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Cristina Padiglione


Reprimir debate incomoda mais que vetar beijo gay

Bem no capítulo de Insensato Coração visto agora há pouco, coisa que já estava gravada e editada desde ontem, estendeu-se um discurso contra a homofobia, nas vozes de Louise Cardoso e Rosi Campos. Louise explicava que seu receio em relação à descoberta de que o filho é gay vinha apenas da violência dos ditos “pitboys”.

Ainda nesta terça, no rastro do que Marcelo Rubens Paiva anunciou anteontem, aqui nesta blogosfera do Estadão (“Casal gay já era”), e dos detalhes que Keila Jimenez enumerou na Folha de S.Paulo de ontem, Mário Viana postou no Facebook a infeliz coincidência: enquanto a Globo bota freios no debate sobre homofobia na novela das 9 e que, na melhor das hipóteses, serve à discussão em torno da criação de uma lei que passe a criminalizar homofóbicos, um pai apanhou de pitboys na vida real por ter seus gestos de afeto com o filho confundidos como homossexualismo por gente mal resolvida.

Bem a Globo, orgulhosa de tantas causas vastamente abraçadas em seus merchandisings sociais.

Frear beijo gay sob a justificativa de que isso não é cena para todos os públicos já não é algo aceitável. O canal alega que deve se dirigir à massa e contemplar todos os perfis de público, vá lá, mas frear a discussão em torno da questão, sem necessariamente fazer desfilar cenas que, no entender da direção da Globo, poderiam horrorizar os héteros, é excluir uma parcela dos perfis cobiçados. Ou não? Ora, ora, são ou não os gays consumidores excepcionais, em geral não comprometidos com gastos com educação de filhos? Daí não ser inteligente excluir (ou “neutralizar”) esse perfil do bolo que sustenta as altas cifras cobradas pela Globo do mercado anunciante.

Isso entra para a conta dos episódios que a Globo passará anos a explicar, como acontece até hoje com Proconsult, Diretas Já e Collor X Lula no Jornal Nacional da véspera da eleição de 89. Na ficção, a direção da Globo interferiu em O Salvador da Pátria, de Lauro César Muniz (também pelo contexto da eleição de 89), em O Pagador de Promessas, minissérie de Dias Gomes que teve 4 capítulos decepados, e em Anos Rebeldes, do mesmo Gilberto Braga, que, para Roberto Marinho, estava assim, digamos, com teor militante muito forte.

É uma pena que a discussão da vez em torno do casal gay da novela Insensato Coração seja interrompida, se é que assim será (quero crer que a emissora se envergonhe ligeiramente da censura total e absoluta em torno do assunto). Era a primeira vez que um rapaz se descobria saindo do armário, com todos os conflitos que isso implica, o que torna o episódio algo inédito na nossa teledramaturgia. Todo o tratamento em torno do par vinha sendo feito de modo mais do que elegane, incapaz de ofender classes C ou D ou de espantar evangélicos para a Record, como se cogitou (como se classe C ou D excluísse gays, personagens que por esta ótica seriam elitistas, e como se evangélico implicasse unicamente opção pelo sexo oposto).

Um atraso. E bota delay nisso.
Ironia boa do destino é que Jean Willys, o deputado a defender a criminalização da homofobia por meio de lei, é uma obra da Globo: foi o único ser pensante que venceu aquele Big Brother Brasil, e lá cativou a audiência justamente ao combater atitudes homofóbicas. O público ficou com Jean. E a Globo, fica com quem?



“Banana” de Cortez, inspirado em banqueiro real, endossa que o “Brasil não é mais o mesmo”

FOTO: BLENDA GOMES/DIVULGAÇÃO TV GLOBO

Autorreferência explícita à clássica cena de Vale Tudo em que Marco Aurélio (Reginaldo Faria) dá uma banana ao País, do alto de seu jatinho, em fuga bem-sucedida com a mulher, Leila (Cássia Kiss), a cena exibida anteontem em Insensato Coração, do mesmo Gilberto Braga, em parceria com Ricardo Linhares, é a evidência de que o País mudou nesses 22 anos. Na sequência da vez, o banqueiro Cortez (Herson Capri) tenta fugir do País com uma mala de dólares, tal e qual Marco Aurélio, e igualmente encena com os braços a sua banana, mas… Ops, é detido antes que o avião decole. Em 1989 tocava Brasil, na voz de Gal Costa. Agora, foi Renato Russo quem deu o tom, com Que País É Esse?

“A banana de Marco Aurélio, em Vale Tudo, entrou pra história da telenovela. Foi um gesto emblemático, representativo da fase que atravessávamos então”, endossa Linhares. “É o símbolo de uma época de impunidade. Daquela vez, o bandido fugiu e ficou impune. Agora, ele é preso. A retomada do gesto tem como objetivo mostrar que o Brasil não é mais o mesmo. Ainda que lentamente, o País está mudando. Corrupto pode ir para a cadeia.”

O autor conta que a personagem é inspirada em similares reais. “Não posso citar nomes, mas foram a inspiração para criar Horácio Cortez. O próximo passo é o julgamento e a condenação do banqueiro por crimes contra o sistema financeiro. Reflexo de um momento em que os maus começam a se dar mal na trama, a audiência de Insensato Coração bateu novamente seu recorde na terça, com 43 pontos de audiência na Grande São Paulo, onde 66% dos televisores ligados sintonizaram a Globo no horário.



Em tempos de ‘Amor e Revolução’, nada como ‘Anos Rebeldes’

Até hoje penso que Amor e Revolução erra ao detalhar closes de tortura, mesmo no contexto de uma parte da História do Brasil que não pode ser ignorada. Não se trata de florear a tortura. Há coisas que podem ser ditas com total clareza, em especial na TV, sem que haja necessidade de se escancarar a ação. Como cenas de sexo, onde um simples close no desabotoar do sutiã já sugere o que virá, as cenas de tortura não careciam do espancamento explícito.

Nesses tempos de Amor & Revolução, vem bem a calhar a reprise, pelo canal Viva, de Anos Rebeldes, minissérie que retrata o mesmo período, feita por Gilberto Braga e Sérgio Marques em 1992, quando inspirou também os caras-pintadas que foram às ruas pedir o impeachment de Collor, ao som de Alegria Alegria, mesma música de abertura da série na TV, by Caetano.

O conflito do par central de GB não é o militar que se apaixona pela militante, como comete Amor & Revolução, e sim o idealista que se encanta pela individualista. Cássio Gabus e Malu Mader honram o texto. Tem Cláudia Abreu, riquinha e alienada que vai se dedicar à causa da liberdade. Tem Francisco Milani, justo ele, comunista até o fim da vida, no papel do carrasco que caça comunistas. Tem Pedro Cardoso, às vezes na função de alter ego do próprio Gilberto Braga, um escritor que, a pedido da censura, terá de evitar a palavra “escravo” numa novela sobre escravidão (e Gilberto foi quem adaptou Escrava Isaura para a TV, convém lembrar).

Há uma história de amor, de fato, tendo o golpe, e não a revolução, como contexto imprescindível, e não apenas pano de fundo, como mal e mal acontece com outras produções que timidamente avançam sobre o terreno histórico.
E não há close em tortura, no máximo, em feridas por ela causada. Ou tiro, isso sim.

Amor e Revolução, como bem disse Eugênio Bucci no caderno Aliás, deste Estadão há coisa de dois meses, terá valido nem que seja só pelos depoimentos reais exibidos ao fim de cada capítulo. Brava é a iniciativa de Tiago no SBT.
Mas é Anos Rebeldes o melhor programa de teledramaturgia disposto a recontar aquela época no Brasil. Vale a pena ver de novo, mesmo que seja ali pelas 23h15, no canal Viva.

Melhor do que rever Anos Rebeldes, a essa altura, é olhar a minissérie depois de ter lido o livro que Gilberto Braga escreveu sobre (e com) o trabalho, desde sua concepção, passando pela pressão sofrida nos bastidores, até a transcrição completa do enredo. Na publicação, editada pela Rocco, o autor fala de sua origem intelectual para explicar suas referências, confessa que era um alienado sobre o assunto e detalha a encomenda de Roberto Marinho, por meio do chefão Boni e de um interlocutor, em reescrever várias cenas de 4 ou 5 capítulos. Uma delas mostrava um policial levantando, com seu cacetete, a saia de uma garota presa numa blitz, voltada para a parede, pernas afastadas. Era demais para o “Doutor Roberto”, que pouco tempo antes disso mandou Dias Gomes cortar 4 capítulos inteiros da minissérie O Pagador de Promessas.

Anos Rebeldes não foi tão decepada quanto Pagador e, mesmo sob censura interna, é uma produção e tanto, merecedora da reprise agora em andamento e de lugar de honra na teledramaturgia brasileira.



Insensato Coração, agora sim


Foto: Alex Carvalho/Divulgação

Em novela de Gilberto Braga, com todo o respeito ao Ricardo Linhares, coautor nesta Insensato Coração, todo capítulo embute uma frase boa de ser aplicada à vida.

Tenho apreciado personagens, atuações e texto da atual novela das 9 da Globo.

Embora goste da histeria de Débora Evelyn, do cinismo de Natália do Valle, da cafajestice que José Wilker expressou em breve participação, da honestidade mulherenga de Lázaro Ramos, da falsa resistência de Camila Pitanga ao romance, da complacência de Ana Lúcia Torre a tudo e todos (que grande personagem, essa tia!), é evidente que a trama que há de instigar a audiência diz respeito ao envolvimento entre o Léo de Gabriel Braga Nunes e a Norma de Glória Pires.

Já se tem ódio do vilão por vê-lo fazer mal a figura tão querida como a Glória (“Glorinha” para os colegas). Só se, no delírio de quem mistura vida real e ficção, a gente imaginar que ela merece comer o pão que o diabo amassou por ter sido aquela filha ingrata que Fátima Acioli foi para Raquel, situação agora em reprise pelo canal Viva.

Mas a Glória que nos convence de caráter tão distinto a cada personagem, essa Glória feita de Norma, vítima tão frágil que foi do monstro em questão, ah, isso não. Morte ao Léo. Se é para delirar de vez na confusão entre ator e personagem, vá lá, sou tomada por ódio ao Gabriel.

Ao que interessa: o fim da fraude Armando, nome dado por Léo à ingênua Norma, valeu 33 pontos de audiência à novela em São Paulo, no capítulo de ontem. O folhetim está longe de superar os 40 pontos, patamar que ainda se espera ver numa novela da Globo no horário, mas Passione, que começou com morte e golpes ainda mais milionários, demorou a bater nos 42 pontos.

A trilha de Satisfaction bem que glamuriza o mal do vilão, mas fisga o espectador. Em Celebridade, a pérfida Laura Cachorra de Cláudia Abreu também tinha seus passos embalados por Rolling Stones, numa regravação de Simpathy For The Devil. (que eu, no original deste texto, chamei pelo refrão, Please To Meet You, e fui prontamente corrigida por um colega, amém e obrigada).

No capítulo de ontem, ao ser encontrado por Norma em seu fétido quartinho de hotel e receber dela a maldição de que ele há de pagar pelo mal feito, Léo lhe responde com genial aval católico: “Eu rezo um Pai Nosso e Três Ave-Marias e Deus me perdoa”.

Satisfaction total.



“Anos Rebeldes” ganha livro, com memória detalhista de Gilberto Braga

A Rocco, e não a Editora Globo, coloca nas prateleiras esta semana o livro Anos Rebeldes, Os Bastidores da Criação de Uma Minissérie. Ali estão texto, na íntegra, de todo o script do programa que marcou épocas (a da ditadura militar no Brasil e a dos caras-pintadas), mais análise minuciosa de seu criador, Gilberto Braga, sobre todo o enredo, o processo de criação e a censura interna sofrida pela produção à época.

Talvez a disposição do autor em mencionar esses bastidores com tamanha honestidade explique por que o livro sai pela Rocco, e não pela Editora Globo ou pela Zahar, com quem a Globo tem uma parceria frequente em publicações referentes ao seu acervo.

O livro é uma aula de roteiro de TV, serve a quem tem interesse no ramo, mas também aos telespectadores mais passivos, que hão de se encantar com as ideias que trafegam na cabeça de um autor durante a concepção de um enredo como “Anos Rebeldes”.
A série tem versão em DVD pela Globo Marcas e, embora Braga desaprove a edição em questão, é uma chance mínima a quem perdeu a vez em 92. O Youtube também oferece algumas cenas da minissérie, incluindo uma “denúncia” que me deixou arrasada: a falha de continuidade na cena em que a adorável Heloísa, personagem de Cláudia Abreu, é metralhada ao sair do carro. Comunista até a morte na vida real, o saudoso Francsico Milani faz então o papel do investigador policial que instiga o soldado a atirar na moça.

A seguir, republico texto que fiz para a edição de ontem do Caderno 2:

Revisitar um programa de televisão em livro é iniciativa que raramente vale o papel. “Anos Rebeldes”, a minissérie de Gilberto Braga que a Globo exibiu em 1992 no pré-impeachment de Fernando Collor, é uma dessas raridades e não meramente por ter marcado uma época. Marcou duas: a dos anos de chumbo retratados no programa (de 1964 a 1971, com breve flash da anistia em 1979), e, por acaso, aquela em que foi exibida, quando inspirou os pacatos estudantes da temporada a sair do sofá, pintar a cara e tomar as ruas para engrossar o coro de “Fora Collor” ao som de “Alegria Alegria”, tema de Caetano Veloso que abria a minissérie.
Nostálgica para uns, a série trouxe a outros um passado que contextualizava o advento da pílula anticoncepcional, a indignação mundial contra a presença norte-americana no Vietnã, a conquista do espaço, as Copas de 66 e 70, o tal milagre econômico, o tropicalismo e a Jovem Guarda, entre tantas idolatrias.
A larga lista de conquistas bastaria para explicar por que “Anos Rebeldes – Os Bastidores da Criação de Uma Minissérie”, que a Editora Rocco lança esta semana, é de uma riqueza de detalhes nunca antes vista na arte de dissecar um roteiro feito para a televisão. Lá está a reprodução na íntegra de todo o script dos 20 capítulos da série, acompanhada da análise de seu criador, Gilberto Braga.
O caso é que, além da competência que em linhas gerais conduziu esta produção da TV Globo, um script igualmente atraente se desenhou nos bastidores da minissérie. Como primeiro título da teledramaturgia brasileira disposto a enfocar o período da ditadura no Brasil, “Anos Rebeldes” sofreu pressão do Exército e forte censura interna. Várias cenas foram reescritas.
Ao lembrar que em 1988 Roberto Marinho quis suspender a exibição de “O Pagador de Promessas” mas foi convencido por Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, então principal executivo da Globo) a só cortar 4 dos 12 capítulos da minissérie de Dias Gomes, Gilberto narra a tensão por que passou ao escrever sobre a história de João Alfredo (Cássio Gabus Mendes), Maria Lúcia (Malu Mader), Heloísa (Cláudia Abreu), Edgar (Marcelo Serrado) e Galeno (Pedro Cardoso). “Tinha medo de escrever e, depois, que as cenas fossem cortadas por alguém”, conta o autor no livro. Foi Cláudio Melo Souza o intermediário escalado por Roberto Marinho para ler algumas partes do roteiro. “Seu parecer dizia que, do décimo ao décimo quarto capítulo, estávamos carregando demais nas tintas políticas.”
Um dos trechos cortados do original, publicado à época pelo “Jornal do Brasil” e mencionado no livro, é o seguinte: um policial aborda Maria Lúcia num muro e separa as pernas dela com o cassetete, levantando sua saia quase até a calcinha, numa insinuação de abuso sexual. Era demais.
Mas a censura interna enfrentada pelo autor em 1992 não se compara às sanções sofridas por ele mesmo em 1976, quando, em uma reunião em Brasília com censores do governo militar, comprometeu-se a não mais mencionar a palavra “escravo” na novela “Escrava Isaura”, escrita por ele à época para a Globo. A história foi inteiramente transportada para o script de “Anos Rebeldes” e aparece no último capítulo, pela voz de Galeno.
Detalhista, o autor fala de seu esmero com a seleção musical de suas produções. Reconhece méritos e falhas – seus e alheios. Diz que era alienado nos anos que tão bem retratou, conta que foi Sérgio Marques, com quem assina o texto, quem o orientou melhor sobre a época, e faz lá suas críticas a figurino e elenco – como as restrições às interpretações de José Wilker e de Cláudia Abreu no início da produção.
Anote-se, no entanto, que nem nas contrariedades Braga perde o humor, o que não significa que ele se renda às armadilhas do final feliz. Ainda bem.

agora no estadão