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Recusar torcer

Paulo Rosenbaum

04 junho 2014 | 17:15

 


 

Ainda temos o direito de não dar satisfação? Não aceitar chantagens? Ora ora, não é que redes sociais, blogueiros subsidiados e um punhado de articulistas resolveram aplicar um passa moleque? Começaram tímidos, encorparam e agora esqueceram a modéstia. Já falam abertamente da grande convocação e do diagnóstico: beócio é aquele que não apoia o escrete! Só para registro, trata-se do mesmíssimo argumento da ditadura.

Com licença? Apoio se quiser, quem quiser, e pelos motivos que escolher. Melhor, posso não escolher lado nenhum. Que tal não torcer?

Esse tutorial intelectual de pensadores conhecidos e anônimos a favor da onda nacional, tem a mesmíssima importância que o evento que passaram a enaltecer. Insignificância. E daí se tem gente que não dá a mínima para a Copa? (desconfio de um grupo muito mais representativo do que as estatísticas concedem) Completo desperdício. E são menos os gastos sem precedentes, muito mais a espalhafatosa energia gasta atrás da pelota.

Se futebol é potencial arte, destreza e beleza, quando se trata de seleção canarinho ela é mais nostalgia que presente. Fora as questões estéticas, os problemas do legado: meia infraestrutura, semi aeroportos, e a inerte mobilidade urbana. A sonoridade da palavra “fuleco” é insuportável, beira o abominável. Foi de propósito? 

Estamos sendo arrastados para um cara ou coroa moral, apagando as marcas da flexibilidade bem humorada. No fim, não tinha nada a ver com o bom selvagem, era só a capacidade de rir das nossas primitividades, gozar das caras amarradas, curtir alegrias sem sentido. Estamos perdendo o relativismo para uma inflexão maniqueísta. empirismo de padaria.

Aí de você se não tomar partido. Te carimbam na hora. Nem precisa consultar a executiva. No reino fácil da catalogação ou você é black bloc ou tfp, liga das senhoras ou pcc.  Adesista, golpista, portador de alienação.  Experimenta não dar atenção para a histeria. Há os que odeiam ou idolatram Barbosa. O que realmente importa? Um homem decisivo foi ameaçado e jogou a toalha!  Para acreditar precisamos da mortalha? Ou alguém já parou para fazer os cálculos?

E na terra das ameaças, o líder dos sem-sem já fez a aplicação: se ganhar quem ele não quer vai ter barraco. Palavra exata: “guerra”. Na interminável arte de manipular o medo, a intimidação virou  ferramenta essencial, chantagem, peça chave. Queres um comando no poder? Preferes chuchu no trono? Barba na carranca? Amazônia universal? Reforma política por decreto?

Entre os múltiplos inimigos da democracia, o mais habilidoso é aquele que gera uma rede de constrangimento para induzir pessoas a escolher entre a pseudo ordem do status quo e o caos potencial das transformações. Considerando a grande corda que simboliza a sociedade, eles precisam apagar tudo que não é ponta. O grande meio, o centro, precisa ser afogado para que só os extremos fiquem aparentes. Com os intermediários submersos, somos forçados às extremidades. Mais um motivo simbólico para instigar o ódio à classe média.

As vezes, temos que aceitar que a mola terá que se recolher até o fundo até acumular força cinética suficiente para defenestra-lo. Quem? Esse jogo sem regras sob o qual penamos. O oportunismo político. O gerenciamento de ocasião. O qualquer toldo serve. Portanto, formadores, deixem as outras cabeças em paz. É de bom alvitre que cada um arbitre. Governabilidade e hexa talvez não rimem, é até provável que se encaixem em estrofes parasitas. Culpa nossa certamente. Nas próximas, vamos tentar não apostar nos vermes de sempre.