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Daniel Martins de Barros

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A primeira palavra que li foi num gibi do Chico Bento. Daí para frente, aprendi a gostar de ler com o Maurício de Sousa e com a Ruth Rocha, e talvez por isso nunca tenha considerado os quadrinhos numa categoria muito diferente da literatura. Hoje, embora não seja um fã da “nona arte” (as histórias em quadrinhos), acompanho notícias dessas obras ganhando prêmios literários e respeito no mundo acadêmico.

Assim que o livro Logicomix foi uma das maiores surpresas que tive nesse ano. A proeza desses autores gregos foi fazer um livro sobre a vida e as ideias de Bertrand Russell, um dos mais importantes logicistas de todos os tempos, em quadrinhos. Com belíssimos desenhos e o conteúdo complexo, eles ainda conseguiram tratar da relação entre genialidade e loucura, levando o livro a obter resenhas elogiosas até mesmo em revistas acadêmicas (1).

A narrativa é conduzida pelo recurso metalinguístico de os autores desenharem a si mesmos tentando criar o livro. As reuniões de pauta, discussões temáticas e soluções históricas vão sendo apresentandas enquanto a biografia propriamente é apresentada. Isso ainda é feito com o requinte de retratarem o próprio Russell contando sua vida, numa palestra que ficou famosa, na qual pediram a ele que se posicionasse sobre a Segunda Guerra Mundial. Russell, mesmo sendo um pacifista convicto, usa suas experiências para mostrar que a Lógica, ponto de encontro entre a Matemática e a Filosofia, por mais rigorosa e precisa que seja, não consegue dar conta de tudo. O mundo dos homens e suas relações é muito mais complexo do que a ciência. Tanto que muitos dos matemáticos que fizeram da lógica sua vida, ou da sua vida um exercício lógico, acabaram por enlouquecer, literalmente, após suas contribuições para a ciência. Os quadrinhos retratam-nos internados em hospícios e em meio a seus delírios, em tristes finais para homens tão brilhantes.

No final das contas, não há uma resposta definitiva sobre a guerra ou a paz, sobre a associação entre genialidade e insanidade, nem mesmo sobre a importância do legado de Russell. Mas se entendermos a mensagem não daremos muita importância a tais lacunas. Afinal, a vida não é lógica.

ResearchBlogging.org (1) Apt, K. (2010). Logicomix: An Epic Search for Truth by Apostolos Doxiadis, Christos H. Papadimitriou, Alecos Papadatos, Annie di Donna The Mathematical Intelligencer, 32 (3), 51-52 DOI: 10.1007/s00283-009-9111-5

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Às vésperas do Natal, quando temas religiosos costumam aflorar, a Atea – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, causa polêmica com uma campanha para veiculação de cartazes em defesa do ateísmo em ônibus de algumas cidades brasileiras.

Gostaria de aproveitra a própria campanha para discutir um pouco o sentido fundamental do Natal, que sempre precisa ser relembrado. Cristo. O nome por trás dessa história toda.

Um dos cartazes da Atea apresenta a foto de Chaplin e de Hitler, lado a lado. Sob o primeiro lê-se “Não acredita em Deus”, e sob o segundo “Acredita em Deus”. Uma frase conclui: “Religião não define o caráter”.

Nem pretendo discutir isso, já que é óbvio. O sujeito pode ser um pulha cristão ou um santo ateu. E vice-versa. O que esse cartaz em particular não mostra é o discurso que Chaplin faz ao final de “O grande ditador”, quando diz “No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos!” Apesar de judeu, apesar de ateu, Chaplin invoca palavras de Cristo para reforçar a mensagem de que o povo tem poder, ”o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa”.

Esse é o sentido do Natal. Celebrar o nascimento de Cristo lembrando suas ideias (de prefêrencia pondo-as em prática). Coisa que pode ser feita, como mostra Chaplin, tanto por ateus como por crentes. Celebrar a possibilidade de fazer desse mundo um lugar melhor (“o Reino de Deus chegou”), trabalhando ativamente pelo bem das pessoas (“amar o próximo”), promovendo justiça social (“amparar os órfão e as viúvas, eis a verdareira religião”) e assim por diante.

Num estudo de 2003, psicólogos americanos se propuseram a pesquisar qual o sentido da vida para pessoas eminentes. Levantaram 238 frases de 195 pessoas que, sendo bem conhecidas, funcionam como formadoras de opinião e também como reflexo da opinião das pessoas. Com métodos qualitativos descobriram que juntas, posturas como ajudar o próximo, aprimorar-se como ser humano, contribuir com algo superior a nós mesmos e servir a Deus ou ao mundo espiritual descrevem o sentido da vida para a maioria das pessoas (36% da amostra). Uma minoria acha que vida é um absurdo (4%), e uma parte acha que a vida não tem sentido em si mesma, ou que este precisa ser criado por nós (16%).

O real sentido do Natal como o vejo, portanto, vai além da mera religião. Ao resgatar a pregação de Cristo, independente de qualquer religião cristã oficial, e tentando vivê-la, resgatamos o sentido da própria vida.

ResearchBlogging.org Kinnier, R., Kernes, J., Tribbensee, N., & Van Puymbroeck, C. (2003). What Eminent People Have Said About The Meaning Of Life Journal of Humanistic Psychology, 43 (1), 105-118 DOI: 10.1177/0022167802238816

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O quê diferencia informação relevante de fofoca? Como diferenciar segredos legítimos de mentiras torpes? Ultimamente essas perguntas rondam o WikiLeaks.

O site, que coleciona prêmios, conta com colaboradores que vão de repórteres experientes até dissidentes de governos totalitários, promovendo o vazamento de informações sigilosas e trazendo à luz fatos que governos dos mais variados naipes gostariam de manter ocultos: vídeos de um helicóptero americano matando civis no Iraque; relatório sobre a política de extermínio no Quênia; dezenas de milhares de documentos sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão, o manual da prisão de Guantánamo etc. É louvável em sua propagação da transparência e honestidade.

No entanto, seu crescimento e sucesso vem sendo acompanhado de dois riscos: descambar para a fofoca e colocar pessoas e causas em risco real.

A divulgação de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos, é – a meu ver – fofoca inútil. Saber que Hillary Clinton perguntou se Cristina Kirchner toma remédios psiquiátricos; que o Rio de Janeiro teme ser alvo terrorista nas Olimpíadas de 2016; ou mesmo que o Itamaraty é antiamericano me parecem intrigas tão comezinhas quando as conversas de pé-de-ouvido de qualquer reality show. Nas relações humanas, segredos e omissões são fundamentais, pois algumas mentiras bobas muitas vezes ajudam a manter os vínculos que a plena sinceridade destruiria.

Mais que isso, contudo, há verdades que, gostemos ou não, vindo à luz são prejudiciais. Esconder a tortura a prisioneiros é sempre ruim, mas não revelar que determinada autoridade está desaparecida, nem sempre. A literatura sobre o tema classifica algumas inverdades como “mentiras azuis” (em alusão à farda de policiais que mentiram para garantir o sucesso de uma ação do governo contra o crime). E o mais interessante é que, desde crianças, desenvolvemos progressivamente a noção de que mentir de forma egoísta é errado, mas de forma altruísta, em prol do grupo, pode ser aceitável. Em um estudo com crianças de 7, 9 e 11 anos que poderiam mentir ou falar a verdade, prejudicando toda sua classe de colegas, psicólogos verificaram 7.2, 16.7 e 29.7% delas optaram por mentir em prol do grupo, respectivamente; de forma paralela, conforme aumenta a idade há menos aceitação para mentia em benefício próprio.

Embora a transparência seja um valor, não é um valor absoluto. O juiz Louis Brandeis estava certo ao dizer que “A luz do sol é o melhor desinfetante”, mas vale lembrar que a mesma luz, em excesso ou no lugar errado, pode causar graves prejuízos.

ResearchBlogging.org Fu, G., Evans, A., Wang, L., & Lee, K. (2008). Lying in the name of the collective good: a developmental study Developmental Science, 11 (4), 495-503 DOI: 10.1111/j.1467-7687.2008.00695.x

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Sem querer ser desmancha-prazeres, gostaria de fazer algumas perguntas:

1 – Será que os traficantes acharam que poderiam incendiar carros em Ipanema e Copacabana sem provocar uma reação do Estado? Não acredito que exista alguém tão ingênuo. A velocidade e de reação aos atos “terroristas”, bem como sua magnitude, não dão a impressão de que o movimento já estava sendo planejado há tempos, talvez só faltasse um motivo?
2 – Alguém acredita que os traficantes foram para a zona sul pôr fogo em carros em protesto contra as UPPs? Seria muita burrice do tráfico (que de burro tem muito pouco). Além disso, as UPPs estão implantadas há mais de ano, porque a demora a reagir? Esses ataques não foram um pretexto muito conveniente?
3 – Quem se lembra que há dois anos o mesmo BOPE tomou a mesma Vila Cruzeiro, hasteando uma bandeira no mesmo alto da favela? Já vimos esse filme?
4 – Sem poder vender para os traficantes do Rio, os fornecedores de droga desistirão do negócio? Em entrevista de 2009 o professor da PUC-MG e ex-secretário-adjunto de segurança Luis Flávio Sapori já atestava ser improvável que as quadrilhas comprassem diretamente de fornecedores no exterior: “[os traficantes são] do varejo. A cocaína que vem de fora ainda é a pasta base. É preciso alguém com capital para transformá-la em pó, em laboratórios clandestinos. Esse atacadista pode vender para vários varejistas.” Alguém sabe para quem mais eles vendem? O que se está fazendo para evitar a migração maciça da venda para esses outros lugares?
5 – Os traficantes começarão a mandar curriculum? Faz alguns anos que o crime organizado percebeu lucrar mais com “prestação de serviços”, como venda de gás, “gatonet” e transporte clandestino do que com roubos e sequestros, que geram mais barulho, atraem a polícia e prejudicam os negócios. A partir de agora procurarão empregos regulares ou voltarão para a cidade, já que o foco está todo no morro? As autoridades estão pensando nisso?
6 – Agora que correram com os traficantes do morro, quem é que vai correr com os milicianos? Só quem acreditou no aviso inicial do Tropa de Elite 2 (“Este é um filme de ficção”) acha que o problema da criminalidade se divide entre os traficantes bandidos e os policiais mocinhos.
7 – Quem irá prestar os serviços a partir de agora? As milícias só se estabeleceram naqueles territórios pela carência total do Estado. Se continuar faltando infra-estrutura, gás, transporte público, não bastará manter policiamento, porque alguém sempre dá um jeito de vender o que os outros querem comprar.

Não tenho as respostas, mas acho bom perguntar só para lembrar que a situação é muito, muito mesmo, mais complexa do que aparece no bang-bang do noticiário.

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21.novembro.2010 18:03:35

Porque se agridem os gays

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Está em pauta nos últimos dias o episódio de agressão contra homossexuais na Avenida Paulista, em São Paulo. Muitas respostas surgem para a pergunta de por quê isso acontece, e eu também tenho a uma teoria: quem agride homossexual faz isso porque não tolera sua própria homossexualidade. Pode ser polêmico, mas tenho três testemunhas de peso a favor da minha tese.

Em primeiro o velho Freud, com seu conceito de formação reativa, que é um mecanismo de defesa do ego no qual, diante de desejos inconscientes e tendências inaceitáveis para o indivíduo, este adota o comportamento exatamente oposto. Assim, alguém com desejos homossexuais latentes reagiria com raiva quando confrontado com tal impulsos.

Pode até parecer teórico demais ou pouco científico, mas foi uma ideia posta à prova num estudo já clássico: em 1996, três psicólogos convidaram 64 voluntários, todos homens heterossexuais, para uma pesquisa, classificando-os em muito ou pouco homofóbicos de acordo com um questionário preenchido pelos sujeitos. Depois disso, foram assistir a três vídeos eróticos de cerca de 4 minutos casa, um mostrando um casal heterossexual, outro com duas mulheres e um com dois homens. Um sensor media o aumento da circunferência peniana, que reflete o grau de excitação sexual, durante os filmes. O resultado é que não houve diferença entre o grau de excitação entre os homofóbicos e não-homofóbicos diante do filme com duas mulheres nem com um casal. Mas houve uma diferença significativa no grau de excitação entre os dois grupos diante do filme com os homens: adivinhem se não foi o grupo mais homofóbico aquele que ficou mais excitado diante do filme gay? E não foi só isso. Os participantes deviam assinalar o quão excitados estavam em cada um dos filmes, e normalmente não houve discrepância entre o que os sujeitos diziam e o quanto era medido pelo sensor, a não ser nesse caso, quando os homofóbicos diziam-se menos estimulados do que o verificado em seus corpos – olha aí de novo o aspecto inconsciente apontado por Freud.

Minha última testemunha é o brilhante filme Beleza Americana, Oscar de melhor filme, melhor diretor (Sam Mendes), melhor ator (Kevin Spacey) e melhor roteiro no ano 2000. Um personagem homofóbico e neo-nazista acha que o vizinho (Spacey) é gay. O seu incômodo cresce ao longo do filme, até que, numa das melhores cenas, ele vai até o vizinho, beija sua boca e em seguida o mata com um tiro na cabeça. O desejo inconsciente rompe a barreira da repressão e leva ao beijo, mas é uma situação de tal forma intolerável que o faz exterminar a fonte desse desejo.

Me parece, então, que psicanálise, fisiologia e arte estão dizendo a mesma coisa: homofobia tem uma forte relação com homossexualismo. Inconsciente, no entanto, e por isso mesmo, muito perigoso.

ResearchBlogging.org Adams, H., Wright, L., & Lohr, B. (1996). Is homophobia associated with homosexual arousal? Journal of Abnormal Psychology, 105 (3), 440-445 DOI: 10.1037/0021-843X.105.3.440

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Nenhum livro é tão ruim que não tenha alguma utilidade, disse Plínio, o velho. A famigerada auto-ajuda, tão atacada e desacreditada, vem mostrando que tem – e muita – utilidade segundo pesquisas internacionais.

A biblioterapia, que ganha cada vez mais espaço nos países de língua inglesa, consiste basicamente em prescrever aos pacientes com quadros psiquiátricos leves alguma literatura de auto-ajuda, em lugar de medicamentos ou de psicoterapia, fazendo um acompanhamento mais esparso. Desnecessário dizer que esta abordagem torna o tratamento bem mais barato, o que faz dele uma alternativa interessante em termos de atenção primária a saúde, já que há uma sobrecarga crescente de pacientes com problemas psiquiátricos nos ambulatórios gerais, a maioria absoluta com quadros leves; se fossem todos encaminhados para psiquiatras não haveria médicos para todos, e ainda por cima faltariam especialistas para os quadros graves.

Hoje já existem diversos estudos comparando a eficácia da biblioterapia com os outros tratamentos. Um deles foi inteligentemente desenhado para comparar o uso de livros com o “tratamento habitual”: 6 médicos se voluntariaram para tratar de um grupo de 38 pacientes; para 19 deviam prescrever o tratamento que melhor conviesse (o que eles bem entendessem, no português mais claro), e para outros 19 eles podiam apenas recomendar a leitura do livro Feeling Good, de David D. Burns. Trata-se de um manual de auto-ajuda recheado de técnicas cognitivo-comportamentais publicado em 1999. Durante 6 semanas os pacientes deviam ou ler cerca de 11 páginas por dia, ou simplesmente seguir o tratamento, que em todos os casos baseou-se em medicamentos ou psicoterapia. Após esse período havia um retorno em 1 e 3 meses.

A esta altura você já não se surpreenderá ao saber que os tratamentos foram comparáveis em todos os aspectos: adesão dos pacientes, adesão dos médicos, custo do tratamento e eficácia não apresentaram diferença, quer com remédios ou terapia, quer com o livro de auto-ajuda. Sabendo que os remédios no longo prazo têm custo mais elevado, que há efeitos colaterais, interações medicamentosas etc, torna-se claro que em casos leves a biblioterapia pode ser uma boa pedida. Excluídos os casos graves, a principal limitação para tal tratamento fica mesmo por conta da compreensão da linguagem escrita por parte do paciente.

Isso signfica, por exemplo, que se o Tiririca não pudesse assumir o cargo de deputado em razão de analfabetismo (total ou funcional) e por isso ficasse deprimido, não haveria livro capaz de dar jeito. Com mais de um milhão de votos, ele é um símbolo da inviabilidade de sequer pensarmos tal tratamento no Brasil, onde de cada 4 cidadãos (cidadãos?) apenas 1 compreende plenamente o que lê.

ResearchBlogging.org Naylor, E., Antonuccio, D., Litt, M., Johnson, G., Spogen, D., Williams, R., McCarthy, C., Lu, M., Fiore, D., & Higgins, D. (2010). Bibliotherapy as a Treatment for Depression in Primary Care Journal of Clinical Psychology in Medical Settings, 17 (3), 258-271 DOI: 10.1007/s10880-010-9207-2

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O mundo nunca foi um lugar simples, mas sinto que está ficando cada vez mais complexo. Não acho que essa sensação seja privilégio de nosso tempo, no entanto: a cada grande mudança social as pessoas devem ter achado que tudo estava muito complicado – imagine os impactos que foram a transição da cultura oral para escrita ou da vida rural para vida urbana, por exemplo.

Digo isso pensando nas notícias recentes envolvendo a internet. Veja o caso da moça que falou contra nordestinos. Quantas vezes você já não ouviu alguma infame piada racista contra uma minoria? Acho lamentável (na faculdade fui convencido por amigos mais inteligentes do que eu que piadas racistas são um erro, outro dia explico essa história), mas isso não trazia maiores repercussões. Mas hoje uma pessoa posta um comentário desses no twitter e acaba desmoralizada, demitida e processada.

Agora uma pesquisa com 400 adolescentes brasileiros encomendada pela McAfee revela que 83% deles utilizam as redes sociais e trocam informações pessoais em público; pior – 46% postam informações sobre sua localização; e pior ainda: 53% sabem driblar a vigilância dos pais. De novo: quem nunca se envolveu em alguma forma de exposição quando jovem? Numa briga, numa bebedeira, numa piada ridícula que só tinha sentido naquele momento a pessoa se expunha, mas o fato se extinguia e em algum tempo virava uma recordação embaraçosa. Agora, esse momento é potencializado e literalmente milhões de pessoas podem ver – para sempre – um jovem vomitando no colo de outro. Essa piada terá graça quando ele estiver procurando emprego?

Os limites da vida virtual não estão claros, as consequências das atitudes on-line estão em processo, não tendo sido avaliadas por tempo suficiente para que calculemos os riscos de forma adequada, ainda. Pesquisa recente com seis “focus group” com estudantes de medicina mostrou que embora todos concordem que não se pode ferir o sigilo médico, não há qualquer outro consenso com relação ao grau de exposição permitido, o quê é prejudicial ou não, se é legítimo falar mal do chefe ou fazer menção ao próprio uso de álcool, por exemplo. Poucos notam que a imagem que tornam pública no facebook não bate com sua imagem pública como profissionais de saúde (I).

Creio que chegará o tempo em que aprenderemos a lidar com essa nova realidade. Idependentemente da tecnologia, contudo, acredito que os modelos válidos desde a Antiguidade – ser educado, não dar intimidade a estranhos, respeitar os mais velhos, não falar mal do próximo etc, etc – dão conta do recado em qualquer mundo em que vivamos, seja ele real ou virtual.

ResearchBlogging.org (I) Chretien, K., Goldman, E., Beckman, L., & Kind, T. (2010). Itʼs Your Own Risk: Medical Studentsʼ Perspectives on Online Professionalism Academic Medicine, 85 DOI: 10.1097/ACM.0b013e3181ed4778

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Coincidência ou não, nesse feriado que começava com o Haloween e terminava com Finados, assisti a duas obras que versam sobre a morte. Tão diferentes na superfície, me parecem que são no fundo complementares, numa análise mais detalhada.

Com recorde de audiência de estreia na TV paga americana, o seriado The walking dead conta a história de um mundo assolado por zumbis, impondo aos sobreviventes a árdua tarefa de escapar aos seus ataques e tentar resolver a situação. Para os que não sabem, zumbis são pessoas mortas que mantém sua capacidade de agir, mesmo que o pensamento ou a comunicação sejam precários e a putrefação seja irreversível.

Já o filme A partida, de Yojiro Takita, foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009, e – confesso embaraçado – talvez o único que me fez soluçar desde a adolescência. Conta a história de um violoncelista cuja orquestra em Tóquio é desfeita, forçando-o a voltar para seu interior natal (geográfico e psicológico), onde, sem emprego, começa a trabalhar como agente funerário, preparando os mortos para serem enterrados num belíssimo ritual.

O quê as duas obras têm em comum? Embora a morte seja a resposta óbvia é o luto que faz o contraponto mais interessante. No primeiro episódio do seriado um dos protagonistas vê sua mulher se transformar em zumbi e tenta matá-la (o que é possível destruindo o cérebro) para poupá-la de uma existência tão miserável. Em lágrimas, não consegue. Ela não fez a passagem, não foi enterrada, não morreu de fato; não poderá, portanto ser eliminada por ele, e pelo visto seguirá o assombrando séria afora. Fazer essa passagem é justamente o trabalho do músico/coveiro em A partida. Em diversas cenas do filme fica evidente como o estresse e a tensão das famílias enlutadas é aliviado quando o ritual é completado, quando eles conseguem se despedir dos mortos e enterrá-los. Numa das cenas mais belas ele mesmo passa por essa experiência de liberação – não conto mais para não estragar.

O estudo sobre o luto evoluiu bastante nas últimas décadas, e até hoje não foi encontrado um tratamento ou espécie de intervenção comprovadamente eficaz para “resolver” o luto. Numa revisão ampla sobre o tema publicada em 2010 por cientistas da Bélgica, não foi identificada uma terapia específica que possa ser amplamente aplicada para as pessoas enlutadas. Suporte social, psicoterapia, intervenção antes da morte, nada parece muito útil. Como coloca Phylllis Silverman, especialista no tema, “O luto não é algo que você supere. A perda permanece com você, mas você se acomoda e segue com a vida, transformada pelo que aconteceu”.

É por isso que os rituais de passagem são importantes; para que, a despeito da presença daquela ausência, a vida possa ser retomada em sua nova configuração. Sem isso, os zumbis continuam sua perseguição, impedindo a vida de seguir. Como disse Nietzsche “Somente onde há sepulturas pode haver ressurreições”. 

ResearchBlogging.org Henk SCHUT, & Margaret STROEBE (2010). EFFECTS OF SUPPORT, COUNSELLING AND THERAPY
BEFORE AND AFTER THE LOSS: CAN WE REALLY HELP
BEREAVED PEOPLE? Psychologica Belgica, 50 (1&2), 89-102

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Uns jogam objetos voadores não identificados na cabeça do candidato, outros atiram bexigas d’água na carreata da candidata: a violência surgiu nas ruas nesse segundo turno após o tom agressivo aparecer nas interações entre Serra e Dilma. Seria coincidência? Acho que não.

Um fato que detestamos admitir é que a televisão tem um enorme poder sobre nós e nossos comportamentos. Gostamos de pensar que estamos acima dessa influência, mas os trabalhos do cientista Albert Bandura estão aí para nos desmentir.

Na década de 60 ele ficou famoso com um experimento no qual crianças entre três e seis anos eram apresentadas a uma situação de agressão: eles viam um adulto agredir um boneco “joão-bobo” de forma propositalmente mais intensa do que o esperado para o brinquedo – além de socos, havia chutes, marretadas, seguidos de frases agressivas, como “Soque-o no nariz!” etc. O estímulo foi feito de três maneiras: ao vivo ou por meio de um vídeo, que mostrava ou a mesma agressão ou um adulto vestido de gato, como nos parques de diversão, enquanto um grupo controle não via tais cenas. No segundo momento as crianças eram levadas a uma sala de brinquedos e observava-se se elas teriam comportamentos agressivos e em que medida imitariam o adulto. Não surpreende que as crianças submetidas ao estímulo foram muito mais agressivas do que as no grupo controle. Surpreendeu, contudo, que o estímulo que mais as levou a comportamentos imitativos foi ver o vídeo dos adultos agressivos.

Acho que já comentei aqui, mas vale a pena citar novamente uma declaração do Woody Allen que disse conhecer diversas pessoas frustradas por não terem a vida que viam nos filmes, como se aquele fosse um gabarito com qual medir o sucesso real dos indivíduos. O problema é que nós somos seres necessariamente influenciáveis, e imitamos inconscientemente o comportamento alheio para decidir o que fazer. Somos programados para isso, pois é mais rápido e econômico do que pensar a todo momento em cada decisão individual. Na sociedade atual a televisão potencializa esse efeito, e nela nos espelhamos – em maior ou menor grau, queiramos ou não – para pautar nosso comportamento.

Proponho duas soluções: em primeiro, tendo conhecimento disso, ficarmos mais atentos àquilo que nos influencia. E em segundo, nos inspirarmos em Groucho Marx, que dizia achar a TV muito educativa, já que sempre que alguém ligava o aparelho ia para biblioteca ler um livro.

ResearchBlogging.org Bandura, A., Ross, D., & Ross, S. (1963). Imitation of film-mediated aggressive models. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 66 (1), 3-11 DOI: 10.1037/h0048687

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     Peço constrangida licença aos leitores para fazer jabá. Ao que me consta isso não é lá muito elegante nos meios jornalístico ou científico, mas é uma forma de os leitores do blog saberem que novamente estou me aventurando no papel, não só na rede: no dia 18 de novembro iremos lançar o livro Machado de Assis: a loucura e as leis – Direito, Psiquiatria e Sociedade em 12 contos machadianos.

Se o leitor atentar para o subtítulo do livro irá notar uma coincidência com o nome deste blog: Psiquiatria e Sociedade. Não é por acaso. Quem acompanha os artigos semanais já notou que minha ideia é dialogar de forma ampla com a sociedade a partir dos conhecimentos sobre mente, cérebro e comportamento. As pesquisas nessas áreas são tantas, e tão interessantes, que acredito poderem elucidar muito sobre nós mesmos, ajudando-nos a nos entender um pouco mais; no final das contas, creio que esse conhecimento acumulado pode ser de grande ajuda em nossa caminhada vida afora. Não queremos todos fazer desse mundo um lugar melhor, afinal? Essa é minha contribuição.

O livro reúne 12 contos do Machado de Assis que de alguma forma dizem respeito à loucura e à forma como a sociedade lida com ela, refletida sobretudo nas leis. Após cada um dos contos eu apresento um breve ensaio, destacando e discutindo esses aspectos, tanto do ponto vista histórico como atual. Como digo na introdução, não pretendo oferecer uma leitura reducionista da obra machadiana, mas sim ampliar suas possibilidades, acrescentando um ponto de vista até então inexplorado.

Espero que muitos dos que se interessam por esse diálogo entre Psiquiatria e Sociedade possam comparecer ao lançamento, para que finalmente possamos dialogar ao vivo. Aos que não puderem, continuamos a conversar por aqui mesmo. Até lá.

Onde comprar:
Livraria Cultura
Livraria Resposta
Disal
Livraria da Folha
Book Stop Livraria
Saraiva
Siciliano
Martins Fontes Paulista

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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