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Cristina Padiglione


Morreu “o Bruxo”

Ainda no ano passado, por ocasião dos 60 anos da TV no Brasil, perguntei ao Boni, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, ex-vice-presidente de Operações da Rede Globo, qual era o paradeiro de Homero Icaza Sanches, “el bruxo”, o homem das pesquisas que fez a Globo entender muitos casos de rejeição e aprovação da audiência, antes que o people meter (medidor instantâneo do Ibope) fosse parido.
Panamenho, o homem tinha sensibilidade mais que aguçada para ler os números de tantos relatórios do Ibope e entender o que andava ou desandava em qualquer produção, no quesito identidade com o público.

Boni me disse que Homero estava meio doentinho, no Rio, mas até se dispôs a fazer uma ponte para que eu pudesse lhe propor uma entrevista ao Estadão. Deixei escapar. Vacilei. E, agora, ouço no Jornal Nacional que el Bruxo se foi. Em tributo àquele que lia números de audiência muito antes que os peritos do Ibope pudessem fazê-lo, dedico aqui a reprodução de um texto seu, feito para o livro 50/50, organizado justamente por Boni em brinde ao cinquentenário da TV no Brasil, em 2000, com relatos dos 50 profissionais mais relevantes à história da TV no Brasil.
É um texto mais longo do que os habitualmente postados aqui, mas é uma aula de televisão e comportamento, e mostra que a Globo não se tornou a Globo à toa ou por mera intuição.
Com vocês, O Bruxo:

Em Busca do número

Quando ingressei nos quadros da Rede Globo, em 1972, a estação não era ainda líder de audiência. Boni, à época diretor de programação, estava interessado em saber o que faziam as telespectadoras durante a tarde. Além disso, gostaria de ter uma “tradução” dos volumosos relatórios semanais e mensais que o Ibope lhe entregava. Naquela época, o critério de escolha e manutenção de um programa na grade era o seguinte: o programa que deu audiência se repete ou se imita. Boni não aceitava tal critério e perguntou a José Perigault – amigo dos dois e um dos donos do Ibope – se conhecia alguém que pudesse servir de “tradutor” dos relatórios de audiência. Perigault me indicou. Boni me contratou e dessa forma entrei na TV Globo e começou a análise de pesqauisas para audiência de televisão.

Durante os dois primeiros anos, tempo necessário para a instalação e consolidação da Divisão de Análise e Pesquisas, começamos a descobrir quem era o público de televisão. Terminado esse período, chegamos à conclusão de que estávamos “contando narizes”, ou seja, analisávamos o índice que o programa obtivera, a posteriori, quando não podíamos fazer mais nada para modificar esse índice. Sabendeo disso, partimos para a próxima etapa, que era conhecer a composição do público e sua maneira de reagir perante a televisão.

Em outras palavras, para ler pesquisa precisa-se de matemática e estatística; para analisá-la e tirar dela resultados seguros, precisa-se de sociologia e psicologia soxcial. Nesse momento, começou o período da “busca da alma do número”.
Decidimos montar uma estrutura de informação que permitisse um melhor conhecimento do telespectador. Fizemos então um grande levantamento nas cidades onde a Globo tinha estação de televisão, o que nos possibilitou entender profundamente as classes socioeconômicas. Partimos de um critério utilizado em vários lugares do mundo, que leva em consideração a renda e a despesa familares, o saldo entre ambas e a aplicação do saldo.

Faz-se uma operação muito simples: a diferença entre a renda e a despesa define o saldo, que, por sua vez, determina as classes socioeconômicas. Se o saldo é de 0 a 10%, a pessoa pertence à classe D, se é de 10 a 20%, à classe C, quando atinge de 20 a 30%, é B3; de 30 a 40% é B2; de 40 a 50%, é B1; e, se é superior a 50%, pertence à classe A. Nos Estados Unidos, por exemplo, essas classes são nove e a tabela chega a 80%.

Entretanto, havia uma razão sociológica que diferenciava as áreas urbanas do Brasil para os Estados Unidos, porque lá se usava o critério de posse de bens e aqui tínhamos pesquisas que nos indicavam os dados necessários para medir com mais precisão as diferenças de cada classe.

Uma vez que constatamos, por esses estudos, o comportamento de um indivíduo em função da sua classe socioeconômica, fizemos uma pesquisa sobre hábitos e tendências para saber a que horas o telespectador ligava e desligava a televisão e a que programa assistia. Queríamos descobrir exatamente o que deveríamos levar ao ar. Nossa preocupação não era tanto de pesquisa, mas sim de análise de conteúdo – uma ciência que começou como análise de conteúdo da imprensa e que adaptamos para a televisão. Nosso trabalho tinha crescido e, agora, além de analisar a programação, passamos a opinar sobre as novelas antes de serem aprovadas. Boni passou a nos mandar uma sinopse das futuras nofvelas, acompanhadas da descrição de personagens, para que opinássemos por escrito. Nosso parecer era enviado somente para ele. As modificações que tivessem que ser feitas, na trama ou nos personagens, eram decididas por ele, pessoalmente, e nós não participávamos da versão final.

Num país subdesenvolvido, a televisão é culpada e responsabilizada por tudo. Esperamos que ela seja a Igreja, a moral e até a polícia, já que entra em todo lugar e é vista por todo mundo. No entanto, esquecemos que ela pode ser desligada, como ensinou Borjalo…

Nesse momento, percebi que não era suficiente usar somente os dados do levantamento socioeconômico, pois acreditava que existia um componente cultural mais importante do que o socioeconômico. Estudamos isso durante dois anos, sem que ninguém soubesse.
Era um projeto pessoal, secreto e confidencial. Verificamos que as classes A, B1, B2, B3, C e D existiam não só no levantamento socioeconômico, mas também no sociocultural. Então, fizemos um cruzamento dos dois estudos. Assim, definimos, por exemplo, que um empresário riquíssimo e cultíssimo é AA. Já um bicheiro, tão rico quanto o outro, mas que talvez leia somente histórias em quadrinhos, é AD. Um porteiro do Museu Nacional que descobriu três insetos – um deles inclusive tem seu nome mundialmente classificado – é DA, enqunto o lúmpen, que mora mal e não tem emprego, é DD.

Com as 36 categorias resultantes desse cruzamento, comecei a usá-las para refletir sobre a audiência das novelas. Depois de alguns meses, começamos a identificar o gosto cultural da audiência em determinados horários e a examinar a programação, em busca de maior repercussão. A divisão de Análise começou a crescer e contratei a poetisa Ana Cristina César e a crítica literária Ângelca Carneiro para fazerem análise dos textos e de conteúdo, o que eu fazia antes, confidencialmente, para o Boni.

Além disso, inventei um trabalho de acompanhamento de novela, junto com a minha mulher, que fundou uma empresa de discussão de grupo (group discussion). Ela organizou um grupo de duzentas mulheres, de diferentes classes socioeconômicas, para tecer apreciações sobre as novelas dem determinadas fases.

No capítulo 18, perguntava-se sobre a compreensão da trama, o personagem, os casos amorosos, os aspectos morais e estéticos da história. Eram perguntas simples, que nos permitiam avaliar o começo da novela. No capítulo 36, já com seis semanas no ar, discutia-se se o artista tinha se adequado bem ao personagem e se a trama da novela continuava sendo bem compreendida, se as duplas amorosas já estavam bem definidas, se havia qualquer tipo de rejeiçã a personagens, além dos aspectos formais de uma obra, como cenários, iluminação, figurinos, etc.

No capítulo 54, era feita a última discussão: “Quem vai casar com quem? Como vai acabar a história?” Esse estudo foi utilíssimo para a Rede Globo e é feito até hoje.

É importante deixar claro que não inventamos pesquisas mentirosas, nem interferimos no trabalho de autores e diretores. Aprendi, desde o primeiro momento, que só por meio da análise do comportamento da mulher e do homem brasileiro poderíamos assessorar bem a programação da TV Globo.

Paralelamente a esse trabalho, estabelecemos o que chamamos de “trilho da novela”, que consistia em examinar a audiência dos trinta primeiros capítulos e prever, aproximadaamente, a audiência dos próximos. Assim, sabíamos se uma novela oscilaria entre 53 e 63, ou entre 62 e 72 pontos de audiência (*). Se numa semana ela não se afastava três vezes desse trilho – fato grave – , tínhamnos de descobrir se isso se devia ao texto, à direção ou ao concorrente e ficar seguros de que a novela voltaria ao trilho original.
Essa previsão só funciona até o capítulo 130, pois nos últimos vinte capítulos começam a surgir as soluções das tramas desenvolvidas e consequentemente, há um aumento de 10% em toda a audiência. É bom deixar claro que trilho não é uma característica do horário, portanto não é fixo, tampouco meta de audiência.

Além dos estudos sociológicos e de psicologia social sobre o público telespectaqdor, foi-nos de grande ajuda a leitura de livros sobre antropologia social para explicar-nos certas reações a fatos aparentemente naturais, mas que, sob a lente de aumento da televisão, mostravam uma rejeição só explicável à luz da antropologia. Como exemplo podemos citar o caso de O Dono do Mundo, novela em que Malu Mader, a mocinha virgem imaculada, casa-se e, na lua-de-mel, no Canadá, vai encontrar-se com o médico/galã/mau caráter, tendo com ele sua primeira noite. O público não aceitou e não perdoou. O exemplo é para mostrar que esse mito da primeira noite ainda tem força atávica e que a mocinha não podia ir, com suas próprias pernas, encontrar-se com um homem que não fosse o seu marido. Não há castigo que a redima. E, chamando com outros nomes ou não, o público condena a atitude.

Analisando as pesquisas de audiência, cruzando-as com outras, de cuno social e cultural, chegamos à descoberta de que, além do trilho de cada programa, há algo mais fundo e consistenbte, que chamamos de “o lastro do programa”.

É por meio desse lastro que podemos determinar o fôlego de cada programa, sua capacidade de entrar em todas as classes, bem como sua relação com o número de aparelhos ligados, dia da semana e a audiência concorrente. Isso explica por que alguns programas não possuem audiência brilhante mas se mantêm impávidos diante de quaisquer ataques da concorrência. Outro exemplo seria o dos programas popularescos, cujo sucesso costuma ser um fogo de palha e assustar a programadores inexperientes. As programações com lastro, feitas numa grade coerente e cientificamente desenhada, sempre vencerão.

(*) Curioso notar como ele falava em 60, 70 pontos de audiência naqueles tempos, a era Boni. Hoje, quando a novela chega aso 40, é uma festa danada.

Aqui, a cena da discórdia que fez O Dono do Mundo ser mal compreendida pela audiência:
 http://www.youtube.com/watch?v=ejtYgljiW…



Discovery Kids é o canal mais visto na TV paga

Se você não sabe quem é o Doki, esqueça, não terá a menor ideia do que estamos a falar aqui.

Houve um tempo em que o Discovery Kids rufava tambores por ser líder em audiência na TV paga no target de mulheres de 24 a 35 anos. O diagnóstico: como o canal é amado por crianças até 4 anos e o Ibope não mensura esse público, quem aciona o controle remoto que identifica o morador da residência no mapeamento do Ibope é a mãe, em geral jovem, com criança pequena.
Agora, o Discovery Kids se anuncia como líder absoluto em audiência entre todos os canais pagos.
No ranking dos infantis, tem o primeiro lugar constatado também entre crianças de 4 (idade mínima para o telespectador se identificar no controle do Ibope) aos 11.

Com uma filha de 8 anos, agora espectadora fiel da Nickelodeon (Isa TK+, iCarly e Drake & Josh na preferência), e um filho de 2,8 anos, posso dizer que bem conheço a programação em questão. E como conheço… Viva o Doki, cachorro que anda sobre duas pernas, claro, como todo quadrúpede de animação!

E viva o Peixonauta, primeira animação brasileira num canal internacional, visto por lá desde o ano passado e vendido para vários países (passa até na Al Jazeera Kids, sabia?)

peixonauta



Saúde é o que interessa

A última entrevista sensação feita por Marília Gabriela no canal pago GNT não foi com nenhum artista ou megacelebridade.
Foi com o doutor Paulo Mattos, médico que coordena o grupo de estudos de Déficit de Atenção (DDA) na UFRJ, lá presente para falar sobre a doença denominada Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Enquanto uns e outros atribuem toda e qualquer peraltice das crianças de hoje a tal diagnóstico, o doutor Mattos esclareceu dúvidas diversas sobre o assunto.
A conversa foi ao ar no dia 9 de maio e levou o GNT ao primeiro lugar em audiência da TV por assinatura em seu horário, entre as mulheres com mais de 25 anos. No total de indivíduos, o canal ficou com a 2ª colocação no ranking.
Segundo o doutor, o transtorno não é fruto da vida atribulada e do excesso de informação: já era descrito na medicina no século 19, porém com outras nomenclaturas, e é mais comum do que se imagina. Os pequenos com TDAH são agitados ou inquietos, sim, mas já manifestam os primeiros sintomas da doença na pré-escola. Com forte componente genético, isso atinge 5% da população e pode persistir na vida adulta e até terceira idade.

A boa audiência aqui mencionada explica o fato de a pauta da Gabi no GNT ser tão antenada em saúde, foco que também tem atingido duas de cada cinco edições do “Globo Repórter”, no mínimo.
Será que a TV nunca foi tão sintonizada pelos hipocondríacos ou apenas reflete uma plateia cada vez mais ávida pelo assunto?



“A Liga” não foi tudo isso, mas rendeu ibope

“A Liga”, novo programa da Cuatro Cabezas na Band, com Rafinha Bastos, Débora Villalba e Thaíde, tem potencial _ mais até do que pareceu a edição de estreia, ontem, quando o telespectador foi chamado a perceber que trata moradores de rua como seres invisíveis.

Quem começou a ver a edição não teve motivo para trocar de canal (tanto assim que a audiência foi a 6 pontos de média e 8 de pico, um feito para os padrões da Bandeirantes).
Mas, quem viu o programa até o fim sentiu justamente falta da tal liga, algo que amarrasse as histórias apresentadas. O.k., os exemplos eram comoventes, mas é pouco provável que a dita sociedade insensível, nós, os camisados, pés calçados e com teto, vá se mexer em função do que ali foi mostrado.

A família que mora na porta do banco Itaú, na Paulista, é de cortar o coração, mas o espectador foi mal conduzido a entender por que ela foi parar naquela situação, o que ela fazia até então e por que o rapaz que a acompanha não sai em busca de uma ocupação que possa tornar a vida deles, digamos, menos pior. Faltou mensurar com mais precisão até onde essa família tentou fazer algo para alterar seu destino e não conseguiu. Aos 32 anos, aparentando bem mais, visivelmente castigada por um histórico desde cedo muito difícil, a mulher diz que já não tem mais esperanças de alterar sua (má) sorte. O programa informou que eles ficam a vagar pela cidade durante o dia. Fazendo o quê? Pedindo esmolas? Com dois filhos pequenos e outros vários recolhidos em abrigos desde que o marido foi morto pela Rota, ela de fato não tem muitas alternativas.

A essa altura, o telespectador menos solidário já se refestelou no sofá para argumentar que, ora, se ela não faz nada para mudar sua vida, o que ele pode fazer? O sujeito em questão, que deveria ser o principal alvo do programa, está pronto para justificar seu olhar cego.
O programa esbanja no olhar de piedade e economiza nas informações sobre as origens daquela família.
Esse grupo é totalmente distinto do casal abordado por Thaíde, que, mesmo na rua, não descuida da higiene, trabalha e cozinha o próprio jantar.

É uma outra visão de morador de rua? Não. É um outro perfil de morador de rua. Não é o sem-teto que já nasceu na miséria e, sem ajuda externa, mal tem chance de evitar a perpetuação de tal miséria entre seus descendentes. Também difere dos garotos que cheiram cola e fumam craque na Lapa carioca, em geral espantados de casa por causa de violência doméstica.
Assim, “A Liga” não faz diferentes leituras para um mesmo foco, como promete. Faz leituras diferentes para personagens de perfis completamente distintos.

O programa não é assistencialista, não é Porta da Esperança, não está lá para mudar o destino dessas pessoas, mas também não pode tratá-las como vítimas de um sistema sem solução. Tem jeito? Não tem? Quem pode e quer participar? De que modo? Se não for para cutucar os pacatos cidadãos, qual a razão de mostrar tudo aquilo?

Noves fora, Thaide, Rafinha e Débora são exemplarmente competentes na arte de coletar e contar histórias ou apresentar personagens. São eles o maior trunfo do programa.
A edição exibe recursos de áudio que remetem ligeiramente (ou evidentemente, se você mudar de canal logo em seguida, como eu fiz) ao “Profissão Repórter”, do Caco Barcellos, que, aliás, é mais eficaz na proposta de exibir diferentes ângulos para uma mesma história.



Padrão internacional norteia seriados da Globo

A (por enquanto muito boa) avalanche de seriados que a Globo despeja na programação de 2010 tem mais do que interesse na audiência local. A emissora se calça no formato apresentado principalmente em “Força Tarefa”, “A Vida Alheia” e “Separação” para ganhar novo fôlego não só entre uma audiência local já não tão concentrada em novelas, mas também entre a plateia internacional, onde séries de ficção desse gênero são, sim, o que causam furor entre pogramadores do mundo todo.
Ainda que a Globo venda suas novelas para mais de 100 países, quase todos os clientes do plim-plim lá fora são TVs secundárias em seus respectivos territórios.

Para a Mipcom, feira que começa semana que vem em Cannes, disposta a reunir compradores e vendedores de audiovisual dos cinco continentes, a Globo leva seu competente catálogo de novelas (encabeçado aí por “Caminho das Índias”, vencedora de um Emmy no ano passado), mas também a excepcional “Som & Fúria”, série concebida pela produtora O2 de Fernando Meirelles, com base em uma produção original do Canadá. Até os canadenses reconhecem que a versão do Meirelles, com Felipe Camargo, Andréa Beltrão, Pedro Paulo Rangel e Dan Stulbach, ficou superior à matriz. E, apesar de todos os confetes merecidos pelo título e da aposta da Globo para levá-la aos estrangeiros, acredite, “Som & Fúria” pode não ganhar a planejada segunda temporada.
É que Manoel Martins, atual diretor da Central Globo de Produção, resiste um bocado ao projeto, contaminado pelos modestos índices de audiência registrados pelo programa.
Quer dizer, modestos para a Globo, bem entendido.
Mas, afinal, já não era tempo de a direção da Globo se convencer de que não terá nunca mais os 50 ou 60 pontos acumulados em produções do passado? Por que não aproveitar que o mercado publicitário ainda lhe dedica 70% de seu bolo para agregar valor e investir em programas de alta qualidade, com a tal da saudável diversidade?

Coragem, seu Manoel, coragem.

P.S. A propósito, gostei muito do novo seriado comandado pelo Falabella, “A Vida Alheia”: é quase tudo verossímil, e digo com conhecimento de causa.



Plateia de coliseu em dias de Nardoni

Diante da turba furiosa plantada em frente ao fórum de Santana em torcida permanente pela condenação do casal Nardoni, gente que até fogos de artifício levou para “comemorar” o “jogo” da ocasião, foi de Carlos Nascimento a frase mais sensata. Falo aqui de caso pensado como telespectadora, bem entendido, que não tenho disposição para compor plateia ávida por show de gladiadores.

Fez bem, o Nascimento, ao lembrar, lá de sua bancada na Anhanguera do SBT, ao vivo, vendo aquelas imagens de gente pulando, cantando, chutando carro de condenado e tocando o terror com buzinaço, que, convenhamos, não havia motivo para festa. Podia-se evidentemente comemorar a sensação de que justiça foi feita, mas, disse o jornalista, uma criança foi assassinada e uma família foi desfeita, sem que haja nisso qualquer razão para festa.
Amém, alguém faz um comentário de bom senso nesse circo.

Na Globo, sem réus e advogado dando entrevistas, um repórter entrevistava o outro na frente do fórum. José Roberto Burnier fazia perguntas a César Galvão e depois a César Tralli, compondo a cena com um Globocop que seguia o comboio policial montado para carregar Alexandre e Ana Jatobá de volta ao presídio de Tremembé. O repórter narrou que os carros já estavam na Dutra e garantiu a Christiane Pelajo que “nós vamos continuar acompanhando” a cena. Epa, nós quem, cara pálida? Que diacho, pensei, qual a razão dessa escolta aérea? Será que Ana Jatobá e/ou Alexandre Nardoni vão dar um ‘tchauzinho’ para o Globocop?

Quando a comoção popular se comporta como plateia de inquisidores, a mídia (e especialmente a TV, dona de vocação para o espetáculo que é) pode até dar uma patinada aqui e ali. Mas, diante daquela torcida de anônimos que se tornou amiga póstuma, e íntima, da pequena Isabella, desconfio que o papel da TV foi muito mais o de refletir a histeria pública do que de atiçar sua bílis.

Agora, que o caso fez a audiência latejar esta semana, isso fez. E, nesse contexto, as lentes nunca se esquivam de tirar sua lasquinha.

Vá de retro, linchamento público.



Record cutuca Globo no encerramento de Vancouver

Só faltou dizer que “nunca antes na história desse país” uma olimpíada de inverno teve tal cobertura na TV aberta. A Record não usou o jargão do presidente Lula, mas o conteúdo da mensagem anunciada ao final da cobertura dos Jogos Olímpicos de Vancouver foi exatamente este.

A Globo, enquanto teve os direitos de transmissão dos jogos de inverno, sempre se limitou a exibir informações e cenas em seus telejornais. Mas, dessa vez, como o cardápio não lhe pertencia, o que se passou em Vancouver nas últimas semanas nem notícia foi considerado.

Já a Record, que tem programação vespertina bem vunerável, pra dizer o mínimo, fez bom uso de todo aquele gelo, dos patins artísticos ao hóquei, passando por esquis e trilhos diversos, sem se acanhar com um festival de reprises.  Resumo da ópera: em 80 horas de Vancouver, somou 6,2 pontos de média de audiência na faixa vespertina (ante 19,5 da Globo e 4,7 do SBT) e 6,9 na faixa noturna (ante 19,2 da Globo e 6,1 do SBT).

No saldo final de todo o mês de fevereiro, a Record subiu 0,3 ponto (de 6,9, em janeiro, para 7,2 pontos). A Globo oscilou de 16,5 para 16,4, e o SBT, de 6 para 5,6 pontos. Os dados são da Grande São Paulo.

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