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O fim supremo

Paulo Rosenbaum

30 agosto 2014 | 22:01

O fim supremo

“O fim supremo de um regime não é governar e refrear pelo temor, nem extorquir obediência; mas, pelo contrário livrar todo homem do receio, para que ele possa viver na maior tranquilidade possível; em outras palavras, favorecer o seu direito natural de existir e trabalhar, sem dano para si e para outrem”

Baruch Spinoza

Meu caro Baruch,

Esta frase não sai da minha cabeça “direito natural de existir e trabalhar, sem dano para si e para outrem” Sua síntese é tão simples. Por que não pode ser assim? Livrar-nos dos receios? É o que mais temos, receio, medo, pânico. Não, não é o caso de psicanálise. Nossa enfermidade é política. Ela substituiu quase todas as patologias. Confiar em quer governa? Tranquilidade? Bem comum real? O senhor nem imaginaria. Por aqui, nada é tranquilo. Sobressaltos todos os dias. Desconhecemos essa tal vida sem receios. Exato, por aqui todo homem levanta e trabalha. Só não sabe se chega ao fim do dia. Não, não é porque os trópicos são tristes. Desculpe, o Sr. fez confusão: não temos siesta! Nós dormimos no ponto. O Sr. não captou? Perdão, era só uma expressão local. O que não sabemos é se vamos sobreviver a mais quatro anos. Quer detalhes? O problema é que tudo é instável, as regras mudam, e estamos no navio da incerteza. Eu sei disso. Um nosso conterrâneo, Rosa, também escreveu parecido: viver é perigoso. Te consulto para saber se precisa ser assim?

Se seu nome é conhecido? Não é popular. Muitos estudaram sua obra “Ética”. Adoramos sua visão de natureza e temos um paraíso quase intacto. Alguns professores são especialistas no Sr., mas hoje é o partido que filosofa por eles. Não, acho que não fui claro. Existem vários partidos, mas têm um que o Sr. não botaria fé. É curioso eu sei. Melhor nem falar demais. O Sr. saberia o que é “extorquir obediência e refrear pelo temor” se passasse uma temporada aqui. Na Holanda se escapava da fogueira, aqui, a inquisição têm outros métodos.

A democracia? Vai mal. Os homens que determinam nossos dias se concentram em suas finalidades supremas. Para muitos, o Estado substituiu as pessoas. Para outros, liberdade é um luxo desnecessário. Sim, é obrigatório colocar os programas no papel, mas é que eles também controlam as borrachas, se é que me entende. Nós, o povo? Infelizmente não fomos incluídos.

Baruch, confio em seu discernimento: o que fazer? Pode nos dar uma luz? As opções? Aqui, uma afunda o País e o projeto é o próprio poder, a outra diz que que fará o novo e não é igual a ninguém, mas nos perguntamos: se ela não é igual a ninguém, quem será e qual novo fará? Dedução perfeita. Dá-se preferência às promessas e pessoas, que consistência e seriedade. Não estamos enxergando futuro e o aqui agora não está moleza. Não. Nunca desespero, e já lhe comprovei isso antes.

Perdoe a intrusão, mas não terias algum estadista de plantão? Uma carta na manga? Por falar nisso, sem querer abusar, a Chefia está acordada?

Sei que aí já é tarde! Claro, compreendo perfeitamente, as lentes precisam de mais polimento. O Senhor aceita encomendas por e-mail?