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A cilada de ‘Em Família’ vai além da escalação de elenco

Cristina Padiglione

09 junho 2014 | 02:52

      Muito se falou sobre os erros de escalação de elenco de Em Família, novela das 9 da Globo que vem alcançando audiência abaixo dos índices minimamente desejados pela direção da Globo.

Pode até ser que a troca de atores de uma fase para a outra tenha sido infeliz.

Pode até ser que progenitores e herdeiros não apresentem as respectivas idades críveis.

Mas tudo isso é o que menos importa para a plateia.

Além de os cenários serem todos muito parecidos, o que já foi muito bem dito lá no início da história pela Patrícia Kogut, do jornal O Globo, há um “mocinho” bandido no papel de por quem supostamente deveríamos torcer. E há, na minha modesta opinião, o maior de todos os problemas desta novela, que diz respeito à maneira como o autor, Manoel Carlos, conduz a questão homossexual no seu enredo.

Passando pelo primeiro ponto, não é que Gabriel Braga Nunes não tenha o perfil do herói, longe disso. O caso é que o rapaz quase matou por ciúmes, e teria matado bem o cara bacana da história, Virgílio, na voz de Humberto Martins. A propósito, a Folha chegou a apontar Humberto como um dos erros de escalação. Discordo veementemente. Estamos sempre a cobrar da TV que ela tenha ousadia e coragem de fugir dos estereótipos. A escolha de Humberto para o papel o coloca longe do rótulo de cafajeste que sempre ostentou nas novelas, e ele dá conta do recado com perfeita eficiência. Só a cicatriz do rosto não ajuda. O sinal foi se arrefecendo ao longo de uns pocos capítulos de um enredo narrado quase em tempo real. No mais, Humberto vai bem, e muito bem, na condição de bom moço, ao contrário de Braga Nunes.

A fragilidade do Gabriel, ou melhor, do Laerte, é o que faz da personagem de Ana Beatriz Nogueira um dos pontos altos da novela. Que personagem adorável para incomodar seus espelhos na vida real. Ali está a mãe que enxerga o filho como troféu para qualquer mulher, e qualquer mulher disposta a chamar o filho para o amadurecimento e a responsa, não presta nem o merece. Adoro a Selma e a certeza de sua ignorância!

Mas Laerte, francamente, não merece mulher alguma. Muito menos a atual primeira dama do País, dona Bruna Marquezine, por quem todos torcem como cara-metade capaz de fazer nosso melhor astro canarinho brilhar no placar da Copa que está pra chegar. Aí, sim, há toda uma escalação infeliz. O namorado da ficção não merece a namorada do atual namoradinho do Brasil.

Noves fora, temos a questão das lésbicas, finalmente, antítese da abordagem gay da última novela, “Amor à Vida”. Senão vejamos: Carneirinho converteu Félix em bom moço e fez dele o membro que faltava à sua sonhada familia Doriana.

Já na novela atual, Marina (Tainá Müller) assedia Clara (Giovanna Antonelli), pronta para “destruir” a família Doriana da outra, que, reforçando as chances de rejeição do público para a abordagem, é casada com Reynaldo Gianecchini, sujeito que passou por maus bocados e sobreviveu, não só na novela, como na vida real. Como pedir que a plateia festeje essa união gay diante de situação tão controversa? A direção da Globo certamente diagnostica tudo isso, mas não tem como voltar atrás a essa altura do campeonato. Interromper o flerte de Clara e Marina, agora, significaria um passo atrás nas conquistas que a emissora fez junto ao público hétero e ao público gay, que tomaria uma reviravolta como falta de coragem da casa para enfrentar mais um episódio gay da história de suas telenovelas.

O que está feito está feito. Só resta à Globo acelerar a trama e entregar o bastão a Aguinaldo Silva.