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Seleção na privada

Carlos Castelo

10 julho 2014 | 00:03

28 minutos que mudaram a História.

Juarez e Clóris tinham combinado com os filhos, Thiago e Duda, de assistirem Brasil e Alemanha em casa. Compraram belisquetes, uma torta de palmito que uma senhora fazia no bairro e cerveja gelada.

Na hora H, os “meninos” ligaram do celular avisando que veriam a peleja com os amigos na Vila Madalena.

Clóris relevou (“essa juventude é tudo assim, não regula bem”), mas Juarez ficou ressentido. Os filhos avisaram muito em cima da hora, o ônibus da seleção entrando no Mineirão, Felipão já acenando pras câmeras.

O desgosto, somado à ansiedade por causa da partida, o fez atacar os rissoles e os quibinhos – e, claro, dar golões na cerveja.

“Te assossega, esses rapazes hoje não ligam pra pai e mãe.” – ralhou a esposa.

Juarez mantinha-se calado. Silente, mas comendo e bebendo feito um ganso esfomeado.

Bem na hora do hino a capela, Juarez sentiu as borbulhas. Deu uma batidinha na barriga pra conferir: gases. Os tiragostos e a cerveja tinham dado revertério. Agora, só restava ir ao reservado e perder um pedaço da semifinal.

Ao sentar-se no vaso lembrou-se que podia ter trazido um radinho. Inclusive porque, em tais ocasiões, levava um longo tempo na tentativa de esvaziar-se. Coisa de metabolismo, cada um, cada um. Mas agora Inês era morta, melhor torcer de longe que nada.

Passados alguns minutos de esforços, Juarez ouviu o ribombar de um foguete. Com certeza, a tática de jogar aberto adotada por Felipão e Parreira funcionara.

Lembrou-se dos comentaristas de TV, na noite anterior, pedindo três volantes, conclamando uma retranca. Pensara sobre aquele ponto de vista depois e ficara em dúvida. Como ficou quando a CBF confirmou dois técnicos sabidamente retrógrados.

Mas qual o quê? O Brasil é assim mesmo! A ginga, o talento individual, a malandragem sempre trouxeram títulos. Por que agora seria diferente?

Dali a um tempo, na privacidade da privada, outra cabeça de negro explodiu fazendo o vitrô tremer. Eu não disse?  Que retranca, que nada! E nem venham mais com essa conversinha de planejamento estratégico num esporte que é mais sorte que matemática.

“Brasil, mostra a tua cara!” – começou a cantar e a dançar animadamente no trono.

Nos instantes seguintes, mesmo tentando se concentrar na evacuação, foi impossível promovê-la.  Os fogos faziam um espetáculo sonoro que o impediam de produzir seus próprios estalidos íntimos.

Decidiu parar a operação e voltar durante o intervalo. Vai que os meninos, tão volúveis, aparecem pra comemorar a goleada brazuca domesticamente?

Higienizou-se, vestiu-se e desceu as escadas do sobrado pensando em quem teria marcado os tentos. Hulk? Bernard? Oscar? Ou, talvez pelo alarido todo, Fred. Por que não?

Ao chegar na sala viu a mulher paralisada. Tinha na boca um grande pedaço de torta de palmito, mas não mastigava-o. Com certeza era a emoção de ver o campeão voltar. Tocou o ombro dela e perguntou:

“Tá quanto, Clóris?”

“Ai…cinco a zero…” – respondeu ela, deixando a torta cair no carpete.

Ficou aturdido. Aquilo era muito gol pra 28 minutos de prisão de ventre. Ia gritar “Brasil!”, a plenos pulmōes, quando a mulher completou a frase:

“Pra Alemanha…

Juarez deu um suspiro e voltou ao banheiro.

 

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