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A poesia é necessária

Carlos Castelo

04 setembro 2014 | 06:43

E se fossem os poetas que esnobassem os editores?

O quarto de hotel era muito simples. Ficava bem na fronteira de São Paulo com o Mato Grosso do Sul. Da janela dava para ver a imensidão do rio Paraná, um parquinho infantil abandonado e um estacionamento de barcos de pesca.

A intenção dele era pousar ali por uns dias, depois se embrenhar em Aparecida do Taboado e, por fim, sair do país. Agora que estava mais seguro também podia ligar para a namorada, antes de lançar o celular nas águas da bacia do Prata e ganhar mundo.

O sinal estava ruim, só depois de três tentativas conseguiu ouvir a voz de Suzete.

“Otoniel? Eu não estou acreditando no que você fez! Dez dias sem dar notícias, a gente até…”

“Desculpa, Su, preciso ser breve. Eu estou legal, mas não vou voltar praí.”

“E ainda diz isso com a cara mais lavada do mundo? Você não tem noção do que eu, teus pais, teus amigos, nós…”

“Olha, eu vou dizer o que aconteceu. Só não me questione. Quer ouvir ou não quer?”

“Sim, eu quero” – disse Suzete engolindo o choro.

“Então, sabe aquele meu blog de poesia?”

“Claro que sei, Otoniel, eu era a única pessoa que tinha acesso a ele. Você me deu a senha pra eu ler e comentar seus textos.”

“Pois é. E lembra que falei que talvez um dia eu publicaria aquelas poesias do blog num livro?”

“Lembro, nem faz um mês isso…”

“Pois é, Su, acho que essa informação vazou e comecei a ser procurado por editores. Editores de grandes companhias, as melhores do Brasil.”

“Espera aí, mas o que eles queriam com você?”

“É muito maluco, mas todos queriam editar o meu livro de poesias, e o mais rápido possível.”

“Nossa!”

“Também fiquei assustado. E, por essa razão, comecei a dizer um monte de nãos pra eles. Só que a pressão não parava. Começaram mandando e-mails, depois ligavam e, quando viram que eu não ia topar, pegaram pesado: deram dinheiro a colegas meus da faculdade pra me convencerem a ceder os originais para edição.”

“Caramba, Otoniel, que absurdo!”

“Vai vendo. Um desses editores me ligou de madrugada, nem sei como descolou meu celular. Disse que eu seria autor deles de qualquer jeito, não adiantava adiar. Que era melhor eu assinar logo o contrato, que a editora faria livro capa dura, e-book, noite de autógrafos, assessoria de imprensa etc.”

“E você não procurou a polícia, Otoniel? Como é que um editor pode obrigar um poeta inédito como você a publicar um livro? É um abuso!”

“Polícia, amor? Você sabe melhor que eu o quanto a polícia…”

Nesse momento, Otoniel olhou pela janela e viu uma van parada no estacionamento do hotelzinho.  A placa era de São Paulo. Dois homens conversavam com o porteiro, mas não tinham nada de especial. Só que, quando um deles foi até o carro, deu para notar uma pilha de livros sobre os bancos. Todos novos e encapados. Não havia dúvida: os dois eram editores disfarçados.

“Su, eles me acharam. Não sei do que são capazes pra editar os meus poemas. Preciso desligar. Te amo!”

“Otoniel! Otoniel, nãooooooooo!”