Que as escolas de samba se movem perigosamente próximas a uma área de sombras, interagindo com grupos historicamente violentos como as torcidas organizadas, é senso comum. Embora tal fato não seja a causa dos tumultos ocorridos durante a apuração dos desfiles paulistanos, essa vizinhança pode ter potencializado o desdobrar dos acontecimentos.
O estudo formal do comportamento das massas teve seu início em meados do século XIX, justamente pela necessidade de as elites da Europa tentarem entender – e prevenir – os movimentos revolucionários da patuleia. À época, contudo, o pensamento científico era ainda contaminado por uma grande carga de preconceito, marcado por ideias como antropologia racial, atavismo dos instintos e criminosos biológicos. Durante muito tempo acreditou-se que a violência das multidões era consequência da degeneração de pessoas inferiores que perdiam sua individualidade nos tumultos – as massas seriam, portanto, irracionais, exibindo comportamentos sem qualquer sentido.
A partir do século XX, especialmente após os anos 60 – quando muitos dos cientistas sociais que estudavam os fenômenos das multidões acabaram tomando parte, eles mesmos, de passeatas contra a Guerra do Vietnã ou pelos direitos civis das minorias – o pensamento sobre as massas foi sendo gradualmente transformado, sobretudo em termos de sua racionalidade: diante do novo contexto já não era possível sustentar que as multidões eram acéfalas e incoerentes. O comportamento dos grupos passou a ser analisado em termos das relações intergrupos e dos contextos políticos e históricos dos indivíduos. De irracionais as multidões passaram a ser vistas como possuidoras de um pensamento, uma racionalidade que surgia não só do pano de fundo das pessoas, mas também da força da identificação entre elas. E o risco de o comportamento do grupo se tornar violento dependeria principalmente de dois fatores: o quanto de legitimidade se confere à polícia e o quanto de poder o grupo vê em si. A atuação policial agressiva poderia gerar um antagonismo na massa, que passaria a medir forças com os soldados.
As imagens dos sujeitos exibindo comportamentos de vandalismo ao longo da Marginal Tietê mesmo escoltados pela polícia pode ser analisada de acordo com esse modelo: as pessoas eram membros de torcidas organizadas, que têm um histórico muito rico de conflitos com a PM – isso lhes confere um senso de identificação interna muito grande, além de minar a legitimidade da atuação da polícia de seu ponto de vista. Além disso, o grande número de torcedores aumenta a sensação de poder na medida em que fica clara a insuficiência do contingente policial para conter seus atos de vandalismo. Com base nesse modelo, algumas experiências feitas na Europa para controlar o comportamento dos hooligans foram bem sucedidas, paradoxalmente, ao reduzir o policiamento ostensivo, marcando a presença do poder do estado mas desestimulando demonstrações de força policial.
Funcionaria para o Brasil? Não sei. Mas se quisermos preservar as imagens das tão decantadas “paixões nacionais” já passou da hora de pensarmos cientificamente na questão das torcidas organizadas, tanto no samba como no futebol.
![]()
Drury, J., & Stott, C. (2011). Contextualising the crowd in contemporary social science Contemporary Social Science, 6 (3), 275-288 DOI: 10.1080/21582041.2011.625626
Da Assessoria de Imprensa do IPq
Um estudo realizado com 5.037 adultos residentes na região metropolitana de São Paulo revela a associação entre a vida nas chamadas megacidades e a incidência de transtornos psiquiátricos. A pesquisa, publicada esta semana na Public Library of Science (PLoS), foi liderada por Laura Helena Andrade, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (FM) da USP e aponta que cerca de 30% dos investigados apresentou um transtorno mental nos 12 meses anteriores à entrevista.
Trinta por cento desses casos (10% da amostra) foram considerados graves. Transtornos de ansiedade foram os transtornos mais comuns (afetando 19,9%), seguidos por transtornos de humor (11%), controle de impulsos (4,3%), e transtornos por consumo de substâncias (3,6%). A exposição ao crime foi associada com todos os quatro tipos de transtorno avaliados.
Em geral, os migrantes apresentaram baixa prevalência dos quatro tipos de transtornos, quando comparados aos residentes estáveis. No entanto, observamos subgrupos mais vulneráveis: mulheres e homens migrantes que vivem em áreas de maior privação social tiveram mais chance de apresentar transtornos de humor e de ansiedade, respectivamente. A exposição ao ambiente urbano na maior parte da vida esteve associada com transtornos do controle de impulsos. Residir em região com alta privação social esteve associado a maiores taxas de transtornos por uso de substâncias. Apenas um terço dos casos graves tinha recebido tratamento no ano anterior.
O crescimento da população mundial deverá ser concentrado em megacidades, com aumentos de estresse associado à urbanização e desigualdade social. A área metropolitana de São Paulo (SPMA) fornece a possibilidade ter termos um panorama sobre a carga das doenças mentais em áreas urbanas em países em desenvolvimento. A pesquisa São Paulo Megacity foi realizada com este objetivo. Adultos que vivem na Região Metropolitana de São Paulo têm prevalência de transtornos mentais em níveis mais elevados do que encontrado em pesquisas semelhantes em outras áreas do mundo. O reconhecimento desta morbidade e seu tratamento deve ser enfatizado no Sistema Único de Saúde, o qual deve ser integrado a serviços especializados.
O artigo completo est[a disponível on-line aqui.
“Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais”
Poucos ignoram a belíssima Tocando em frente, de Almir Sater e Renato Teixeira, que mostra um pouco da sabedoria caipira. Tenho guardado, em algum lugar da memória, misturada com entulhos de lembranças posteriores, uma entrevista do Almir Sater dizendo que a música fora inspirada por seu desejo de fazer algo tão belo como uma poesia de Drummond que havia lido. Não sei se é uma falsa memória, mas não me parece impossível que seja algo assim, pois a letra, muito simples e muito verdadeira, toca em temas inerentes à condição humana, elevando-a à categoria de arte, como um poema.
“Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente”
Tocar em frente parece ser um dos grandes segredos de uma vida boa. As alternativas – ficar parado ou olhando para trás – são fatores hoje reconhecidamente associados a depressão, e grande parte dos tratamentos para pacientes deprimidos passam justamente por tentar fazer com as pessoas deixem de remoer pensamentos e “toquem em frente”. Todos tendemos a dar valor negativo às situações adversas que ocorrem na vida. Mas a capacidade de reavaliá-las, no sentido literal da palavra, “rever o valor” que damos às coisas, parece ser uma das maneiras mais eficazes de lidar com os altos e baixos da vida. Tal habilidade só se desenvolve com o tempo, quer seja por maturação do córtex frontal do cérebro – fundamental para essa função – quer seja pela prática.
“Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias”
Os idosos, está comprovado, gastam menos tempo remoendo problemas do que os jovens. Tais ruminações, que levam o sujeito a adotar uma perspectiva pessimista da realidade, gastando mais energia com tais pensamentos negativos do que com atitudes positivas, estão associadas não somente a depressão como também a menores índices de satisfação com a vida. Mas parece que levamos um bom tempo para aprender que a maioria dos problemas pode ser vista – sem demora – de ângulos menos sombrios.
Percebendo essa realidade o velho caipira pode concluir:
“Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz”.
![]()
Stefan Sütterlin, Muirne C.S. Paap, Stana Babic, Andrea Kübler, & Claus Vögele (2012). Rumination and age: some things get better Journal of Aging Research
“Eu não sou elitista, só acho que exitem dois grupos: nós e o resto”, dizia o ímpar professor Juarez Montanaro, figura inesquecível para os que com ele estudaram medicina legal. A piada, como muitas outras, disfarça uma tendência comum a todo ser humano: julgar melhor os que são do “nosso grupo” (qualquer que seja ele) do que os que são de fora. Esse é um viés cognitivo chamado de viés intragrupo, e pode ser considerado um efeito colateral do amor. Isso mesmo, depois de tratarmos das belezas da occitocina e dos vínculos que ela ajuda a criar, vale a pena dar uma olhada num outro lado dessa história.
Do ponto de vista evolutivo foi um desafio explicar por que somos altruístas – se os genes são selecionados na medida em que ajudam a perpetuar a si mesmos, como seria possível o sacrifício em favor dos outros? Isso aparentemente contradizia a seleção natural. Embora o próprio Darwin já tivesse discutido a questão, foi na década de 60 que o biólogo Willian D. Hamilton desenvolveu melhor o conceito que ficou conhecido como “seleção de parentesco”. Segundo ele, quanto mais próximos forem os parentes, mais semelhantes serão suas cargas genéticas; assim, o sucesso reprodutivo não só de um indivíduo, mas também de sua família, seria favorecido pela evolução. Morrer por um filho, assim, embora impeça o sujeito de continuar passando adiante seus genes aumenta a chance de que seus descendentes o façam.
Fica claro que isso só tem sentido para relações próximas – biologicamente não há razão para ser altruísta com não-parentes. Agora, se lembrarmos que a occitocina fortalece os vínculos familiares, surge a pergunta: será que ela favoreceria o viés intragrupo? Ou seja: se biologicamente temos a tendência de nos sacrificarmos por parentes próximos, será que o efeito da occitocina poderia nos fazer mais prontos a agir em favor do nosso grupo, e não de grupos vistos como “outros”?
Parece que sim.
Estudando as atitudes de alunos holandeses com relação a mulçumanos e alemães, psicólogos descobriram que em cenários de um naufrágio, por exemplo, o uso de um spray de occitocina aumentava a chance de os voluntários salvarem um sujeito chamado Maarten (nome típico holandês), mas não alterava em nada sua tendência de salvar um Mohammed ou mesmo um Markus (nomes mulçumano e alemão, respectivamente). Da mesma forma, após uma dose de occitocina os sujeitos associavam com mais rapidez características positivas a holandeses e característcas negativas a mulçumanos e alemães. Os cientistas então sugerem que o etnocentrismo – favorecimento de seu grupo e não os outros – também tem raízes biológicas, e não apenas sócio-culturais.
É desnecessário dizer que isso tudo não justifica o preconceito ou a discriminação. Nossa biologia nos impõe uma série enorme de tendências, impulsos e inclinações contra as quais lutamos em prol de vivermos numa sociedade civilizada – são só as bestas-feras que cedem irrestritamente aos chamados da natureza (ok, alguns humanos também o fazem – por isso os denominamos animais). Combater o preconceito e relembrar que ser “dos nossos” não faz ninguém melhor do que ser “dos outros” é uma tarefa contínua, como contínuo deve ser o esforço para apagar as próprias fronteiras entre “nós” e “eles”.
![]()
De Dreu, C., Greer, L., Van Kleef, G., Shalvi, S., & Handgraaf, M. (2011). Oxytocin promotes human ethnocentrism Proceedings of the National Academy of Sciences, 108 (4), 1262-1266 DOI: 10.1073/pnas.1015316108
Por que as pessoas têm filhos? E, mais do que isso, por que gostam deles? Como se explica essa sensação única, que é sem paralelo na experiência humana? A fria ciência tem algumas respostas que, em princípio, nada têm a ver com o sublime amor paterno. Mas para mim isso não acaba com a poesia da história. No conto “Os nove bilhões de nomes de Deus”, de Arthur Clarke, quando a ciência descobre o verdadeiro nome do supremo criador as estrelas começam a se apagar uma a uma nos céus. Não sei se concordo. Não acho que a ciência retire o brilho das estrelas, como não creio que haver um fundo biológico para o amor aos filhos apague sua transcendência.
A verdade é que as pessoas têm filhos porque fazem sexo. Muito. Repetidamente. Pensando bem, isso é óbvio: ao longo da evolução, quem fazia mais sexo tinha prole maior do que os outros. Assim como acontece com a comida, o sexo não surgiu para dar prazer, mas quem trazia nos genes mais gosto por tais atividades comia e se reproduzia mais, tendo por isso maiores chance de sobreviver e se reproduzir. Esse gosto foi sendo transmitido aos numerosos filhos, que por isso também tinham mais filhos e assim por diante.
Isso explica por que temos filhos, mas não por que gostamos deles.
A sociobiologia tem uma explicação muito boa para isso também: por nascerem frágeis e dependentes de cuidados, crianças humanas são um desafio muito difícil para os pais, requerendo deles privação de sono, gasto de energia, investimento de tempo, praticamente a fundo perdido. Imagine então fazer isso na idade da pedra, quando não havia lei das palmadas ou conselho tutelar para fiscalizar o comportamento paterno – só mesmo com muito amor. Fica claro que os sujeitos que nasciam com uma propensão maior para amar seus filhos investiam mais neles, cuidando melhor e aumentando suas taxas de sobrevivência. Uma das principais substâncias atuantes nessa criação de vínculos é o neuropeptídeo occitocina, que recentemente se comprovou aumentar ao longo das primeiras semanas de paternidade (tanto nas mães como nos pais) e se correlacionar diretamente com comportamentos como a incontrolável necessidade de acariciar os rebentos ou encará-los por horas a fio (no caso das mães), ou ficar sacudindo-os para cima e para baixo, balançando objetos na frente deles até cansar (no caso dos pais). O amor pelos filhos (assim como o gosto por encomendá-los) tem evidentes origens biológicas.
Mas em minha opinião isso em nada diminui a beleza desse sentimento. O impulso por comida, por exemplo, pode ser satisfeito com raízes cruas, mas nos seres humanos deu origem a complexos rituais gastronômicos. Também o amor pelos filhos poderia ser resumido a cuidar deles. Mas nos homens leva a uma real transformação – ao menos é o que tem acontecido comigo. Experimentar esse amor tem me mostrado outro lado da realidade, que até então me era oculto: a mera possibilidade de se importar tanto com alguém, desejando-lhe o bem com uma intensidade que nem me sabia capaz, fez-me ver, nos seus olhos ainda semicerrados, a beleza que pode existir no mundo. E sem saber, provocando em mim o impulso biológico de cuidar dele, meu filho, com cinco dias, me faz querer de forma ardente trabalhar para aprimorar a criação. Assim, quem sabe, ele possa um dia ver a beleza que tão claramente me fez vislumbrar.
![]()
Gordon, I., Zagoory-Sharon, O., Leckman, J., & Feldman, R. (2010). Oxytocin and the Development of Parenting in Humans Biological Psychiatry, 68 (4), 377-382 DOI: 10.1016/j.biopsych.2010.02.005
A hipnose forense está em alta. Não só o romance “O hipnotista” faz sucesso no Brasil e no mundo como no mesmo ano do lançamento do livro no país (2011) foi reinaugurado um laboratório de hipnose no Instituto de Criminalística do Paraná. Acho que é hora de retomar a campanha por uma Legislação Baseada em Evidências.
Escrito a quatro mãos pelo casal Alexandra e Alexander Ahndoril, o suspense “O hipnotista” é fruto da nova onda do thriller escandinavo. Há alguns anos autores de diversos países do norte da Europa vêm movimentando o cenário mundial dos romances policiais, com histórias cheias de sangue e reviravoltas ambientadas nas lúgubres paisagens de dias curtos e noites longas. Talvez o ápice do sucesso tenha sido atingido por Stieg Larsson com sua Trilogia Millenium, que vendeu dezenas de milhões de livros e foi filmada na Suécia e começa a ser refilmada em Hollywood. O hipnotista não faz jus aos seus pares, no entanto. O argumento é envolvente: uma família é morta de forma brutal a facadas, sobrevivendo apenas um filho adolescente que pode ser uma testemunha valiosa no caso. Como ele está em choque e não consegue falar, é chamado um psiquiatra especialista em trauma que também faz hipnose. Na verdade não faz mais, pois há dez anos algo deu errado e o levou a jurar nunca mais hipnotisar alguém; isso muda quando ele pode ajudar, mas algo dá errado novamente. Parece interessante, não? Mas o livro começa bem, envolvente, só para logo perder o ritmo, já no primeiro terço, parecendo que falta folêgo aos autores para dar conta das histórias paralelas que se abrem ao longo da trama. No final das contas as soluções para o enredo são pouco interessantes e geram um contraste com a expectativa que a sinopse cria. Enfim, se quiser ler mais descendentes vikings depois do Larsson sugiro garimpar outros títulos (e se descobrir um bom, indique para mim).
Mas eis que agora o Brasil poderá contar com seus próprios hipnotistas. Após dez anos de atividade entre 1998 e 2008, durante os quais foi chamado para auxiliar em mais 700 casos criminais, o Laboratório de Hipnose Forense do Paraná – desativado desde então – foi reaberto no final de 2011. Hipnotisando vítimas e testemunhas, a proposta é encontrar “indícios para formação de provas”. Mas funciona?
É aqui que retomo a proposta de uma Legislação Baseada em Evidências. Antes de novas leis ou procedimentos judiciais serem adotados, acho que deveria ser obrigatório realizar uma pesquisa séria sobre o tema. E as revisões sistemáticas da literatura científica mostram que a hipnose não é um meio confiável de resgatar lembranças. A teoria de que memórias de alguma forma reprimidas poderiam ser acessadas por meio dos estados hipnóticos já fora descartada pelo próprio Freud, e os problemas dessa técnica vêm sendo comprovados ao longo dos anos. Resumidamente o que ocorre é que a hipnose aumenta o número de lembranças corretas na mesma proporção em que aumenta as falsas memórias, com o agravante de que torna as pessoas mais confiantes nas lembranças mesmo quando estão erradas. Além disso, a tendência a passar a acreditar em algo que foi “lembrado” sob hipnose é tão forte, independente da acurácia da recordação, que vários estados americanos proíbem pessoas que foram hipnotisadas de serem sequer ouvidas como testemunhas posteriormente. Há que se ressaltar, no entanto, que algumas técnicas de entrevista usadas pelos hipnólogos podem ser úteis, mas por outras razões: enquanto policiais normalmente interrompem o fluxo de ideias na hora de interrogar as pessoas, usam perguntas fechadas (tipo sim/não), induzem respostas e não raro transmitem juízos de valor ao longo do interrogatório, a abordagem do entrevistador afeito à hipnose é em tudo oposta, facilitando o acesso dos sujeitos a suas memórias. Isso sem qualquer relação com um estado transe hipnótico.
Hipnose funciona para uma série de outras coisas, como controle da dor, relaxamento e até mesmo anestesia cirúrgica. Mas quando o assunto é memória ou romances policiais sua eficiência ainda está por ser comprovada.
![]()
Kebbell MR, & Wagstaff GF (1998). Hypnotic interviewing: the best way to interview eyewitnesses? Behavioral sciences & the law, 16 (1), 115-29 PMID: 9549881
Erdelyi, M. (2010). The ups and downs of memory. American Psychologist, 65 (7), 623-633 DOI: 10.1037/a0020440
Se você usa o tempo que gastaria assistindo Big Brother Brasil para algo mais saudável, como ler jornais ou se manter informado, provavelmente deve ter se deparado, mesmo assim, com o infame BBB nos últimos dias. Uma grande polêmica se armou quando um dos integrantes foi acusado de, aproveitando-se da embriaguez de uma das moças da casa, ter relações sexuais enquanto ela estava inconsciente.
Segundo o código penal, estupro é “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” (Art. 213). O artigo 217, descreve o estupro de vulnerável: “ter relações com alguém de menos de 14 anos”, e no parágrafo primeiro diz que “incorre na mesma pena quem pratica as ações com alguém que (…) por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”. Ou seja, se de fato a moça estava dormindo sob efeito do álcool, incapaz de resistir ao ato sexual, este poderá ser considerado estupro.
É a típica situação em que surgem gritas de ambos os lados, uns culpando a vítima, que deveria saber que não se deve convidar um homem para passar a noite em sua cama após uma festa regada a álcool, outros linchando o rapaz como um estuprador em série. Arriscando-me a desagradar aos dois lados (mais uma vez), acho que cabem algumas ponderações.
Em geral, os homens percebem mais interesse sexual por parte das mulheres do que elas realmente demonstram: quase duas em cada três mulheres dizem que já foram mal interpretadas, quando rapazes confundiram amizade com interesse. A cantora Mariana Aydar mesmo já avisou na música Lá em casa: “Só não vá confundir/ Todo esse amor/ Se eu te dou carinho é só/ Pra ser bom/ Nunca passou de amizade”. É óbvio que só uma pequena minoria de pessoas irá ter “comportamentos impróprios”, para usar o termo da Globo, ao julgar erroneamente as intenções alheias, mas existem alguns fatores de risco que contribuem para isso: as características pessoais do sujeito, o comportamento dos envolvidos e o uso de álcool. E pelos menos dois deles estavam presentes nesse caso.
Quanto mais estereotipada a visão do homem sobre as mulheres, maior a chance de ele julgá-las mais interessadas do que estão. Não conheço a visão de mundo do acusado e portanto não sei se esse fator de risco estava presente. Já no quesito “comportamento dos envolvidos”, sabe-se que convidar para a cama é universalmente considerado um sinal de interesse sexual, não só para homens. A pista dada por ela aqui, convenhamos, não ajudou muito. E a situação fica mais embaralhada pelo uso do álcool por ao menos dois motivos: 1) ele dificulta a interpretação correta dos sinais dados pela outra pessoa; 2) e também interfere com a capacidade de uma das pessoas perceber que está sendo mal interpretada e corrigir os sinais que vem demonstrando. Tanto que seu uso é relatado em 30% das relações coercitivas, pelo homem, mulher ou ambos.
Tudo isso contribui para deixar o caso BBB bastante complexo: nada é claro, nem os sinais de interesse, nem o consentimento prévio, nem mesmo a materialidade da relação (perícias estão sendo feitas nas roupas íntimas, algo que não era notícia desde o caso Monica Lewinsky). Concordo que, se houve sexo sem consentimento, isso é sim problema e que não se pode culpar a vítima. Mas tendo em conta o contexto em que as coisas se deram, embora o rapaz tenha responsabilidade, não acho que demonizá-lo seja uma postura ponderada.
![]()
Farris, C., Treat, T., Viken, R., & McFall, R. (2008). Sexual coercion and the misperception of sexual intent Clinical Psychology Review, 28 (1), 48-66 DOI: 10.1016/j.cpr.2007.03.002
Todo esse debate em torno das ações propostas para a cracolândia tem me feito pensar bastante no tema. Não sou defensor radical de nenhum dos lados, mas cada vez mais me convenço de que alguma ação ali não deve ser considerada, per se, boa ou ruim. No fundo, é inevitável que se faça algo.
Nós já estamos acostumados a pensar nos pacientes psicóticos ou demenciados cujo discernimento de realidade é falho como não sendo capazes de decidir por si sós. No entanto, tanto do ponto de vista ético como legal, não é apenas o raciocínio do sujeito que determina sua capacidade, mas também seu autocontrole. Pessoas que, por transtorno mental, careçam de autocontrole, também não são consideradas autônomas. O problema é que no caso dos dependentes químicos nem sempre é fácil avaliar tal sintoma. Não é raro vermos pessoas dizendo que usam uma droga porque querem, sem desejo real de parar (não é o que acontece com muitos fumantes?). Muitas vezes é difícil distinguir quando o uso deixa de ser deliberado e passa a ser motivado por uma dependência irrefreável. No entanto, quando mais eu penso nas pessoas que abandonam tudo e passam a viver nas ruas em função do crack, quanto mais considero o grau de deterioração de suas vidas, a perda completa de laços familiares, de vínculos de amizade etc., mais acredito que, para eles, a dependência química tomou totalmente conta de sua vontade, minando qualquer possibilidade que tenham de autocontrole. Se isso é verdade, não intervir de alguma forma na cracolândia, deixando-os à própria sorte, seria uma omissão.
Apenas espantá-los da região, no entanto, com certeza não será suficiente, sendo necessário oferecer tratamento ambulatorial e, eventualmente, em regime de internação, ainda que involuntária. No Brasil, a Lei Federal 10.216/2001 se dispõe a proteger os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais. Com relação às internações psiquiátricas, no artigo 6º, o parágrafo único define internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento escrito do usuário e a pedido de terceiro. Assim, embora a autonomia seja um dos pilares da atuação ética na assistência à saúde, há ocasiões em que a capacidade de decidir autonomamente do indivíduo está prejudicada, ficando ele sujeito a ser internado contra sua vontade. De tudo o que escrevi acima, acho que esse é justamente o caso de dependentes químicos em estágios avançados.
Sempre existirá o risco de utilizar essas internações como medida higienista, independente da real necessidade psiquiátrica de internação. Mas, no atual panorama, é um risco que a sociedade deveria estar disposta a correr, e do qual pode se proteger garantindo haja indicações técnicas para as internações. Não é fácil, mas pelo menos por enquanto, acho inevitável.
Impossível não tratar do caso do artista plástico Michel Goldfarb Costa, de 34 anos, que há dois dias saiu pelas ruas da cidade atirando a esmo, roubando quatro carros e ferindo ao menos duas pessoas. A polícia e o advogado já falam em “surto psicótico” para explicar os eventos, que seriam contraditórios com a personalidade prévia de Costa e incompatíveis com um assalto comum. Pode ser. Mas também pode não ser.
O problema de invocar desde já um quadro psiquiátrico que explique o ocorrido é o surgimento precoce do “viés de confirmação”. Como outros erros cognitivos dessa natureza, o viés de confirmação é a tendência a um tipo de raciocínio automático que os seres humanos apresentam, que embora poupe esforço (já que pensar cansa) frequentemente nos leva a conclusões apressadas e errôneas, por ignorar elementos importantes. Nesse caso, trata-se da inclinação que temos de buscar somente informações que confirmem o que já pensamos, além de interpretar todos fatos como evidências de nossa hipótese inicial. Na história de Michel Costa, uma vez que se acredite que ele “em um dia de fúria e loucura teria pego uma arma e um colete e efetuado vários disparos em via pública”, conforme disse o tenente da Polícia Militar Guilherme Willian Pacheco, corre-se o risco de enviesar todo seu histórico. Ora, o fato de ele possuir doze cachorros pode ser visto como um ato de caridade com animais, mas se acharmos que ele é doente, pode facilmente ser encarado como um sintoma de “loucura”. Da mesma forma, a partir da declaração de sua namorada de que ele era fechado, de poucos amigos e pouco contato familiar pode-se inferir tanto que ele é um artista algo excêntrico como também que é um paciente que prefere viver isolado. E a partir do momento que começamos a procurar provas do que já cremos em vez de buscar informações que nos esclareçam, o erro é quase certo.
Quando psiquiatras iniciam a abordagem de um caso com uma hipótese diagnóstica em mente, por exemplo, eles podem seguir por dois caminhos principais: buscar evidências comprobatórias ou contraditórias desse diagnóstico. Recentemente mostrou-se num estudo que nos casos em que a hipótese inical estava errada, se os médicos só procuravam sinais que confirmassem sua ideia eles erravam o diagnóstico 70% das vezes. No entanto, mesmo com a hipótese inicial errada, se a investigação fosse feita de modo balanceado, fugindo do viés de confirmação, o dignóstico era corrigido e o erro caía para menos de 30%.
A sugestão que os pesquisadores dão para tentar reduzir os efeitos desse erro cognitivo é a mesma que podemos usar no caso de Michel Costa – estar atento para explicações alternativas e buscar informações balanceadas pode ser um meio eficaz de evitar conclusões apressadas, e, sobretudo, erradas.
![]()
Mendel, R., Traut-Mattausch, E., Jonas, E., Leucht, S., Kane, J., Maino, K., Kissling, W., & Hamann, J. (2011). Confirmation bias: why psychiatrists stick to wrong preliminary diagnoses Psychological Medicine, 41 (12), 2651-2659 DOI: 10.1017/S0033291711000808
***
Pós-escrito
Após ouvir algumas declarações de Michel Goldfarb Costa e ver entrevistas, fico com a impressão de que o que ele refere como perseguições e ameaças extrapolam a realidade, talvez configurando de fato um quadro psicótico. De qualquer forma, o mais importante é, na busca por esclarecimento, ter sempre em mente que “pode não ser”, não apenas na situação dele, mas diante de todos os casos.
Descobri que faz mais de sessenta anos que psicopatia vende bem. No filme clássico “Crepúsculo dos Deuses”, de 1950, há um diálogo entre dois personagens debatendo um roteiro em que estão trabalhando: “Para começar, acho que você deveria jogar fora toda essa coisa psicológica de explorar a mente doentia de um assassino.” ele diz, sendo imediatamente contestado por ela: “Mas psicopatas vendem como pão quente”.
O desprendimento que esses sujeitos aparentam, vivendo de acordo com seus impulsos sem se importar com a rede social de que fazem parte é, de alguma forma, sedutor – já imaginou, fazer o que bem entender, dane-se o mundo? Esse desprezo pelos outros me fez pensar: será que eles bocejam?
Uma pesquisa laureada com o prêmio IgNobel – uma paródia do prêmio Nobel para os trabalhos que fazem as pessoas primeiro rirem, depois pensarem (slogan que per se vale um post futuro) – mostrou que o famoso bocejo contagiante provavelmente depende de empatia, da capacidade de se colocar no lugar do outro, ou ao menos de um sentido de coletividade. Diversos animais sofrem desse contágio, e se você boceja na frente de alguém há 50% de chance de que ele venha a bocejar também. Seria isso um reflexo puro, automático, ou seria uma forma de interação social?
Para testar essa hipótese os bem-humorados cientistas escolheram um grupo de sete tartarugas, pois embora tenham um bom convívio social, sendo répteis elas carecem de empatia como nós definimos. Pacientemente treinaram uma delas para bocejar toda vez que via um quadrado vermelho, e a partir daí passaram a testar se o bocejo era contagioso entre as companheiras cascudas. Não era. Em diversos momentos, ao vivo ou em vídeo, nenhuma exposição ao bocejo da Alexandra (sim, elas tinham nomes) fez com que as outras bocejassem significativamente mais. Concluiu-se que o contágio do bocejo não pode ser considerado mero reflexo automático, dependendo no mínimo de um sentimento de coletividade (ainda que inconsciente) ou então da real capacidade de empatia.
Agora, se psicopatas têm déficit na capacidade de empatia, desprezo pela rede social que os cerca, podemos supor que, assim como as tartarugas, o bocejo não os contamine. Quem se propuser a testar essa hipótese tornar-se-á um forte candidato ao próximo IgNobel.
![]()
Anna WILKINSON, Natalie SEBANZ, Isabella MANDL, Ludwig HUBER (2011). No Evidence Of Contagious Yawning in the Red-Footed Tortoise Geochelone carbonaria Current Zoology (formerly Acta Zoologica Sinica), 57 (4), 477-484
2012
2011
2010