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Novamente a obesidade é notícia: a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) modificou as regras para a venda de medicamentos para emagrecer.
Os remédios anorexígenos, como indica a etimologia da palavra (do grego: “a”, partícula de negação; “óreksis”, tendência para, desejo de, apetite; e “gênese”, que cria), têm a função de gerar uma perda de apetite e, por consequência, levar à menor ingestão de calorias e ao emagrecimento. Os principais são os catecolaminérgicos, como a amfepramona, e os de ação combinada, como a sibutramina (I). Os primeiros reduzem o apetite, levando a pessoa a ter menos comportamentos de ingesta alimentar, enquato o último aumenta a sensação de saciedade, levando a pessoa a parar de comer mais rápido (II).
O que provocou a Anvisa a agir foi proibição da venda de sibutramina na Europa. Por conta de riscos cardiológicos que a droga traz para pacientes obesos e já com alterações como pressão alta, a agência europeia baniu o medicamento. Há muita controvérsia com relação aos dados que levaram a tal medida, já que os pacientes analisados tinham probabilidade de doenças cardíacas de qualquer forma, mas diante da notícia e do número absurdamente alto de receitas no país a agência brasileira elevou a barreira para a prescrição, exigindo receituário controlado.
Verdade, contudo, é que a medida tem jeito de inútil. Isso porque os medicamentos anfetamínicos, por terem risco de abuso, já sofriam esse controle maior, e tal fato não impediu o Brasil de deter o recorde mundial – mundial – de prescrição de tais drogas.
O problema me parecer ser outro: a confluência da cultura do corpo com a busca por resultados imediatos. A sociedade tem estimulado a pressa de tal forma que pesquisa a ser publicada esse semestre mostrou que indivíduos expostos a símbolos de lanchonetes fast-food por milissegundos, sem terem consciência do que viram, tornaram-se imediatamente mais apressados (III).
Se o intuito é reduzir as prescrições, tenho poucas dúvidas que os desejos imediatistas somados à utopia de beleza num país onde o corpo é exposto continuamente tem tudo prevalecer diante do mero controle de receitas .
(I)Bellaver, L., Vital, M., Arruda, A., & Bellaver, C. (2001). Efeitos da dietilpropiona, energia da dieta e sexo sobre o ganho de peso corporal, peso dos órgãos e deposição de tecidos em ratos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, 45 (2) DOI: 10.1590/S0004-27302001000200008 (II)Finer N (2002). Sibutramine: its mode of action and efficacy. International journal of obesity and related metabolic disorders : journal of the International Association for the Study of Obesity, 26 Suppl 4 PMID: 12457297 (III) Chen-Bo Zhong, Sanford E. DeVoe (2010). You Are How You Eat: Fast Food and Impatience Psychological Science
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Sábado, dia 27 de março, aconteceu a hora do planeta. Se você não percebeu, das 20h30 às 21h30 pessoas, bairros e cidades ao redor do mundo todo apagaram as luzes, num gesto simbólico para lembrar que o consumo de energia é prejudicial ao nosso planeta: monumentos, prédios oficiais, tudo para chamar a atenção à causa. Eu acredito na força dos símbolos, por isso, apesar de ser inócuo apagar as luzes por uma hora, não acho a iniciativa de todo ruim: serve para nos lembrar da questão ambiental e para mostrar que existem atitudes em prol do meio ambiente que estão ao nosso alcance. Se não dermos o passo na direção dessas atitudes, no entanto, a hora do planeta não serve de nada.
E por falar em luzes e comportamento, um artigo que reúne as duas coisas sem ter nada a ver com ecologia chama-se “Boas lâmpadas são a melhor polícia: a escuridão aumenta a desonestidade e o comportamento egoísta” (I). Exemplos como os saques pós-terremoto no Chile ou baderna nas ruas em dias de blecaute estão relacionados não apenas à desorganização que surge na sociedade, mas com a própria escuridão: nesse estudo, os pesquisadores bolaram um teste supostamente anônimo para estudantes, que, após completarem as respostas, deviam preencher uma folha estimando quantas questões haviam acertado para ganhar uma soma de dinheiro proporcional ao tanto de respostas corretas. Um sistema oculto permitia aos cientistas saber, depois, se de fato os alunos tinham acertado tanto quanto falaram na hora da recompensa. Havia um grupo numa sala a meia luz e outro numa sala com iluminação intensa; nem é preciso dizer em qual dos grupos houve mais alunos exagerando o número de respostas certas para ganhar mais dinheiro: 60,5% dos estudantes que fizeram o teste no escurinho contra menos de um quarto dos que o fizeram na sala iluminada.
Provavelmente a sensação de estar encoberto aos olhos dos outros – mesmo que isso não seja verdade – aumenta também a sensação que não seremos pegos ou punidos. Já citei em outra ocasião, mas nunca é demais lembrar o Homem invisível, do escritor H.G. Wells: depois de se tornar invisível, seu comportamento se torna agressivo e totalmente egoísta. Dá o que pensar: até onde somos capazes de chegar sem os freios sociais?
(I) Zhong, C., Bohns, V., & Gino, F. (2010). Good Lamps Are the Best Police: Darkness Increases Dishonesty and Self-Interested Behavior Psychological Science, 21 (3), 311-314 DOI: 10.1177/0956797609360754
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Se nada for feito, você vai engordar. Lamento ser eu a dar a notícia, mas essa é uma das batalhas mais inglórias – e eternas – da humanidade. No livro que deu origem ao filme Inteligência Artificial (Superbrinquedos duram o verão inteiro, de Brian Aldiss), fala-se sobre uma espécie de lombriga domesticada que é inserida no tudo digestivo. Ali instaladas, elas consomem as calorias ingeridas pelas pessoas, permitindo-as comer muito sem engordar.
A culpa é, em grande parte, da inadequação que existe entre nossa natureza caçadora-coletora e a atual disponibilidade de comida. Um estudo muito interessante acaba de provar que nós comemos cada vez mais (I): comparando os quadros que representam a última ceia de Jesus com seus apóstolos, os cientistas mostraram que em dois mil anos de representação, a quantidade de comida nas pinturas aumentou quase 70%. Para eles, como a arte imita a vida, esses achados refletem o progressivo aumento de disponibilidade de alimentos com que temos que lidar.
Como na maior parte da nossa história éramos caçadores-coletores, fomos programados para estocar o máximo possível de energia quando encontrávamos comida, pois não se sabia quando haveria nova refeição. Agora que temos refeições praticamente a qualquer hora o impulso comilão faz com que comamos mais do que o necessário, acumulando energia na forma de gordura.
A boa notícia é que saber disso pode ajudar um bocado. Cientistas mostraram recentemente que as pessoas que superestimam sua capacidade de autocontrole acabam por perdê-lo com mais frequência (II). Quando achamos que somos muito aptos a controlar nossos impulsos nós acabamos por nos expor mais às tentações que queremos evitar; se estamos conscientes de que “a carne é fraca”, contudo, tomamos mais precauções.
É por isso que a melhor maneira de emagrecer é controlar o armário da cozinha. Estando conscientes de que podemos não resistir àquela barra de chocolate escondida entre as compras, o ideal é nem comprá-la. É bem mais fácil do que não comê-la.
(I)Wansink, B., & Wansink, C. (2010). The largest Last Supper: depictions of food portions and plate size increased over the millennium International Journal of Obesity DOI: 10.1038/ijo.2010.37
(II)Nordgren, L., van Harreveld, F., & van der Pligt, J. (2009). The Restraint Bias: How the Illusion of Self-Restraint Promotes Impulsive Behavior Psychological Science, 20 (12), 1523-1528 DOI: 10.1111/j.1467-9280.2009.02468.x
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Desde que a garota Isabella Nardoni foi encontrada morta, mais de seiscentas crianças menores de um ano foram assassinadas, na maioria dos casos por seus pais. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam que cerca de três crianças abaixo de um ano morrem por dia em razão de “causas externas”, e a literatura científica estima que um terço dessas causas externas sejam homicídios (I). Ou seja, mais ou menos um bebê assassinado por dia no país, o que se assemelha a dados internacionais (II).
Por que então Ana Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni são tão hostilizados, qual a razão de tanta mobilização em torno desse caso?
Muitas explicações podem ser dadas, mas para mim a reação da população diz mais sobre nós mesmos do que sobre os acusados.
A estratégia de transformá-los em dois monstros, desprovidos de alma, cumpre o papel muito claro de afastá-los de nós: formam-se dois lados, eles lá, e nós aqui, numa divisão inquestionável e intransponível. Fazer isso é uma maneira de se fugir de sentimentos que todos temos mas que nos amedrontam demais: seria eu assim tão diferente? Será que, num desses acessos de raiva que tenho vez por outra, não corro o risco de fazer algo atroz? Será que eles não estavam numa daquelas situações que de vez em quando dão vontade de matar alguém que nos tira do sério? Quando pensamos assim nos identificamos com eles, o que pode ser intolerável. Daí, a reação de demonizá-los é tranquilizadora; afinal, eu não sou um demônio, logo, não sou como eles. Tal qual na época da caça às bruxas, em que algumas mulheres se tornavam o depósito de todo o mal da sociedade, expiado na fogueira em que elas ardiam, lançamos sobre os Nardoni esse nosso lado sombrio, e os entregamos à justiça.
É óbvio que nada disso ameniza a gravidade do crime; não modifica a atrocidade do ato; não serve de desculpa nem atenuante. Quem cometeu o homicídio deve pagar pelo que fez, sejam eles ou não. Essas considerações só vêm a propósito de colocar nossa própria reação em perspectiva: um crime que ocorre literalmente todos os dias no país não pode estar tão longe de nós como gostaríamos para dormir em paz.
(I)McClain PW, Sacks JJ, Froehlke RG, & Ewigman BG (1993). Estimates of fatal child abuse and neglect, United States, 1979 through 1988. Pediatrics, 91 (2), 338-43 PMID: 8424007 (II)Overpeck MD, Brenner RA, Trumble AC, Trifiletti LB, & Berendes HW (1998). Risk factors for infant homicide in the United States. The New England journal of medicine, 339 (17), 1211-6 PMID: 9780342
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Como disse uma colega, o Leonardo DiCaprio trabalha tão bem em Ilha do medo, que a gente até esquece que ele é bonito. Falo o mínimo possível do filme para evitar spoilers, mas a esta altura todo mundo já sabe que é o mais recente filme de Martin Scorsese, um dos melhor diretores da atualidade, no qual DiCaprio interpreta um policial que vai investigar o desaparecimento de uma paciente num hospital-presídio para doentes mentais criminosos que fica em uma ilha. (Como foi baseado no livro “O paciente 67″, de Dennis Lehane – autor também de Sobre meninos e lobos, que virou filme nas mãos de outro mestre, Clint Eastwood -, a Cia. das Letras teve a infeliz ideia relançá-lo com o novo título, agora homônimo ao filme. Vale pelo relançamento, ao menos). As filmagens foram feitas num antigo hospital psiquiátrico, que segundo Scorsese dava medo só de entrar. E por que será que isso acontece?
Até a metade do século XX (1950, outro dia, portanto), não havia sequer um medicamento específico para transtornos mentais. Os hospitais serviam, portanto, para afastar as pessoas que, em surto, eram uma ameaça para si ou para os outros. E na ausência de remédios, a arquitetura fazia as vezes de tratamento; a sua base era, em grande medida, a contenção e a restrição física. Em se tratando de pacientes que haviam cometido crimes, então, a preocupação central sempre foi com a segurança. Isso transparece até hoje no nome das instituições que abrigam as pessoas nessas condições no Brasil: Hospitais de Custódia e Tratamento. Em primeiro vem a custódia, o aspecto policial, e só depois a terapêutica.
Embora o mito de Pinel atribua a ele a libertação dos loucos de suas correntes, com a instituição dos “tratamentos morais” (sinônimo de psicológicos, termo ainda inexistente à época), seria preciso aguardar mais um século e meio até que o surgimento da clorpromazina, o famoso Amplictil, desse início à fase científica da psicofarmacologia, libertando de fato os doentes mentais: nas suas primeiras duas décadas de utilização, a clorpromazina reduziu em 70% o número de pacientes no manicômios (I).
Grande parte do preconceito que até hoje cerca a Psiquiatria vem dessa época, quando um diagnóstico desses era uma condenação e os médicos alienistas tinham pouco a fazer, além de observar e aguardar. Muita coisa mudou desde então, e venho acompanhando com otimismo o progressivo esclarecimento da população no que se refere aos transtornos mentais. Ninguém mais precisa fugir dos psiquiatras com medo de ficar internado ou ser acorrentado; nosso objetivo hoje é o mesmo que qualquer pessoa pode almejar: proporcionar aos pacientes uma vida normal, com as dores e os prazeres que dela fazem parte.
(I)Rosenbloom M (2002). Chlorpromazine and the psychopharmacologic revolution. JAMA : the journal of the American Medical Association, 287 (14), 1860-1 PMID: 11939878
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O governador cassado do Distrito Federal, José Roberto Arruda, reuniu policiais e médicos sem querer: ambos o estão investigando.
Mantendo-me afastado das questões de polícia que cerca o caso, valem alguns comentários sobre seu estado de saúde. Examinado por conta de edema em membro inferior (vulgo pé inchado), foi descoberta uma arritmia cardíaca, agora também sendo averiguada. Segundo seu médico, no entanto, o que chama a atenção é “o profundo abalo psicológico”.
O encarceramento é, de fato, associado a quadros depressivos. Os dados internacionais mostram que mais da metade das pessoas aprisionadas de alguma forma apresentam, ao menos um transtorno mental (entre 60 e 80%, dependendo da fonte). E um problema adicional é que alguns diagnósticos bastante comuns nesses casos, como a depressão, no mais das vezes não são diagnosticados (1). Provavelmente porque uma pessoa gritando e vendo coisas incomode mais do que outra, recolhida em seu canto e evitando contato.
Um fator preocupante, do ponto de vista clínico, no caso de Arruda, é que a depressão é um fator de risco para complicações cardiovasculares (2). Se ele está de fato com trombose e arritmia, os riscos são ainda maiores.
Nada disso, é claro, confere privilégios ao ex-governador; se as pessoas com diagnósticos psiquiátricos tivessem o direito todas de ir para casa, a população carcerária mundial cairia no mínimo pela metade. Se está doente e for condenado, que se trate na prisão. Mas prover o tratamento adequado é dever do Estado e direito dele, independentemente de sua situação jurídica.
(1)Lafortune, D. (2010). Prevalence and screening of mental disorders in short-term correctional facilities International Journal of Law and Psychiatry, 33 (2), 94-100 DOI: 10.1016/j.ijlp.2009.12.004
(2)Vogelzangs, N., Seldenrijk, A., Beekman, A., van Hout, H., de Jonge, P., & Penninx, B. (2010). Cardiovascular disease in persons with depressive and anxiety disorders Journal of Affective Disorders DOI: 10.1016/j.jad.2010.02.112
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Com a prisão de Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, assassino confesso do cartunista Glauco, tenho ouvido algumas dúvidas que cabe esclarecer.
Não tenho como afirmar se ele tem ou não algum transtorno mental, já que não o examinei, mas podemos discutir as principais questões surgidas de forma geral.
Os transtornos psicóticos caracterizam-se por uma quebra parcial ou total da capacidade dos indivíduos de formar um juízo correto sobre a realidade. Os sintomas principais são alucinações (ouvir, ver ou sentir qualquer coisa na ausência de um estímulo real) e delírios (crenças subjetivas irredutíveis, não deduzidas de um raciocínio com embasamento na realidade). O fato de alguém estar psicótico não exclui, por si só, sua responsabilidade, civil ou criminal. Para a lei, não é suficiente estar doente, mas a condição deve necessariamente levar ao prejuízo do entendimento ou do autocontrole para tornar o agente inimputável (isento de pena) ou incapaz civilmente. Não basta ser doença, tem que participar.
Outro ponto frequente é questionar a presença de um transtorno mental em crimes com grande planejamento, como se a doença impedisse o sujeito de se organizar. Uma coisa não exclui a outra: um paciente com esquizofrenia pode achar que seu vizinho é um alien que quer matar sua família e, movido por essa crença, planejar uma emboscada bastante detalhada para matá-lo. Planejamento depõe contra impulsividade, não contra insanidade.
Algumas pessoas já perguntam se ele é um psicopata. Não é possível afirmar. Psicopatia não se revela apenas em um ato ou alguns comportamentos, mas num padrão contínuo e em grande parte imutável de ser e de se relacionar, caracterizado principalmente por frieza emocional constante e desprezo reiterado pelas normas sociais.
Finalmente o uso de drogas, por si só, também não exclui a imputabilidade. Segundo o código penal, apenas crimes cometidos sob efeito de álcool ou outras drogas que tenham sido consumidas involuntariamente ou “por motivo de força maior”, tendo prejudicado o estado mental da pessoa, podem ter a imputabilidade alterada.
Por fim, até onde sei o uso da Ayahuasca na religião do Santo Daime e afins é permitido no país, não sendo crime seu consumo no contexto religioso.
Vale lembrar que a maioria dos pacientes psiquiátricos nunca comete qualquer crime, e que a maioria dos criminosos não sofre de transtornos mentais (I). Fundamental frisar isso para que não reforcemos o triste preconceito segundo o qual os “loucos são perigosos”.
(I) Abdalla-Filho, E. (2004). Avaliação de risco de violência em Psiquiatria Forense Revista de Psiquiatria Clínica, 31 (6) DOI: 10.1590/S0101-60832004000600002
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Eu já não via muita graça nas tirinhas diárias do Glauco; para mim apenas suas charges políticas conseguiam manter humor e inteligência. No entanto, seu personagem mais famoso, o Geraldão, acabou por se tornar um símbolo de quem viria a matá-lo.
Retratado segurando bebida, cigarro e com múltiplas seringas pelo corpo, Geraldão encarnava o homem que, escravo de suas compulsões, tinha as possibilidades da vida esvaziadas: não trabalhava, morava com a mãe, solteiro, ressentia-se de ainda ser virgem. Nada construíra na vida. Esse estado lastimável ser mostrado pela via da comédia não reduzia a acidez da crítica.
O homem acusado de matá-lo, ao que consta, ironicamente tem uma vida parecida: não trabalha, não estuda e tem dificuldade em deixar o vício da cocaína; a procura pela religião da qual Glauco era bispo supostamente foi motivada pela tentativa de parar com a droga.
Um problema adicional emerge aqui: declarações do irmão do acusado dão conta que ele teria entrado em surto após o uso do chá de Ayahuasca. Pode não ter sido exatamente assim, mas é sabido que as substâncias presentes no chá têm o risco de induzir quadros psicóticos, ainda que na maioria dos casos transitórios (I). Seu uso importado de ritos indígenas pelas regiões urbanas em seitas sincréticas ainda carece de uma melhor compreensão quanto aos seus riscos, já que é outro o contexto original da bebida e outras as demandas que movem os que a utilizam (II).
Independentemente da causa, se o assassino estava de fato psicótico, dizendo-se Jesus Cristo e com comportamento alterado, como foi descrito, provavelmente será considerado inimputável pela lei: o Código Penal diz que os transtornos mentais, se alterarem o entendimento ou autocontrole do indivíduo, isentam-no de pena; esta é substituída por “medida de segurança”, usualmente tratamento compulsório ambulatorial ou sob internação. Há quem considere isso injusto, pois quem usa drogas não pode ter nisso uma desculpa para seus atos. Verdade. Mas muitas vezes a história não é tão simples: algumas pessoas simplesmente não conseguem evitar a utilização das drogas, sendo consideradas doentes. Se tais substâncias – usadas por incontrolável compulsão – induzirem em alguém um estado psicótico, dificilmente tal sujeito será responsabilizado, ao menos totalmente, por seus atos (III).
Há três questões envolvidas nesse caso muito mais complexas do que parecem à primeira vista. O uso do chá toca no ponto liberdade de culto versus liberação de drogas (ainda que rituais); a busca pela religião, por sua vez, envolve o problema do tratamento extramedicinal da dependência química; e o fato de o assassino estar psicótico levanta o dilema da responsabilidade penal dos drogaditos.
Independente dos desdobramentos futuros, contudo, fica o lamento. Por todos, pois o desfecho trágico mostra que dos dois lados as vidas foram roubadas.
(I)Gable, R. (2007). Risk assessment of ritual use of oral dimethyltryptamine (DMT) and harmala alkaloids Addiction, 102 (1), 24-34 DOI: 10.1111/j.1360-0443.2006.01652.x (II) Costa, M., Figueiredo, M., & Cazenave, S. (2005). Ayahuasca: uma abordagem toxicológica do uso ritualístico Revista de Psiquiatria Clínica, 32 (6) DOI: 10.1590/S0101-60832005000600001 (III) Chalub, M., & Telles, L. (2006). Alcohol, drugs and crime]] Revista Brasileira de Psiquiatria, 28 DOI: 10.1590/S1516-44462006000600004
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Inteligência: sinônimo de riqueza e fidelidade? Como havia prometido, volto ao tópico: duas pesquisas recentes mostram resultados interessantes advindo de um maior QI relacionados a temas que costumam dar muita audiência – dinheiro e sexo.
Como não podia deixar de ser, o trabalho sobre dinheiro foi feito por economistas (1), correlacionando o QI com os ganhos médios anuais de 12.500 pessoas ao longo de quase trinta anos. Constatou-se que os inteligentes ganhavam pouco além de cem dólares por mês a mais do que os menos dotados no início da carreira, chegando a superá-los, contudo, em mais de três mil dólares por mês após 28 anos de trabalho. Segundo os cálculos isso significava ter ganho meio milhão de dólares a mais por volta da meia idade. Isso ocorre não apenas porque eles adquiriram mais conhecimentos e habilidades, mas também por saber usar melhor seus talentos e se vender bem dentro de suas carreiras.
Vamos ao sexo. Num outro estudo (2) um psicólogo evolucionista testou a hipótese de que assumir comportamentos “novos”, ou seja, não programados geneticamente, demandaria esforço cerebral. Nesse modelo, a fidelidade masculina exigiria inteligência, pois evolutivamente os machos em geral não são direcionados para a monogamia. Entrevistando mais de cinco mil adultos, a hipótese foi comprovada, encontrando-se relação direta entre o QI e fidelidade, indicada pelo grau de concordância com a afirmação de que a monogamia é um elemento fundamental para um casamento ou relacionamento bem sucedidos.
O fato de a inteligência ser um conceito fluido, difícil de definir e mais ainda de relacionar com variáveis diversas, não impede que algumas estimativas como o QI, ainda que criticáveis, pareçam mesmo ter correlações comportamentais. Independentemente do que signifique ser inteligente, provavelmente isso está relacionado de alguma forma a flexibilidade mental, criatividade e improvisação, além manipulação de conceitos abstratos. Antecipar resultados, planejar no longo prazo e adiar gratificações são alguns elementos chave, e sem dúvida conferem vantagens competitivas na política profissional e na disputa por parceiros.
Com certeza o sucesso (reprodutivo, financeiro ou o que for) não é exclusividade dos inteligentes, mas os dados mostram que possivelmente os menos espertos têm que ralar mais para chegar lá.
(1)Judge, T., Klinger, R., & Simon, L. (2010). Time is on my side: Time, general mental ability, human capital, and extrinsic career success. Journal of Applied Psychology, 95 (1), 92-107 DOI: 10.1037/a0017594 (2)Kanazawa, S. (2010). Why Liberals and Atheists Are More Intelligent Social Psychology Quarterly DOI: 10.1177/0190272510361602
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Já ouvi alguma vezes que a existência do Dia Internacional da Mulher é bobagem, que as mulheres já conseguiram seu lugar e que isso seria um reforço ao preconceito. Discordo.
As mulheres ainda podem ser consideradas minorias. São minoria não por estar em menor número, mas porque têm menos acesso a direitos e garantias, sofrem discriminação. No mercado de trabalho, por exemplo, elas já estão em maior número, mas ganham em média menos do que os homens, mesmo exercendo as mesmas funções. Uma data dedicada a elas, portanto, é bem vinda por nos lembrar do preconceito que ainda viceja nas relações de gênero.
É necessário, contudo, fugir do radicalismo que propõe a plena igualdade entre homens e mulheres. Um exemplo interessante das diferenças homem x mulher diz respeito às reações diante das ameaças. Durante muitas décadas acreditou-se que a única resposta ao estresse era a de fuga-ou-luta, até que uma pesquisadora questionou tal modelo. Os estudos eram quase todos realizados com machos e quase nunca com fêmeas; mas se o papel deles era lutar com o inimigo ou fugir, talvez a evolução inclinasse as fêmeas não para fugir nem para combater, mas para cuidar de sua prole. No início da década Shelley Taylor publicou um artigo que modificou o paradigma no estudo do estresse (1), mostrando que em fêmeas a adrenalina não agia sozinha na hora do perigo, mas era contrabalançada pela occitocina, neuropeptídeo sabidamente envolvido no comportamento afetivo e na maternagem, e diversas pesquisas vêm comprovando esse modelo desde então.
Preconceitos e determinantes culturais à parte, essas pesquisas mostram que o instinto feminino é diferente do masculino, o que é, no fim das contas, algo que sempre imaginamos: os homens estão mais prontos para briga, as mulheres, mais preocupadas com os filhos. Se é na diversidade que está a riqueza é bom que homens e mulheres sejam diferentes. O ruim é fazer dessas diferenças motivo de discriminação e preconceito.
Feliz Dia Internacional da Mulher para todas e todos.
Mulheres e homens: diferença e preconceito – baixe em PDF
(1)Taylor, S., Klein, L., Lewis, B., Gruenewald, T., Gurung, R., & Updegraff, J. (2000). Biobehavioral responses to stress in females: Tend-and-befriend, not fight-or-flight. Psychological Review, 107 (3), 411-429 DOI: 10.1037//0033-295X.107.3.411
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