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Daniel Martins de Barros

Duas notícias do último final de semana, aparentemente não relacionadas, se tocam num ponto curioso, e têm importância para a psiquiatria: caiu um satélite da Nasa e caíram as touradas em Barcelona. Vamos por partes.

Os satélites geoestacionários são aqueles que orbitam a Terra na mesma velocidade de rotação do planeta, na região do Equador, ficando dessa maneira sempre sobre o mesmo ponto em relação a nós. A altitude em que eles devem permanecer, pouco mais de 30.000 km de altura, foi pela primeira vez proposta pelo escritor Arthur C. Clarke (aquele de 2001, uma odisseia no espaço) num artigo publicado em 1954 em que ele sugeria que esses satélites artificiais poderiam ser usados para telecomunicações. Por isso até hoje a órbita geoestacionária é também chamada de Órbita Clarke, em sua homenagem.

É esse autor que faz a conexão entre as duas notícias, porque também previu, no livro O fim da infância (publicado um ano antes, em 1953) uma forma de acabarem as touradas. O livro conta a história de naves que chegam à Terra mas, durante décadas, seus pilotos alienígenas não dão as caras. Ainda assim eles resolvem todos os problemas do planeta, da fome à guerra, passando pelo respeito aos animais. Particularmente na questão das touradas eles dão um ultimato, avisando que elas deveriam ser interrompidas imediatamente ou haveria consequências. Os humanos insistem, e no dia do próximo espetáculo, quando o toureiro espeta a primeira espada no lombo do touro, houve-se um horrendo grito de dor coletivo, pois todos os espectadores sentem a dor da estocada ao mesmo tempo. Foi a última.

E aí chegamos à psiquiatria.

O que Clarke descreveu foi uma maneira que os aliens usaram para que as pessoas sentissem a mesma coisa que os touros sentiam. Isso se chama empatia. Essa capacidade de se colocar no lugar do outro, sentindo o que ele sente, é um dos fatores constituintes do caráter. E as teorias atuais sobre a personalidade humana postulam que esta é resultado da interação entre nossos traços de temperamento e o nosso caráter. Não significa, no entanto, que quem é a favor das touradas tem baixa empatia e por isso é mau caráter. Empatia por gente é diferente de empatia por bichos.

Num estudo do começo da década uma pesquisadora avaliou os graus de empatia por humanos e animais em 514 pessoas, por meio de questionários padronizados, e notou que embora houvesse uma certa relação estatística entre eles (quanto maior a empatia por um, maior por outro), tal correlação era pequena. Ou seja, é possível se compadecer do próximo e não se importar com os bichos. O fator que mais aumentava a empatia por animais, não surpreende, era ter (ou já ter tido) algum bicho de estimação (enquanto ter crianças em casa aumentava a empatia por humanos).

Quando vivenciamos algumas coisas, quando sentimos na pele ou convivemos intimamente com determinadas situações, nossa visão de mundo se modifica. O círculo dos que são abarcados por nossa empatia se amplia, de alguma forma moldando nosso caráter. Exemplos como o de Barcelona, onde a população trouxe para a esfera da sua empatia o sofrimento animal, mostram que o também o caráter coletivo e a personalidade de um povo inteiro podem se modificar com o tempo.

ResearchBlogging.org Paul, E. (2000). Empathy with Animals and with Humans: Are they Linked? Anthrozoos: A Multidisciplinary Journal of The Interactions of People & Animals, 13 (4), 194-202 DOI: 10.2752/089279300786999699

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Todo mundo gosta de saber a origem dos ditos populares. Eu tenho a grata satisfação de – até onde sei – ter descoberto uma, a de “Queimar a língua” (aquela em que, quando alguém fala algo que não se confirma ou uma mentira posteriormente descoberta, dizemos que ele “queimou a língua”).

Até recentemente, quando havia duas testemunhas contando histórias conflitantes os beduínos árabes pediam que elas dessem suas versões e em seguida lambessem um ferro quente. Como a ansiedade faz a boca secar, com medo de ser descoberta a testemunha mentirosa produzia pouca saliva e acabava queimando a língua, revelando que sua história era a falsa. Embora tenha pesquisado bastante, até hoje não encontrei outra explicação para a origem da expressão “queimar a língua”, e por isso acredito que venha daí.

Esse estudo de como os estados emocionais alteram o funcionamento do corpo e vice-versa, numa via de mão dupla com tráfego intenso e constante, é chamado de psicofisiologia, e traz resultados práticos interessantes, não só para os beduínos de antigamente, mas também para os fóbicos sociais de hoje em dia.

Dois psiquiatras do Rio de Janeiro publicaram esse ano um relato de caso em que usam a toxina botulínica (os famosos Botox ou Dysport) no tratamento de um paciente com fobia social. Pessoas com tal transtorno sofrem de uma ansiedade patológica diante de situações de interação social. Dentre os sintomas, um dos que mais incomoda é a sudorese excessiva, pois visivelmente suados os pacientes pensam que todos estão percebendo (e muitas vezes estão), ficando mais ansiosos, suando mais ainda, numa espiral crescente de mal estar. A toxina botulínica reduz a atividade das glândulas sudoríparas, e foi assim capaz de quebrar esse círculo vicioso, auxiliando na aplicação da terapia cognitivo-comportamental. Embora a mente continuasse a influenciar o corpo, a influência desse sobre a mente foi freada à força, ajudando na remissão dos sintomas.

Mente e cérebro, corpo e alma, rugas e ansiedade. Posso afirmar que logo abandonaremos a distinção entre nossos lados “de dentro” e “de fora”. Espero não queimar minha língua.

ResearchBlogging.org
Kleinmuntz, B., & Szucko, J. (1984). Lie detection in ancient and modern times: A call for contemporary scientific study. American Psychologist, 39 (7), 766-776 DOI: 10.1037/0003-066X.39.7.766
Larissa da Rocha Lessa, & Leonardo F. Fontenelle (2011). Toxina botulínica como tratamento para fobia social generalizada com hiperidrose Revista de Psiquiatria Clínica, 38 (2) pp 84-86

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O filme “Não me abandone jamais”, baseado no livro de Kazuo Ishiguro, é de 2010, mas passou pelos cinemas brasileiros no início desse ano e já está disponível em DVD. É a história de um triângulo amoroso num universo de ficção científica. Kathy e Tommy se amam, mas Tommy acaba namorando Ruth, que não queria ser deixada de lado. Ocorre que os três são clones humanos, destinados a doar seus órgãos num programa oficial do governo até que cheguem a suas conclusões, terminologia oficial para suas mortes.

A certa altura uma personagem responsável pelo serviço de educação dos doadores explica que “as pessoas” (excluindo os clones dessa categoria) não aceitariam voltar a um tempo em que as doenças eram fatais, recusando-se a abolir o programa de clonagem e doação. Elas nem sabem se os clones têm alma.

O filme é belíssimo e vai além disso, mas me fez pensar no aspecto da bioética que discute o enfoque holístico (total) versus o biológico do ser humano doente. Vejamos como é interessante o universo moral da medicina.

Investigando como os médicos lidam com tais questões, pesquisadores noruegueses observaram cerca de cem horas de atendimento de 15 médicos diferentes, perseguindo-os ao longo de seus dias de trabalho por onde quer que fossem, além de conduzir entrevistas com esses profissionais. O resultado foi que, independente da especialidade, os médicos tendiam a ouvir as histórias dos pacientes e recontá-las reduzindo-as a queixas, sinais e sintomas pertencentes ao universo biológico. Excluia-se qualquer significado subjetivo das situações (morais), focando apenas os aspectos funcionais dos indivíduos (biológicos). Menos do que uma falta ética, no entanto, essa desumanização pareceu ser resultado de os médicos se focarem apenas no princípio da beneficência, buscando fazer o bem para os pacientes, levando em conta apenas seus “organismos”. Os pesquisadores questionam mesmo se é factível uma medicina totalmente humanizada, dadas as demandas reais da prática clínica.

Uma coisa que o artigo não investigou, mas que acho relevante e faz ligação com o filme, é o que os pacientes pensam disso. Embora todos desejem um medicina ética, quando o que está em jogo é a vida ou a morte, surge uma zona cinzenta (sobre a qual já discutimos aqui), na qual parece que encarar o ser humano como uma máquina biológica que pode ser consertada muitas vezes pesa mais do que levar em conta que a realidade humana vai muito além do biológico, envolvendo aspectos subjetivos, tanto individuais como coletivos. Talvez nós mesmos prefiramos assim. É esse raciocínio estritamente biológico, afinal, que permitiu àquelas “pessoas” (morais, isto é, com alma) do filme aceitarem receber órgão de clones (biológicos, sem alma) considerados “não-pessoas”. E como uma delas diz, ninguém aceitaria voltar atrás.

Óbvio ululante que o programa do filme nos parece moralmente inaceitável. Mas o fato de aquela sociedade o aceitar moldou sua prática médica. Donde concluo duas coisas: os médicos são o que as pessoas esperam que sejam. E exatamente por isso, não há ética médica independente da sociedade.

ResearchBlogging.org Agledahl, K., Førde, R., & Wifstad, �. (2010). Clinical essentialising: a qualitative study of doctors’ medical and moral practice Medicine, Health Care and Philosophy, 13 (2), 107-113 DOI: 10.1007/s11019-009-9193-z

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Alguns episódios dos Simpsons me fazem rir sozinho. Em um desses Homer transforma sem querer sua torradeira numa máquina do tempo, e voltando à pré-história causa alterações bizarras no presente ao interferir minimamente no passado. Quando espirra na cara de um dinossauro causando a grande extinção da espécie, por exemplo, volta ao presente e encontra sua família milionária, os filhos educadíssimos, a esposa linda; mas ao descobrir que ninguém sabe o que são rosquinhas, se desespera e volta para arrumar aquele estrago. A essa altura eu já estava rindo, mas assim que ele sai a Marge comenta com naturalidade que estava chovendo de novo, e a cena mostra milhares de rosquinhas caindo do céu. Gargalhadas.

Ok, pode não ser tão engraçado assim quando eu conto (assista e depois me conte – é o episódio “A casa do horror V”, da sexta temporada). Mas não foi por isso que lembrei do episódio, e sim porque ele mostra a grande penetração na cultura pop dos conceitos da teoria do caos, segundo a qual nos sistemas caóticos mudanças infinitesimais nas condições iniciais levam a enormes alterações mais tarde.

Acabo de ler um livrinho interessante sobre o tema, “Introducing Chaos – a graphic guide“. Claro que isso não me fez um especialista no tema, mas pela primeira vez percebi com clareza que essa abordagem poderá ajudar a compreender algumas questões centrais das neurociências.

Como surge a mente? Ou seja, nossos pensamentos, emoções, o amor, a saudade, a lembrança da fórmula de Báscara e a aflição ao ouvir o motorzinho do dentista, tudo isso pode ser explicado apenas pelos impulsos elétricos viajando entre os neurônios? Tendemos a achar que não, pois são subjetivos, experimentados como não-materiais; como seriam explicados apenas pela matéria bruta, pouco mais de um quilo de miolos? Por outro lado, se não forem causados pelo cérebro, o que os causa? (Alma e espírito não estão em questão, por serem matéria de fé e não de ciência). Se no cérebro material não causa a mente imaterial, surgiria ela literalmente “do nada”?

A teoria do caos e dos sistemas complexos oferece uma possibilidade de explicar como o cérebro limitado causa a mente ilimitada, utilizando conceitos como não-linearidade e feedback.

Nos sistemas lineares, quando você sabe o estado atual é possível dizer exatamente qual será o próximo estado. Mas em sistemas não-lineares, é muito difícil prever o que irá acontecer no momento seguinte, mesmo conhecendo o presente – justamente porque ele não é linear. Já o feedback faz com que os resultados de um sistemas influenciem em seu funcionamento – como na microfonia, quando o microfone capta o som que ele mesmo gera no alto-falante.

O cérebro é um sistema complexo, já que nossos 100 bilhões de neurônios geram 100 trilhões de sinapses, estima-se. São muitas variáveis independentes (os neurônios), mas conectadas (as sinapses), produzindo um sistema não-linear que influencia a si mesmo de diversas maneiras. A mente, ou a consciência, pode então ser entendida como o resultado que emerge desse sistema. Ela pode, sim, ter uma causa física, mas ao se configurar como um sistema caótico, torna-se imprevisível e aparentemente aleatória, onde modificações imperceptíveis num momento podem levar a transformações radicas em outro. Tudo isso confere a ela sua característica essencial de imaterialidade.

É claro que a compreensão profunda das implicações da teoria do caos para a psiquiatria depende de muito mais matemática do que eu sou capaz sequer de imaginar. Mas se mesmo sabendo tão pouco tive um insight importante (para mim, pelo menos) sobre a relação mente-cérebro, nem imagino o que pode acontecer quando os neurocientistas se apropriarem desse conhecimento. Acho que é imprevisível.

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07.setembro.2011 18:35:21

A trabalhosa felicidade

Entremear minhas férias com o trabalho de inaugurar este novo espaço foi motivo de grande alegria. Primeiro pela oportunidade de integrar um time tão ilustre ao juntar-me ao grupo Estado (só os novos vizinhos do site já valeriam o esforço). Mas, além disso, também porque o trabalho duro nos faz mais felizes do que a folga.

Atravessando o Reino Unido de carro com minha esposa e meus pais, indo das terras altas da Escócia até o sul da Inglaterra através de cidades pequenas e estradas minúsculas, esse tema já vinha passando por minha cabeça. Tudo começou quando, notando que o carro alugado fazia grande parte do trabalho sozinho, já que era equipado com GPS, meu pai fez um comentário com o qual concordei imediatamente: “Viajar com GPS perde um pouco a graça, não é?”. Concordei, mas não sem certo conflito – se nem ele nem eu somos saudosistas que acham que tudo era melhor antigamente, nem tampouco tecnófobos, desconfiados de qualquer coisa que use pilhas, por que sentíamos que outras viagens – com mapa no colo, estudando pontos de referência e debatendo qual via seguir – eram mais recompensadoras do que as mais recentes, guiadas por satélite?

Justamente porque aquelas davam mais trabalho.

É claro que é mais fácil apertar dois ou três botões e seguir as indicações; tecnologia serve para isso mesmo, facilitar a vida. Mas não se pode negar que, se ganhamos em conforto, perdemos em realização, privados do sentimento de vitória ao decifrar um labirinto de estradas e conseguir chegar ao destino.

Essa foi a mesma conclusão de um grupo de pesquisadores da escola de negócios da Universidade de Chicago no ano passado. Eles apresentaram um formulário a voluntários, oferecendo em troca uma barra de chocolate. Os sujeitos podiam esperar 15 minutos e pegá-la ali mesmo, ou gastar esse tempo indo a pé buscá-la em outro local. Mesmo variando o tipo de chocolate (escuro ou ao leite) e o grau de liberdade das pessoas para escolher o que fazer, todos que tiveram mais trabalho se sentiram mais felizes do que quem teve folga. Os pesquisadores concluíram que o ócio na verdade nos aflige, e o que queremos mesmo é ficar ocupados – só precisamos de um motivo.

Creio que a partir de agora motivos para ficar ocupados não faltarão nem a mim – que passo a ter um blog a sustentar –, nem aos leitores – que terão mais textos para ler. Mas sinceramente espero que acompanhar esse blog dê tanto trabalho quanto escrevê-lo,  para assim compartilharmos da alegria que é estar aqui.

ResearchBlogging.org

Hsee CK, Yang AX, & Wang L (2010). Idleness aversion and the need for justifiable busyness. Psychological science, 21 (7), 926-30 PMID: 20548057

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

Comentários recentes

  • Heitor: Boa reflexão Daniel. Contudo o próprio Georges Canguilhem não se aventura no campo da psiquiatria....
  • Incógnita: Se tu quer ser viado, que seja, mas não deixará de ser humano… Na verdade, NÃO sou contra a...
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