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Daniel Martins de Barros

Não sei se você já percebeu como os animais facilitam a conversa. Quando existe um cachorro presente raramente falta assunto para as pessoas, e as relações humanas parecem facilitadas. Se em vez de um cão forem duzentos animais selvagens, vários deles ameaçados de extinção, além de uma boa conversa isso pode render um bom filme.

Compramos um zoológico, filme do diretor Cameron Crowe com Matt Damon e Scarlett Johansson, retrata essa situação. É a história real do escritor americano Benjamin Mee que decidiu, junto com a mulher, dois filhos, o irmão e a mãe comprar um zoológico falido, mudando-se com a família para lá. Durante o processo, logo antes da inauguração, a esposa faleceu de um tumor cerebral, mas o projeto foi em frente, não apenas ressuscitando o zoo mas dando origem a um livro e posteriormente ao filme homônimo. No filme a história foi ligeiramente modificada, mas a “essência foi preservada”, de acordo com o próprio autor.

Matt Damon está mais velho e com cara de paizão (às vezes lembra o Philip Seymour Hoffman), e Scarlett Johansson está “tão feia quanto é possível”, como disse o crítico Luiz Carlos Merten. Melhor, porque assim presta-se menos atenção neles e mais nos personagens – pessoas comuns tendo que dar um jeito de lidar com crises universais: sobrecarga de trabalho, orçamento curto, frustrações familiares. É onde entram os bichos.

Embora o efeito terapêutico do contato com animais seja algo intuitivo, é uma área só recentemente estudada de forma científica. Os benefícios, no entanto, já vêm sendo estabelecidos, e não apenas para o convívio animais domésticos, mas também com animais de grande porte, sobretudo quando isso implica a aquisição de novas habilidades. Quatro mecanismos principais formam a base teórica para a eficácia dessas intervenções: 1) os animais atuam como mediadores sociais, facilitando a comunicação entre as pessoas; 2) aumentam a auto-confiança e eficácia, já que lidar com eles leva a necessidade de realizar tarefas específicas; 3) tornam-se objetos de afeto, ajudando a preencher a necessidade de ligação que todos têm; 4) promovem alterações fisiológicas, tendo sido demonstrado desde redução da pressão arterial até aumento de neurotransmissores.

Fora o item 4, todos os outros são explícitos em Compramos um zoológico. Com destaque para o papel dos animais na interação humana, na bela cena em que pai e filho, que passam o filme todo sem conseguir falar um com o outro, conseguem fazê-lo indiretamente, diante de um tigre à beira da morte.

Talvez não seja uma obra que entre para a história do cinema. Mas vale a visita por ser um filme que lida honestamente com o luto, a resiliência e as dificuldades e alegrias de ser gente, ambas amplificadas pelo monte de bichos em volta.

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Bente Berget, & Bjarne Olai Braastad (2008). Theoretical Framework for Animal-Assisted Interventions – Implications for Practice therapeutic communities international journal of therapeutic communities, 29 (3), 323-337

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Nem vou tentar fugir do tema natalino. Eu gosto de ritos, pessoalmente e profissionalmente, e o Natal tem tanta importância na nossa sociedade que vale a pena pensar um pouco sobre ele.

Duvido que você não se enquadre em pelo menos uma (senão em todas) as seguintes categorias, já que pesquisas indicam que existem sete principais atividades e experiências natalinas: 1) Passar tempo com a família; 2) Participar de atividades religiosas; 3) Manter tradições da época; 4) Gastar dinheiro com as pessoas comprando presentes; 5) Receber presentes das pessoas; 6) Ajudar os necessitados; 7) Desfrutar os prazeres da época, como as comidas típicas. Bateu?

Mas no meio da ambiguidade desse período, quando nós nos esforçamos para finalizar logo coisas que não queremos deixar para o ano seguinte ao mesmo tempo em que tentamos empurrar para o ano que vem aquilo que não queremos resolver já, é possível ter um Natal agradável.

Estudando quais dessas atividades apresentam maiores correlações com sentimentos positivos, sentimentos negativos, estresse e bem-estar geral, confirma-se o que o bom senso por si só já nos indica: são fatores associados ao bem-estar nessa época o envolvimento com a família e as atividades religiosas. Quem se preocupa principalmente com presentes tem menos bem-estar e mais sentimentos negativos, tanto faz se o foco é dar ou receber presentes. Já se concentrar nas tradições, banquetes ou voluntariado não demonstra alterar significativamente os estados emocionais natalinos.

Celebrar a possibilidade de um mundo melhor, a começar por nossas famílias, é, acredito, o sentido do Natal. O título do post vem lembrar que o Papai Noel não deve tomar o lugar de Jesus mesmo para os não cristãos: até mesmo cientistas ateus convictos frequentam atividades religiosas, por motivos semelhantes aos que trazem alegria ao Natal – pela família e pela inserção numa comunidade, ainda que mantendo o ceticismo.

Assim, mesmo para quem não comemora o nascimento de Cristo, fico à vontade para desejar um Feliz Natal.

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Kasser, T., & Sheldon, K. (2002). WHAT MAKES FOR A MERRY CHRISTMAS? Journal of Happiness Studies, 3 (4), 313-329 DOI: 10.1023/A:1021516410457
Ecklund, E., & Lee, K. (2011). Atheists and Agnostics Negotiate Religion and Family Journal for the Scientific Study of Religion, 50 (4), 728-743 DOI: 10.1111/j.1468-5906.2011.01604.x

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Polêmica: é certo permitir a internação compulsória dos usuários de crack? Ok, é um assunto polêmico. Mas já falei dele antes (aqui), e acho que há outro debate importante nessa questão para a qual não se deu até agora a devida importância: afinal, o crack é ou não uma epidemia?

Enquanto Paulina Duarte, a secretária nacional de Políticas Sobre Drogas, diz que falar isso é “bobagem” que alimenta a “pedagogia do terror”, o ministro da Saúde Alexandre Padilha afirmou que “No conceito técnico, estamos diante de uma epidemia de crack”. Até onde vi a mídia só repercutiu a história no nível do bate-boca político, mas há uma segunda camada de leitura muito mais profunda e com impactos sérios na forma como abordaremos o problema do crack, pois as palavras que usarmos podem ditar os rumos que tomaremos.

Para quem acha exagero, vale a pena citar um trabalho que esse ano mostrou o impacto das metáforas na definição de políticas públicas. Dois cientistas da Universidade de Stanford pediram a 485 estudantes que propusessem soluções para os crimes numa determinada cidade. O cenário era descrito num breve parágrafo, mas para metade deles comparava-se a criminalidade a um vírus que se disseminava, e para os outros, a uma fera predadora à solta. Analisando as respostas notou-se diferença significativa entre os dois grupos: os que leram o texto pensando em vírus sugeriram mais ações preventivas e de identificação das causas do crime, enquanto os que pensaram no predador apresentaram mais propostas repressivas e de encarceramento dos criminosos. Mas praticamente nenhum dos voluntários (3%) notou a influência da metáfora nas suas sugestões: independente da solução proposta, quase todos disseram que foram as estatísticas apresentadas (as mesmas nos dois grupos) que os levaram àquelas ideias.

Portanto acho capcioso falar em epidemia de crack. Quando se diz isso pode-se apenas estar querendo dizer que houve um grande aumento do seu uso num determinado período de tempo. Mas a palavra epidemia arrasta nosso pensamento para a ideia de contágio e de um agente causal (bactéria, vírus). E sem perceber acabamos por acreditar que este é um problema que a Medicina irá resolver.

Ocorre que a questão, sobretudo nos moldes que o uso dessa droga tomou no país, vai muito além de uma temática exclusivamente médica. Sua complexidade é tal que não pode ser reduzida aos seus aspectos psiquiátricos, sendo primordial levar em conta as interfaces sociais, policiais, educacionais, familiares, urbanísticas, éticas. Até onde percebo nenhuma dessas esferas é incluída na metáfora da epidemia, mas se elas não forem consideradas, não estaremos nem perto de lidar seriamente com ela.

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Thibodeau, P., & Boroditsky, L. (2011). Metaphors We Think With: The Role of Metaphor in Reasoning PLoS ONE, 6 (2) DOI: 10.1371/journal.pone.0016782

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Sempre que você entra numa livraria sofre o ataque de uma onda de livros que pulam diante dos seus olhos, exibindo-se como “Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade”; “Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros”; “Livros Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço”; “Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido”; e assim por diante. Essa descrição perfeita, que figura na introdução do romance “Se um viajante numa noite de inverno”, do escritor Ítalo Calvino, é seguida por uma ainda melhor, do sujeito lendo o livro no meio do trabalho: “isso não lhe parece uma falta de respeito? De respeito, entenda bem, não para com o trabalho (ninguém pretende julgar seu rendimento profissional; vamos pressupor que suas tarefas sejam regularmente inseridas no sistema das atividades improdutivas que ocupam boa parte da economia nacional e mundial) mas para com o livro”.

Essa sensação de “ah, então não é só comigo” que temos diante dessas passagens, além de atestarem a fina capacidade de observação do escritor, mostram como o trabalho é mal organizado de forma geral. Na maioria das vezes as pessoas são forçadas a cumprir horários rígidos, independente do que façam nesse tempo (imagine o que Calvino não escreveria em tempos de facebook e youtube), o que lhes engessa a vida e não contribui necessariamente para a produtividade das empresas.

Tentando extrair fatos a partir dessa percepção, um grupo de pesquisadores americanos propôs introduzir um modelo batizado de Ambiente de Trabalho Só de Resultados (Results Only Work Enviroment – ROWE) na sede da Best Buy. Seiscentos e cinquenta e nove empregados passaram a ser cobrados exclusivamente por sua produtividade, flexibilizando seus horários de trabalho, entrada e saída, desobrigando-os até mesmo de pedir para ir embora, se quisessem. Há muito tempo sabe-se que conferir autonomia às pessoas, mesmo que pequena, traz impacto psíquico positivo (e que reduzi-la é um dos fatores mais estressantes que existem), e de fato com tal mudança os funcionários passaram a ter menos conflitos trabalho-família, passaram a cuidar melhor de sua saúde e ganharam inclusive mais tempo de sono, apresentando aumento significativo em suas medidas de bem estar.

Agora, se já não resta dúvida de que permitir que as pessoas organizem seus próprios horários tendo em vista suas tarefas é positivo para os empregados, falta comprovar que também é bom para os empregadores. Supostamente eles faltarão menos e estarão mais motivados, mas os gestores querem ver os números, não palpites. Até que tais evidências surjam, portanto, ainda iremos nos dividir entre um daqueles “Livros Que Você Sempre Fingiu Ter Lido e Que Já Seria Hora De Se Decidir A Lê-los Realmente”, o novo clip da Lady Gaga e uma ou outra tarefa, enquanto não batem as dezoito horas.

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Moen, P., Kelly, E., Tranby, E., & Huang, Q. (2011). Changing Work, Changing Health: Can Real Work-Time Flexibility Promote Health Behaviors and Well-Being? Journal of Health and Social Behavior, 52 (4), 404-429 DOI: 10.1177/0022146511418979

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O Brasil já passou pelo que a Europa está passando. Não, não vou falar sobre a crise econômica, mas do assassino Anders Behring Breivik, aquele que matou mais de 70 pessoas em julho, na Noruega, agora declarado insano.

Embora no calor da hora a justiça tenha declarado que ele não deveria ser considerado doente mental, já que havia planejado tudo tão minuciosamente durante tanto tempo (anos, ao que consta), havia também no ar o sentimento de que só mesmo um maluco para cometer tal atrocidade. Essa dicotomia persiste agora, quatro meses depois, quando o relatório de mais de duzentas páginas dos psiquiatras que o avaliaram concluiu que ele não é responsável pelos atos por sofrer de psicose, vivendo num mundo à parte em meio a seus delírios: 48% da população norueguesa (numa pesquisa com mil cidadãos) não concorda, considerando que ele deveria ser considerado criminoso comum. Mais: o próprio assassino discorda do relatório, tendo se sentido insultado pelo diagnóstico.

Como disse, nós já estivemos lá. No final do século XIX um sujeito chamado Custódio Alves Serrão assassinou o tutor de seus irmãos, o comendador Belarmino Brasiliense Pessoa de Melo. Seus irmãos sofriam de transtornos mentais e Custódio acreditava que o comendador tinha planos de interná-lo também num manicômio; atirou nele após uma discussão e se entregou ao primeiro policial que encontrou. No dia seguinte foi levado para o Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, contra a vontade do então diretor, João Carlos Teixeira Brandão, que não o queria acolher por se tratar de um louco criminoso. Nas primeiras avaliações a que foi submetido Custódio foi considerado “degenerado”, mas não doente, o que o faria responsável por seus atos. No entanto a sociedade estava dividida, pois aparentemente aquele homem era uma ameaça em razão de seu estado mental, e a conclusão do laudo foi revista, passando-se a considerá-lo insano. Assim como o norueguês Breivik, contudo, Custódio não queria ser internado, mas julgado e preso como mentalmente são, pois alegava estar consciente de seus atos; por essa razão fugiu do hospício, gerando verdadeira comoção social.

Embora os crimes sejam diferentes, o paralelo se justifica por se tratar de atos cometidos por pessoas cuja sanidade é posta em xeque, já que motivadas por crenças exóticas. Como nem sempre é simples identificar se tais pensamentos configuram de fato delírios, quebrando com a realidade, é comum haver discordância sobre a responsabilidade dos sujeitos. Do fato não se acreditarem insanos não se pode concluir que de fato não sejam, já que, por definição, autocrítica não é o ponto forte dos psicóticos delirantes.

Quanto à divisão da sociedade, quer seja no Rio do século XIX ou na Escandinávia do século XXI a reação das pessoas sempre será ambígua, pois ao mesmo tempo em que tememos que transtornos mentais sejam usados como desculpa, por outro lado preferimos que esses criminosos sejam doentes, suspirando aliviados porque, sendo insanos, tais assassinos não são como “um de nós”, como disse uma senhora norueguesa ao ser entrevistada. Ao ler a notícia sobre o laudo de Breivik imagino que ela tenha dormido mais tranquila.

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Maciel, L. (1999). Um lugar para aprisionar a loucura criminosa História, Ciências, Saúde-Manguinhos, 6 (2), 445-452 DOI: 10.1590/S0104-59701999000300013

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Acho que não demora muito e começarão a aparecer relatos de pessoas que convulsionaram dentro dos cinemas brasileiros ao assistir o filme Amanhecer. A notícia de que um rapaz teve que ser levado às pressas para um hospital fazendo barulhos estranho e sem conseguir respirar após ver a cena do parto da protagonista foi logo seguida pela descoberta de outros casos semelhantes nos Estados Unidos. Ao que parece a sequência do parto é composta por um padrão alternante de luz branca, vermelha e preta, o que foi logo invocado como causa das “convulsões”.

Provavelmente o público-alvo da saga Crepúsculo não era nascido quando um episódio semelhante ocorreu no Japão, durante a transmissão do desenho Pokémon, febre nos anos noventa. Em 16 de dezembro de 1993 Pikachu, o monstro protagonista do desenho, usou seus poderes para disparar um “ataque elétrico”, o que foi representado por luzes piscando. Naquela noite a agência de defesa do Japão relatou que 618 crianças foram levas a pronto-socorros com sintomas variados, indo desde convulsões e desmaios a dores de cabeça e mal-estar. A mídia repercutiu o caso com grande intensidade e preocupação, reprisando a cena e levando a uma segunda onde de crises, cujos números são desconhecidos. Três dias depois, embora o número de crianças levadas a hospitais não fosse modificado, já se falava em cerca de 12.000 afetados com sintomas diversos.

Antes de desistir de ver o filme (por esse motivo), é preciso calma.

Em diversas análises retrospectivas de milhares de estudantes japoneses afetados, descobriu-se que uma parcela mínima deles apresentou de fato convulsões. Ocorre que existem casos de epilepsia sensíveis a certos padrões de estimulação luminosa, mas sua ocorrência é rara (estimada em 1/4.000, ou 0,025% da população), o que não explica a ocorrência maciça daqueles eventos. Levando em conta a grande diversidade de sintomas, a maioria inespecíficos e nada característicos de convulsões epilépticas, o mais provável é que tenha se tratado de um contágio psicológico, uma espécie de histeria coletiva, em grande parte alimentada por coberturas sensacionalistas.

Agora, pensando no sucesso esmagador da série Crepúsculo (praticamente metade de todas as salas de cinema do Brasil exibiram o filme Amanhecer na estreia, recorde absoluto), o alto grau de sugestionabilidade da faixa etária do público-alvo (na maioria adolescentes), e a velocidade de divulgação das notícias em tempos de rede social, imagino ser questão de horas até ouvirmos os primeiros relatos no país. Tomara que esteja errado.

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Radford B, & Bartholomew R (2001). Pokémon contagion: photosensitive epilepsy or mass psychogenic illness? Southern medical journal, 94 (2), 197-204 PMID: 11235034

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Achei comovente a foto do Lula careca e sem barba, junto a sua esposa. Havendo ou não cálculo político por trás da cena, ela é corajosa por expor uma situação de grande fragilidade pessoal.

Os pelos corporais são parte da nossa imagem, por isso mudanças radicais no cabelo, barba etc., sobretudo quando ocorrem no contexto do adoecimento, podem ser bastante traumáticas. No caso específico da perda de cabelos por conta do tratamento de câncer existem ainda implicações mais profundas: comparando as consequências emocionais desse efeito colateral em homens e mulheres identificou-se que, embora o impacto nos homens seja subestimado (o que se nota pela escassez de estudos sobre o tema), a calvície decorrente da quimioterapia traz para o sexo masculino a sensação de exposição, de perda de controle sobre a doença, fazendo-os se sentirem julgados e estigmatizados como “cancerosos”. E ainda mais do que as mulheres eles se ressentem da perda dos pelos de outras regiões corpóreas. Por outro lado, é interessante notar que raramente se sugere ao homem que utilize uma peruca para minimizar a mudança no visual, como é a regra no caso das mulheres. Mas o uso de perucas, tanto quanto a calvície, é também visto como uma agressão ao impor uma alteração na imagem corporal do doente contra sua vontade.

O caso de Lula tem atenuantes, mas também agravantes.

Uma das principais queixas dos pacientes é que perder os cabelos revela às pessoas que eles estão com câncer, coisa que geralmente se prefere esconder. Como o ex-presidente já viera a público declarar sua doença, esse desconforto pode não lhe ser tão penoso. No entanto, existe toda uma sociologia dos cabelos (literalmente, como mostra o título do estudo abaixo), segundo a qual os sinais que mostram os pelos corporais são símbolos poderosos. Por exemplo, “ideologias opostas têm pelos opostos”: se a regra é ter cabelos curtos, usá-los longos será um sinal de protesto; a barba, que era o padrão no século XIX tornou-se mais rara no século XX, fazendo seu uso ser também revestido, em certa medida, de uma postura anti-establishment (há empresas que até hoje as proíbem aos funcionários). No caso de Lula isso foi mais do que evidente: nos anos oitenta, quando encarnava a própria oposição, sua barba era vasta e vistosa, mas com o passar do tempo, conforme foi se aproximando da situação ela foi minguando. Ainda assim, era para ele um símbolo forte cuja perda deve ter causado um impacto que não pode ser menosprezado. E como estamos falando de um político os cabelos são de importância ímpar, pois segundo essa sociologia capilar a calvície é vista como sinal de envelhecimento e, portanto, de fraqueza e aproximação da morte (vide a história de Sansão e Dalila), péssimos na política. Pode ser exagero interpretativo, mas o fato é que raramente vemos políticos calvos eleitos para cargos majoritário (a última vez em que os americanos elegeram um careca presidente dos EUA foi em 1956, antes da massificação das transmissões de TV).

Por isso que, sem entrar em ideologias partidárias ou políticas, considerei a foto comovente: porque vi ali a imagem de um homem forte o bastante para não esconder sua fraqueza.

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(I) Hilton, S., Hunt, K., Emslie, C., Salinas, M., & Ziebland, S. (2008). Have men been overlooked? A comparison of young men and women’s experiences of chemotherapy-induced alopecia Psycho-Oncology, 17 (6), 577-583 DOI: 10.1002/pon.1272
(II) Synnott, A. (1987). Shame and Glory: A Sociology of Hair The British Journal of Sociology, 38 (3) DOI: 10.2307/590695

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Na semana que passou tive o grande prazer de assistir John Malkovich no Teatro Municipal de São Paulo na peça The infernal comedy. No papel de Johann Unterweger, Malkovich contracena com duas sopranos, que, cantando trechos de óperas famosas, pontuam seu monólogo de pouco menos de duas horas sobre as desventuras desse famoso serial killer. A peça é uma comédia a la Guilherme Arantes, na qual não é possível “sorrir sem um travo de amargura”.

Embora eu seja um crítico implacável da banalização do diagnóstico de psicopatia, hoje em dia utilizado levianamente como sinônimo de vilania ou maldade, acredito que Unterweger tenha sido mesmo um psicopata. Mas sua história ilustra dois aspectos dessas pessoas: há uma linha de estudo nova que procura diferenças entre os psicopatas bem e mal-sucedidos. E ele foi um pouco de cada.

Com uma carreira criminal de início precoce, passou a adolescência e início da idade adulta entrando e saindo de reformatórios e prisões, até ser preso por assassinar uma prostituta em Viena, estrangulando-a com seu próprio sutiã. Até aqui ele não se diferenciava dos psicopatas mal-sucedidos. Mas então ele começou a escrever. E seus artigos passaram a fazer sucesso entre a elite austríaca. Convenceu escritores e intelectuais de sua reabilitação e levou-os a interceder por ele junto à justiça, conseguindo finalmente uma condicional em sua sentença (originalmente prisão perpétua). Libertado, o que já seria por si só um sinal de sucesso, passou a escrever regularmente para revistas sobre prostituição e criminalidade, o que lhe dava acesso irrestrito (e insuspeito) a prostitutas, chegando a acompanhar diligências policiais em investigações de novos assassinatos. Foram necessários mais alguns anos para que se descobrisse que após sua libertação ele matara mais seis prostitutas em Viena, e outras três em Los Angeles, onde fora morar no ano seguinte, sempre estranguladas com seus sutiãs. Condenado, cometeu suicídio ao saber da sentença, usando uma corda feita de cadarços com nós idênticos aos utilizados no assassinato das suas vítimas.

Tem-se proposto que os psicopatas de sucesso são aqueles mais para manipuladores do que para violentos, muitas vezes conseguindo escapar das condenações, ao contrário dos mal-sucedidos, que são mais agressivos, impulsivos e que acabam por ser presos. Os primeiros resultados das pesquisas apontam para diferenças no funcionamento fisiológico e cognitivo, sendo os bem sucedidos menos prejudicados em termos de capacidade de planejamento, condicionamento pelo medo e mesmo empatia.

Johann Unterweger transitou entre os dois universos – conseguiu manipular e fugir da justiça, mas não abandonou os crimes violentos que acabaram por condená-lo definitivamente. A explicação, no seu caso, pode ser menos neuropsiquiátrica e mais biográfica: como ele mesmo diz na peça (quando ressuscita para lançar sua autobiografia), antes de matar pela primeira vez ele era só mais um bandido. Depois do primeiro homicídio ganhou certo status, adquirindo respeito e mesmo uma identidade “respeitada”. A chave da resposta talvez esteja, portanto, seja sua própria frase: “Entre ser um assassino e ser ninguém, prefiro ser um assassino”.

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Gao, Y., & Raine, A. (2010). Successful and unsuccessful psychopaths: A neurobiological model Behavioral Sciences & the Law DOI: 10.1002/bsl.924

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“Tomei um porre de uísque e Rivotril”, disse o cantor Luciano em entrevista gravada no programa do Jô Soares. Para quem não sabe do que estamos falando, trata-se de um episódio recente na história dos dois filhos de Francisco, no qual Zezé di Camargo subiu ao palco sozinho, dizendo ter havido um desentendimento com o irmão no camarim e que por isso faria o show sozinho. Minutos depois Luciano apareceu, disse que cantaria até o final do ano e depois Zezé seguiria carreira solo. “Quando subi no palco, ainda no ímpeto da discussão, falei que ia parar e Zezé seguiria sozinho. Eu tava certo de que queria fazer isso”, confessou Luciano. Agora ambos declaram que a dupla não terminará e aparentemente está tudo bem.

Pelo visto, Luciano estava na fase do leão.

Reza uma lenda judaica que Noé estava plantando uma vinha quando satã se aproximou, curioso sobre aquelas uvas. “Delas sairá uma bebida que alegrará o coração dos homens”, disse Noé. O diabo ofereceu-se para ser sócio naquela empreitada, e tendo sido aceito, sacrificou ali um cordeiro, um macaco, um leão e um porco, espalhando o sangue deles sobre a plantação. Assim fazendo, fez com que as pessoas passassem a consumir o sangue desses animais quando bebiam o vinho, com consequências claras: inicialmente são tranquilas como o cordeiro, mas conforme bebem mais, tornam-se desinibidas e falantes, gracejando como um macaco; depois vão ficando confusas e perdem o medo, ganhando coragem como um leão; e por fim perdem o controle de si mesmas, rolando em sua própria sujeira como um porco. Tudo isso teria acontecido com o pobre Noé.

Embora sejam calmantes, e portanto sirvam para acalmar, os benzodiazepínicos podem levar a reações chamadas paradoxais, quando, em vez de fazer o sujeito se tranquilizar torna-o irritado, agitado, ansioso e por vezes agressivo. Estima-se que tal efeito seja raro, provavelmente menor do que 1%, mas isso pode não ser pouco se pensarmos que esses remédios estão entre os mais consumidos do mundo (o Rivotril sozinho é o segundo remédio mais vendido do Brasil). Não se sabe exatamente por que tal agitação ocorre, mas as principais hipóteses são de que, ao inibir a atividade cerebral de forma global, esses medicamentos inibem também as regiões responsáveis pelo autocontrole; além disso, a menor capacidade de atenção e percepção dos sinais sociais tornaria as pessoas mais propensas a reações exageradas em momentos de discussão ou hostilidade. O consumo concomitante de álcool é um fator de risco para essas reações paradoxais, e elas geralmente ocorrem em reposta a provocações e são percebidas pelos outros, mas não pela própria pessoa.

Então, fica a dica: se beber, não tome Rivotril. O codeiro pode virar leão e acabar a noite como porco, mais rápido do que se imagina.

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Paton, C. (2002). Benzodiazepines and disinhibition: a review Psychiatric Bulletin, 26 (12), 460-462 DOI: 10.1192/pb.26.12.460

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Imagine um livro que fosse no formato de um pequeno e flexível computador, com tela no lugar de páginas e uma capa de plástico. Agora imagine que seu conteúdo abrangesse todo o conhecimento disponível, e que apesar de alguns funcionários e colaboradores fixos dessa enciclopédia, qualquer pessoa pudesse contribuir para os verbetes, atualizados por meio de uma rede. Não, não estamos falando de iPads e Wikipedias. Estamos falando de um tempo em que isso era ficção cientítica; das boas.

No final da década de 70 o escritor Douglas Adams escreveu a série “Guia do Mochileiro das Galáxias”. Tal guia tinha na capa o slogan “Não entre em pânico!”, e sempre trazia conselhos aos personagens envolvidos nas mais improváveis situações, que se não eram úteis eram ao menos bastante divertidos. Concebida como trilogia, a série chegou a cinco livros escritos por Adams, falecido em 2001. Agora, após quase vinte anos da publicação do último livro, a viúva de Adams autorizou Eoin Colfer (autor dos livros da série Artemis Fowl) a escrever uma continuação, publicada no Brasil em parceria pela Record e a Arqueiro (selo literário da Sextante) com o título “E tem outra coisa…”.

Colfer resgata os personagens e mantém o ritmo tresloucado da série, recheando a trama de menções aos livros anteriores. Como neles, a história é entremeada por transcrições literais dos verbetes do Guia, e apesar de o autor abusar um pouco deles não chega a comprometer o desenrolar da história. Embora seja um livro de humor, sem pretensões proféticas, creio que ele acerte numa previsão quando um dos personagens diz: “Li sobre isso numa coisa que tem páginas. Um negócio antigo, onde você vira páginas”.

Acho que é esse o destino dos livros. Note que no trecho acima fica claro que eles não desapareceram totalmente; estão por aí, o personagem até já leu um, mas não são mais a fonte primária de informação.

Sustenta essa perspectiva uma pesquisa realizada pela Universidade Johaness Gütemberg de Mainz, Alemanha, em parceria com uma empresa de marketing daquele país. Vinte voluntários com média de idade de 26 anos e dez com média de 64 anos foram convidados a ler nove textos, três num iPad, três num Kindle (e-book da Amazon) e três em papel, com diferentes níveis de complexidade. Além de testes de compreensão e fixação de conteúdos, os sujeitos foram submetidos a eletroencefalograma (EEG) e rastreamento de movimento dos olhos.

Embora quase todos dissessem, numa avaliação subjetiva, que preferiam ler em papel, não houve diferença quanto à compreensão e fixação das informações em qualquer dos suportes, em ambas faixas etárias. O EEG mediu as variações de ondas Theta, que refletem esforço cognitivo ou estresse, e surpreendentemente houve menos variação na leitura do iPad, indicando menor esforço cognitivo nesta tarefa. O movimento dos olhos – que tende a ser mais lento em leituras mais trabalhosas – não mostrou diferenças entre aparelhos ou grupos. Outra diferença inesperada foi que, nos mais idosos, a leitura em tablet foi mais rápida do que em e-book ou papel, sem prejuízo de entendimento.

Não encontrei o estudo publicado numa revista científica, e deve-se ter em mente que, embora realizado por uma equipe universitária séria, o patrocinador é dono da maior plataforma de livros eletrônicos alemã. Feitas essas ressalvas, contudo, creio mesmo que a leitura não seja prejudicada pelo meio em que é feita, sejam tablets, e-books ou papel. Sendo só uma questão de costume acho que, diante das facilidades que os meios eletrônicos apresentam, logo os livros serão de fato “um negócio antigo”. Mas o seu cérebro não notará diferença, por isso, “Não entre em pânico!”.

Relatório da pesquisa (em alemão) aqui.

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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