“A Liga”, novo programa da Cuatro Cabezas na Band, com Rafinha Bastos, Débora Villalba e Thaíde, tem potencial _ mais até do que pareceu a edição de estreia, ontem, quando o telespectador foi chamado a perceber que trata moradores de rua como seres invisíveis.
Quem começou a ver a edição não teve motivo para trocar de canal (tanto assim que a audiência foi a 6 pontos de média e 8 de pico, um feito para os padrões da Bandeirantes).
Mas, quem viu o programa até o fim sentiu justamente falta da tal liga, algo que amarrasse as histórias apresentadas. O.k., os exemplos eram comoventes, mas é pouco provável que a dita sociedade insensível, nós, os camisados, pés calçados e com teto, vá se mexer em função do que ali foi mostrado.
A família que mora na porta do banco Itaú, na Paulista, é de cortar o coração, mas o espectador foi mal conduzido a entender por que ela foi parar naquela situação, o que ela fazia até então e por que o rapaz que a acompanha não sai em busca de uma ocupação que possa tornar a vida deles, digamos, menos pior. Faltou mensurar com mais precisão até onde essa família tentou fazer algo para alterar seu destino e não conseguiu. Aos 32 anos, aparentando bem mais, visivelmente castigada por um histórico desde cedo muito difícil, a mulher diz que já não tem mais esperanças de alterar sua (má) sorte. O programa informou que eles ficam a vagar pela cidade durante o dia. Fazendo o quê? Pedindo esmolas? Com dois filhos pequenos e outros vários recolhidos em abrigos desde que o marido foi morto pela Rota, ela de fato não tem muitas alternativas.
A essa altura, o telespectador menos solidário já se refestelou no sofá para argumentar que, ora, se ela não faz nada para mudar sua vida, o que ele pode fazer? O sujeito em questão, que deveria ser o principal alvo do programa, está pronto para justificar seu olhar cego.
O programa esbanja no olhar de piedade e economiza nas informações sobre as origens daquela família.
Esse grupo é totalmente distinto do casal abordado por Thaíde, que, mesmo na rua, não descuida da higiene, trabalha e cozinha o próprio jantar.
É uma outra visão de morador de rua? Não. É um outro perfil de morador de rua. Não é o sem-teto que já nasceu na miséria e, sem ajuda externa, mal tem chance de evitar a perpetuação de tal miséria entre seus descendentes. Também difere dos garotos que cheiram cola e fumam craque na Lapa carioca, em geral espantados de casa por causa de violência doméstica.
Assim, “A Liga” não faz diferentes leituras para um mesmo foco, como promete. Faz leituras diferentes para personagens de perfis completamente distintos.
O programa não é assistencialista, não é Porta da Esperança, não está lá para mudar o destino dessas pessoas, mas também não pode tratá-las como vítimas de um sistema sem solução. Tem jeito? Não tem? Quem pode e quer participar? De que modo? Se não for para cutucar os pacatos cidadãos, qual a razão de mostrar tudo aquilo?
Noves fora, Thaide, Rafinha e Débora são exemplarmente competentes na arte de coletar e contar histórias ou apresentar personagens. São eles o maior trunfo do programa.
A edição exibe recursos de áudio que remetem ligeiramente (ou evidentemente, se você mudar de canal logo em seguida, como eu fiz) ao “Profissão Repórter”, do Caco Barcellos, que, aliás, é mais eficaz na proposta de exibir diferentes ângulos para uma mesma história.
Não é que uma figura entrevistada para o programa Conexão Repórter, a ser lançado hoje, pelo SBT, by Roberto Cabrini, tenha entrado na Justiça por ter se arrependido de gravar entrevista.
Foi alguém filmado pelas câmeras do SBT e de alguma forma envolvido com tráfico de crianças que reivindicou na Justiça o direito de não ter sua imagem levada ao ar. O programa chegou a ser embargado. O SBT agora há pouco conseguiu reverter a situação, com restrições: a de que a identidade desse personagem seja mantida em sigilo. Lá vai a voz de pato dar o ar da graça já na estreia de Cabrini. Um efeito de pós-edição tratará de omitir o rosto em foco.
E assim ficamos. Vai ao ar daqui a pouco, às 22h15.
A Record, que até a semana passada adorava divulgar números de sua audiência, passou a duvidar pulicamente do Ibope desde que o instituo começou a falhar nas noites de domingo, o que ocorreu já por duas semanas seguidas.
É bem a faixa onde a emissora tem seus melhores êxitos, ainda mais com o reality show “A Fazenda”.
É bem o horário em que a Globo mais tem de dividir o bolo, perdendo parte de sua plateia para o “Pânico” e para o Silvio Santos original, no SBT, além de Gugu e “Fazenda” na Record.
Convém lembrar que as contestações ao Ibope já tiveram, num passado distante, o SBT no lugar de contestador. Houve um tempo em que a TV do Silvio até botou no ar a campanha da “Caça ao Aparelhinho de TV”, que convidava seu espectador a encontrar algum, um só cidadão, que possuísse, em casa, um aparelhinho people meter, aquele que coleta dados das televisões de cada casa da mostra montada pelo Ibope para indicar quantos pontos porcentuais tem cada emissora.
Deu em nada.
Alguns anos depois, Silvio Santos conseguiu, a duras penas, botar em pé um instituto próprio de pesquisas, o Datanexus, que operava com um aparelhinho de mesmo princípio que o people meter. Era o Alfonsímetro, criado pelo então engenheiro do SBT, Alfonso Aurin.
O mercado prestou atenção nas diferenças apontadas pela medição de um e de outro, que às vezes denunciava até 20% de discrepância (para cima, no Ibope, e para baixo, no Datanexus)à Globo. Mas, sendo o instituto financiado pelo SBT, faltava-lhe isenção para endossar credibilidade. Assim, não durou muito.
O Datanexus, de alguma forma, endossava o ranking das emissoras, mas, naquele tempo, a distância entre um canal e outro era maior, a Globo era mais hegemônica e até o Data Folha, em pesquisas de campo, apontava coerência com a ordem dos fatores registrada pelo Ibope.
E o Datanexus saiu de cena, voltando a reinar apenas o Ibope.
Sustentado por agências e emissoras, o serviço de medição de audiência é dispendioso e não há, segundo o Ibope, espaço para duas empresas num mesmo mercado, no caso do Brasil. Seja ou não verdade, entre os tantos contestadores que até aqui se insurgiram contra o instituto, ninguém conseguiu mudar esse quadro. De mais a mais, quando os números eram favoráveis ao SBT, mesmo nos dias em que o canal mais suspeitou do instituto, o SBT bem que acreditava no Ibope, e a cena com a Record, nos dias atuais, não é diferente.
Parece piada da concorrência, mas o “Fantástico”, com toda a fragilidade de audiência que vem enfrentando, anuncia agora para domingo, com rufar de tambores incrível, que “Antonio Fagundes, Henri Castelli, Malvino Salvador” e mais uma lista de bonitões, todos homens, falarão sobre… “Flávia Alessandra”, que, nas palavras da chamada do programa, “está fazendo o maior sucesso”, em beleza e talento, na novela “Caras & Bocas”.
Nada contra a moça, mas do jeito que a coisa é anunciada, você fica achando que vão falar de alguma (quase) unanimidade mundial, o que Flávia Alessandra está longe de ser.
Isso foi na noite de quinta-feira, nos intervalos de “Viver a Vida”.
Agora há pouco, tarde de sexta, Tadeu Shmidt entrou com outra chamada do programa e nem falou mais na Flávia. Anunciou matéria sobre os problemas com o sono, bem na linha “Globo Repórter” e “uma presença ilustre”, essa sim, que é o Pelé, escalado para escolher o “bola murcha” e o “bola cheia” da vez.
E a Globo está mandando ver em chamada. Domingo à noite taí, com Gugu, “Fazenda” e “Pânico”. A vida nunca foi tão difícil para o plim-plim.
A Record levou só 4 pontos de média com os super anunciados especiais exibidos ontem, dentro de uma faixa male male batizada como “200 Anos de História”.
Era tarde, vá lá. Começou às 23h36 e foi até 01h17, quando só os fiéis da Igreja Universal costumam sintonizar a Record.
Por que tão tarde? Por que queimar dois (bons) cartuchos em um único tiro, e por que esse título tão tosco? Quem se permite seduzir por algo que se chame “200 anos de História”? Que história é esta? O nome do enredo é o que convida a bilheteria, ora pois. E, afinal, o caso nem era sobre a chegada da Família Real ao Brasil, como poderia parecer.
Só mesmo a opção comercial (o título foi devidamente patrocinado pelo Governo do Rio de Janeiro) pode justificar a besteira de empacotar dois especiais numa única embalagem. Ali estava uma adaptação, bem-feitinha, honesta, nada pretensiosa, do conto machadiano “Os Óculos de Pedro Antão” e um documentário com reconstituição ficcional sobre o grande “Grande Sertão Veredas”. Vê lá se Guimarães Rosa merece horário de Igreja Universal?
Foi assim mesmo: a Globo deu preferência às duas maiores torcidas do País, mesmo conhecendo o “alto risco” de o São Paulo definir, naquele mesmo instante, em jogo restrito a flashes de melhores momentos, o Campeonato Brasileiro do ano.
E deu no que deu. O Corinthians se afundou um bocadinho mais, o Mengão, bandeira queridíssima do plim-plim, levou a melhor no Maracanã, mas o que valeu decisão de fato foi a partida preterida pela Globo.
À Globo, interessa a recuperação do Corinthians, vá lá, mas o fraco desempenho do timão já tem derrubado a audiência do Brasileiro.
O Corinthians tem sido forte aliado da rede dos Marinho na torcida pela renovação dos direitos de transmissão dos campeonatos. Em contrapartida, o São Paulo, dono de melhor situação financeira e livre de antecipações financeiras referentes a direitos de transmissão, tem se colocado à disposição da Record para discutir propostas melhores e eventual troca de canal.
Há meses e meses em silêncio absoluto sobre suas performances no ibope, o “Domingo Legal” de Gugu Liberato se manifestou hoje por meio de e-mails aos correios de quem se ocupa desse ofício, pobre de nós, que é abordar a televisão do lado de cá da tela.
Diz o e-mail, que não é procedente do SBT:
“O programa ‘Domingo Legal’,sob o comando de Augusto Liberato, o Gugu, deixou o SBT por 13 minutos na liderança no Ibope na tarde de domingo (05/08). Das 17h59 às 18h12, o programa ficou com 16 pontos e 29,07% de share. No mesmo horário, a segunda emissora colocada marcou 15 pontos de média , empatando com a sua concorrente. O período cheio de sua exibição ,das 16h40 às 20h53,Gugu conquistou 15 pontos. No mesmo período, a primeira emissora colocada marcou 18 pontos, e a terceira emissora colocada ficou com 13 pontos.
VALE RESSALTAR que das 17h01 às 18h26 ,período em que o programa concorreu com a estréia de Tom Cavalcante, registrou 15 pontos, a Record 13 pontos Globo 19 pontos.”
Atenção: o texto entre aspas é reprodução fiel do e-mail e nada me cabe em sua autoria.
A recordar: para quem duelava com a Globo por 3 horas contínuas até quatro anos atrás, o rufar de tambores sobre 13 minutos é humilhante. O caso é que Gugu tem amargado longa batalha por audiência desde a farsa PCC montada pelo programa em setembro de 2003.