
Jean-Pierre Noher propõe mais um brinde
Alguém contou quantos copos de whisky, espumante e vinho foram enchidos ao longo da novela que encerra carreira hoje, na Globo?
Muitos.
Se o Zé Mayer está tenso? Logo ao lado tem sempre um copo e uma garrafa de whisky.
Se o Zé Mayer está triste, talvez um copo de vinho se avizinhe rapidamente.
Se o Zé Mayer, a Taís Araújo, a Alline Moraes, a Natália do Valle e seu marido banana, os gêmeos, enfim, todo o elenco, estão felizinhos, manda ver uma taça de espumante (ou champagne, como eles dizem lá).
E depois diziam que a bêbada da história era a Bárbara Paz, tadinha, que muitas vezes se contentou com uma dúzia de latinhas de cerveja, justamente a bebida de menor teor alcoólico. Quem manda não pertencer ao núcleo dos abastados?
A novela “Viver a Vida” termina com o mais baixo ibope no histórico das novelas das 9 da Globo, mas o índice de álcool, benza-deus, foi às alturas durante esses oito meses.
Quando dei de cara com “Viver a Vida”, vinda no embalo daquelas dancinhas de “Caminho das Índias”, confessei aqui um certo abatimento, um desânimo mesmo com a falta de quem me comovesse na tela.
No lugar de Laura Cardoso, Lima Duarte e Tony Ramos, todos em tese coadjuvantes no folhetim de Glória Perez, encontrei só a Lília Cabral com chance de me comover.
Vá lá, o enredo de Manoel Carlos foi me empurrando para a frente da TV. Helena foi me atraindo cada vez menos, mas até que a Alline Moraes, o quase estreante Mateus Solano e a Natália do Vale aos poucos iam justificando o zapping para o canal dos Marinho.
Ontem, ao assistir a um clipão do início da novela que vem aí, “Passione”, by Silvio de Abreu, tive a certeza de que eu apenas fui me acostumando à ausência de atores incríveis na novela que acaba esta semana. Sim, sobrou estética e faltou maestria na interpretação de “Viver a Vida”, sem mencionar que José Mayer nunca foi tão “mais do mesmo”.
“Passione” impressiona, de cara, pela presença de dona Fernanda, a Montenegro, de Mauro Mendonça, de Elias Gleizer, de Leandra Leal, de Aracy Balbanian, de Tony Ramos, de Irene Ravache, de Bruno Gagliasso, de Marcelo Médici e de Vera Holtz, só para mencionar uma partezinha do cast. E tem Emiliano Queiroz, que afago reencontrá-lo em ação! Sempre me pergunto por que uma emissora que tem Emiliano Queiroz à disposição faz questão de trancá-lo em casa.
crédito: Renato Rocha Miranda/TV Globo

Tony Ramos e Aracy Balabanian na Toscana de Jacarepaguá
Que venha “Passione”.
Só não entendo como é que a Globo prima pelo cenário toscano, magistralmente reproduzido no Projac, em Jacarepaguá, zela por aulas de prosódia para treinar o acento italiano, investe em figurinos igualmente compatíveis com a cultura ítalo-brasileira, e permite que uma larga parte do elenco relaxe sua pronúncia no carioquês. Não defendo aqui a mediocridade do bairrismo, pelamordedeus, nem faço exigência exótica para o ritmo industrial demandado por uma novela diária, mas, pense: se é para acionar a licença poética e deixar que os atores cariocas emprestem livremente sua pronúncia a personagens paulistanos, para que queimar tempo, filme e dinheiro com esmeros itanianescos com a outra parte do elenco? Por que o ator que grava na Itália tem de falar com acento italiano e o que mora em São Paulo pode falar como carioca? Será que o salário é maior e ele tem de justificar? Não faz sentido.
Depois de assistirmos à nababesca estrutura de que desfruta a heroína cadeirante da novela das 9 da Globo, finalmente o público será brindado com a abordagem da questão por pontos de vista mais abrangentes do que aqueles indicados pela vida da linda Luciana (Alinne Moraes) na novela “Viver a Vida”.
Luciana tem piscina própria pra fazer suas sessões de fisioterapia, com fisioterapeuta e enfermeira em domicílio, mamãe e papai normalmente desocupados ao seu dispor e motorista particular, o que torna a vida da personagem, cadeirante ou não, muito distante aos olhos da plateia que comparece diante da Globo todos os dias, às 9 da noite.
Mas eis que Luciana agora cismou que quer andar de ônibus. Não para sempre, claro. É só uma experiência para entender as dificuldades que seus similares tetraplégicos atravessam no dia a dia. Mamãe Tereza tenta dissuadi-la da ideia. Em vão. Luciana há de perceber como são cruéis as calçadas sem rampinhas e repletas de mesinhas de bar, carros mal estacionados, asfaltos mal acabados e transporte público sem estrutura suficiente para atender quem anda de cadeira de rodas.
Será só uma experiência, vá lá, mas há de ter papel relevante, como acontece com toda causa encampada por novelas, nas tantas campanhas já realizadas pela melhoria de espaços e serviços para cadeirantes. Que Luciana saia mais vezes da casca.