1
Código Aberto

Somos todos reféns das operadoras

Por Alfredo Goldman*

Vou começar este texto com uma pergunta: quem nunca teve problemas com as operadoras de telecomunicações?

Vamos por partes, com perguntas simples: quem já teve problema com telefonia celular? Desde simples ligações que caem sem explicação até contas com valores no mínimo estranhos? As mesmas operadoras oferecem serviços de Internet. Quem está feliz com com o serviço oferecido?
Por sorte (ou azar), sou professor (entre outras) da disciplina de computação móvel. Nessa disciplina, ensino que em telefonia celular há dois custos: o custo de atualização (onde o sistema de telefonia fica sabendo em que área está o telefone celular) e o custo de busca, que serve para achar o destinatário de uma ligação telefônica. Em ambientes saudáveis, as operadoras investem em atualização, para que o serviço de busca seja rápido; em um serviço de telefonia celular bem feito, quando a atualização é feita de forma constante, a busca leva menos de meio segundo. Agora uma outra pergunta: quantas vezes você já precisou ligar duas vezes para completar uma chamada? O que acontece é que, quando a primeira ligação não se completa, enquanto você faz a segunda, a operadora ganha alguns segundos adicionais para localizar o celular chamado. O que ela ganha com isso? Alguns centavos em processamento.

Será que a situação poderia ser melhor? Podemos ficar na dúvida pois, como o serviço das operadoras nunca foi muito bom, dá para pensar que há dificuldades técnicas que não permitem algo melhor. Mas ao menos quem já viajou ou morou no exterior sabe que não é bem assim. Um exemplo: enquanto morei na França, tive um serviço de tv a cabo, Internet e telefone por 30 euros por mês. Tinha a opção de uma centena de canais diferentes, internet de 20Mbits/s e, finalmente, ligações ilimitadas para telefone fixo. Como se isso não bastasse, as ligações era ilimitadas para mais de 50 países, incluindo o Brasil. Sim! Fiz várias ligações de mais de uma hora :) . Isso, em 2008…

Mas para quem podemos reclamar? Temos a agência reguladora (Anatel) que está aqui para nos proteger, consumidores. Mas vale a pena assistir o painel que houve no FISL sobre o Marco Civil com os panelistas Marcelo Branco, Ricardo Poppi, Sérgio Amadeu e Uirá Porã, onde eles contam algumas verdades sobre a Anatel. (o painel começa de fato após 3 minutos). Se é verdade que é necessário haver diálogo entre as teles e a agência reguladora, também é verdade que a abertura da Anatel aos interesses das entidades fiscalizadas é visivelmente exagerada, o que acaba por ter um forte impacto na real influência dessa agência. Um exemplo citado trata da fiscalização do desempenho do acesso à Internet no Brasil. Embora fosse tema de responsabilidade da agência, o processo de licitação da empresa responsável foi delegado pela Anatel ao SindiTeleBrasil (Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal). Um outro exemplo que chama a atenção é o regulamento dos TACs. De um lado, esse regulamento procura criar incentivos adicionais para que as operadoras atendam as exigências da Anatel; de outro, ele torna ainda mais corriqueira a situação atual, em que a Anatel arrecada de fato apenas 4% das multas devidas pelas empresas fiscalizadas.

Qual a saída possível? Não sei. Uma alternativa é escrever deixando que mais gente saiba que não somos os únicos insatisfeitos. Se conseguimos mudar algo com o movimento Passe Livre, por que não mudar algo com um movimento Comunicação a preços justos e qualidade para todos?

Ahhh, quase esqueci! Tenho uma bronca adicional, que por sinal foi a motivação deste texto. Venho recebendo ligações diárias de uma operadora, ou melhor, da agência de cobrança de uma operadora. Isso por que o cartão no qual era realizado o débito mensal venceu (e naturalmente a operadora já tem o meu cartão novo). Para os curiosos, basta procurar na Internet o telefone 4166-7090. Dá para ver que não sou o único insatisfeito.

*Alfredo Goldman é Professor de Ciência da Computação no IME/USP e diretor do CCSL-IME/USP

Tópicos relacionados