Juro que me comovi. Sempre digo que o Galvão é o mais xingado dos locutores, mas ninguém passa sem ele. A diferença é que se você é como eu, que adora uma cozinha (e eu não tenho TV na cozinha), e fica ouvindo o áudio da TV à espera do gol, corre a toda hora para a sala, crente de que o gol “está saindo”. Galvão, ou dom Galvão, como o chamei nas minhas crônicas durante a Copa de 2006, é o homem do gerúndio e não opera telemarketing: o gol, na narração dele, está sempre “saindo”… “olha o gol, olha o gol…”. É cúmplice da torcida mais otimista.
Já no SporTV e na ESPN Brasil, com todo o respeito à sobriedade profissional dos caras, eu cozinho um coq au vin sem arredar o pé da cozinha (no caso das partidas 0X0). Na Band, só me mexia da cozinha para a sala ao ouvir o Silvio Luiz, era a bola mais divertida daquele canal. Pelo resto do time, honestamente, não compensa queimar o feijão.
E bem hoje, ao sagrar a nova seleção campeã do mundo em Copa de futebol, dom Galvão nos deu a triste notícia de que esta é sua última Copa fora do Brasil. Pelo recado, faz no máximo a narração de 2014 e cai fora.
Vê-se que os autores da campanha “cala boca, Galvão” acertaram na premonição: Galvão não é um pássaro, mas está em extinção.
Afinal, o que seria da minha geração, que passou 24 anos sem um título e amargou várias decepções (a maior delas em 82, com o melhor time do mundo sob as rédeas do glorioso Telê), sem os gritos do Galvão urrando “é teeeeetra, é teeeeeetra!!!!”, na final de 94?
Diz ele que morre de vergonha daquela imagem. Pois eu adooooooro. É minha alma lavada..
O desabafo de Tadeu Schmidt no “Fantástico”, ontem, atestando que Dunga foi grosseiro com um profissional da Globo que participava da entrevista coletiva após o jogo, já rende, na internet, o movimento “Cala a boca, Tadeu Schmidt”. Alusão óbvia à campanha mundial “Cala boca, Galvão”, é tudo piada, bem entendido.
Mas que a Globo não está acostumada a ser maltratada, muito menos pelo técnico da seleção brasileira, affe, isso não está. E como poucos representantes do poder ousam desafiar a Globo, é claro que isso vira notícia (com endosso da própria emissora) quando acontece.
Na última Copa, o então técnico Parreira se sentiu ofendido porque aquela leitura labial feita pelo “Fantástico” indicou que ele falou lá alguns palavrões à beira do campo.
A Globo então lhe pediu desculpas em rede nacional, pelo “Jornal Nacional”, com Fátima Bernardes explicando que o público entendeu que aquilo era só uma brincadeira. Foi uma comoção. Não se tem notícia de outro sujeito que, sentindo-se injustiçado pela Globo, tenha recebido dela, sem intervenção da Justiça, espaço tão nobre (e longo) para a reivindicada retratação.
Parreira, afinal, não se opunha à presença da Globo no espaço exclusivamente assegurado à sua seleção. E só à presença da Globo. Profissionais de outras emissoras (e Dunga, aliás, comentarista da Bandsports na época, era um deles) não tinham permissão para “entrar em campo” destinado ao staff da CBF. Era um tal de jogador entrar ao vivo no “JN”, independentemente de fuso horário ou compromissos com a CBF, que virou até lugar comum.
Agora, esse é o tipo de cena que não se vê na África do Sul.
O acesso aos treinos tem provocado a ira de jornalistas em geral, mas a Globo, acostumada que estava a pisar no mesmo terreno dos canarinhos, tem se queixado mais que os outros.
E o técnico, jogo duro no zelo à privacidade de seus atletas, tem reagido à altura.
Para a torcida, tanto faz.
O que importa é fazer gol.
O folclore em torno da fúria do técnico certamente só aguça o orgulho do público, desde que, de novo, o placar lhe seja favorável.
Sim, a Globo já antevê que não terá, para a Copa do Mundo da vez, as mesmas regalias da Copa de 2006. Na Alemanha, várias foram as queixas vindas da comissão técnica sobre o acesso das câmeras e microfones do plim-plim a treinos, ônibus, hotéis e qualquer metro de chão em tese reservado exclusivamente aos atletas e seu staff.
Dessa vez, a Copa terá também transmissão da Band na TV aberta, mas, não custa lembrar, a Globo fez valer, há quatro anos, sua exclusividade absoluta na Copa da Alemanha, não só para os jogos, mas para tudo o que envolvia a cobertura jornalística do evento.
A ironia do destino é que o atual técnico da seleção, Dunga, boss dos jogadores mais bem pagos do País, era comentarista do grupo Bandeirantes na Copa passada e, como tal, fez parte dos sujeitos “barrados no baile” da ocasião. Na Alemanha, Dunga teve de se conformar com a condição de ficar longe do melhor da festa, concorrente que era da Globo, que hoje negocia humildemente com a CBF qual parte lhe caberá no latifúndio da seleção canarinho na África do Sul.