Em tempos de ‘Amor e Revolução’, nada como ‘Anos Rebeldes’
Até hoje penso que Amor e Revolução erra ao detalhar closes de tortura, mesmo no contexto de uma parte da História do Brasil que não pode ser ignorada. Não se trata de florear a tortura. Há coisas que podem ser ditas com total clareza, em especial na TV, sem que haja necessidade de se escancarar a ação. Como cenas de sexo, onde um simples close no desabotoar do sutiã já sugere o que virá, as cenas de tortura não careciam do espancamento explícito.
Nesses tempos de Amor & Revolução, vem bem a calhar a reprise, pelo canal Viva, de Anos Rebeldes, minissérie que retrata o mesmo período, feita por Gilberto Braga e Sérgio Marques em 1992, quando inspirou também os caras-pintadas que foram às ruas pedir o impeachment de Collor, ao som de Alegria Alegria, mesma música de abertura da série na TV, by Caetano.
O conflito do par central de GB não é o militar que se apaixona pela militante, como comete Amor & Revolução, e sim o idealista que se encanta pela individualista. Cássio Gabus e Malu Mader honram o texto. Tem Cláudia Abreu, riquinha e alienada que vai se dedicar à causa da liberdade. Tem Francisco Milani, justo ele, comunista até o fim da vida, no papel do carrasco que caça comunistas. Tem Pedro Cardoso, às vezes na função de alter ego do próprio Gilberto Braga, um escritor que, a pedido da censura, terá de evitar a palavra “escravo” numa novela sobre escravidão (e Gilberto foi quem adaptou Escrava Isaura para a TV, convém lembrar).
Há uma história de amor, de fato, tendo o golpe, e não a revolução, como contexto imprescindível, e não apenas pano de fundo, como mal e mal acontece com outras produções que timidamente avançam sobre o terreno histórico.
E não há close em tortura, no máximo, em feridas por ela causada. Ou tiro, isso sim.
Amor e Revolução, como bem disse Eugênio Bucci no caderno Aliás, deste Estadão há coisa de dois meses, terá valido nem que seja só pelos depoimentos reais exibidos ao fim de cada capítulo. Brava é a iniciativa de Tiago no SBT.
Mas é Anos Rebeldes o melhor programa de teledramaturgia disposto a recontar aquela época no Brasil. Vale a pena ver de novo, mesmo que seja ali pelas 23h15, no canal Viva.
Melhor do que rever Anos Rebeldes, a essa altura, é olhar a minissérie depois de ter lido o livro que Gilberto Braga escreveu sobre (e com) o trabalho, desde sua concepção, passando pela pressão sofrida nos bastidores, até a transcrição completa do enredo. Na publicação, editada pela Rocco, o autor fala de sua origem intelectual para explicar suas referências, confessa que era um alienado sobre o assunto e detalha a encomenda de Roberto Marinho, por meio do chefão Boni e de um interlocutor, em reescrever várias cenas de 4 ou 5 capítulos. Uma delas mostrava um policial levantando, com seu cacetete, a saia de uma garota presa numa blitz, voltada para a parede, pernas afastadas. Era demais para o “Doutor Roberto”, que pouco tempo antes disso mandou Dias Gomes cortar 4 capítulos inteiros da minissérie O Pagador de Promessas.
Anos Rebeldes não foi tão decepada quanto Pagador e, mesmo sob censura interna, é uma produção e tanto, merecedora da reprise agora em andamento e de lugar de honra na teledramaturgia brasileira.



