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Daniel Martins de Barros

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Em post anterior discuti um pouco sobre as catástrofes naturais e as responsabilidades envolvidas, mostrando que quem tem mais preconceito tende a colocar a culpa nas vítimas, enquanto quem tem menos tende a considerar tudo uma tragédia.

Eis que o terremoto no Chile vem a reforçar uma outra leitura, divulgada no Brasil em artigo de João Pereira Coutinho na Folha: a culpa maior é da pobreza. Estudo analisando o resultados de catástrofes ao redor do globo por mais de 20 anos (1) mostra que o PIB do país atingido está inversamente relacionado ao número de mortos – quanto mais rico, menos baixas. A pobreza do país reflete uma (e se reflete na) estrutura de organização social precária, instituições frágeis e consequente capacidade de reação menor.

Os terremotos do Haiti e do Chile diferem bem mais do que cinquenta dias que os separam, as disparidades são bem maiores: o PIB per capita do primeiro é US$1.900,00, contra US$ 14.000,00 do segundo; o terremoto no Haiti atingiu 7 pontos na escala Richter e no Chile chegou a 8.8 (como a escala é exponencial, significa um abalo mais de 30 vezes mais intenso); mas a diferença mais gritante é que, enquanto no Chile os mortos contam-se às centas, no Haiti fala-se em três centenas de milhar.

Talvez a responsabilidade não seja nem de Deus nem das vítimas, mas de todos nós, daquilo que construímos como sociedade. Afinal, o salmista já tinha avisado que “Os céus são os céus do Senhor, mas a terra, deu-a ele aos filhos dos homens” (Salmo 115:16).

ResearchBlogging.org (1)Kahn, M. (2005). The Death Toll from Natural Disasters: The Role of Income, Geography, and Institutions Review of Economics and Statistics, 87 (2), 271-284 DOI: 10.1162/0034653053970339

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Assistir ao documentário O equilibrista (Man on wire), que ganhou Oscar de melhor documentário em 2009 me levou a uma série de reflexões: até onde se pode ir na busca de um sonho, como são borrados os limites entre a autonomia do sujeito e a proteção do Estado, qual a força da amizade, como avaliar a beleza de uma conquista. De todas, gostaria de aprofundar-me brevemente em uma, tema central desse blog: o desafio da psiquiatria para diferenciar os loucos dos doentes mentais. Explico.

No senso comum, qualquer pessoa que aja de forma diferente da norma é anormal. Mas a minoria é doente. Como Philippe Petit, equilibrista que andou por quase uma hora entre as torres gêmeas num cabo preso clandestinamente por sua equipe. “Esse cara é louco”, pensamos ao ver sua proeza. Tanto assim que, logo após ser detido, foi imediatamente levado aonde? A um psiquiatra. Divertidíssimo vê-lo contando que o médico lhe perguntava se ele havia bebido. “Você está louco?” redarguia Petit “Você sabe o quê eu acabei de fazer? Como me pergunta se eu bebi?”. De fato, se alguém pretende se equilibrar num cabo a quase meio quilômetro do chão, a última coisa que deve fazer é beber.

No final das contas o médico sensatamente dá alta ao “nefelibata” (aquele que anda nas nuvens), não tendo diagnosticado qualquer transtorno mental. Mesmo ele sendo “doido”.

Penso, enfim, que a maior dificuldade não é diferenciar os loucos dos doentes. Tecnicamente isso não é assim tão complicado na maioria das vezes. O difícil mesmo é, feita essa distinção, explicar para a sociedade que, apesar de ser anormais, algumas pessoas não são doentes. Afinal, a gente está sempre em busca de uma causa para os comportamentos excêntricos. Mas como disse o próprio Petit, nem sempre temos as razões: “Não tem um porquê, essa é a beleza da coisa”.

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Sabe o que você vai fazer assim que acabar de ler esse texto? Não, você não sabe. Nem eu, mas a matemática é capaz de prever.

Embora nós gostemos de achar que somos dotados de pleno livre-arbítrio, a verdade é que, se nossas ações não são pré-determinadas, são – para dizer o mínimo – muito previsíveis.

Acaba de ser publicado um estudo (1) mostrando que nossos movimentos são até 93% previsíveis – isso usando uma base da dados de apenas 3 meses. A partir dos dados recolhidos de cinquenta mil telefones celulares, os cientistas conseguiram montar um padrão dos movimentos das pessoas, sendo capaz de prever em até 9 de 10 vezes onde eles estariam num determinado momento. Mais do que isso, a previsão é possível não apenas para os dias da semana – compreensivelmente mais previsíveis – mas também para os sábados e domingos; claro que, dependendo do horário (como hora do almoço) e dia, como finais de semana, o padrão é menos fixo, mas ainda assim chega a 70% a margem de acerto.

Vale a ressalva óbvia de que as previsões são estatísticas, e não significa que estamos predestinados a ir para casa ou para o trabalho exatamente no mesmo horário nos mesmos dias. Sempre é possível resolver dar o cano na empresa ou fazer uma happy hour antes de voltar ao lar. O que o estudo deixa claro no entato, é que, embora possível, é bem pouco provável.

ResearchBlogging.org (1)Song, C., Qu, Z., Blumm, N., & Barabasi, A. (2010). Limits of Predictability in Human Mobility Science, 327 (5968), 1018-1021 DOI: 10.1126/science.1177170

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16.fevereiro.2010 22:19:32

Loucas letras

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Atribui-se a uma passagem de As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, a primeira descrição da Demência de Alzheimer (1) – numa das ilhas que o protagonista visita há seres que não morrem. O que inicialmente o viajante toma por benção revela-se uma verdadeira maldição: as pessoas envelhecem, envelhecem e seguem envelhecendo, perdendo funções, reduzindo sua vitalidade, sem ter o alívio final da morte. A narrativa do início do processo, particularmente no que se refere às capacidades cognitivas, assemelha-se bastante à demência que anos mais tarde vitimaria o próprio Swift.

Esse é apenas um dos muito exemplos de que a literatura tem uma profunda relação com a Psiquiatria, aliás, numa via de mão dupla.

Lançado esse ano, o livro Aqueronte, o rio dos infortúnios, da jornalista Cláudia Belfort, adentra essa mata densa da interface entre as letras e a loucura. E loucura é o termo correto – na acepção foucaultiana do termo, abarcando não apenas os pacientes com transtornos mentais, mas os desajustados e marginais, interrelacionando pessoas e patologias, desajustes e sofrimentos. Como um de seus personagens, a autora se inspira em figuras reais, utilizando não os fatos brutos, mas suas “íntimas sutilezas” para acender uma lanterna em meandros escuros da existência. As descrições vão de uma internação psiquiátria à narrativa da morte do ponto de vista do próprio moribundo, passando por um escritor deprimido e sua personagem em crise, pela genética e pela sociedade.

Obras assim são muito bem vindas, pois mesmo o sisudo mundo acadêmico tem se voltado para a importância da literatura para a medicina em geral – psiquiatria em particular – como atesta o editorial “Literature and Psychiatry”, de 2002, publicado no Pychiatric Bulletin pelo professor da Universidade de Birmingham, Femi Oyebode (2). Com atraso, na verdade, pois em 1907 Freud já dissera que “o escritor criativo não pode esquivar-se do psiquiatra, nem o psiquiatra esquivar-se do escritor criativo”. Mais claro, impossível.

ResearchBlogging.org
(1)Boller, F. (1998). History of dementia and dementia in history: An overview Journal of the Neurological Sciences, 158 (2), 125-133 DOI: 10.1016/S0022-510X(98)00128-2
(2)Oyebode, F. (2002). Literature and psychiatry Psychiatric Bulletin, 26 (4), 121-122 DOI: 10.1192/pb.26.4.121

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Mais lenha acaba de ser adicionada à fogueira acesa por Dostoievski: seria verdade que, se Deus não existe, tudo é permitido?

Essa semana uma cientista finlandesa e um americano publicaram um artigo comentando diversos estudos sobre psicologia moral e religião, argumentando que a moralidade é independente da (e anterior à) religiosidade.

Para variar, minha opinião tem tudo para desagradar os dois lados.

Como comentado em post anterior, até os ratos sabem o que é certo – existe um senso de cooperação, que é um dos componentes da ética, em animais muitíssimo anteriores na escala evolutiva, que não têm qualquer esboço de religiosidade (a não ser que O guia do mochileiro das galáxias seja não-ficção). Logo, me parece evidente que elementos cognitivos nos trazem um senso de certo e errado muito antes de haver crenças religiosas.

No entanto, não é possível a um observador (tentanto ser) neutro negar outro fato:  desde a Grécia antiga já vigia como parâmetro ético a Regra de ouro, ”não faça para os outros o que não gostaria que fizessem para você”, regra presente com diferentes formulações nas mais diversas culturas. O advento do cristianismo, contudo, elevou o patamar moral ao transformar o princípio que era passivo – não fazer algo – em ativo: faça para os outros o bem, independente de seus méritos (“ama o teu inimigo”). Muitos não entendem que “amar” não significa gostar ou ter apreço (o que tornaria essa máxima puro non sense)  mas quer dizer trabalhar ativamente para o bem de todos, independente dos seus méritos. Tal princípio foi de tal forma enraizado na cultura ocidental que mesmo os que buscam uma ética ateia não podem prescindir deste aspecto pró-ativo da moral.

Ou seja, a mim me parece claro que moralidade, lato sensu, é anterior à religião, fincada evolutivamente em nosso cérebro dadas as vantagens de sobrevivência grupal que nos trouxe. A nossa moral coletiva, no entanto,  nosso senso ético,  já não é separável da influência religiosa, sejamos crentes ou não.

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Pyysiäinen, I., & Hauser, M. (2010). The origins of religion : evolved adaptation or by-product? Trends in Cognitive Sciences DOI: 10.1016/j.tics.2009.12.007

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Se você já assistiu Avatar e se impressionou com o realismo das imagens em 3 dimensões agradeça à sua natureza carnívora. Pode parecer contraditório com a mensagem algo new age do filme, mas a verdade é que a ilusão de imagens em 3D só é possível devido à configuração do aparelho visual humano, característica dos animais predadores.

Pode reparar: peixes, bois, tucanos, cavalos, todos têm os olhos na região lateral da cabeça, dando uma visão muito ampla do do ambiente. Isso acontece porque, por serem presas, eles precisam estar atentos aos predadores que se aproximem. Já tubarões, leões, águias, crocodilos, homens, têm os olhos na frente da cabeça; predadores que são, precisam identificar a presa e dar o bote certeiro. Para isso precisam ter uma noção correta de perspectiva, calculando a distância do seu alvo.

A visão em profundidade acontece porque cada um dos olhos vê as imagens por um ângulo ligeiramente diferente (se você fechar um olho de cada vez olhando para o seu dedo irá perceber). O cérebro recebe as duas imagens planas e, fundido-as, compõe uma cena tridimensional, já com a profundidade ajustada. Se a cena está longe, no entanto, os olhos não percebem diferenças significativa entre seus ângulos; é por isso que paisagens distantes parecem mais planas e chapadas do que os detalhes de nossa mão, por exemplo. Esse fenômeno é chamado estereopsia, e o cinema 3D o imita por uma técnica conhecida como estereoscopia: na tela são projetadas duas imagens ao mesmo tempo, tomadas com pequena diferença de ângulo. Os óculos que usamos servem para fazer com que apenas uma delas chegue a cada um dos olhos e a partir daí o cérebro faz o que está acostumado: funde as duas imagens numa só, dando-lhe volume e profundidade.

O esforço conjunto da musculatura ocular e do cérebro para esse trabalho explica porquê muitas pessoas têm tido dores de cabeça ao final do filme. Quem tem dificuldades oftalmológicas também pode não conseguir experimentar a sensação da tridimensionalidade, já que ambos os olhos devem estar saudáveis.

A tecnologia em 3D é a grande aposta atual do cinema e cada vez mais obras são rodadas nesse formato. Se nosso cérebro e olhos aguentarem, há de chegar o dia em que filmes em duas dimensões serão relíquias como são hoje os filmes mudos ou em preto-e-branco.

ResearchBlogging.orgUKAI, K., & HOWARTH, P. (2008). Visual fatigue caused by viewing stereoscopic motion images: Background, theories, and observations Displays, 29 (2), 106-116 DOI: 10.1016/j.displa.2007.09.004

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06.fevereiro.2010 12:15:02

A tragédia do preconceito

Há um velho debate sobre se as tragédias geradas pelas catástrofes naturais são meras fatalidades ou se as vítimas carregam algum grau de culpa.

Pelos menos desde o século XVIII tenta-se equalizar tal questão: em 1755, após o terremoto que destruiu Lisboa, os filósofos Voltaire, que via ali uma prova da ausência da providência divina, e Rousseau, para quem a tragédia era fruto não do terremoto em si (e menos ainda de Deus), mas da forma de ocupação urbana – se os lisboetas não estivessem tão amontoados, talvez nada de pior teria acontecido – trocaram rusgas públicas em torno do fato. Modernamente o debate se amplia, incluindo os poderes públicos entre os responsáveis, quer por não regularem de forma adequada a urbanização, quer por serem omissos nas medidas preventivas.

Um estudo publicado em livro no final do ano passado mostra que nossos preconceitos podem explicar sobre quem colocamos a culpa. (Discrimination Against Out-Group Members in Helping Situations: Donald A. Saucier, Jessica L. McManus, and Sara J. Smith In: The psychology of prosocial behavior : group processes, intergroup relations, and helping, 2009)
Tendo como base as vítimas do furacão Katrina, que arrasou Nova Orleans em 2005, cientistas descobriram que as pessoas com mais traços racistas tendiam a colocar mais culpa sobre as próprias vítimas, além de considerar adequado o auxílio dado pelo governo e não achar que mais ajuda era necessária. Os pesquisadores interpretaram os resultados à luz da teoria do efeito de grupo: todos nós tendemos a ajudar mais àqueles que consideramos pertencentes ao nosso grupo e fazer menos força para amparar os que são “de fora”. E como quanto mais racista é a pessoa, menor é o “seu” grupo, sua tendência a subestimar a necessidade de ajuda envolverá um maior número de pessoas.

A questão sobre quem responsável nesses casos deve durar mais uns bons séculos. Mas se ampliarmos nossos horizontes, considerando todo ser humano – e no limite, todo ser vivo – como pertencente ao nosso grupo, no mínimo estaremos mais dispostos a ajudá-los diante das catástrofes inevitáveis.

ResearchBlogging.org
Donald A. Saucier, Jessica L. McManus, and Sara J. Smith (2009). Discrimination Against Out-Group Members in Helping Situations In: The psychology of prosocial behavior : group processes, intergroup relations, and helping

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As tempestades que vêm caindo sobre o sudeste são fonte de grande estresse, não apenas pelos transtornos que causam, mas também pelo alto grau de imprevisibilidade que ainda cerca a meteorologia e, ainda mais, por nossa impotência diante das chuvas.

Sabe-se que uma das maiores causas de estresse e a sensação de falta de controle sobre as situações,fato conhecido há mais de 30 anos, desde que Langer e Rodin conduziram um experimento num asilo, com dois grupos de velhinhos: ambos receberam uma planta de presente, mas para um foi pedido que cuidasse das plantas, alem de oferecido para que escolhessem uma noite da semana para assistir a filmes, enquanto para outro foi dito que a enfermagem cuidaria de suas plantas, sendo arbitrariamente escolhida a noite deentretenimento. O final da historia foi que os velhinhos com mais autonomia ficaram mais alegres, mais saudáveis e, alem de tudo, morreram menos do que seus colegas.

Alem de estresse, no entanto, experiência recente mostra que a sensação de falta de controle também dá margem ao surgimento de superstições e pensamento mágico.

Os cientistas Whitson and Galinsky colocaram voluntários diante de um padrão de letras aleatoriamente gerado por computador, pedindo a eles que descobrissem qual era a regra implícita. Na verdade não havia regra nenhuma, mas para metade dos indivíduos o computador dizia se eles estavam acertando ou errando, o que lhes dava a sensação de não estar no controle. A outra parte não recebia feedback algum, o que lhes permitia achar que estavam apenas identificando o a regra, tendo assim maior sensação de controle. Na sequência, todos foram apresentados a imagens pontilhadas, algumas com desenhos formados pelos pontos, outras sem nenhuma imagem subjacente. Quase todos identificaram a imagem quando havia uma, mas as pessoas do grupo com menos controle tendiam a ver mais desenhos onde não havia nenhum. Para os pesquisadores, a falta de autonomia gera uma ansiedade que leva as pessoas a procurarem algum padrão, mesmo que ilusório, reduzindo a aleatoriedade em seu contexto.

Imprevisibilidade e ausência de controle levando a estresse e superstição. Deve ser por isso que, desesperadas, algumas autoridades publicas firmem convênios com médiuns para tentar o controle das tempestades.

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Langer EJ, & Rodin J (1976). The effects of choice and enhanced personal responsibility for the aged: a field experiment in an institutional setting. Journal of personality and social psychology, 34 (2), 191-8 PMID: 1011073
Whitson, J., & Galinsky, A. (2008). Lacking Control Increases Illusory Pattern Perception Science, 322 (5898), 115-117 DOI: 10.1126/science.1159845

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A moralidade é um tema difícil de ser científicamente estudado, já que o viés cultural envolvido é enorme. O que é certo em um lugar é errado em outro, e dentro de um mesmo lugar as coisas mudam ao longo do tempo. O imoral ontem é permitido hoje – e amanhã pode vir a ser obrigatório.

Jonathan Haidt, da Universidade de Virgínia, se propôs a desenvolver uma teoria dos fundamentos da moral (www.moralfoundations.org), e encontrou cinco domínios que diferenciam o certo do errado para os seres humanos, provavelmente selecionados ao longo da evolução por nos permitirem chegar até aqui (Haidt J. The new synthesis in moral psychology. Science, 316, 998-1002):

1-Dano e cuidado, 2-Justiça e reciprocidade, 3-Lealdade intragrupo, 4-Respeito pela autoridade, 5-Pureza e santidade.

Parece lógico que quem não praticava cuidados, não era leal, não evitava sujeira e assim por diante, foi ficando pelo caminho, sobrevivendo os que tinham tais comportamentos.

Dentre esses fatores, o segundo acaba de ser identificado em mamíferos bastante distantes de nós, humanos.

Neurocientistas portugueses mostraram que ratos aprendem a cooperar entre si, evitando punições e aumentando suas recompensas (Viana DS, Gordo I, Sucena E, Mota M. Cognitive and Motivational Requirements for the Emergence of Cooperation in a Rat Social Game PLoS One. 2010; 5:e8483).Utilizando o modelo da teoria dos jogos conhecido como tit for tat, algo como “pagar na mesma moeda”, descobriram não apenas que os ratos logo começavam a cooperar, em vez de competir, mas que guardavam na memória o comportamento anterior do seu oponente e qual a consequência para ele mesmo, ajustando sua atitude em função dessas variáveis. Ou seja, o senso de justiça e reciprocidade é útil há muito mais tempo do que se imagina, fincando raízes biológicas em nossos comportamentos desde as priscas eras.

No filme de 1970 “O garoto selvagem”, de François Truffaut, um cientista assume a educação de uma criança encontrada na selva, e num determinado momento pune-o por uma tarefa realizada adequadamente, apenas para ver se ele se sentiria injustiçado. Sua revolta convence o pesquisador de que, mesmo tendo crescido entre animais, existe nele um senso de justiça.

É por isso que mesmo nós, que por vezes agimos como verdadeiras bestas feras, sabemos quando pisamos na bola.

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Haidt, J. (2007). The New Synthesis in Moral Psychology Science, 316 (5827), 998-1002 DOI: 10.1126/science.1137651

Viana DS, Gordo I, Sucena E, & Moita MA (2010). Cognitive and motivational requirements for the emergence of cooperation in a rat social game. PloS one, 5 (1) PMID: 20084113

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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