1. Usuário
Assine o Estadão
assine


O closet de Maria

Carlos Castelo

21 agosto 2014 | 00:02

Se seu closet falasse, o que ele contaria sobre você?

Quem vê assim o closet de Maria e compara com o que ela tinha há uns cinco, seis anos percebe logo a diferença. As roupas de agora são, em sua esmagadora maioria, totalmente fashion. Só que todas no estilo “menininha”. O oposto do que ela usava em sua fase mais senhora, o período dos 60 anos de idade. Foi bem quando a tia de criação morreu e deixou a mega-herança, as fazendas de gado, a fábrica de envase de leite, o banco de investimentos. Esse foi o ano de virada de Maria. Mudou do queijo coalho pro canastra.

Começou a malhar, a fazer dietas e principalmente a entrar na faca pra rejuvenescer. Chegou um momento em que perdeu-se a conta de quantas vezes fez cirurgia plástica. Foi papada, nariz, olheira, face lift, bumbum, adiposidade nos braços. De tudo, um pouco. O resultado foi a mulher que é dona desse closet agora. Uma pessoa do sexo feminino, com quase 70 anos e dezenas de jeans justinhos de marca, montes de camisetinhas coladas, microssaias e botinhas customizadas.

Inegável que o trabalho estético foi de primeira. Parece que a Maria tem 30 anos, não mais que isso.

Não demorou para o casamento com o doutor Afonso, que se manteve o mesmo senhor nascido em 1949, degringolar. Ele até tentou acompanhar a nova esposa. Nos eventos sociais diários, entrevistas na TV em programas sobre personalidades, nas palestras dela  acerca do livro que lançara sobre vida e beleza.

Mas houve um momento em que o material apresentou falhas estruturais e o doutor Afonso colapsou. Nem a caixa preta acharam.

Uma vez em liberdade conjugal, o closet de Maria começou a ser abastecido com as peças que se veem penduradas meticulosamente hoje. Elas são a prova da passagem da sua vida adulta à adolescente.

Ela precisava urgentemente combinar com o estilo de vestimenta de João, o novo namorado: um rapper, skatista e dono de loja de pranchas em Los Angeles, Miami e Honolulu.

Encontraram-se num camarote da vida e foi amor à primeira cama, apesar dos 40 anos de diferença que os separa.

Atualmente Maria vai seis vezes por ano ao Hawaii. Viaja acompanhada de um médico ortopedista, dois fisioterapeutas, um acupunturista e um maqueiro. Tudo para poder surfar ao lado de João.

Ano passado aproveitou uma cirurgia plástica para colocação de olhos azuis em substituição aos castanhos escuros e implantou um GPS nos glúteos. É estranho, mas João se preocupa muito com ela nas correntezas de Waimea e implorou que colocasse o artefato.

Depois disso surgiu uma sessão completa de trajes especiais para surfe no closet de Maria. Está rivalizando em quantidade com o setor de roupas de festa. Mas ainda perde para a parte que ela reservou para os trajes do bebê.

O casal, superantenado, descobriu um médico na Suíça especializado em reprodução assistida para septuagenárias. Ainda não sabem o nome se for menino. Mas se for uma princesa, Maria já disse que, com toda certeza, se chamará Cher.