Daniel Martins de Barros

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Acho que estou influenciado pelo slogan de uma emissora de TV, que diz que quando é tempo de Copa do Mundo, nada mais importa. Não chego a tanto, mas descobri recentemente mais dois estudos interessantes sobre a ciência da cobrança de pênaltis, que bem poderiam ajudar nossos jogadores caso situações como a final de 1994 se repitam.

Em sua tese de doutorado, o pesquisador Nelson Toshiyiki Miyamoto, da USP, descobriu que, ao contrário do que se imagina, a torcida pode mais atrapalhar do que ajudar. Ele estudou a resposta motora de voluntários numa espécie de videogame que simulava a cobrança de pênaltis – o sujeito deveria inclinar uma alavanca para esquerda, direita ou deixá-la parada, tentando fazer com que a bola desviasse do goleiro, marcando o gol virtual. Em condições de laboratório, o aproveitamento dos voluntários foi de praticamente 100%. Depois disso, eles tinham que repetir a tarefa, mas sob o olhar (e gritos) de outros 70 alunos, simulando a torcida. O desempenho caiu para 80%, próximo da média mundial de conversão de penalidades em gols. Miyamoto sugere que o estresse adicional pela presença da torcida piora a perícia motora, e que talvez os jogadores devessem treinar mais a cobrança de pênaltis. Imagino se colocar um fone de ouvido com gritos da torcida não ajudaria também a acostumar com a pressão.

Outra pesquisa desfavorável aos jogadores mostra que eles sem saber dão pistas de onde vão chutar a bola (I). Filmando com 14 câmeras jogadores batendo na bola, os cientistas criaram vídeos que reproduzem o ponto de vista do goleiro na hora do pênalti. Analisando as imagens, descobriram uma série de dicas sobre a direção a ser tomada pela bola, sendo as principais o ângulo do quadril e a posição do pé de apoio. Segundo eles, no entanto, as informações podem não ser úteis para os goleiros, na verdade, pois dado o tempo extremamente curto entre o chute e a entrada (ou não) da bola, o arqueiro tem que pular muito rapidamente, sem tempo hábil para interpretar as informações e decidir para qual lado ir.

Aparantemnte as ciências cognitivas têm estudado o futebol há algum tempo, e o efeito da Copa é só dar mais publicidade a elas, não estimular que mais pesquisas sejam feitas. Se esse efeito ocorrer também com outros eventos relevantes para o país, em poucos meses devem vir à luz novos estudos sobre corrupção.

ResearchBlogging.org
(I) Diaz, G., Fajen, B., & Ehlinger, D. (2010). Learning to anticipate the actions of others: The goal-keeper problem Journal of Vision, 9 (8), 608-608 DOI: 10.1167/9.8.608

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“O seu problema é que você não tem rádio no carro!” – disse-me certa vez o Marcelo Leite (que não é o jornalista de ciência, mas um dos amigos mais inteligentes que já tive). Éramos solteiros e queríamos nos dar bem, como todo solteiro, mas um pouco por ser do contra, um pouco por ser sovina, nada me convencia a instalar um CD player no carro. “Se você cria um clima, as coisas ficam mais fáceis”. – garantia ele. Como também estava sozinho não tinha lá muito crédito, mas cientistas franceses acabam de comprovar que tinha razão (não disse que ele era inteligente?).

Cento e oitenta e três estudantes, mulheres entre 18 e 20 anos, foram convidadas para testar um biscoito orgânico e compará-lo com o regular. Mas na verdade a condição real de teste era outra: a voluntária esperava três minutos numa sala, até que uma auxiliar a levasse ao entrevistador; na espera havia uma música de fundo que podia ser uma famosa canção romântica francesa – Je l’aime à mourir – ou uma música neutra. O entrevistador fora um rapaz escolhido como o que tinha a aparência mais mediana dentre doze voluntários, de acordo com um ranking feito por dezoito outras mulheres. Ao cabo de cinco minutos de entrevista (onde não havia mais música), após provar os dois biscoitos, a conversa era interrompida pela auxiliar, que pedia aos dois que a esperassem voltar com um questionário dali a dois a três minutos. Nesse ínterim o rapaz – que também não sabia o propósito real da pesquisa – devia dizer: “Meu nome é Antoine, como você sabe, e eu te acho muito bonita, e estava pensando se você me daria seu telefone. Eu te telefono depois e a gente poderia beber alguma coisa semana que vem”. O procedimento era padronizado, e deveria ser iniciado e finalizado com um sorriso.

Embora logo após a experiência nenhuma das moças lembrasse qualquer coisa sobre a música de fundo na sala de espera, a diferença entre os dois grupos foi notável: mais da metade das mulheres que aguardaram com um fundo de música romântica deu o telefone (52,2%), contra apenas pouco mais de um quarto delas quando influenciada por música neutra (27,9%).

Se três minutos fizeram tanta diferença, imagine uma carona inteira. Acho que foi por isso que o meu amigo casou antes do que eu.
ResearchBlogging.org Gueguen, N., Jacob, C., & Lamy, L. (2010). ‘Love is in the air’: Effects of songs with romantic lyrics on compliance with a courtship request Psychology of Music, 38 (3), 303-307 DOI: 10.1177/0305735609360428

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O caso de José Agostinho Bispo Pereira foi comparado ao do austríaco Joseph Fritzl, o que levou um repóter a me pedir um artigo breve de análise do caso. Ele começou a abusar da filha quando ela tinha 12 anos e, desde então, vivia maritalmente, mantendo-a em cárcere privado. Teve com ela sete filhos, e abusava também de uma filha-neta. A pauta acabou derrubada, e como o texto não foi publicado, transcrevo-o abaixo – não chega a ser grande novidade para os que já acompanham nossas ideias, mas nunca acho demais repeti-las:

“Todas as vezes em que crimes como o de José Agostinho Bispo Pereira chegam às manchetes, juntamente com os detalhes que vão aparecendo surge a suspeita de que essa é uma pessoa perturbada. Seu ato consegue ser ainda mais cruel do que os muitos casos de abuso sexual, já que manter a filha por quinze anos em cárcere privado, abusando não só dela, mas também dos filhos-netos, vai além de qualquer coisa que possa ser chamada de normal.

Confrontada com tais casos a sociedade volta-se para a Psiquiatria, perguntando como isso pôde acontecer e o que pode ser feito com tais pessoas. As respostas que temos a oferecer, contudo são poucas, porque ser anormal não implica em ter um transtorno mental. Sabe-se que a maioria dos criminosos não tem qualquer doença psiquiátrica e que a maioria dos abusadores de crianças não tem sequer o diagnóstico formal de pedofilia.

Diante da dura conclusão de que maldade existe de forma independente da loucura, a Psiquiatria não pode se arrogar a dizer qual a origem do mal. Além dos fatores psicológicos, uma infinidade de outros – sociais, culturais, econômicos, religiosos – influi na gênese dos crimes, mesmo dos mais bárbaros. E assim, por frustrante que seja, não conhecemos sua cura. Como a junta de psiquiatras concluiu sobre o carrasco nazista Eichman, as pessoas podem ser extremamente más e, ainda assim, ser “assustadoramente
normais”.”

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Em tempo de Copa do Mundo, a neurociência pode ajudar na hora de bater um pênalti. Assim como os motoqueiros que fazem rally aprendem logo que a melhor maneira para desviar de um buraco é não olhar para ele, um estudo acaba de mostrar que não fixar os olhos no goleiro pode ser a chave para um pênalti bem cobrado.

Os pesquisadores colocaram um aparelho para rastrear o olhar de catorze jogadores de futebol universitário da Inglaterra, todos destros e com idade média de 20 anos. Para um grupo era pedido que batesse o pênalti da melhor forma possível, enquanto para outro foram incluídos estímulos para aumentar a ansiedade, como oferecer 50 libras para o melhor jogador e avisar que seria feito um ranking público com as performances.

Os resultados mostraram que os jogadores na condição de ansiedade logo fixavam o olhar no goleiro, e o mantinham fixo nele por mais tempo do que os outros participantes, mais tranqüilos. Isso se refletiu de duas maneiras: os ansiosos tenderam a chutar mais próximo ao centro do gol, ao alcance do goleiro, e também chutaram para fora mais do que os jogadores calmos.

Assim como fazem os torcedores angustiados na hora dos pênaltis, parece ser uma boa ideia também para os jogadores “olhar para outro lado”.

ResearchBlogging.org Wilson MR, Wood G, & Vine SJ (2009). Anxiety, attentional control, and performance impairment in penalty kicks. Journal of sport & exercise psychology, 31 (6), 761-75 PMID: 20384011

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Você está andando à noite, numa avenida central em sua cidade, quando vê, andando em sua direção, um homem em trajes simples, com andar cambaleante. Você está atrasado para um encontro, olhando o relógio e angustiando em sua corrida contra o tempo, mas ao se aproximar do homem você ainda assim nota que ele tem a fala empastada, e na pouca luz da rua percebe que ele se equilbra com dificuldade. Ao passar rápido por ele, antes de conseguir compreender exatamente o que ele está tentando dizer, qual a sua primeira hipótese?

Não sei você, mas eu confesso que a primeira coisa que passa na minha cabeça é que se trata de alguém embriagado, que irá me pedir dinheiro. E mais: minha reação inicial será de medo.

Dentre os muitos que erguerão suas vozes para me acusar de preconceituoso, aposto que muito poucos não cairiam no mesmo erro. E embaso esse palpite numa característica comum a todos os seres pensantes: o uso de estereótipos.

A criação de estereótipos é uma estratégia heurística – ou seja, uma forma de chegarmos a conclusões usando atalhos cognitivos quando há necessidade de tomada de decisões rápidas, ou diante de informações insuficientes (I). Embora muito útil, já que seria impossível viver analisando e deliberando longamente diante das milhares de pequenas e grandes decisões que tomamos diariamente, tais atalhos muitas vezes conduzem a erros, chamados então de erros cognitivos. Nossa tendência humana a classificar as experiências leva-nos a colocar indivíduos assemelhados em alguns aspectos em grupos pré-determinados. E dada a disponibilidade das vivências que temos, das nossas experiências, contexto e cultura, um homem cambaleante com voz pastosa se dirigindo a mim no meio da noite numa cidade grande cai, automaticamente, no grupo embriagados pedindo esmola, mesmo que eu não queira.

No estudo citado (I), uma população urbana aleatoriamente entrevistada opinou que, com relação a criminalidade urbana, roubos são cometidos por homens (98,3%), sendo que 58% deles são negros; 69,6% encontram-se na faixa etária dos 19 aos 25 anos; 79,7% estão desempregados; 53,6% possuem o Ensino Fundamental incompleto; 54,7% estão sob efeitos de álcool e / ou drogas no momento em que cometem o delito. De onde vem tal percepção? Não se pode imaginar que os entrevistados sejam todos racistas ou preconceituosos convictos. Ocorre que a maioria das pessoas envolvidas em atos ilícitos apresenta alguma das características apontadas. O grande problema é o raciocínio se inverter – a maioria dos assaltantes ser pobre não quer dizer que a maioria dos pobres é assaltante. Parece óbvio, mas quando a mente toma atalhos, como nas estratégias heurísticas, o “modo automático” do cérebro pode passar por cima do óbvio e levar a conclusões erradas.

Estar consciente disso é fundamental para evitarmos tais armadilhas, mas nunca estaremos livres delas. Foi exatamente o que aconteceu num episódio recente do programa O Aprendiz. Um dos participantes, Ramón Ronê, estava sob pressão, servindo café na Avenida Paulista à noite, quando um homem simples, negro, cambaleante e falando mole furou a fila. Ramón o colocou na mesma categoria que eu, naquele exemplo do começo, para só depois descobrir que se tratava de um senhor deficiente físico. Ele foi duramente criticado por isso e quase acabou demitido. A meu ver, de forma injusta e hipócrita: injusta, porque mesmo achando que era alguém embriagado, não foi rude, só o orientou a pegar a fila como todos e posteriormente se corrigiu; e hipócrita porque a imensa maioria de nós – incluindo João Dória Jr., Cristiana Arcangeli e David Barioni – teria cometido o mesmo erro cognitivo. Cometer erros cognitivos é humanamente inevitável; esse não é o problema, desde que tenhamos a grandeza e humildade em admiti-los e prontamente corrigir o possível.

ResearchBlogging.org A. P. WORMHOUDT; M. S. TOROSSIAN; S. MARQUES (2006). VIOLÊNCIA URBANA: ESTEREÓTIPO DO AGRESSOR E DA VÍTIMA Psicólogo inFormação, 10 (10), 9-29

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Pensando na questão israelo-palestina, lembrei-me de um estudo clássico sobre o diagnóstico psiquiátrico, e compartilho as reflexões.

O ódio ao inimigo, bem como os transtornos mentais, têm a ver com estigmas. Estigmas são poderosos, pois uma vez atribuídos a alguém têm a capacidade de explicar tudo sobre ele, ao mesmo tempo em que bloqueiam qualquer possibilidade de explicação alternativa. Além disso é muito difícil retirar um rótulo após assumirmos sua pertinência.

Isso ficou claro no estudo “On being sane in insane places”, publicado em 1973 na revista Science. Era um experimento para verificar se seria possível diferenciar doentes mentais de pessoas sãs durante uma internação psiquiátrica. Oito pessoas sem qualquer diagnóstico psiquiátrico se apresentaram, em diferentes momentos, a 12 hospitais psiquiátricos queixando-se de estar ouvindo vozes pouco claras, dizendo palavras como “vazio” ou “tum”, sem nenhum outro sintoma. Todos receberam o diagnóstico de esquizofrenia e foram internados. A partir daí comportavam-se de maneira absolutamente usual e passavam a dizer já não ouvir mais vozes. Apesar disso, as internações duraram entre 7 e 52 dias, com um média de 19, até que recebessem alta (sem que nenhum fosse descoberto como falso paciente).

As notas das internações revelam como, uma vez estabelecido o diagnóstico, todo o comportamento dos sujeitos passava a ser interpretado como sintoma. Mais do que isso, seu histórico pregresso era encaixado para se moldar ao que se esperava de um paciente com esquizofrenia. Após pregado o rótulo, ninguém da equipe, psiquiatras, psicólogos ou enfermeiros, foi capaz de não vê-los como doentes.

Penso que assim como “louco”, “inimigo” é um rótulo forte. E útil, pois ele explica toda a hostilidade que alguém nos dirige, e ainda melhor, explica nosso ódio a algumas pessoas. Claro que seria ingênuo reduzir todo o conflito do Oriente Médio a uma questão de estigma – nas altas esferas da geopolítica internacional importam muito pouco as pessoas envolvidas no front, se são boas ou más, bem ou mal-intencionadas, os interesses são outros. No rés do chão, entretanto, no dia-a-dia do cidadão que apóia um ou outro lado, a figura do inimigo é fundamental, pois por meio da despersonalização que o estigma traz é muito mais fácil convencer alguém de que outro ser humano merece ser assassinado.

Mas há um antídoto interessante para o estigma, encontrado por acaso na experiência com os falsos pacientes: embora nenhum deles tenha sido descoberto pela equipe, quase 30% dos reais doentes internados descobriram a verdade. “Você não é louco.” “Você deve ser um jornalista.” diziam eles. Por que? Provavelmente porque eles passavam muito mais tempo do que a equipe junto com os falsos pacientes, e essa proximidade os permitou ver a pessoa além do estigma. Talvez seja por isso que em locais longe da guerra, onde judeus e árabes são vizinhos e compartilham o cotidiano, eles não se veem necessariamente como inimigos, mas como indivíduos – a proximidade os leva a enxergar além dos rótulos.

Resolve a questão israelo-palestina? Não. Mas poderia resolver muito do ódio que se vê nos olhos das pessoas.

ResearchBlogging.org Rosenhan, D. (1973). On Being Sane in Insane Places Science, 179 (4070), 250-258 DOI: 10.1126/science.179.4070.250

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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  • Heitor: Boa reflexão Daniel. Contudo o próprio Georges Canguilhem não se aventura no campo da psiquiatria....
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