A contusão do goleiro de Rafael, evidentemente, não estava no programa do técnico Mano Menezes. Mas pode trazer uma consequência bem maior do que o corte em si.
O problema é que, agora, o Brasil terá, na Olimpíada, dois goleiros realmente bons tecnicamente, mas que quase não jogam.
Neto, o novo titular, entrou em campo apenas cinco vezes nos últimos 18 meses, defendendo a Fiorentina. E na própria seleção, chamado diversas vezes, ainda não jogou.
Gabriel, o reserva, foi contratado pelo Milan no final de maio para ser terceiro goleiro e ainda não jogou de fato. E, quando estava no Cruzeiro, passava a maior parte do tempo assistindo Fábio atuar.
Como de todas as posições no futebol a de goleiro é a que mais exige ritmo de jogo…
De qualquer maneira, repito, bons tecnicamente eles são.
Fator positivo neste problema de última hora? Só se for baixar um pouco a bola da seleção, que nunca antes na história dos Jogos Olímpicos foi considerada tão favorita ao ouro como agora.
Ufanismo e interesses comerciais à parte, o mais correto seria dizer que a seleção brasileira é uma das favoritas ao ouro. Espanha e Uruguai não devem ser desprezadas.
Mesmo porque, se a medalha dourada não vier, não será o fim do mundo. Mas, do jeito que se anda criando expectativa com essa seleção, se ocorrer um tropeço as cobranças serão tantas que podem atrapalhar a preparação para o que realmente interessa, a Copa de 2014.
Já que não é possível evitar que jogadores da seleção olímpica se encontrem na concentração com empresários, dirigentes de clubes interessados, médicos e afins, como havia prometido o presidente da CBF, José Maria Marin, coube ao técnico Mano Menezes encontrar a solução.
Determinou que jogadores que estão no meio de negociações resolvam sua vida clubística até o dia da estreia da seleção na Olimpíada – 26 de julho, contra o Egito.
Decisão sábia e ponderada.
Mano sabe que, além de inevitável, não é justo impedir ums jogador de fechar um bom contrato, mesmo porque oportunidades de ouro podem não voltar a aparecer.
Thiago Silva e Oscar já estão “resolvidos” e Lucas, Hulk e o goleiro Rafael, entre outros, ainda têm chance de se transferirem de clubes.
O treinador não quer ninguém fora do foco, pois isso pode atrapalhar o desempenho do time. Mas sabe que jogador insatisfeito e frustrado também atrapalha.
Tomou a melhor decisão. Com isso, mostra autoridade, ganha respeito do grupo e melhores condições de trabalho. Bola dentro.
A seleção nem bem chegou a Londres e o meia Oscar foi liberado para fazer exames médicos do Chelsea. Exatamente como eu previra, modestamente, no post anterior – de algumas horas atrás.
Estava na cara que, depois de permitir que um médico do Paris Saint-Germain fosse ao hotel em que a delegação estava no Rio para examinar Thiago Silva, outros jogadores teriam o mesmo direito.
O Chelsea não foi até a concentração do Brasil nos arredores de Londres. Mas Oscar foi ao encontro dos médicos do Chelsea.
Na prática, dá na mesma.
E seria mesmo injusto impedi-lo de cuidar de sua vida.
Resta saber, agora, se José Maria Marin conseguirá fazer valer sua disposição de não deixar empresário entrar na concentração brasileira. Prometeu….
Dois meses atrás, o presidente da CBF, José Maria Marin, ao justificar viagem que faria dias depois à Inglaterra, disse que um de seus objetivos era verificar o local onde a seleção brasileira ficará concentrada. “Quero garantir que empresários não entrem no local, para evitar a perda de foco por parte dos atletas”, bradou.
Pois bem, a seleção está desembarcando em solo inglês e é hora de ficar atento. Será o desejo de Marin cumprido num momento em que dois clubes ingleses, Chelsea e Manchester City, querem dois jogadores da seleção, Oscar e Lucas?
É de imaginar, até pelos precedentes, que não são poucos, que os dois garotos serão procurados por agentes ingleses. E pelos seus agentes também, visto que eles, principalmente o que cuida de Lucas, não vão perder negócio só porque Marin decidiu “embaçar”.
Até porque, em tempos de internet, telefone celular e “que tais”, não é preciso a presença física de alguém para negociar um contrato. Conversa-se virtualmente e, se for o caso, assina-se depois.
É o que será feito se Marin fazer mesmo valer sua intenção de não deixar entrar corpo estranho na concentração.
Algo que eu duvido irá acontecer. Mesmo porque foi o próprio Marin que convidou vários presidentes de federação estadual para ir a Londres durante a “festa”, ops! Olimpíada. E eles certamente desfilarão pela concentração.
Querem corpos mais estranhos?
Além disso, no sábado um médico francês foi ao hotel onde a seleção estava hospedada, no Rio realizar os exames médicos que permitiram a Thiago Silva oficializar sua ida ao Paris-Saint Germain.
Não era empresário, mas era um corpo estranho à delegação.
Ou seja, se for necessário, Oscar e Lucas -e outros jogadores também, pois clubes italianos, por exemplo, ainda não esqueceram do goleiro Rafael – reivindicarão o mesmo tratamento. Será justo que tenham.
Só espero que, caso a medalha de ouro não venha, tais visitas, se ocorrerem, sejam incluídas no rol de desculpas para o “fracasso’. (Fracasso? só se for por conta de interesses comerciais; fracasso esportivo para o futebol brasileiro de seleções é um só, não ganhar a Copa do Mundo.)
Mesmo porque, convenhamos: em tempos de profissionalismo, jogador que perde a concentração por conta de uma negociação, por mais euros, dólares e libras que a envolvam, não merece jogar na seleção brasileira.
Minha saudosa mãe dizia que meu primeiro ídolo no futebol foi Vavá. Vibrava a cada gol do Brasil no Mundial de 1962 e achava que todos eram feitos por ele, o Leão daquela Copa.
Como ainda estava nas fraldas e mal começava a falar, é claro que não me lembro. Mas acho que Vavá foi meu primeiro ídolo pela sonoridade do nome – Pelé praticamente não jogou no Chile.
O que me lembro é que um dos meus primeiros ídolos no futebol foi Gerson, o Canhotinha de Ouro. Já estava um pouco mais crescidinho no final da década de 1960 e início da seguinte e recordo que gostava dele não apenas por seu talento e habilidade.
O fato de Gerson ficar quase seis meses para errar um passe – como se dizia à época – me encantava, evidentemente. Mas me encantava muito mais sua visão de jogo, sua capacidade de pensar, de organizar o time em campo.
Cerebral.
Bom, esses cinco parágrafos desinteressantes sobre minha infância – esse “nariz de cera” como se diz no jargão jornalístico -, eu usei para comentar sobre alguém que, achei tempos atrás, seria o cérebro da seleção brasileira na Copa de 2014. E já começo a não achar mais: Paulo Henrique Ganso.
Logo que surgiu, Ganso me deixou empolgado com sua facilidade de ler o jogo, de ditar o ritmo, de comandar as ações. Certa vez, me perguntaram sobre quem eu preferia, Ganso ou Neymar.
A resposta: “Neymar é magia, é espetáculo. Mas Ganso é cerebral, e isso é mais raro num jogador de futebol. Por isso, é meu preferido”.
O (pouco) tempo passou e começo a desconfiar que o cérebro de Ganso só atua dentro de campo. Fora dele, deixa-se levar por conselheiros nem sempre bons, por gente desperadada. Demonstra ambição é até sentimentos inúteis, como a inveja.
Ganso está deixando o Santos – ou pelo menos quer fazê-lo – depois que não chegou a acordo salarial na enésima negociação com o clube. Sempre acha que lhe oferecem menos do que merece, mesmo que seja uma boa grana (e um bom plano de carreira).
Esquece-se das seguidas contusões, do longo tempo que ficou fora do time e, portanto, da vitrine. Não quer recuperar o tempo perdido (não por culpa dele, claro), para depois reinvidicar.
Dizem em Santos que ele não se conforma por não ficar, ao menos, próximo do patamar financeiro de Neymar. Prefiro não acreditar nisso. Os dois são “compadres” e inveja é arma dos incompetentes. Algo que Ganso está longe de ser.
Creio mesmo que, mal assessorado por gente ambiciosa, que quer encher os bolsos à custa do seu bom futebol (isso se ele voltar a jogá-lo), Ganso está correndo o risco de ficar apenas na promessa – vamos ser realistas, é isso que ele AINDA é.
Se não começar a pensar também fora de campo, pode não vir a ser o craque que acha que já é. Não é, mas tem potencial para ser. Se o corpo deixar. Vai perder prestígio. E dinheiro.
E a seleção, a minha pelo menos, perderá seu cérebro em 2014. Ou não? Ainda bem que Oscar parece ter colocado a cabeça no lugar.
Em 2005, o Brasil deu show na Copa das Confederações. Arrasou Alemanha e Argentina, levantou a taça, e entregou-se à soberba. Na Copa do Mundo do ano seguinte, o quadrado mágico não foi capaz de esconder sequer uma moedinha entre os dedos e a seleção fracassou.
Em 2009, outra conquista fácil do torneio preparatório, mesmo porque a seleção não enfrentou grandes obstáculos – o único, a Itália, foi facilmente ultrapassado. Isso aumentou a autossuficiência do mascarado time de Dunga e, no Mundial, foi o que se viu.
No próximo ano, teremos outra Copa das Confederações, da qual o Brasil só vai participar porque é o anfitrião de 2014, visto não é campeão mundial nem das Américas. E, apesar de jogar em casa, não é favorito.
Favorita é a Espanha, que, como se pôde ver na final da Eurocopa, continua com a bola toda – e tem gente que ainda implica com um time que para ser chato, só o é quando quer.
Por sinal, creio que a soberba em alguns momentos e a falta de uma maior objetividade no momento de definir as jogadas são os dois únicos defeitos desta Fúria. Itens que nos últimos quatro anos não fizeram falta, aliás.
Até mesmo a Itália pode ser considerada mais bem preparada que o Brasil. É certo que chegou à decisão da Euro aos trancos e barranc0s. Mas mostrou um time estruturado – na decisão, enquanto teve 11 jogadores em campo, fez boa partida, apesar de os espanhóis estarem melhor em campo -, com uma proposta que prevê também a opção pelo jogo ofensivo, o que é surpresa agradável quando se trata do recente futebol italiano.
E a Itália, é quase certo, cruzará o caminho do Brasil na Copa das Confederações.
Mas e a nossa seleção. Bem, só agora chegamos a uma base, depois de ficarmos dois anos aturando as tranqueiras que Mano Menezes insistia em testar. É uma base jovem, olímpica, mas que será o time para 2014, com alguns jogadores mais experientes – e bons, claro.
Ou seja, é uma seleção que dificilmente vai dar um passeio na Copa das Confederações. Tem até grande possibilidade de derrapar. O que poderá ser uma chance de ouro. Aproveitar o mais importante momento de preparação pré-Copa, ganhar experiência e até mesmo tomar uma lambadinha no tamanho justo para evitar euforia desmedida podem ser fundamental para 2014.
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