengo e de Oakland são classificados como crimes de vingança porque em sua maioria são motivados por uma sensação de injustiça acumulada ao longo do tempo. As vítimas não são escolhidas de forma casual, mas, ao menos na mente do perpetrador, são de alguma forma relacionadas ao sofrimento que ele passou. E é interessante notar que, mesmo não sendo improvisados (ao contrário, são bem planejados durante um bom tempo), tais eventos costumam acabar com a morte do assassino, ou no mínimo com sua prisão – eles praticamente nunca saem ilesos. A revanche, portanto, tem um preço que o perpetrador antevê mas opta por pagar.

E vingança é assim mesmo.

Para estudá-la melhor cientistas criaram o seguinte experimento: voluntários ganhavam 10 Unidades Monetárias (UM) cada um. O primeiro, chamemos de A, podia confiar no segundo, B, e dar toda sua quantia para ele. Se o fizesse, o pesquisador quadriplicava o total, deixando B com 50 UMs e A com zero. Depois disso B podia repartir seus 50 com A, como retribuição pela confiança, ou traí-lo ficar com tudo. Mas aí A podia impor uma pena pela traição; algumas vezes isso não custava nada mas em outras havia também um custo para A (A perderia uma UM para cada duas que cortasse de B). Os resultados não deixaram dúvida: o núcleo estriado do cérebro, área que sinaliza prazer e recompensa, era ativado quando A decidia punir B, mostrando que, para o cérebro, a vingança realmente é doce. Mesmo quando A sabia que a vingança teria um custo pessoal essa região do cérebro era ativada (nesse caso, junto com o córtex pré-frontal medial, região envolvida nos cálculos de custo e benefício). E quanto mais ativada fosse a área da recompensa do voluntário quando não havia custo pessoal, maior era a chance de ele retaliar quando houvesse. Ou seja, quanto maior a satisfação pela vingança, menos importância se dá ao preço a pagar.

Esse balanço entre o custo pessoal e a sensação de recompensa traz a ambiguidade de sentimentos envolvida nas situações de vingança. Na novela a protagonista abandona sua família, seu namorado e sua vida estável na Argentina para voltar ao Brasil tentar se vingar. Paga, portanto, um alto preço pessoal, e, segundo o autor, na expectativa de ter sua recompensa se tonará quase uma vilã nos próximos meses, passando a se questionar até que ponto vale a pena.

Nos assassinatos em massa, por outro lado, os sujeitos sabem de antemão que pagarão alto, possivelmente com suas próprias vidas. Mas talvez a realidade já tenha se tornado intolerável para eles, só restando a tênue promessa de uma recompensa na vingança. Claro que são casos que não têm causa única, originando-se de uma cadeia de fatores que culminam na tragédia. Mas se a variável vingança está quase sempre presente, imagino que se tratarmos os outros como queremos ser tratados e educarmos nossos filhos para fazer o mesmo, talvez possamos prevenir pelos menos parte desses crimes, trabalhando ao mesmo tempo por um mundo menos hostil.

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de Quervain, D. (2004). The Neural Basis of Altruistic Punishment Science, 305 (5688), 1254-1258 DOI: 10.1126/science.1100735

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O Brasil ficou mais burro nos últimos dias. E menos bem-humorado. Bom humor e inteligência, afinal, são (ou deveriam ser) parceiros de trabalho.

Com a morte de Chico Anysio e de Millôr Fernandes calam-se duas vozes que mostravam como o humor pode ser fundamental para uma sociedade ao criticar comportamentos, expor os desvãos, confrontar-nos com nossos pecados e defeitos nos levando a repensar valores e atitudes. Para rir, afinal, somos obrigados a pensar.

A teoria clássica do riso, cujas raízes remetem à Grécia antiga, particularmente a Aristóteles, dizia que o riso é sempre fruto do desprezo, da humilhação. Como Cícero escreveria em seu livro sobre a oratória, “a causa principal, se não a única causa, da hilaridade são aqueles tipos de observações que mencionam ou distinguem, de uma maneira que em si mesma não é inconveniente, algo que é de algum modo inconveniente ou indigno”. Na Renascença, com a retomada das ideias do classicismo, essa visão se manteve até mesmo entre os médicos que recomendava o riso como uma meio de regular os humores corporais: Laurent Joubert, importante médico-cientista francês, dizia que o riso está associado à alegria mas nunca fica dissociado da tristeza, pois “Como tudo que é ridículo se origina da feiúra e da desonestidade (…) qualquer coisa ridícula nos dá um prazer e uma tristeza combinados”. Essas teorias foram se modificando ao longo do tempo, mas até os tempos atuais acredita-se que o humor traga consigo sempre algo de agressivo, de violação. Como dizia Hobbes, fazer graça “consiste em descobrir e mostrar à nossa mente, com elegância, alguns absurdos cometidos pelos outros”. É aí que reside o dom dos humoristas talentosos.

Homens dotados de enorme inteligência, Chico e Millôr eram capazes de nos mostrar problemas sem perder a elegância, fazendo piadas, como recomendava Cícero, “de uma maneira que em si mesma não é inconveniente”. Eles sabiam que os defeitos e vícios que denunciavam, quer em textos, desenhos ou personagens, faziam rir não por agredir indivíduos, mas por se utilizar da possibilidade de um “riso não ofensivo” que o próprio Hobbes achava possível – aquele que ocorre quando rimos “dos absurdos e dos defeitos que abstraímos das pessoas, em situações nas quais todos podem rir em conjunto”.

Embora Chico Anysio dissesse que no humor ninguém é substituível, torço para que outros comediantes ocupem o nicho da crítica elegante, que faz pensar e rir ao mesmo tempo. Esse lugar fica praticamente desocupado quando comediantes voltam-se para ofensas pessoais em espetáculos “proibidões”. Como o stand-up, que vem dando o tom do humor no país, é novo por aqui (apesar de iniciativas isoladas anteriores, como do próprio Chico e alguns outros), acho que ele está passando por uma espécie de adolescência, fazendo da rebeldia gratuita sua bandeira e desqualificando como babacas quem levanta objeções. Tomara isso passe. Pois se virar adulto, quem sabe esse humor também trocará o ímpeto pela reflexão, como acontece quando amadurecemos, ganhando elegância e desenvolvendo a inteligência que sofre tanto com a partida de Chico e Millôr.

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A estreia do reality show “The Ultimate Fighter Brasil – Em busca de campeões”, no qual aspirantes a lutadores profissionais disputam vaga na maior competição mundial de vale-tudo, vem coroar o fenômeno que esse esporte se tornou. Na verdade vale-tudo é – paradoxalmente – o nome antigo de um esporte novo, o Mixed Martial Arts (artes marciais mistas), ou MMA para os iniciados. Eu não gosto particularmente, mas seu crescimento exponencial merece algumas reflexões.

Desde os primórdios da civilização nós humanos desenvolvemos meios ritualizados de expressar a agressividade inerente aos seres vivos. Encontrar maneiras de extravasar a violência sem nos matarmos deve ser até mesmo um pré-requisito para nos tornarmos civilizados. Não por acaso a luta é o esporte mais antigo da humanidade: colocar normas (criando um esporte) nos embates físicos deve ter sido uma das primeiras coisas que fizemos ao construir as sociedades. A partir de então, da luta na antiguidade clássica, passando pelos gladiadores romanos, pelas justas (combates de cavalaria) na idade média, até chegar ao boxe moderno, em cada período um jeito de bater e apanhar com regras conheceu a glória. A pós-modernidade nos trouxe o MMA.

Embora controverso e sujeito a múltiplas definições, o termo pós-modernidade foi consagrado no meio acadêmico e popular como justamente uma espécie de “vale-tudo” do pensamento. Para o filósofo Jean-François Lyotard, do ponto de vista acadêmico a pós-modernidade surge com o fracasso das grandes teorias que se propunham a explicar o mundo – fosse o marxismo, a psicanálise, o feminismo ou qualquer outra -, fracasso esse que traz a sensação de não ser possível chegar a uma verdade. Daí surge a ideia de que há várias verdades possíveis, e as ideologias passam a ser adotadas aos pedaços, conforme a escolha individual. No plano estético também o pós-modernismo é caracterizado pela mistura, pela apropriação de elementos do passado de forma acrítica. Segundo Fredric Jameson, ao contrário da paródia – que faz uma crítica histórica – trata-se de um pastiche, uma “canibalização aleatória de todos os estilos do passado, o jogo aleatório de alusões estilísticas”, que não mantém uma coesão com a história, nem para criticá-la nem para atualizá-la.

O MMA é assim. Como bem diagnosticou o colega Wilson Baldini Jr., no MMA o sujeito “é faixa-preta quarto dan de jiu-jitsu, sexto dan de taekwondo, sétimo de karatê, terceiro de judô… Caramba! Precisa de cinco vidas para somar tanta experiência.” Obviamente isso só é possível se não se domina plenamente uma técnica, mas apenas alguns golpes de uma e de outra. Como no caso das ideologias, pode-se montar um estilo aprendendo artes marciais aos pedaços. Mas essa apropriação superficial, desconectada da modalidade original, leva justamente ao pastiche, com grande prejuízo para a beleza da luta: enquanto o boxe é conhecido como “nobre arte” por requerer muita técnica e pouca briga, os próprios lutadores de MMA dizem que o trabalho deles é brigar.

Quem costuma ler esse blog sabe que não sou um saudosista revoltado. O MMA faz sucesso por refletir uma cosmovisão atual, não adianta lamentar-se e dizer que o boxe era mais nobre ou as justas mais elegantes. Ele também vai passar. Se tem uma coisa que a história ensina é que mais importante (e produtivo) do que lutar pelas coisas que mudaram é lutar contra aquelas que ainda precisam mudar.

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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