Matéria publicada na edição desta terça-feira do Jornal da Tarde pelo repórter Alessandro Lucchetti.
Um forte cutucão da mulher fez Solonei Rocha da Silva acordar assustado no dia da Corrida de Pedestres de São Francisco de Assis, evento já tradicional de Penápolis. Ela havia acabado de ver em sonho que ele chegaria em terceiro entre os corredores da cidade, o que renderia um prêmio de R$ 100. Na véspera, a mulher não o levou a sério quando ouviu que ele pensava em correr e ainda lhe deu bronca. “Você está é maluco. Só joga bola, como é que vai chegar na frente do pessoal que treina pra isso?”.
O peladeiro acreditou no sonho, vestiu às pressas o calção que usava para jogar bola e um tênis de passeio. Até então, sua única experiência em provas de rua havia sido na primeira corrida Yasunaga, uma volta de 3,3 km em torno do curtume onde trabalhava. Como correu com chuteiras, no dia seguinte sentia tantas dores nas pernas que não conseguia trabalhar.
Solonei cobiçava o prêmio oferecido ao terceiro melhor penapolense. Havia decidido sair da casa da mãe para morar com a mulher numa casa alugada e precisava de R$ 80 para comprar talheres. Mesmo parando uma vez para fazer um inadiável xixi, o objetivo, o degrau mais baixo do pódio dos locais, foi atingido. Depois de superar as dores no baço que acometem corredores inexperientes, embalou e tentou buscar o mais rápido da cidade, Adejamir, o Mica. Não foi possível, mas aquele pódio foi o início de uma boa carreira.
Sem condições de parar de trabalhar para correr, Solonei prestou um concurso para trabalhar na coleta de lixo de Penápolis. Foi aprovado e passou a usar as corridas atrás do caminhão e as fugas dos cachorros como treinamento. Deu certo. No ano passado, fez um teste em Bragança Paulista para integrar a equipe do Pinheiros. Foi aprovado, mas como não conseguiu uma licença não remunerada para preservar a vaga conquistada em concurso, adiou o projeto por um ano. De tanto tentar, acabou conseguindo o apoio do prefeito da cidade. Com a garantia de que teria seu emprego de volta caso a carreira não desse certo, mudou-se para Bragança.
Em novembro do ano passado, chegou a ter dúvidas de seu talento ao correr os 10 km da Prova da Assembleia Legislativa de São Paulo em 30min47, o que lhe valeu o sexto lugar. No mesmo mês, o quinto lugar na Corrida Pan-Americana, no Rio, com 30min20, deu a ele a indicação de que estava no caminho certo. Ficou atrás apenas de um brasileiro e de três quenianos.
Sem mordida
Em abril deste ano, o tempo obtido na vitoriosa participação na Maratona de Porto Alegre (2h15min45) o colocou na segunda colocação do ranking brasileiro da prova, atrás apenas de Marílson Gomes do Santos, que tem no currículo duas vitórias na Maratona de Nova York. Uma lesão, no entanto, o impediu de correr os 42,195 km de Amsterdã. Para piorar, Jean Carlos da Silva correu na Holanda em 2h15min24 e o jogou para a terceira colocação entre os brasileiros. Mas nada que desanime um corredor que nunca foi pego por cachorro algum.
Ele deixou um grupo de fiéis torcedores em Penápolis, os companheiros do caminhão de lixo, que sempre lhe telefonam para dar força. “Acham que a gente não é feliz como coletor, mas nossa autoestima é muito grande. Damos muita risada debaixo de sol e de chuva, o que nos une bastante.”
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As inscrições para a São Silvestre estão na reta final. A 86.ª edição da mais tradicional prova pedestre do País já tem 90% das 21 mil vagas preenchidas, segundo a organização do evento. Então, os atletas interessados devem mesmo correr. O pelotão geral deve acessar o site oficial do evento e preencher a inscrição.
O valor é de R$ 95 até esta terça-feira. O percurso de 15 quilômetros é o mesmo do ano passado. A largada acontece em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo), passa pelas históricas ruas do centro e tem a chegada no prédio da Fundação Cásper Líbero, na mesma Avenida Paulista.
Tags: corrida de rua, inscrição, São Silvestre
Lá em 1997, no seu primeiro título de Roland Garros, Gustavo Kuerten, sozinho, inconscientemente, aumentou a venda de bananas no mundo. No intervalo dos games, Guga dava algumas vorazes mordidas na fruta com a intenção de se prevenir de um dos maiores pesadelos dos atletas: a cãibra.
Pois em um bate-papo com especialistas no Meeting Centauro de Medicina Esportiva, realizado quinta-feira, na loja do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, caiu o mito para muita gente. A banana, rica em potássio, em nada previne as contrações involuntárias dos músculos.
“Pensar que com potássio não existirá cãibra é um erro. Isso simplesmente não tem relação. A cãibra se deve muito mais ao estresse muscular e a desidratação. É uma resposta do músculo”, explicou Gustavo Magliocca, médico do esporte do alto rendimento do Pinheiros.
As causas dessas terríveis dores então estão ligadas a grandes perdas de sódio e líquidos. Uma baixa na quantidade ideal dos minerais presentes, sob tensão e movimento de corrida, por exemplo, podem causar a cãibra – que também em nada tem a ver com a produção de ácido lático, como escrito até em livros escolares.
“Sou fã número 1 do Guga, mas alguma coisa de errado ele fazia. Faltava preparo físico em suas partidas. Se ele tivesse mais tecnologia ao seu dispor, certamente teria mais tempo de carreira”, analisou Marcos Paulo Reis, preparador físico e ex-técnico da seleção brasileira de triathlon.
Não existe uma receita para prevenir as contrações, mas alguns cuidados são necessários. É preciso se acostumar a beber líquidos antes, durante e depois do exercício, tentar sempre repor seus níveis de sódio e, claro, descanso do músculo. Além disso, o acompanhamento especializado é fundamental.
“A gente vê jogadores de futebol fazendo errado quando sofrem de cãibra. Logo caem no campo e pedem para outro alongar. É errado. O ideal é primeiro relaxar o músculo, manter a calma e, só depois, pensar em exercício”, disse Mariana Klopfer, membro do laboratório de nutrição e metabolismo da EEFE – USP.
Tags: alimentação, cãibra, medicina esportiva, treino
Corredores da zona oeste de São Paulo tiveram uma grata surpresa nesse domingo de Virada Esportiva: a Sumaré, importante avenida da região, estava fechada para os carros, livre para os atletas. O evento acontece uma vez por ano, mas faz a alegria dos corredores por proporcionar um exercício mais segura e saudável.
A duração ainda que foi curta, das 10 às 14 horas, e as principais atrações ficavam por conta do rapel de 28 metros de altura pela Ponte da Sumaré – atividade proibida desde 2005 – e da tirolesa de 100 metros de extensão. Ainda assim, os corredores povoaram as pistas sem nem se importar com os possíveis sustos da terrível faixa exclusiva para motos.
Longe de querer entrar na boba rivalidade entre paulistanos e cariocas, o calçadão do Rio de Janeiro ganha um sentido das avenidas da orla, por exemplo. De crianças a idosos todos passeiam tranquilamente.
Em São Paulo, o mesmo acontece com o Elevado Costa e Silva, é verdade. O Minhocão até tem seu charme, mas está longe de ser uma avenida Sumaré, com árvores e parques, tampouco uma avenida Atlântica. Uma troca de lugares fechados para carros seria inviável, então, a melhor saída seria mesmo lutar por mais Viradas Esportivas.
Tags: avenida Sumaré, Minhocão, treino, Virada Esportiva
A ginástica brasileira está em peso na campanha da II Corrida e caminhada com você, pela vida – Doe medula óssea. A prova acontece em 12 de dezembro, na praia de Copacabana, com a missão de conscientizar a população da importância da doação.
Jade Barbosa, bronze no Mundial de Ginástica, em Roterdã, na Holanda, já vestiu a camisa do evento. Daniele e Diego Hypolito e Henrique Dias, todos ginastas, também chamaram a atenção para a importância da doação voluntária, ação que pode salvar vidas.
A organização promete uma unidade móvel do Hemorio para os interessados em se tornarem doadores. A inscrição para a prova de seis quilômetros custa R$ 35 e os recursos serão revertidos para projetos realizados pela Fundação do Instituto Nacional do Câncer (Inca).
Pronto. Acabou a aposentadoria de Haile Gebrselassie. O etíope ficou exatos oito dias com o tênis pendurado, desde o decepcionante desempenho em Nova York. A maratona volta a contar com a simpatia de um dos maiores fundistas de todos os tempos.
“Depois de alguns dias em casa, pude tomar algumas decisões. Correr está no meu sangue e eu decidi continuar competindo”, disse Haile em seu Twitter. “Meu anúncio em Nova York foi minha primeira reação depois do desapontamento da corrida. Quando meu joelho melhorou, voltei e focar minha próxima corrida”, completou.
A expectativa agora é para que Haile dispute Londres 2012, quando terá 39 anos. A medalha da maratona olímpica é um antigo sonho do corredor que venceu tudo dos 1,5 aos 42 mil metros.
Mas a insistente dor no joelho preocupa seus fãs – e também empresários, é bom que se diga. “A maratona de Londres será muito dura, mas é uma medalha que ele não pode descartar. Se terminar a carreira com um bronze, já seria fantástico”, disse Jos Hermens, responsável pela carreira do recordista mundial.
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Correr por aí exige um tênis adequado. Não tem jeito. A escolha do melhor par para a prática esportiva, no entanto, pode ser um desafio. Para prevenir lesões de joelhos e de tendões dos pés as dificuldades são muitas, mas são explicadas por Valéria França, na edição deste sábado de O Estado de S. Paulo. Confira a matéria “Tênis certo, corrida saudável”.
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Faltam 50 dias para a 86.ª edição da São Silvestre. Neste época do ano, os amantes da corrida intensificam a preparação para a mais tradicional prova pedestre do Brasil, disputada no mítico 31 de dezembro. Mas o sonho de cumprir o desafio acaba pegando de surpresa mesmo os corredores mais experientes por conta de uma carga exagerada de treinos.
Para cumprir os 15 quilômetros da prova pelas ruas de São Paulo não existe uma receita. Cada corpo reage de uma maneira. Comum mesmo são as lesões certeiras devido aqueles “minutinhos a mais na esteira mesmo” de que inclusive o tonto aqui foi vítima. Pronto, uma lesão muscular na coxa direita e toda uma programação especial comprometida.
Além de todas as fases de treinamento (base, treino e competição) são necessários também as avaliações médicas, uma experiência em prova de 10 quilômetros e, principalmente, fidelidade à planilha de treino.
Prazo. As inscrições para a São Silvestre vão até 30 de novembro ou até quando o limite máximo de 20 mil atletas for atingido. Os valores variam de R$ 75 a R$ 100 para o pelotão geral, masculino e feminino.
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Haile Gebrselassie anunciou sua aposentadoria das corridas de rua no domingo. Três dias depois, seus agentes dizem que o atleta pode reconsiderar a decisão. Entre interesses contratuais e a própria vontade do campeão, as dores no joelho. Afinal, o que estaria acontecendo com o etíope?
Haile abandonou a Maratona de Nova York no quilômetro 26 devido as insistentes dores no joelho. Dali mesmo, aos prantos, estava certo da sua aposentadoria. Dias antes, no entanto, tentava esconder o fim de uma carreira que contempla marcas históricas no atletismo.
“Estamos tratando de convencê-lo de poder ver cumprido o sonho de ser campeão da maratona olímpica ou, ao menos, subir no pódio de Londres”, disse Miguel Angel Mostaza, um dos representantes do atleta. “O anúncio da sua retirada foi uma reação a um momento quente, fruto da dor por não conseguir realizar o seu trabalho”, insistiu.
Em 2012, Haile terá 39 anos, acima da média para um corredor de alto nível em longas distâncias. O corredor não parece lidar muito bem com a aposentadoria, mas também não quer mais todas as exigências da profissão. Adeus natural e até digno quando as dores não deixam. Ainda assim, a volta não é impossível.
“Pode acontecer como com esses toureiros que decidem se retirar depois de sofrer uma chifrada e depois voltam às touradas passados sete meses. Temos que animar Gebre para que ele siga”, disse o manager espanhol.
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Abebe Bikila puxou a fila ainda nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960. O etíope, que teve a história contada em O Atleta, despertou o interesse de todo o continente africano para as corridas de rua. Um salto no tempo, muitas outras conquistas e o compatriota Haile Gebrselassie continuou a escrita. Mas a aposentadoria chegou para ele. O curioso é que ela chega no mesmo dia em que surge um novo candidato a imperador no seu país: Gebre Gebremariam, vencedor da Maratona de Nova York.
Aos 37 anos, Gebrselassie sentiu nos joelhos o desafiador percurso da última das Maiores Maratonas do Mundo. Por volta do quilômetro 26, não foi a perseguidora tendinite que falou mais alto. Foi a certeza de que toda uma história de sucesso não poderia ser apagada por um rendimento sequer aquém do esperado. Foram dois ouros olímpicos nos 10 mil metros (Atlanta 1996 e Sydney 200), 27 recordes mundiais (dos 3.000 metros à maratona), quatro campeonatos mundiais e 2h03min58 na Alemanha. Teve dignidade, mesmo tendo relutado em pendurar os tênis.
“Nunca pensei em aposentadoria. Mas pela primeira vez, este é o dia. Deixe-me parar e fazer outros trabalhos depois disso. Eu me esforcei bastante para vencer esta corrida, mas não deu certo. É hora de sair e dar oportunidades para os jovens”, disse Haile.
Novato, sem nenhum título de expressão até então, Gebremarian está longe de feitos como de seus compatriotas Haile e Bikila. Talvez, e até mais provável, nem nunca chegue aos pés dos dois. Mas se o ídolo de toda uma nação pôde parar com tranqüilidade é também por conta do feito de mais uma página de sucesso na história do atletismo na Etiópia.
É o tal do legado olímpico. Um tanto às avessas, por competência e destino dos atletas, mas com uma certa dose de inspiração e olhar dos ídolos.
O brasileiro. Marilson Gomes dos Santos sofreu com o frio de 4 graus Celcius na hora da largada. Ainda assim, esteve o tempo todo no pelotão de frente e terminou em uma honrosa sétima colocação. Ele era o único em Nova York que corria pelo terceiro título da prova.
“Das vezes em que competi aqui, esta foi a prova mais fria”, disse o campeão de 2006 e 2008.
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