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Combate Rock

28.abril.2013 16:00:29

A trilha sonora ideal para uma leitura de muita qualidade

Dimitri Brandi – guitarrista da banda Psychotic Eyes – texto originalmente publicado no ótimo site Whiplash

O PSYCHOTIC EYES sempre foi conhecido por misturar música e literatura, então achei a proposta muito interessante. Depois da música, as formas de arte que mais me tocam são a literatura de ficção, as histórias em quadrinhos e a poesia. Mas não me limito aqui a esses gêneros literários, pois alguns livros de não-ficção tiveram tanta importância na minha vida que não tenho como deixá-los de fora. Assim, vou comentar dez dos livros mais importantes para minha formação como pessoa, artista e músico. A lista se concentra em livros pouco conhecidos do público em geral, pois preferi deixar de fora alguns dos meus livros favoritos, mas que são conhecidos e famosos, como “O senhor dos Anéis” de Tolkien, “Crime e Castigo” de Dostoiévski, “O processo” de Kaftka, “Cem anos de solidão” de García-Marquez e outros clássicos da literatura. Além dos livros, faço algumas recomendações de trilha sonora para acompanhar a leitura. Não só vinhos que devem ser “harmonizados”, literatura e música também!  

 

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“Trabalhadores do Mar” – Victor Hugo
Victor Hugo é conhecido por várias obras-primas, como “Os Miseráveis” e “Notre-Dame de Paris”, que conta a história do famoso corcunda Quasímodo. Essas duas obras viraram filmes, desenhos animados, superprodução da Broadway e o escambau. Mas a obra dele que mais me tocou foi esse romance, que no Brasil foi traduzido por ninguém menos que Machado de Assis. O texto é primoroso e poético, e conta a história de amor entre um marinheiro pé-rapado e uma mocinha burguesinha inatingível para um cara tosco. O interessante é que a narrativa não é linear, as coisas vão e voltam durante o livro, e um detalhe mencionado num capítulo lá no começo vai ser fundamental para o desfecho da história. O clima da história é bem parecido com um álbum conceitual de alguma banda de doom ou rock progressivo, com uma melancolia sempre presente. Eu apostaria em My Dying Bride ou Camel como boas combinações.
 

 

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“Um planeta chamado traição” – Orson Scott Card
Meu gênero literário favorito é a ficção científica. Infelizmente, no Brasil as editoras privilegiam somente os best-sellers do gênero, que não me agradam. Prefiro os clássicos como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Robert A. Heinlein. Além desses, existem vários autores praticamente desconhecidos aqui, e desses o meu preferido é o Orson Scott Card, que curiosamente já morou no Brasil, mas é quase ignorado aqui. Esse cara é um verdadeiro gênio para criar histórias diferentes, esquisitas, mas surpreendentemente humanas. Esse livro conta a história de um planeta-prisão, que foi colonizado por doze pessoas extraordinárias, mas que tentaram derrubar o governo. Cada um deles mudou-se, com a família, para uma região do planeta. A história se passa mil anos depois disso, quando as famílias dos conspiradores tornaram-se países. O personagem principal, Lanik Mueller, é herdeiro do trono de um país em que as pessoas possuem uma capacidade de regeneração do corpo aumentada, em que ferimentos são curados quase que instantaneamente e até órgãos e partes inteiras do corpo podem ser reconstituídas. Algo como o fato de cura do Wolverine, mas muito mais intenso. Só que Lanik tem alguma doença genética que faz seu corpo reconstituir partes que ele ainda não perdeu. Isso é um tabu na sua sociedade e ele parte para o exílio, conhecendo os outros países e seus povos. Todos eles possuem alguma peculiaridade aumentada, e o protagonista vai aprendendo com cada povo a se desenvolver. Um dos povos, por exemplo, se especializou em manipular o tempo, outro é capaz de gerar ilusões. A trama varia entre uma nova conspiração e a busca de Lanik, para a cura de sua doença, para poder retornar a seu país e se casar com a mulher que ama. A trilha ideal para essa leitura é o metal melódico, com reinos e reis, com certeza Blind Guardian casa muito bem, além do Grave Digger ou os brasileiros do Tuatha de Danann. Se não for a sua praia, um disco do Amorphis resolve.
 

 

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“Kindred” – Octavia Butler
A Octavia Butler é uma das melhores autoras de ficção científica da atualidade, mas infelizmente não tem nada ainda traduzido no Brasil. Seu trabalho tem uma característica interessante: as protagonistas são sempre mulheres negras. A própria autora é militante do movimento negro e do movimento GLS nos EUA, mas os livros não são panfletos políticos. “Kindred” é uma história de viagem no tempo. Dana é uma moça negra, do tempo atual, casada com um branco. Por força de algum efeito inexplicável, o casal é transportado de volta no tempo até a época do escravismo nos Estados Unidos. Claro que Dana será tratada como escrava e seu marido finge ser seu proprietário, pois aquela sociedade não aceita romances entre negros e brancos. O que mais impressiona no livro é que Dana tem que aprender a pensar como escrava para sobreviver. Ler isso é muito perturbador, pois temos amor incondicional à nossa própria liberdade. É uma experiência transformadora se colocar no lugar de Dana, alguém que está sendo escravizado, não aceita isso, mas precisa sobreviver. Como ela não sabe como fazer para voltar para nosso tempo atual, está diante da mesma situação sem solução que os outros escravos. O clima do livro é de thrash metal, leia ao som de Slayer, Sodom, Sepultura ou Annihilator!
 

 

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“Despertar dos Deuses” – Isaac Asimov
Essa é a obra prima do maior escritor de ficção científica de todos os tempos, embora ele seja mais conhecido por obras como “Fundação” (clássico que ganhou de “O senhor dos anéis” numa votação de melhor livro do século XX), “Eu: robô” (que virou um excelente filme) e “O Homem Bicentenário” (que virou um filme meia-boca). Nesse livro ele conta duas histórias paralelas. A primeira é a da rivalidade entre dois cientistas na pesquisa por energia infinita e limpa para a Terra. Mas é a outra que impressiona, a de um povo alienígena com um pormenor muito estranho: a raça tem três sexos. Ou seja, para se reproduzirem é necessário a relação sexual com três indivíduos, e cada um dos três sexos possui características físicas e psicológicas próprias e diferentes. A história merece uma trilha sonora de ficção científica, algo na linha do Ayreon ou Pain of Salvation. Se quiser algo mais pesado, o Voivod é uma boa pedida, principalmente o álbum “Phobos”.
 

 

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“Um Estranho numa terra estranha” – Robert A. Heinlein
Outro livro perturbador. Robert A. Heinlein é conhecido por escrever ficção científica com elementos de ciências humanas, como antropologia, sociologia, história e filosofia. Esse livro não tem nada a ver com a música do Iron Maiden, acho que o Steve Harris pegou só o título. Conta a história de um humano criado numa sociedade alienígena, no caso, Marte. Ele retorna à Terra, mas não sabe nada sobre a sociedade humana, não sabe se comportar, não sabe o que é o amor, não conhece nossas leis nem regras, ignora nossos preconceitos e idéias. Em sua adaptação, ele questiona vários dos pilares sexuais, morais e legais de nossa cultura. Além disso, sua curiosidade e falta de pudor em propor transformações nos fazem questionar todos esses fundamentos, principalmente os religiosos e sexuais. Enfim, mais um livro cuja leitura transforma quem lê. É desse livro a definição de amor mais precisa e bonita que já li: “o amor é o estado de espírito em que a felicidade de outra pessoa é essencial para a própria felicidade”. A trilha sonora perfeita é o hard rock do começo da década de 1970: revolucionário, contestador e ainda inserido na contracultura. Mas o “Somewhere in time” do Iron Maiden também se encaixa, já que é desse álbum que consta a faixa com o nome do livro. Se bem que eu gosto tanto desse disco que o ouviria até lendo bula de remédio.
 

 

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“Deus: um delírio” – Dawkins
A religião sempre me incomodou. Nunca acreditei em dogmas nem nas instituições religiosas. Todas as igrejas me repugnam, em especial a Católica, responsável pelo que há de pior na história e na psicologia humanas. A inquisição, a escravidão dos negros, as cruzadas, os nacionalismos, o conceito de pecado, o sentimento de culpa, a submissão irracional à autoridade, a hipocrisia do sacramento da “confissão”. Assim sendo, eu sempre tive dificuldade de sentir fé ou qualquer outro sentimento mais espiritualizado. Transitava entre o agnosticismo (“não me importa se deus existe”) e o ateísmo (“deus não existe”). Li vários livros sobre o assunto, dos quais “Deus: um delírio” é o mais importante. Mas outros também foram importantes: “Porque não sou cristão”, de Bertrand Russell, “Variedades da Experiência Científica, uma visão pessoal da busca por Deus” de Carl Sagan; e, mais recentemente, “Espiritualidade para céticos”, do Robert Salomon. O livro do Dawkins começa com uma advertência que, a princípio, me pareceu extremamente arrogante. Ele afirma que é impossível alguém racional continuar a acreditar na existência de deus depois de ler seu livro. Parece megalomania, mas tem um fundo de verdade. Alguém que tenha a fé como atributo essencial da própria personalidade simplesmente não vai suportar a argumentação, provavelmente vai jogar o livro fora antes de terminar de ler. O que é uma pena, pois os dois últimos capítulos são uma apoteose intelectual, em que Dawkins mostra toda sua veneração pela ciência e seu amor pela humanidade, sentimentos e idéias que devemos cultivar livres de quaisquer crenças irracionais, dominadoras e opressoras ligadas à religião organizada (não confundir com espiritualidade). Mas não é um livro para acompanhar Black Metal satânico, pois o diabo também não existe! Prefira aquelas bandas anti-cristãs mais filosóficas, como o Morbid Angel, Behemoth, Rotting Christ ou os brasileiros do Vulcano.
 

 

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“Sobre a criatividade” – David Bohm
Comprei esse livro como presente para um amigo, a quem considero uma pessoa extremamente criativa. Dei uma lida na livraria e acabei comprando um exemplar para mim também. David Bohm foi um físico genial, responsável por desenvolver a parte teórica da mecânica quântica. No final da vida passou a escrever sobre filosofia, psicologia e os fundamentos do conhecimento humano. É um livro fácil e difícil de ler, ao mesmo tempo. Fácil porque o texto é leve, o autor escreve bem e amarra as idéias com uma lógica muito acessível. Mas as idéias apresentadas são tão profundas e perturbadoras que a leitura se torna difícil. Você tem que parar a toda hora para refletir sobre o que o cara escreveu. Começa dissertando sobre o que seria um pensamento criativo, diferente dos pensamentos reativos, em que a mente não cria nada. Discute o que é a imaginação, o que é a consciência, como temos percepção do mundo, o papel dos sentidos, a relação corpo e mente. Depois aborda a relação entre ciência, religião e arte, que são as formas de expressão cultural em que a criatividade desempenha um papel central. Daí, o autor apresenta seu conceito de metafísica e situa o ser humano no universo. A conclusão do livro é das idéias mais absurdas, chocantes e surpreendentes que já tive contato. Mas é impossível não levá-la à sério depois de ter acompanhado todo o raciocínio do autor. Me lembrou o final do filme “O clube da luta”, em que você tem a sensação de que foi feito de idiota o tempo todo, que só estavam preparando o final surpreendente para puxar seu tapete, te causando um tombo proporcional à sua arrogância intelectual. Eu não conseguia ouvir nada enquanto estava lendo, pois não dá para desviar a atenção. Mas como é um livro complicado e cheio de detalhes, embora seja cativante, a melhor recomendação é ler ao som de algum disco do Death ou do Cynic.
 

 

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“O manifesto do partido comunista” – Karl Marx e Friedrich Engels
Esse é o livro que moldou minha formação política. É um manifesto, e como tal tem sua função de panfleto. Não é um livro para demonstrar teses ou análises científicas, mas para convencer, indignar com a injustiça e te empolgar com a possibilidade de transformar a realidade. Denuncia os horrores do capitalismo no século XIX. Depois dele, li os outros trabalhos de Karl Marx e Friedrich Engels, aqueles mais científicos, em que apresentam sua crítica do capitalismo e a proposta comunista. Claro que muito do que escreveram naquela época hoje está superado e ultrapassado. Além disso, o seus pensamentos e escritos foram deturpados e mal compreendidos. Serviram para legitimar a violência, de desculpa e fundamento para algumas das piores ditaduras do século XX. Mas a crítica ao capitalismo continua atual. Esse sistema econômico produziu o individualismo e o consumismo, que são as piores características do homem do século XXI. Além disso, estamos destruindo o planeta ao submeter o meio ambiente ao lucro e à ganância. Por isso o “Manifesto” continua atual, pois mostra a necessidade de nos unirmos para mudar o mundo e construir uma sociedade mais justa, equilibrada e saudável. Leia ao som de “Future World” do Helloween, letra empolgante que celebra a possibilidade de um novo mundo. Por coincidência, os autores também são alemães. Outra alternativa é um hardcore crossover como Ratos de Porão ou D.R.I., com aquele clima de organização das massas.
 

 

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“Mustaine” – Dave Mustaine
Não poderia deixar de mencionar um livro heavy metal. Gosto muito de ler biografias de músicos e assistir a documentários que mostrem como construíram suas carreiras, como começaram a tocar, como estruturaram as primeiras bandas e os perrengues que passaram na carreira. Em especial, gostei muito do livro do Sting. Mas Dave Mustaine é uma das minhas maiores influências como músico. O considero um compositor, guitarrista e letrista genial e sempre tive o Megadeth entre minhas bandas preferidas. Infelizmente a autobiografia não foi traduzida para o português ainda. Quando comecei a leitura não consegui parar. Lembro de, após um show, voltar pro hotel às 6 da manhã e ficar lendo o livro esperando o horário do café da manhã, ao invés de dormir. O livro é um auto retrato de um sujeito bastante perturbado pelos conflitos familiares, religiosos, pelo uso impressionante, exagerado e autodestrutivo de drogas. Um homem extremamente ressentido, que guardou por décadas a mágoa por ter sido expulso do Metallica, que jamais conseguiu estabelecer um relacionamento estável ou uma amizade verdadeira. Mas que, a despeito de todos esses defeitos e dificuldades, conseguiu produzir música da mais alta qualidade. Parece que ele afinal encontrou seu caminho e hoje é feliz. Nos últimos shows do Megadeth, pelo menos, o sorriso parecia sincero. Se quiser irritar o autor, leia ao som de “Enter Sandman”. Mas acho que faixas autobiográficas do Megadeth, como “Victory” e “A Tout le Monde”, do álbum Youthanasia, ou “Use the Man” do Cryptic Writings, sejam mais apropriadas.
 

 

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“Sonhos de Einstein” – Alan Lightman
Já li esse livro várias vezes, e cada vez me surpreendo com a beleza do texto. É um texto de ficção, que transita entre a poesia, a literatura e a física. O autor imagina que sonhos povoariam a mente de Einstein enquanto ele trabalhava na teoria da relatividade. Einstein sonha com mundos em que o tempo passa de maneira diferente, em que as pessoas não envelhecem, ou que a vida humana dura apenas um dia. Cada sonho envolve alterações nas noções de espaço e tempo, e como isso afetaria a alma e a sociedade dos homens. O livro serve também como uma explicação poética e romantizada da teoria da relatividade, uma das maiores construções da ciência de todos os tempos, fruto do trabalho, da imaginação e da genialidade não só de Einstein, mas de vários outros pensadores, cientistas e filósofos. A melancolia do texto lembra a sonoridade de alguns álbuns do Anathema, apesar da banda não escrever letras sobre física.
 

 

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    Marcelo Moreira

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