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Terrorismo Intelectual

Paulo Rosenbaum

27 agosto 2014 | 23:09

 Não compreendo por que ainda me surpreendo. Já deveríamos estar acostumados, mas não se conhecem casos de imunidade natural contra perversões na cátedra. Depois dos vitupérios emanados pela irreconhecível esquerda de antanho, depois do lançamento do modelo “pijama de campo de concentração” da grife famosa, e, finalmente, depois das marchas de alemães e franceses pedindo câmara de gás, redescobrimos que o requinte chegou ao campus. Novas formas de degola a frio desembarcaram no mercado: jihadismo intelectual laico, ou simplesmente, terrorismo intelectual.

Sempre se soube do suporte que intelectuais emprestaram para causas nobres, humanitárias e em defesa da justiça e das minorias oprimidas. Eis o que o sociólogo e militante português Boaventura de S. Santos acaba de publicar artigo numa revista brasileira, no qual evoca e justifica a extinção de um Estado. É claro que não se trata da China, Estado Islâmico ou Andorra. É evidente, ele se refere a Israel. E em quem mais poderia se concentrar? Como outras características as avessas em nossa era, a tradição da elite intelectual tem migrado da ponderação analítica dos fatos — conforme rogava Bertrand Russell — para a redação de peças ideológicas, auto laudatórias e, em alguns casos, contendo grosseiras distorções da razão.

Pudemos registrar a força e penetração da verve antissemita, especialmente entre a esclerosada esquerda latino americana, que descobriu não ter mais causas decentes para defender. Muitos acadêmicos laureados e literatos premiados nunca fizeram parte deste glorioso passado humanista no qual se advogava em favor da tolerância e liberdade, e não se privava do pensamento às custas dos instintos e preferências ideológicas da estação. Não poucos ideólogos a esquerda e a direita demonstraram apreço por teorias eugênicas e chegaram mesmo a oferecer suporte teórico às racionalizações racistas, disfarçadas de conveniências sociológicas.

A estupidez devota do acadêmico português é icônica e supera quase tudo que se viu em matéria de aventura e deturpação.  Isso acontece quando um intelectual começa a achar que pode predizer vida e morte, vale dizer, quais Estados nacionais merecem sobreviver. Do alto de sua auto referencia partisã, o acadêmico — supõe-se que é assim que doutrina seus alunos — propõe soluções mirabolantes, sem a menor consciência ou capacidade de apreensão da realidade de solo. O passo seguinte será vaticinar quais países devem ser extintos e coordenar as etapas do desmonte da Nação com a qual ele não simpatiza. Ao se unir aos que trabalham para deslegitimar Israel ele, automaticamente, legitima grupos terroristas para que prossigam a luta contra o “inimigo sionista” e resistam ao “colonialismo imperial norte americano”. Faz sentido, e ele não está só em sua guerra santa, versão materialismo histórico. Pois aí, uma vez atingido o ponto, já se pode relativizar a natureza perversa do jihadismo internacional. Aquele que deliberadamente sequestra, crucifica, assassina e lança foguetes contra alvos civis. Desconstruindo o direito de legítima defesa, pois se trata do “mal”, do “problema judeu”, a cumplicidade torna-se mais confortável e já se pode encaixar terroristas sob categorias mais amenas, tais como “combatentes”, “resistência”, e “milicianos”. De quebra, com a anacrônica índole maniqueísta bem disfarçada, sentem-se livres para renomear o alvo usando a pecha mais desqualificadora possível. É dentro dessa cortina da fumaça da linguagem, que se pode afirmar que os judeus são, por exemplo, os criminosos nazistas dos nossos tempos, e, ainda, sair aplaudido pela multidão beócia, em franca síndrome de abstinência de bodes expiatórios.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/terroristasintelectuais/