Senhores,
Este blog entra em recesso por alguns meses para só voltar à cena após a chegada da dita TV digital. A autora, em vias de parir sua segunda cria, agradece às manifestações dos blogados, sobretudo dos contestadores que, com ou sem razão, tanto contribuem para “fomentar o debate” (adoro essa expressão).
Até a volta.
Cristina Padiglione
Foi assim mesmo: a Globo deu preferência às duas maiores torcidas do País, mesmo conhecendo o “alto risco” de o São Paulo definir, naquele mesmo instante, em jogo restrito a flashes de melhores momentos, o Campeonato Brasileiro do ano.
E deu no que deu. O Corinthians se afundou um bocadinho mais, o Mengão, bandeira queridíssima do plim-plim, levou a melhor no Maracanã, mas o que valeu decisão de fato foi a partida preterida pela Globo.
À Globo, interessa a recuperação do Corinthians, vá lá, mas o fraco desempenho do timão já tem derrubado a audiência do Brasileiro.
O Corinthians tem sido forte aliado da rede dos Marinho na torcida pela renovação dos direitos de transmissão dos campeonatos. Em contrapartida, o São Paulo, dono de melhor situação financeira e livre de antecipações financeiras referentes a direitos de transmissão, tem se colocado à disposição da Record para discutir propostas melhores e eventual troca de canal.
Lendo os comentários do post anterior, e não que eu queira defender que a nossa TV transborde qualidade, não, longe disso, mas não pude deixar de lembrar de um trecho extraordinário que o extraordinário Max Nunes escreveu para o livro “50/50″, organizado pelo Boni em 2000, por ocasião do cinqüentenário da TV brasileira.
Diz o Max (pra quem não sabe, um dos melhores redatores de humor que a nossa TV já produziu):
“Muita gente acha que a nossa televisão não é muito boa, avaliação preconceituosa e injusta. Num país em que o dinheiro não é muito bom, em que o ensino não é muito bom, em que até o governo não é muito bom, por que a TV, que é uma das nossas melhores coisas, teria que ser maravilhosa?”.
Tudo bem, Max Nunes é do tempo em que a TV não temia os riscos da experimentação (até por falta de opções, só lhe cabia apostar na ousadia e na adaptação de idéias já avalizadas pelo rádio).
O que eu queria dizer aos nobres leitores é: a TV pode não gozar da mesma inventividade de 10, 20 anos atrás, mas não se pode reduzi-la a lixo. Temos aí boas minisséries incentivando a leitura de bons livros, boas sacadas jornalísticos (por que ninguém lembra de um Roda Viva, de um Canal Livre, de um Provocações???) e bom entretenimento em algumas séries e novelas que, na contramão do preconceito geral, fazem pensar, sim.
Não são crimes e castigos, adultérios ou incestos que determinam a qualidade do roteiro (Dostoievski e Nelson Rodrigues têm nesse menu sua grande genialidade).
Também não é o caso de sentir “culpa” intelectual por apreciar a diversão dos programas de auditório, algo presente na TV desde o seu primeiro suspiro, ou de se encantar com o futebol, por mais fraco que esteja o espetáculo da bola, vá lá.
E, mesmo para o debate em torno da manipulação religiosa ou política promovida por esta ou aquela emissora, convenhamos, os pecados dessa gente, no passado, acabaram por produzir um telespectador mais vacinado, dono de uma consciência crítica que já não engole qualquer cascata e que obriga a TV a ser, no mínimo, mais sutil em eventuais tentativas de fazer a cabeça do telespectador.
Por toda essa conta, prefiro apostar que a platéia esteja desligando a TV por dispor de outras opções de entretenimento. Esse pluralismo, sim, é mais saudável que qualquer script. Há, além do melhor acesso à internet, maior oferta de programas gratuitos fora da TV, maior conhecimento e acesso sobre o que fazer fora de casa, e, naturalmente, maior alfabetização gerando interesses além-tela, sem que isso signifique a “ignorância” de quem curte um bom controle remoto.
Como faz habitualmente, o vice-presidente comercial da Record, Walter Zagari, distribuiu a jornalistas e mercado publicitário os números que lhe são favoráveis.
A fonte do estudo divulgado pela Record, no entanto, antes que alguém venha cá me acusar de fazer eco ao Zagari, é atribuída ao Ibope, nem mais, nem menos.
Considerando os índices do PNT (Painel Nacional de Televisão) de setembro, a Record fez as contas de janeiro a setembro e comparou o período ao mesmo trecho do ano passado na FAIXA NOBRE.
Portanto,
De janeiro a setembro de 2006,
em relação a
Janeiro a setembro de 2007,
das 18h à 0h,
1) O número de aparelhos ligados no horário caiu 3,6%
2) A Globo perdeu 10,5%.
3) A Record ganhou 16,7%.
4) O SBT perdeu 11,2%.
Do primeiro ao segundo período aqui citado,
_ o Total de ligados foi de 60,8% a 58,7%
_ a Globo foi de 36,1% a 32,3%
_ a Record foi de 7,5% a 8,8%
_ o SBT foi de 7,9% a 7%
Um dado a observar é a queda no total de aparelhos ligados. O Ibope registra como ligados inclusive os televisores sintonizados em DVD. Portanto, a tese de que as pessoas estariam trocando televisão por computador ou DVD já tem aí um desconto: 3,6% nem ao DVD estão se entregando. Resta a tese do aumento da audiência no computador, algo que o Ibope resiste em admitir, naturalmente, para não espantar os investimentos publicitários da TV. Para o instituto, o computador, ou mais precisamente a internet, não está furtando audiência da TV. É como se os internautas ligassem tudo ao mesmo tempo – TV, computador, iPod e quem sabe até microondas.
O fato é: por mais fragmentada que seja a atenção dos jovens, há uma queda no interesse pela TV. Queda esta que o mercadão espera resgatar a partir da TV digital, quando as imagens estarão disponíveis em tempo real em celulares e outros receptores móveis.
A ver.
Eis nota recebida há pouco da Assessoria da TV Cultura:
“A Fundação Padre Anchieta recebeu ontem, dia 17, a comunicação pelo Ministério Público de São Paulo sobre um Procedimento Preparatório de Inquérito Civil questionando a exibição pela TV Cultura da tradicional Missa de Aparecida nas manhãs de domingo. A reclamação, encaminhada ao Ministério Público por Pascoal de Marco, morador de Santos, questiona a opção pela missa católica e reivindica espaço semelhante a cerimônias de outros credos religiosos.
Esta não é a primeira vez que a transmissão da missa é contestada. Em duas ocasiões anteriores, em anos passados, a mesma questão foi levada à Justiça e a TV Cultura obteve julgamentos favoráveis à manutenção da celebração. Agora, entretanto, a Fundação Padre Anchieta acredita que o tema merece a atenção do debate público. Para tanto, a questão está sendo levada à atenção do Conselho Curador, a quem, por Estatuto, compete estabelecer as diretrizes da programação da Cultura, de acordo com as finalidades da Fundação, e será debatida de forma a que qualquer decisão seja um reflexo do entendimento da sociedade.”
A novela do Aguinaldo Silva estreou com modestos 40 pontos, caiu para 30 e poucos e voltou aos 40.
Todo início de novela é vítima da ressaca do telespectador, mesmo o mais viciado no gênero, que vinha comparecendo diante do folhetim anterior religiosamente no último mês.
O que não é normal é novela das 9 na Globo ficar aquém dos 40 pontos no Ibope de São Paulo. Foi fenômeno que já havia varrido os primeiros capítulos de “Paraíso Tropical” e que se repete na atual temporada.
Ainda assim, até que “Duas Caras” vai se reerguendo com mais rapidez do que “Paraíso” em seu início. A novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares demorou mais de um mês para começar a decolar.
Paulo Autran não era de perder muito tempo com TV, mas a Globo tem a maior coleção de suas cenas.
Ainda assim, a edição do “Jornal Nacional” de sexta-feira, a que anunciou sua morte, tratou-o como “um dos mais queridos atores brasileiros”.
Não, não era “um dos”. Era, efetivamente, O Maior ator brasileiro.
Usa-se o artigo definido para poucos. Autran era O Maior ator brasileiro. Qualquer um que morra hoje, entre os maiores, será “um dos”. Já não há um segundo ator, há alguns que merecem reinar na galeria dos maiores. O posto DO MAIOR ficará vago até que se tenha a certeza de um novo singular.
Desde que Elis Regina morreu, por exemplo, permanece vago o posto de “maior cantora brasileira”. Temos cá excelentes cantoras, mas nenhuma que se possa cravar como A MAIOR. Ainda.
Temos “a atriz”, que é Fernandona, a Montenegro.
E tivemos “o ator”, que foi Autran.
O “Jornal da Band” o tratou como “o maior”, sem receio de errar.
O “Jornal da Record” fez pior, chamou-o de “o maior do teatro”, como se houvesse um outro maior da TV ou do cinema. Era o maior e ponto.
E o “JN” deste sábado, ao noticiar a despedida, cometeu seus tropeços.
Mostrou o comovido discurso do ator, em tributo recebido há pouco mais de mês, como indício da falta de ar que o afligia.
A seqüência completa seria Autran dizendo que não costumava chorar, a não ser quando o personagem pedia. Em seguida, ele dizia que já não conseguia falar porque (longa pausa)… já estava chorando.
E o que fez a edição do JN? Cortou a frase inicial, quando ele diz que não tem o hábito de chorar, a não ser pelo personagem.
Ora, quem não viu a seqüência completa em outros canais certamente se impressionou com aquela pausa toda e a confissão de quem já não podia falar.
Por essas e outras é que o homem preferia consumir seu tempo com o teatro, tendo recusado tantas propostas da TV.
Alguém no post anterior me questionou por que falei na produção de “Duas Caras” em alta definição e não mencionei que a atual novela da Band, “Dance, Dance, Dance”, também foi feita em HD.
Não vi o efeito HD da novela da Band.
Vi o efeito HD da novela da Globo porque a emissora promoveu uma sessão fechada em sala de cinema para exibir o efeito do produto.
Como se sabe, para ter acesso à diferença que a alta definição prenuncia, é preciso ter um televisor ou um receptor que lhe mostre tal diferença. Sem isso, as TVs podem produzir o que quiserem em HD que, para o telespectador, a imagem será a mesma da TV analógica ou, como diria Odorico Paraguaçu em tradução literal, em SD: Short Definition.
Semana passada, emissoras de TV e indústria de eletrônicos se uniram num fórum que pretendia anunciar o andamento da chegada da TV digital, marcada para 2 de dezembro na Grande São Paulo. As concessionárias estão em dia com experimentos, testes, equipamentos e que tais. Já a indústria de eletros… Não sabe responder quando chegam às lojas os televisores compatíveis para se ver TV em HD, não responde qual a média de preço dos novos aparelhos e calcula em R$700,00 (três vezes mais do que a estimativa inicial dada pelo governo) o preço dos conversores.
Com um detalhe: a tão aclamada interatividade da era digital não estará disponível inicialmente, o que levará os mais afoitos, aqueles que comprarem um conversor ou televisor neste primeiro momento, a ter de adquirir outro conversor dentro de um ano.
Do jeito que a coisa vai, é de se esperar que em dezembro, quando o negócio enfim chegar, quase ninguém disponha de receptores capazes de provar o lançamento em questão. Será como naquele setembro de 1950, quando Assis Chateaubriand inaugurou sua TV Tupi: sem aparelhos em casa, o pessoal vai ter de se acotovelar diante de monitores espalhados em praças públicas para perceber a diferença na imagem. Em casa mesmo, meia dúzia de gatos pingados sacará que a TV digital está aí.
A Globo promoveu há pouco a estréia de “Duas Caras”, sua primeira novela produzida em alta definição, em sala de cinema, para platéia fechada.
A novela será o primeiro produto da emissora que o telespectador poderá ver, desde que disponha de aparelho compatível ou conversor digital, quando a TV de alta definição chegar à casa dos paulistanos, em 2 de dezembro. Como agora não é possível perceber diferença alguma porque a recepção da imagem em casa ainda é analógica, fez-se lá o burburinho com pipoca no escurinho do cinema.
Esse negócio de HD vai dar trabalho a maquiadores e cenógrafos. Como já foi dito um zilhão de vezes, os mínimos detalhes saltam na tela. E não há pó ou pancake que resista: viu-se cada gotinha de suor no pescoço de Oscar Magrini (calma, não diga ‘que nojo’) e do Fagundes. Então fiquei esperando (torcendo, na verdade) para encontrar um furinho de celulite na Letícia Spiller, que desfilou de maiô. Mas a moça se garante até em alta definição: nada de casca de laranja ou coisa que o valha.
Ouvida só uma vez, a lição de Tarcísio Meira ao filho postiço teria sido o melhor texto do capítulo. Mas no flashback do Dalton Vigh, o herdeiro, ouviu-se Tarcísio repetindo duas, três vezes (e aí meio que cansei) a dica de que tem gente na vida que está só à espera de ser passada para trás por alguém. “E nós”, dizia o mestre-pai, “temos que lhes prestar esse favor”.
Dalton Vigh vai bem de canalha. Canalha com dor de consciência é sempre mais vida real que vilão sem ponto fraco. Mas Adalberto é muuuuito canalha, o que conspira a favor da audiência.
A abertura, enfim, dá uma folga à bossa e à fossa, com samba em Gonzaguinha, gravação original de quem acredita na rapaziada. Na tela, os takes de cidade maravilhosa vistos nas aberturas das duas últimas novelas do horário dão vez a 1.500 maquetes de barracos de favela, sem pretensões outras que não sejam expor o belo trabalho do artista plástico Sérgio Cezar.
Tantos foram os chutes na bolsa de apostas para o final de “Paraíso Tropical”, que a maior surpresa do último capítulo foi a paternidade de Ivan (Bruno Gagliasso) e a morte do personagem, logo em seguida.
Diacho, o sujeito, sacaneado a vida toda pelo irmão de pela mãe postiça, morre bem na hora em que teria acesso a uma das maiores fortunas do país? Filho de um sujeito louco pra ser pai? Cruel, muito cruel.
Bem disse Gilberto Braga na pista-mor: vocês vão se surpreender mais com o motivo que resultou na morte de Taís (Alessandra Negrini) do que com o assassino em si. Quem diria que o Ivan era filho de Antenor Cavalcante (Tony Ramos)?
E a audiência não queria exatamente um final feliz para Olavo (Wagner Moura) e Bebel(Camila Pitanga). Ela, sim, contava com a torcida da platéia, mas o cara não, né? Sujeito invejento, escroque, sem qualquer chance de regeneração. Nem final de novela daria jeito nele.
Bebel representou bem o circo das CPIs, virou amante de senador em Brasília e estava felicíssima com o assédio dos flashes. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência, já avisam todas as novelas naqueles créditos que percorrem a tela ao final de cada capítulo.
Foram 56 pontos de média de audiência, segundo dados da audiência preliminar do Ibope na Grande São Paulo. Um recorde para “Paraíso”, que superou o final de “Páginas da Vida”, novela anterior, de Manoel Carlos, encerrada com 53 pontos. De cada 100 televisores ligados, 80 estavam sintonizados na Globo durante o horário do capítulo final de “Paraíso”. É gente à beça (cada ponto equivale, em São Paulo, a 54,4 mil domicílios com TV). Mas “Belíssima”, por exemplo, que antecedeu “Páginas”, rendeu 60 pontos em seu último capítulo.
Por falar em Manoel Carlos, ninguém me tira da cabeça que a Nelly, personagem de Beth Goulart deslumbradona pelo modo de ser e viver do Leblon, era um grande sarro de Gilberto Braga e Ricardo Linhares à obsessão do outro autor pelo dito bairro, cenário de todas as novelas de Maneco e onde uma militante teve o dedo arrancado a dentadas nas últimas eleições.
No mais, por “Paraíso”, já sofro crise de abstinência pelas saudades a vir de: Daniel Dantas, Chico Diaz, Tony Ramos, Wagner Moura, Camila Pitanga, Marco Ricca e Hugo Carvana.