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Daniel Martins de Barros

Vejam os dois desafios que enfrento: escrever sem poder utilizar acentos ou cedilha, pois o Mac que uso no momento rejeita qualquer tentativa de acentuar, e, muito pior, dirigir pela esquerda, com o volante no local onde a vida inteira andei como passageiro.

Viajando pelo Reino Unido tive que fazer como diz o ditado: em Roma, como os romanos. Mas a dificuldade foi grande: o volante no outro lado do carro e o carro do outro lado da rua. Em mais de uma curva me vi entrando errado, quase indo bater de frente com os motoristas escoceses. Isso sem (ainda) ter dado um gole sequer de whisky.

Mas acho que esse talvez seja um dos principais motivos pelos quais gosto de viajar: nunca se chega mais perto de saber como as meninas e meninos se sentem durante o crescimento – as regras ocultas, a dificuldade de entender totalmente a linguagem, a necessidade de adquiir nova habilidades, a nem sempre boa vontade dos outros em explicar as coisas. Assim como quando estamos crescendo, quando viajamos nos expomos ao desconhecido, tendo como pagamento nada mais do que ter a curiosidade de experimentar novidades satisfeita.

Para ver lugares, saber seu aspecto ou mesmo ter conhecimento de detalhes sobre sua cultura e seus costumes, hoje em dia basta clicar o mouse. Penso que viajar tenha outra finalidade: em vez de apenas conhecer, viver. Em lugar de meramente olhar, experimentar. Bater com o espelho retrovisor num carro parado no meio-fio, como fiz, fala mais sobre a dificuldade de reprogramar nossas sinapses do qualquer experimento laboratorial pode fazer. Por outro lado, aprender a contar moedas estrangeiras, decifrar menus misteriosos ou mesmo ligar as torneiras mais esquisitas, mostram como a plasticidade neuronal pode ser ativada mesmo na vida adulta.

Por tudo isso, encarecidamente rogo que me perdoem o estilo truncado desse post – foi uma dificuldade maior do que imaginara escolher palavras a dedo para contornar a falta de acentos. Mas foi apenas mais um aprendizado que as viagens proporcionam.

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Desde o Sassá Mutema um personagem tonto não fazia tamanho sucesso em novelas como Douglas (Ricardo Tozzi), que levou aos trending topics do Twitter o bordão “Pô, Bibi”, em alusão à noiva, interpretada pela excelente Maria Clara Gueiros, de quem sou fã confesso. Esses personagens meio burros fazem sucesso ao gerar em nós certa simpatia, ativando um instinto protetor – a lista é longa, indo do Quico (amigo do Chaves) ao Patrick (amigo do Bob Esponja).

Infelizmente, eles vivem menos. Ou, no mínimo, adoecem mais.

As boas notas, ao que parece, são fundamentais para uma vida longa e saudável. Pelo menos em Winsconsin (aliás, lar da divertidíssima série That 70′s show, que tinha em Ashton Kutcher – hoje em Two and Half Men – outro adorável burro, Michael Kelso). Um enorme estudo realizado naquele estado recolheu dados de mais de dez mil formandos do segundo grau (high school) em 1957, e desde então vem produzindo informações interessantes, sobre educação, economia, envelhecimento, trabalho etc.

Ao comparar as notas obtidas no segundo grau – ou ensino médio, como se diz hoje – cientistas mostraram que os alunos que quando se formaram se encontravam no quartil inferior (os 25% piores estudantes), ao chegar aos 60 anos tinham o dobro de chance dos 25% melhores de ter doenças crônicas, como diabetes ou problemas cárdio-respiratórios. Pamela Herd, pesquisadora principal, investigou se não seriam fatores de personalidade, como perseverança e determinação, que estariam por trás tanto das notas boas como da melhor saúde, mas não encontrou diferenças significativas entre as pessoas. E o efeito era independente do número de anos de estudo – outra variável já reconhecidamente envolvida na longevidade. Possivelmente as boas notas refletem uma boa capacidade de aprendizado, desenvolvimento de pensamento crítico e habilidades cognitivas, o que pode contribuir para opções saudáveis ao longo da vida.

É claro que ninguém pode controlar o futuro ou por conta própria evitar qualquer tipo de doença. Mas um boletim escolar bom parece ser capaz de adiar um boletim médico ruim.

ResearchBlogging.org Herd, P. (2010). Education and Health in Late-life among High School Graduates: Cognitive versus Psychological Aspects of Human Capital Journal of Health and Social Behavior, 51 (4), 478-496 DOI: 10.1177/0022146510386796

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“Foi por medo de avião
Que eu segurei
Pela primeira vez
A tua mão”.

Já dizia o reaparecido Belchior na música “Medo de avião“. Podem me chamar de brega, mas eu gosto da música dele – a voz rouca, as letras interessantes que muitas vezes dão o que pensar. Nessa, por exemplo, ele tinha boa dose de razão.

Descobri esses dias um estudo antigo, da década de 70, que mostra o papel do medo na atração entre os sexos. Oitenta e cinco rapazes bem intencionados foram divididos em dois grupos, um deles foi colocado numa daquelas pontes suspensas que dá muito medo atravessar, outro numa ponte que não dava medo. No meio da ponte eles encontravam uma entrevistadora bonita, que apresentava a figura de uma mulher com o rosto coberto e pedia que eles inventassem uma história para ela (era uma das imagens do famoso teste de apercepção temática – TAT). Ela descaradamente dava o telefone para os sujeitos, dizendo que estaria disponível para discutir a pesquisa mais tarde, naquela noite.

Nada menos que metade dos homens entrevistados na situação de medo ligaram para a bonitona. Isso é muito ou pouco? Não sei, mas sei que só 12,5% dos outros, que foram abordados na ponte “segura”, deu o telefonema. Quatro vezes menos. Além disso, a historinha que os estes voluntários contavam tinha muito menos conotação sexual do que dos outros.

Enfim, parece que fortes emoções facilitam mesmo a atração sexual. Deve ser porque o famoso frio na barriga que a gente sente no avião é praticamente o mesmo que acontece quando pegamos “naquela” mão.

Sábio Belchior.

ResearchBlogging.org Dutton, D., & Aron, A. (1974). Some evidence for heightened sexual attraction under conditions of high anxiety. Journal of Personality and Social Psychology, 30 (4), 510-517 DOI: 10.1037/h0037031

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Já viu um professor de química do colegial, à beira da morte, que quase nunca acerta, desbancar um dos médicos mais famosos do mundo, que quase nunca erra? Pois é o que vem acontecendo nos últimos anos: o ator Bryan Cranston, interpretando o professor Walter White, faturou o prêmio de melhor ator em série dramática nos últimos três anos, batendo Hugh Laurie com seu Dr. House. Sim, estou falando de Breaking Bad, o seriado que conta a história do professor White, que descobre ter câncer inoperável no pulmão e teme deixar o filho deficiente físico e a esposa grávida desamparados. Coincidentemente, ele descobre que um ex-aluno trafica metaanfetaminas, e propõe-se a fabricar a droga para garantir o futuro da família.

A força do drama vem do fato de ele ser um homem bom, pacífico, verdadeiramente honesto mas que de repente se vê fazendo mais e mais coisas ruins em nome de um fim bom. É uma versão dramatizada do famoso dilema de Heinz: um homem tem a esposa com uma doença fatal, mas só tem metade do dinheiro para comprar a única droga que pode salvá-la; o farmacêutico, que inventou tal droga, cobra 10 vezes o custo mas recusa-se a vendê-la mais barato. Deve o homem roubar o dinheiro? Por que? Embora haja só duas opções possíveis (roubar ou não), são as justificativas que interessam. E essas, há aos montes.

O professor White metaforicamente opta por “roubar o remédio”, decidindo quebrar leis em nome de um bem maior em que acredita. Poderíamos chamar essa opção de utilitarista. Para tal escola de pensamento moral (Utilitarismo), a ação correta é aquela que tem mais utilidade, medida pela geração de maior felicidade para o maior número de pessoas. O professor White tenta então se convencer que fabricar drogas para garantir o bem da sua família (lembrando que o filho é deficiente e que a esposa está grávida) faz mais bem do que mal no cômputo geral. Mas ele mesmo tem dificuldade em acreditar nisso.

Assistir a primeira temporada me fez lembrar de um estudo recente, que procurou relacionar os tipos de raciocínio moral com a personalidade das pessoas. Duzentas e oito pessoas responderam a 14 dilemas morais, semelhantes ao dilema de Heinz, e tiveram suas respostas correlacionadas com seus traços mais característicos. Eis que descobriu-se que, quanto mais próximo da psicopatia, mais utilitária era a pessoa. O que faz sentido, pois quanto mais indiferente se é aos outros, mais fácil de se ter frieza para raciocinar em termos de custos e benefícios, ignorando normas ou leis.

É por isso que os prêmios que Breaking Bad e seu protagonista vêm colecionando são mais do que justos: o ator consegue interpretar um mocinho que se torna vilão, cheio de remorso mas sem mudança de atitude. Seu conflito é tão intenso que me levou a acreditar que ser utilitarista é para quem pode, não para quem quer.

ResearchBlogging.org Bartels, D., & Pizarro, D. (2011). The mismeasure of morals: Antisocial personality traits predict utilitarian responses to moral dilemmas Cognition, 121 (1), 154-161 DOI: 10.1016/j.cognition.2011.05.010

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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