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Daniel Martins de Barros

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A primeira palavra que li foi num gibi do Chico Bento. Daí para frente, aprendi a gostar de ler com o Maurício de Sousa e com a Ruth Rocha, e talvez por isso nunca tenha considerado os quadrinhos numa categoria muito diferente da literatura. Hoje, embora não seja um fã da “nona arte” (as histórias em quadrinhos), acompanho notícias dessas obras ganhando prêmios literários e respeito no mundo acadêmico.

Assim que o livro Logicomix foi uma das maiores surpresas que tive nesse ano. A proeza desses autores gregos foi fazer um livro sobre a vida e as ideias de Bertrand Russell, um dos mais importantes logicistas de todos os tempos, em quadrinhos. Com belíssimos desenhos e o conteúdo complexo, eles ainda conseguiram tratar da relação entre genialidade e loucura, levando o livro a obter resenhas elogiosas até mesmo em revistas acadêmicas (1).

A narrativa é conduzida pelo recurso metalinguístico de os autores desenharem a si mesmos tentando criar o livro. As reuniões de pauta, discussões temáticas e soluções históricas vão sendo apresentandas enquanto a biografia propriamente é apresentada. Isso ainda é feito com o requinte de retratarem o próprio Russell contando sua vida, numa palestra que ficou famosa, na qual pediram a ele que se posicionasse sobre a Segunda Guerra Mundial. Russell, mesmo sendo um pacifista convicto, usa suas experiências para mostrar que a Lógica, ponto de encontro entre a Matemática e a Filosofia, por mais rigorosa e precisa que seja, não consegue dar conta de tudo. O mundo dos homens e suas relações é muito mais complexo do que a ciência. Tanto que muitos dos matemáticos que fizeram da lógica sua vida, ou da sua vida um exercício lógico, acabaram por enlouquecer, literalmente, após suas contribuições para a ciência. Os quadrinhos retratam-nos internados em hospícios e em meio a seus delírios, em tristes finais para homens tão brilhantes.

No final das contas, não há uma resposta definitiva sobre a guerra ou a paz, sobre a associação entre genialidade e insanidade, nem mesmo sobre a importância do legado de Russell. Mas se entendermos a mensagem não daremos muita importância a tais lacunas. Afinal, a vida não é lógica.

ResearchBlogging.org (1) Apt, K. (2010). Logicomix: An Epic Search for Truth by Apostolos Doxiadis, Christos H. Papadimitriou, Alecos Papadatos, Annie di Donna The Mathematical Intelligencer, 32 (3), 51-52 DOI: 10.1007/s00283-009-9111-5

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Às vésperas do Natal, quando temas religiosos costumam aflorar, a Atea – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, causa polêmica com uma campanha para veiculação de cartazes em defesa do ateísmo em ônibus de algumas cidades brasileiras.

Gostaria de aproveitra a própria campanha para discutir um pouco o sentido fundamental do Natal, que sempre precisa ser relembrado. Cristo. O nome por trás dessa história toda.

Um dos cartazes da Atea apresenta a foto de Chaplin e de Hitler, lado a lado. Sob o primeiro lê-se “Não acredita em Deus”, e sob o segundo “Acredita em Deus”. Uma frase conclui: “Religião não define o caráter”.

Nem pretendo discutir isso, já que é óbvio. O sujeito pode ser um pulha cristão ou um santo ateu. E vice-versa. O que esse cartaz em particular não mostra é o discurso que Chaplin faz ao final de “O grande ditador”, quando diz “No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos!” Apesar de judeu, apesar de ateu, Chaplin invoca palavras de Cristo para reforçar a mensagem de que o povo tem poder, ”o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa”.

Esse é o sentido do Natal. Celebrar o nascimento de Cristo lembrando suas ideias (de prefêrencia pondo-as em prática). Coisa que pode ser feita, como mostra Chaplin, tanto por ateus como por crentes. Celebrar a possibilidade de fazer desse mundo um lugar melhor (“o Reino de Deus chegou”), trabalhando ativamente pelo bem das pessoas (“amar o próximo”), promovendo justiça social (“amparar os órfão e as viúvas, eis a verdareira religião”) e assim por diante.

Num estudo de 2003, psicólogos americanos se propuseram a pesquisar qual o sentido da vida para pessoas eminentes. Levantaram 238 frases de 195 pessoas que, sendo bem conhecidas, funcionam como formadoras de opinião e também como reflexo da opinião das pessoas. Com métodos qualitativos descobriram que juntas, posturas como ajudar o próximo, aprimorar-se como ser humano, contribuir com algo superior a nós mesmos e servir a Deus ou ao mundo espiritual descrevem o sentido da vida para a maioria das pessoas (36% da amostra). Uma minoria acha que vida é um absurdo (4%), e uma parte acha que a vida não tem sentido em si mesma, ou que este precisa ser criado por nós (16%).

O real sentido do Natal como o vejo, portanto, vai além da mera religião. Ao resgatar a pregação de Cristo, independente de qualquer religião cristã oficial, e tentando vivê-la, resgatamos o sentido da própria vida.

ResearchBlogging.org Kinnier, R., Kernes, J., Tribbensee, N., & Van Puymbroeck, C. (2003). What Eminent People Have Said About The Meaning Of Life Journal of Humanistic Psychology, 43 (1), 105-118 DOI: 10.1177/0022167802238816

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O quê diferencia informação relevante de fofoca? Como diferenciar segredos legítimos de mentiras torpes? Ultimamente essas perguntas rondam o WikiLeaks.

O site, que coleciona prêmios, conta com colaboradores que vão de repórteres experientes até dissidentes de governos totalitários, promovendo o vazamento de informações sigilosas e trazendo à luz fatos que governos dos mais variados naipes gostariam de manter ocultos: vídeos de um helicóptero americano matando civis no Iraque; relatório sobre a política de extermínio no Quênia; dezenas de milhares de documentos sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão, o manual da prisão de Guantánamo etc. É louvável em sua propagação da transparência e honestidade.

No entanto, seu crescimento e sucesso vem sendo acompanhado de dois riscos: descambar para a fofoca e colocar pessoas e causas em risco real.

A divulgação de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos, é – a meu ver – fofoca inútil. Saber que Hillary Clinton perguntou se Cristina Kirchner toma remédios psiquiátricos; que o Rio de Janeiro teme ser alvo terrorista nas Olimpíadas de 2016; ou mesmo que o Itamaraty é antiamericano me parecem intrigas tão comezinhas quando as conversas de pé-de-ouvido de qualquer reality show. Nas relações humanas, segredos e omissões são fundamentais, pois algumas mentiras bobas muitas vezes ajudam a manter os vínculos que a plena sinceridade destruiria.

Mais que isso, contudo, há verdades que, gostemos ou não, vindo à luz são prejudiciais. Esconder a tortura a prisioneiros é sempre ruim, mas não revelar que determinada autoridade está desaparecida, nem sempre. A literatura sobre o tema classifica algumas inverdades como “mentiras azuis” (em alusão à farda de policiais que mentiram para garantir o sucesso de uma ação do governo contra o crime). E o mais interessante é que, desde crianças, desenvolvemos progressivamente a noção de que mentir de forma egoísta é errado, mas de forma altruísta, em prol do grupo, pode ser aceitável. Em um estudo com crianças de 7, 9 e 11 anos que poderiam mentir ou falar a verdade, prejudicando toda sua classe de colegas, psicólogos verificaram 7.2, 16.7 e 29.7% delas optaram por mentir em prol do grupo, respectivamente; de forma paralela, conforme aumenta a idade há menos aceitação para mentia em benefício próprio.

Embora a transparência seja um valor, não é um valor absoluto. O juiz Louis Brandeis estava certo ao dizer que “A luz do sol é o melhor desinfetante”, mas vale lembrar que a mesma luz, em excesso ou no lugar errado, pode causar graves prejuízos.

ResearchBlogging.org Fu, G., Evans, A., Wang, L., & Lee, K. (2008). Lying in the name of the collective good: a developmental study Developmental Science, 11 (4), 495-503 DOI: 10.1111/j.1467-7687.2008.00695.x

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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