O debate em torno da violência policial não se restringe ao tema dos direitos humanos. Hoje o Estado publicou matéria sobre o recrudescimento dos casos de resistência seguida de morte na polícia paulista. Inúmeras injustiças aparecem, mas o debate vai além. Policiais impunes, que matam sem correr grandes riscos de sanções, costumam se sentir intocáveis e acabam agrupando-se em quadrilhas poderosas. Citamos algumas delas:
Em São Paulo, só nos dois últimos anos, vieram à tona o caso de dois grupos de policiais que, além de matar, atuavam em parceria com traficantes, ladrões, empresários de caça-níqueis, entre outras atividades criminosas. Os Matadores do 18º Batalhão ficaram conhecidos depois do assassinato do coronel José Hermínio Rodrigues, que comandava o patrulhamento na zona norte, em 16 de janeiro do ano passado. Doze policiais foram apontados como suspeitos de integrar o grupos. O coronel foi assassinatos depois de iniciar investigação sobre o grupo, que havia cometido outros assassinatos e chacinas na região.
No começo do ano, conhecemos o grupo de extermínio conhecido como Highlanders que, segundo investigações, era formado por 14 policiais militares do 37º Batalhão. Eles foram acusados de obrigar menores infratores a roubar para a organização criminosa na região do Capão Redondo, zona sul. Também foram denunciados pela prática de extorsões a traficantes de drogas e procurados pela Justiça. Segundo a Polícia Civil, após a prisão dos PMs, os homicídios na área de abrangência da Delegacia Seccional de Taboão da Serra, onde os corpos das vítimas eram abandonados, caíram 50%.
No Rio de Janeiro, estudo do Núcleo de Pesquisa das Violências (Nupevi) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) as milícias já dominam mais favelas no Rio do que qualquer das facções de traficantes de drogas. A pesquisa mostrou que 41,5% das 965 favelas existentes no Rio estavam sob o domínio de milicianos até o final de 2008. As milícias são formadas por policiais e ex-policiais.
No Espírito Santo, a Scuderie Le Coc, associação com registro em cartório da qual faziam parte centenas de policiais civis, militares e federais, funcionários da administração pública, promotores de Justiça, juízes, desembargadores, políticos, empresários e banqueiros do jogo do bicho, foi responsável por inúmeros assassinatos no Estado entre os anos 1980 e 1990. Grupos de extermínio de policiais militares também foram formados em Estados nordestinos como Pernambuco e Alagoas.
Veja também artigo de Miguel Reale Júnior sobre o tema. Em resumo, controlar as forças policiais não ajuda apenas a evitar injustiças contra aqueles que são vítimas preferenciais da violência da polícia – negros, pobres e moradores da periferia. Mais cedo ou mais tarde, todos tornam-se vítimas dessa ameaça.
O cientista político e antropólogo carioca Luiz Eduardo Soares, de 55 anos, acumula a experiência de gerir a máquina de segurança no Brasil e em dois Estados brasileiros. Já foi subsecretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro entre 1999 e 2000 e no ano seguinte ajudou nos trabalhos da Secretaria de Municipal de Segurança de Porto Alegre. Em 2003, no começo do Governo Lula, assumiu a Secretaria Nacional de Segurança Pública, cargo que ocupou por dez meses. Foi ainda por três anos secretário Municipal de Valorização da Vida e Prevenção da Violência em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Em 2007, em Caruaru (PE), durante um seminário sobre segurança, organizado pelo então secretário municipal de Defesa Comunitária da cidade, Rodney Miranda, os dois combinaram escrever um livro, que contaria também com a participação do juiz Carlos Eduardo Ribeiro Lemos. Miranda e Lemos contariam a experiência que viveram em um dos momentos mais conturbados de combate ao crime no Estado e que resultaria no assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho no dia 24 de março de 2003. Nessa época, Miranda era secretário de Segurança Pública do Espírito Santo (posto que deixou em 2005 para ocupar novamente dois anos depois) e o juiz Carlos Eduardo Ribeiro Lemos trabalhava com Martins na Vara de Execuções Penais. Soares contou ao blog Crimes no Brasil suas impressões sobre o Espírito Santo.
Como o senhor entrou em contato com a realidade do Espírito Santo?
Eu cresci passando minhas férias no Estado. O meu tio viveu lá 55 anos, assim como minha avó. Passava férias no Estado, em cidades como Guarapari, Vitória, Cachoeira do Itapemirim. Por conta das viagens e contatos familiares eu acompanhava com muito interesse as notícias sobre o Estado. Nós que somos da área de segurança temos muito interesse pelo Espírito Santo porque a partir de certo momento tornou-se uma síntese do que havia no Brasil em termos de crime organizado.
O que levou a isso?
O Capitão Guimarães (ex-bicheiro do Rio de Janeiro), a Scuderie Le Cocq (extinta judicialmente em 2004, composta de mais de 800 associados e alguns deles estiveram envolvidos em dezenas de crimes como tráfico de drogas, homicídios, jogo do bicho, roubo de carros e sonegação de impostos ), o (ex-deputado e presidente da Assembleia) José Carlos Gratz são peças importantes para entendermos o que aconteceu lá. O Gratz era o homem forte do Capitão Guimarães. Sempre houve uma certa promiscuidade entre o submundo fluminense e o submundo capixaba. Ali no norte fluminense nós já estávamos perto de Vitória. Quando a vida ficava mais complicada para os bicheiros do Rio de Janeiro, a fragilidade das instituições do Espírito Santo favorecia a ida deles para lá. O Espírito Santo era uma espécie de continuidade do Rio de Janeiro, com menos Estado do que no Rio.
Quais as características da sociedade capixaba que permitiram o crime florescer por lá?
O Espírito Santo foi uma espécie de enclave intermediário onde havia uma combinação do Brasil moderno com o Brasil tradicional. O Estado agregava características do mundo rural e passa a viver a partir da década de 1970 e 1980 o ritmo industrial que acabou sendo vivido pela nação durante o Milagre Brasileiro. Dessa maneira, o capitalismo moderno se afirmou, avançou de forma mais ou menos acelerada em algumas áreas, em um meio rural ainda forte, com marcas e a influência de governos vindos da República Velha que persistiam em enclaves institucionais.
A própria força da pistolagem é um efeito disso, certo?
Para mim o grande sintoma desse hibridismo capixaba é a pistolagem, que vem associada ao crime organizado. Porque crime organizado eu diria que é mais típico do mundo moderno. Você tem instituições do Estado fortes, porém porosas e permeáveis à apropriação e incorporação do crime. Penetram em instituições públicas, mas não matam os políticos, como ocorria no Espírito Santo. Essa prática é típica do coronelismo da República Velha, que persiste no nosso século a ponto de ser objeto inclusive de tratamento cultural, no cinema novo romance realista e regionalista.
Pistolagem que ainda é forte em alguns estados nordestinos…
No Nordeste, a pistolagem prevalece onde a política é ainda do coronel, do poder local, autônomo, que engloba o Poder Legislativo, Judiciário e Executivo. Ao mesmo tempo a polícia, gerador da normatividade, cumpre essa multiplicidade de papéis se associando ao compadre, aos poderes religiosos locais. Nesse quadro social a presença da pistolagem é muito forte e o fato de a gente encontrar a pistolagem no Espírito Santo é prova de que esses elementos da política tradicional ainda persistem. Curiosamente, no caso do Alexandre, quem comanda e contrata os pistoleiros são um juiz, um coronel da PM e um ex-policial civil.
É possível no Brasil comparar outros estados com o Espírito Santo?
No Espírito Santo, o que é peculiar não é cada fato em si. Mas a gravidade e a escala em que se realiza. E a profundidade em que se infiltra no aparato do Estado. Com contatos diretos com a população, de forma demagógica até com a ajuda de igrejas. Você imagina só: tem o pastor que é também coronel, deputado, ligado a certo setores econômicos, com os quais negociam propriedades de terra e fazem especulações imobiliárias, negócios se expandindo, políticos se firmando, discursos diretamente ligados a comunidades, isso tudo sendo capaz de acuar o Estado.
Quais são pontos importantes do crime no ES que são reproduzidos nos outros estados?
Corrupção de agentes públicos, representantes de instituições corruptos, policiais, políticos, vinculação deles com práticas criminosas você vai acompanhar em outros estados. No Rio de Janeiro é típico com as milícias. A politização dessas articulações você também vai encontrar em todas as partes, em diferentes escalas e graus. Contratações. Há casos isolados de contratações. Você tem em São Paulo certamente corrupção, mas talvez em uma escala muito menor desse poder político que se fortalece e se autonomiza, vinculado a práticas regulares de crimes, envolvendo contratações e mortes a soldo. Por outro lado você dificilmente vai ter em São Paulo alguém envolvido numa trama que mobilize Judiciário, Legislativo, Executivo e instituições policiais, mais contratações de assassinos na ponta. Dificilmente você vai ter uma articulação desse tipo tomando conta do Estado. Você tem mil defesas para o Estado e para a sociedade, muito mais sofisticadas e diferenciada. É muito mais difícil você se apropriar e usurpar esse poder.

Em 1999, na Polícia Federal, aos 35 anos, Rodney Miranda prendeu o ex-deputado estadual maranhense José Gerardo de Abreu, acusado de organizar um esquema de roubo de cargas e de liderar o crime organizado no Maranhão. Descobriria meses depois a ligação entre Gerardo e o ex-deputado federal pelo Acre, Hildebrando Pascoal, com o narcotráfico internacional.
Em fevereiro de 2002, foi a vez do ex-presidente do Senado, Jader Barbalho, preso em Belém (PA) pelas algemas do delegado, acusado de participação em fraudes com recursos do Fundo de Investimentos da Amazônia (Finam). Barbalho ficou só cinco horas detido. “O pior é que nunca mais vi aquelas algemas. Foram com ele”, lembra-se Miranda.
Ainda em 2002, em março, Miranda deu ordens para tirar a foto dos maços que somavam R$ 1,3 milhão na devassa feita à empresa da então candidata a presidente Roseana Sarney. “Não houve intenção política. Era preciso provar a quantidade do dinheiro que encontramos. Podem me chamar de tudo, menos de ladrão”.
Mesmo depois da sequência de ocorrências que o colocaram diante das entranhas do crime no Brasil e da política, Miranda conseguiu ficar em estado de choque quando chegou no Espírito Santo para assumir a Secretaria de Segurança Pública e de Defesa Social a convite do governador Paulo Hartung (PMDB). O ano era 2003 e a a pasta tinha somente 26 funcionários, contando contínuos e secretários de segurança. No orçamento, havia R$ 100 mil previstos para investimentos na área.
Para piorar, nem bem havia desempacotado as mudanças, quase foi assassinado, no mesmo dia em que o juiz Alexandre Martins de Castro Filho foi morto a tiros. Era 24 de março de 2003. Castro Filho investigava uma organização criminosa que se infiltrara em diferentes poderes estaduais – do Judiciário à Polícia.
Seis anos depois, o assassinato do juiz e as mudanças na pasta causaram forte impacto no Estado. O crime contra Castro Filho levou à condenação de seis pessoas, entre elas dois sargentos da Polícia Militar. Aqueles que durante a investigação foram apontados como mandantes do crime ainda aguardam o julgamento em liberdade. Entre eles um coronel reformado, um ex-policial civil e um juiz.
Este ano, Miranda lançou o livro Espírito Santo (Editora Objetiva), escrito em parceria com o juiz Carlos Eduardo Ribeiro Lemos e o antropólogo Luiz Eduardo Soares, onde revelaram a simbiose entre o crime organizado e as instituições no Estado. Os autores contam, entre episódios assombrosos, como os integrantes da quadrilha conseguiam colocar detentos em liberdade para executar aqueles que eram considerados obstáculos às ações criminosas do grupo.

Em 2005, Miranda deixou a pasta. Foi secretário de Segurança de Pernambuco e depois da cidade de Caruaru, no mesmo Estado. Voltou ao Espírito Santo em maio de 2007. Com a publicação do livro, na semana passada, 14 coronéis da Polícia Militar ameaçaram se rebelar, acusando o secretário de manchar a imagem da corporação. Problema que o secretário diz estar sob controle. “Foi uma situação interna que os oficiais tentaram levar para o plano institucional. Estou evitando falar sobre isso porque, como secretário, eu não posso brigar para baixo”, diz.
Com investimentos de R$ 100 milhões previstos para o ano que vem, mil vezes mais do que quando assumiu, Miranda diz que agora enfrenta um novo desafio: combater a expansão do crack, epidemia que avança para o interior do Estado. “Ainda estamos atentos ao poder de pessoas que se locupletaram com o crime organizado no Estado. Mas o que mais preocupa no momento é a violenta guerra entre quadrilhas por território. Calculamos que, atualmente, 70% dos assassinatos estejam relacionados à droga, principalmente o crack.”
Em 2008, o Espírito Santo ficou em segundo lugar entre os Estados mais violentos do Brasil, com 56 assassinatos por 100 mil habitantes, atrás somente de Alagoas. “Nossa taxa já foi de 80 por 100 mil”, diz.
Para ajudar a compreender a estrutura do crime no Espírito Santo e no Brasil, Miranda concedeu a seguinte entrevista ao blog Crimes no Brasil.
Como o senhor começou na polícia?
Quando eu tinha 23 anos entrei para a Polícia Civil. Fui dez anos agente em Brasília e dois anos delegado. Prestei concurso para Polícia Federal, onde estou há dez anos. Sempre sempre gostei de trabalhar com investigação, na rua.
Quais os principais trabalhos que fez na Polícia Federal?
Fui trabalhar em 1999 na Diretoria de Repressão ao Crime Organizado na sede da Polícia Federal e atuava no Brasil todo. Depois fui convidado a participar de um Núcleo de Combate à Impunidade. O curioso é que fui ajudar justamente a então governadora do Maranhão, Roseana Sarney, com quem depois eu teria problemas. O ministro pediu apoio para que a gente pudesse investigar o ex-deputado federal José Gerardo. Era uma figura extremamente perigosa que andava ameaçando autoridades do Governo e já tinha mandado matar muita gente. Eu o comparo ao José Carlos Gratz (ex-presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, preso em 2003, acusado de ser uma das lideranças do crime organizado no Estado). Chegamos no Maranhão e conseguimos estruturar todos os procedimentos que resultaram na cassação e no pedido de prisão de Gerardo. Eu vim prendê-lo em Brasília. Fechamos o cerco, ele simulou um suicídio, ficou internado no Hospital Brasília, mas dei voz de prisão e o caso acabou tendo grande repercussão nacional.
A gravidade dos crimes se repetia em outros Estados?
Sem dúvida. Fomos logo depois para o Acre por conta de ameaça ao ex-governador Jorge Viana. Era uma armação que fizeram contra ele, tinha ex-deputado envolvido e a gente chegou a abortar um plano para matar a filha e um pai dele. Mas tudo de maneira discreta e eficiente. Lá nós descobrimos uma conexão entre Hildebrando Pascoal e Zé Gerardo. Gerardo cuidava de roubo de carro e de carga e trocava isso por cocaína com grupo de Hildebrando.
Tempos agitados…
Sim. Em 2002, participei da prisão do ex-presidente do Senado, Jader Barbalho, em Belém. Eram grande somas de recursos que grupos políticos do Norte e do Nordeste tinham adquirido para obras públicas que não saíram do papel. Nós fomos prendê-lo por ordem de um juiz do Tocantins. Quando eu voltei pra Brasília, Jader já estava solto, em um jatinho voltando para Belém. Mas cumprimos nossa obrigação. E aquela algema que ele ostentou, fez aquela confusão toda, reclamou… Aquela algema era minha. Foram com ele. O pior é que nunca mais vi aquelas algemas.
Ainda houve o caso da Roseana Sarney, certo?
Sim. Logo depois eu participei das buscas no escritório do marido dela. Lá tivemos acesso a um acervo de documentos grande, além do dinheiro, que serviu para instruir uma série de investigações. Uma delas era sobre um projeto de 44 milhões. Eles tinham recebido R$ 22 milhões, estavam para receber outros R$ 22 milhões e tinham feito só um galpão, que na época estava abandonado. Esse dinheiro apareceu por coincidência. Não houve politização, como disseram. Pelo menos da minha parte e da parte da minha equipe. Houve uso político depois, mas isso não é problema nosso. Tanto que a gente foi fazer essa busca numa sexta feira à tarde. Passamos o fim de semana inteiro dormindo na Superintendência com medo do dinheiro sumir. E a foto do dinheiro fui eu que pedi pra tirar porque, se você contar os maços, sabe mais ou menos quanto tem. E nunca foi alegado que sumiu um maço daquele bolo. Pode me chamar de tudo, menos de ladrão. Melhor falar que foi político.
O que era considerado crime organizado para a PF?
Eu gosto muito da definição do Guaracy Mingardi (cientista político brasileiro, ex-secretário adjunto da Secretaria Nacional de Segurança Pública). Ele coloca todos os requisitos, organização, repartição de lucros, mas principalmente por dizer que o crime organizado só ocorre quando existe uma simbiose com o poder público.
Como veio o convite para trabalhar no Espírito Santo?
Quando o governador Paulo Hartung ganhou a eleição, no final de 2002, começou a procurar um secretário que tivesse apoio de uma instituição federal forte e que fosse de fora do Estado. Até mesmo porque o Espírito Santo é um estado muito pequeno, com relações de amizade, parentesco e por isso ele queria alguém de fora. Ele sabia do tamanho do desafio que iria enfrentar por aqui. O Santoro (Subprocurador Geral da República, José Roberto Santo, que em 2002 participou de uma missão especial no Espírito Santo) foi chamado e recusou. Colocou entre outras opções o meu nome. Conversei uma noite só com o governador. Eu não o conhecia, ele me ligou, convidou para ir lá no Senado, foram duas horas de conversa e ele me convidou lá mesmo. Nunca havia pisado no Espírito Santo.
Qual era o tamanho do buraco? Por que o crime entrou nas instituições do Estado?
Tem alguns fatores. Scuderie Le Coc é um deles. Nasceu nos anos 1980 com um propósito positivo. Era uma união de comerciantes que se formou para discutir soluções para apoiar o poder público. Mas se transformou em um poder paralelo. No final dos anos 1980 e começo dos 1990 ganhou força pela prática de homicídios, com participação ativa de policiais e lideranças do Estado. É mais ou menos nessa época que o José Carlos Gratz, que tomava conta dos negócios do Capitão Guimarães, bicheiro do Rio de Janeiro, começa a ganhar força por aqui. O Espírito Santo era o quintal do Capitão Guimarães e o Gratz era o gerente dos negócios dele no Estado. Vai assumindo os negócios aqui, ali, até que entra e chega à Presidência da Assembleia Legislativa e torna-se um verdadeiro primeiro ministro. Autorizava obras, fazia coisas totalmente sem propósito e contou com a omissão de outros poderes e com o conluio do Executivo.
No livro, o senhor conta a história de personagens contemporâneos.
Na história recente temos um coronel reformado, um juiz, acusados de comandar o assassinato do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, que vinham de uma cidade do norte do Estado chamada Pancas, conhecida aqui quando eu cheguei como “O Ninho das Víboras”. A pistolagem sempre foi muito forte por lá. Pancas, Afonso Cláudio, Colatina são cidades que formam um cinturão brabo. Para você ter uma ideia da força da pistolagem no Estado, foi um capixaba daquela região que esteve envolvido na morte da Dorothy (Stang). O assassinato do governador do Acre (Edmundo Pinto, morto em São Paulo em 2002), também teve um capixaba acusado. É uma tradição que vem da época do coronelismo, das grandes lavouras de café que existiam aqui.
Quais as semelhanças do crime no Espírito Santo com outros Estados?
O Espírito Santo é um microcosmo do que acontece no país. Aqui não tem nada demais e nada de menos se comparado ao restante do País. A presença do crime nas instituições pública pode ter tido um grau maior, mas se repete em escalas diferentes em outros Estados.
Apesar de avanços no combate ao crime organizado no Estado, a violência ainda continua no Espírito Santo. Por que?
No primeiro semestre, a gente fechou a 35 e 36 por 100 mil na Região Metropolitana de Vitória. Não sei se a gente vai conseguir segurar no segundo. Estamos tendo muito homicídio no interior. No mês passado, nós registramos homicídios em 28 municípios do interior, coisa que nunca aconteceu. Por causa do crack. O crack está se espalhando. Essa droga é uma praga. Estou alertando para isso faz um ano. Hoje cerca de 70% dos assassinatos são resultados de disputas territoriais envolvendo o tráfico de drogas. A gente tem esse problema. No primeiro governo de Paulo Hartung, nós tivemos que combater a violência urbana, mas tivemos que doar muito da nossa energia até para fazer a reconstrução do Estado e da política de segurança. A gente não pode esquecer do crime organizado, até porque tem muita gente que enriqueceu do patrimônio público que ainda frequenta colunas sociais por aqui. Mas o nosso maior desafio é o mesmo que o do resto do Brasil, o problema do crack, da violência entre jovens e é para isso que está voltado nosso trabalho.
O tráfico se organizou no Espírito Santo? Em São Paulo, o Primeiro Comando da Capital tornou-se atacadista e assumiu quase a hegemonia do fornecimento para as bocas de drogas do Estado.
O tráfico por aqui se encontra ainda numa fase semelhante à vivida por São Paulo nos anos 1990. Temos uma verdadeira guerra por espaço de venda de drogas. Não existem estruturas organizadas como em São Paulo e Rio de Janeiro. Há uma liderança aqui e outra ali. As polícias estão sendo bastante eficientes em combatê-los. Um efeito negativo é que temos vária delegacias cheias. Estamos fazendo grande investimento em penitenciárias, mas parece um saco sem fundo porque a porta de saída é sempre mais lenta.
Quem são os fornecedores de drogas para os pequenos traficantes no Estado?
São médios e grandes que fornecem do Mato Grosso. Eu sei porque a gente estava acompanhando um grande fornecedor e acabamos desarticulando a rede dele aqui. Cada carga que ele mandava a gente pegava um traficante. Depois de um tempo ele ameaçou a gente de morte. Escutamos no grampo. Prendemos ele com apoio da PF. Ele tinha 25 anos. Aqui no Estado, tem grandes recebedores, atacadistas que fazem a distribuição para os pequenos pontos de venda. Esses atacadistas são os líderes. Só que aqui temos umas diferenças. Não existe aqui local onde a polícia não entra. A gente entra em qualquer lugar. Os pontos são mais pulverizados, fracionados. Não existe participação de facções. Em 2003, houve uma tentativa de montar uma facção aqui Primeiro Comando de Guaranhuns. Só que nós conseguimos abortar. Foi até uma das coisas que fizemos em conjunto eu, o (juiz) Carlos Eduardo Ribeiro e o juiz Alexandre (que foi assassinado).
Vocês tem cracolândia?
Tinha uma aqui na ilha do Príncipe, em Vitória. Só que nós montamos uma estrutura, um ponto da PM lá em cima, e o ponto se desfez. Mesmo assim, prédios abandonados, áreas vazias, formam concentração de usuários. Mas não podemos comparar com a realidade de São Paulo. Nossa Capital tem cerca de 400 mil habitantes. Em dimensão, essa nossa cracolândia seria uma esquina em São Paulo. Mas dá trabalho. Nosso total de policial é 10 mil homens.
Como foi a confusão com os 14 coronéis ocorrida na semana passada por causa do livro Espírito Santo?
Foi uma situação interna que os oficiais tentaram levar para o plano institucional. Não era institucional. É particular. Eu estou evitando falar sobre isso porque como secretário eu não posso brigar para baixo. Se tivesse só no plano de discussão entre o autor do livro e os acusados, eu estaria debatendo tranquilamente. Como eu propus debater no Clube dos Oficiais. Mas eles quiseram institucionalizar o problema. Isso não vou fazer.
Como atuar para resolver o problema do tráfico de drogas no Brasil?
Eu vou colocar duas teses que defendo. A primeira diz respeito à Lei 11.343/06, a nova lei antidrogas. Essa lei despenalizou o consumo e na minha opinião ajudou a aumentar a demanda. Isso é uma primeira parte. A segunda é o aumento da oferta de drogas vindas do exterior nos últimos anos. E aí a gente tem uma questão política. Aumentou muito a oferta principalmente vindo das Farcs, na Colômbia, e da Bolívia. Não vamos esquecer que o presidente da Bolívia é cocaleiro. E a gente não pode se iludir que lá só se planta cocaína para fazer chazinho e combater os males da altitude. E também não vamos esperar que ele vá combater a plantação. E sem esse combate à origem e à plantação a gente não tem como segurar na fronteira. É impossível. O tamanho da nossa fronteira, a quantidade de gente entrando e saindo, pode fechar com o Exército, com o que for, que não vai fechar. A única saída que nós temos é fazer acordos bilaterais, que levem esses países a se empenhar na repressão à produção. Porque o que está acontecendo hoje é uma verdadeira derrama de drogas no nosso País. O aumento das apreensões de nada adianta. Nós aqui aumentamos em mais de 100%. Todo mundo tem aumentado a apreensão. Mas mesmo assim o consumo está crescendo. Por que? Está havendo muita oferta. Os nossos acordos de combate bilaterais foram para o saco. Antigamente, os policiais da Bolívia permitiam que a gente fosse lá, eles vinham pra cá, havia trocas de informações. Hoje em dia, isso é feito pela boa vontade dos policiais de lá. Mas não tem apoio governamental nenhum. Em vez de se discutir só gás, petróleo, investimentos, acho que isso deveria ser pauta zero do Mercosul. No Mercosul, para você entrar, tem que ter uma política de prevenção e combate à plantação de drogas.
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2009