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Lembro-me quando um posto de gasolina foi aberto bem próximo de onde eu morava. “Que bom”, pensei, “dá até para ir a pé”, mas no mesmo instante me dei conta da minúscula utilidade que é poder ir sem carro a um posto. O otimismo, por mais agradável que seja, é meio burro, distante da realidade; por menos que gostemos, o pessimismo está mais próximo de refletir as coisas como são. Existem teorias bastante estudadas sobre o “realismo depressivo”, confirmada por diversos experimentos (I), segundo a qual a depressão impede as pessoas de exercer o auto-engano, e quando solicitadas a estimar quanto tempo gastarão numa tarefa, ou qual será sua performance, elas o fazem com mais precisão dos que as pessoas não deprimidas. O otimismo atrapalha.
Agora um estudo diferente comprovou que pacientes deprimidos têm dificuldade de perceber o contraste entre preto e branco, vendo o mundo acinzentado (II). Os cientistas mostravam uma figura semelhante a um tabuleiro de xadrez, com casas pretas e brancas que se alternavam 12 vezes por segundo, com níveis diferentes de contraste entre o preto e o branco. Ao mesmo tempo, mediam a percepção do contraste com eletrodos colocados nos olhos dos sujeitos, avaliando diretamente a resposta ao estímulo, independente da consciência. Conforme aumentava o contraste entre os estímulos, mais aumentava a resposta da retina nos voluntários normais, mas isso não acontecia entre os deprimidos, mostrando que eles não percebem os contrastes tão bem, vendo tudo mais cinza.
Ao saber disso fiquei tentado a fazer um paralelo com a visão de mundo pessimista, que tende a ver as coisas mais como elas são de fato: não seria possível imaginar que os não deprimidos é que pintam o mundo com tons fortes, exagerando nos contrastes? Vai ver o preto e o branco não estão assim tão longe, mas só os que sofrem do realismo depressivo enxergam (e aceitam) que o mundo é mesmo cinza.
(I) Allan, L., Siegel, S., & Hannah, S. (2007). The sad truth about depressive realism The Quarterly Journal of Experimental Psychology, 60 (3), 482-495 DOI: 10.1080/17470210601002686 (II) Bubl E, Kern E, Ebert D, Bach M, & Tebartz van Elst L (2010). Seeing gray when feeling blue? Depression can be measured in the eye of the diseased. Biological psychiatry, 68 (2), 205-8 PMID: 20359698
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É possível uma pessoa ter pleno juízo e ainda assim viver sobre uma montanha de 1 metro de lixo misturado com bugigangas entulhada em sua casa? Ou vivendo no meio de dezenas de cães e gatos e seus dejetos?
Foi essa mais ou menos a pergunta que orientou uma força-tarefa em Wisconsin, cujo objetivo era encontrar e tratar pessoas que vivem no meio de tralhas sem fim, animais domésticos aos montes, pilhas e pilhas de jornais velhos, livros, revistas, roupas, sacos de lixo etc., etc. Essa é uma condição cada vez mais frequentemente encontrada e mistura traços de colecionismo, sintomas obsessivos-compulsivos, demência e até psicose. No fundo, falta-nos ainda uma categoria diagnóstica adequada para tais pessoas.
Conversar com tais indivíduos é uma experiência frustrante, pois eles negam o tempo todo que tenham um problema, e quando confrontados com comportamentos aparentemente injustificáveis, sempre apresentam alguma racionalização ou minimização. Por que então seriam eles loucos?
Basicamente, porque o comportamento foge ao seu controle. Esse é um parâmetro importante em psiquiatria, pois ao contrário de outras especialidades médicas, não temos medidas objetivas para diferenciar doença de saúde (por exemplo: pressão arterial até 120 x 80 mmHg é saudável, acima disso não). Assim, é quando algo causa prejuízos claros à pessoa ou foge ao seu controle que normalmente dizemos ser um transtorno mental, não apenas uma escolha individual.
Um dos casos mais famosos de todos os tempos se deu em Nova York, na primeira metade do século XX, quando os irmãos Collyer ficaram reclusos em sua mansão e juntaram tanto lixo, tantos objetos, que acabaram morrendo: um deles estava rastejando num túnel entre os entulhos para levar comida ao irmão paralítico quando foi soterrado, não só morrendo mas também matando o outro de sede e fome. Os corpos estavam a três metros um do outro, em meio às 130 toneladas de entulho que havia na casa.
Como bem coloca o psiquiatra Kenneth Weiss, atestar que o colecionismo é loucura pode levar pessoas a serem interditadas de forma injusta; no entanto, fechando os olhos à sua psicopatologia corremos o risco de negligência, permitindo que elas vivam em situações inumanas.
Traçar a linha que separa excentricidade e doença é, portanto, tarefa tão difícil quanto necessária nesses casos.
Weiss KJ (2010). Hoarding, hermitage, and the law: why we love the collyer brothers. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 38 (2), 251-7 PMID: 20542947
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De vez em quado as pessoas dizem que eu sou do contra. Nem tão de vez em quando assim, para falar a verdade, mas de vez em quando eu mesmo concordo com elas (ainda que seja raro eu concordar…). De qualquer maneira, a ciência acaba de descobrir a falta que faz uma boa posição – não que isso seja grande novidade para nós, que acompanhamos um triste filme nesses tempos de eleição.
Estudando a dinâmica de interação entre líderes e liderados, pesquisadores da Flórida conduziram 5 experimentos diferentes, avaliando o perfil dos chefes e seu padrão de comportamento com relação a seus subalternos, identificando duas abordagens principais nos mandatários: a do domínio e a do prestígio. Levando em conta que em qualquer relacionamento desse tipo as pessoas cedem privilégios e direitos em favor de um líder, para que este trabalhe para o bem coletivo, existe uma tensão constante entre o quanto de poder as pessoas abrem mão – querendo fazê-lo sempre na menor quantidade possível – e o quanto de poder o líder ganha – tendendo a querer sempre o máximo possível. Aqueles líderes que utilizam a estratégia do prestígio, por um lado, aproveitam-se de seu status elevado em benefício do grupo todo; os que se voltam para o domínio, contudo, preferem forçar a distância entre o poder que conseguem obter e quanto o povo quer conceder; com isso, também conseguem trabalhar para o bem coletivo, mas são os mais tentados a usurpar o poder em proveito próprio: em situações experimentais nas quais a hierarquia era internamente fragilizada tais líderes passavam a privilegiar o próprio poder em detrimento do interesse geral – omitiam informações relevantes para o grupo, excluíam pessoas competentes e buscavam esvaziar a influência de outras pessoas – que não sua própria – sobre o grupo. Tais efeitos perniciosos não se manifestavam, no entanto, se houvesse um grupo opositor, pois isso ativava características alternativas de liderança.
Soa bastante familiar, pelos menos aos meus ouvidos. Mas pelo andar da carruagem haverá muito tempo para a oposição aprender a se comportar como tal no Brasil.
Maner, J., & Mead, N. (2010). The essential tension between leadership and power: When leaders sacrifice group goals for the sake of self-interest. Journal of Personality and Social Psychology, 99 (3), 482-497 DOI: 10.1037/a0018559
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Demorou, mas o Psiquiatria e Sociedade resolveu entrar na política, fazendo campanha aberta para votação: tenho a firme convicção que o melhor candidato a Deputado Federal, que irá representar o leitor de maneira mais fiel e adequada, é uma pessoa escolhida tendo por base critérios racionais e, o quanto possível, objetivos.
Calma, não vou declarar voto.
Antes, recomendo ao leitor que, para escolher seu voto, entre no excelente site: Extrato Parlamentar. Ali, após responder a poucas perguntas tipo SIM ou NÃO, um algoritmo mostra quais os deputados federais são os mais alinhados com suas próprias posturas políticas. Particularmente me surpreendi positivamente: eu ainda não definira meu voto, mas em terceiro lugar na lista de afinidades surgiu o nome de um político que acompanho há vários anos, em quem votei em outras ocasiões, mas que lamentavelmente andava por mim meio esquecido (é, não assito a TV Câmara). Agora já tenho candidato, e reafirmei minha opinião de que ele de fato me representa (ironicamente o depudato federal mais alinhado com minhas opiniões, segundo o site, era do PSOL – serei eu tão do contra?).
Enfim, embora desconfie dos políticos, acredito na política; e como Churchil, considero a democracia o pior sistema de governo já inventado, fora todos os outros. A iniciativa do Extrato Parlamentar é louvável sob todos os aspectos porque quanto mais pessoas conseguirem exercer o voto consciente – o que inclui saber em quem votou, e os porquês do voto -, mais representatividade haverá. Só assim poderemos caminhar em direção a uma democracia mais madura e, consequentemente, a um país melhor.
Utópico? Pode ser, mas fico com Mário Quintana, em “Das utopias”:
Se as coisas são inatingiveis, ora,
Não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos se não fora
O brilho distante das estrelas.
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