O governo de Pequim afirmou ontem que a eventual aprovação de lei pelo Senado norte-americano contra o valor depreciado do yuan poderá criar uma guerra comercial e cambial e abalar o relacionamento entre os dois países. Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Ma Zhaoxu, a cotação da moeda chinesa não é a razão do desequilíbrio no comércio bilateral.
No ano passado, o déficit dos Estados Unidos com a China atingiu o recorde de US$ 273,1 bilhões, o maior valor já registrado nas trocas dos norte-americanos com qualquer outro país. Nos sete primeiros meses de 2011, o resultado negativo somou US$ 160,4 bilhões, 10% a mais que em igual período de 2010.
Para os senadores Sherrod Brown e Charles Schumer, o deficit é provocado pelo patamar depreciado do yuan, mantido graças a pesadas intervenções do Banco do Povo da China (o banco central do país). Na segunda-feira, eles conseguiram o aval de 79 senadores para dar prosseguimento à votação de projeto de lei que permite a imposição de barreiras contra produtos chineses em razão do que classificam de “manipulação da moeda”. Apenas 19 congressistas votaram contra. A proposta irá agora à decisão do plenário, que deve se manifestar até o fim desta semana.
Não é a primeira vez que parlamentares norte-americanos tentam aprovar projeto sobre a depreciação do yuan, proposta que enfrenta resistência entre os republicanos, que hoje são maioria na Câmara dos Representantes, mas o clima é mais receptivo a medidas protecionistas contra a China. O desemprego na casa dos 9% será um dos temas centrais das eleições do próximo ano e mesmo republicanos se mostram sensíveis ao discurso contra o “Made in China”. Dos 79 votos a favor da votação do projeto, 36 vieram do partido de oposição. Isso não significa que eles dirão “sim” à proposta quando ela for ao plenário, mas dá uma medida do poder catalisador do tema.
O yuan se apreciou 7% em relação ao dólar desde junho de 2010, depois de dois anos de “congelamento” no mesmo patamar. Ontem, o governo chinês observou que continuará a flexibilizar seu sistema de câmbio, o que tem sido feito de maneira gradual desde 2005. A projeto teve apoio do economista Paul Krugman, que defendeu sua aprovação em coluna publicada no The New York Times anteontem. Segundo ele, os Estados Unidos não conseguem criar empregos pelo fato de que importam muito mais produtos do que exportam.
Para reduzir esse déficit, o dólar deveria se desvalorizar em relação à moeda dos principais parceiros comerciais do país, mas isso é impossível em razão da determinação chinesa de manter o valor de sua própria moeda depreciado. A evidência de que a China manipula a cotação do yuan é o enorme volume de reservas internacionais do país, de US$ 3,2 trilhões, sustenta Krugman. “Responsabilizar a China não vai resolver por si só nossos problemas econômicos, mas pode contribuir para uma solução _e é uma ação há muito tempo adiada.”
Os US$ 3,2 trilhões de reservas internacionais acumuladas pela China se transformaram em um peso para o país, em razão de seu tamanho gigantesco e das poucas opções de investimentos disponíveis, afirma Li Xiangyang, diretor do Instituto de Estudos da Ásia-Pacífico da Academia Chinesa de Ciências Sociais, centro de pesquisas ligado ao governo. “O volume é tão grande que não importa onde e no que a China planeje investir, o risco será sempre muito grande”, disse Li em entrevista. O dilema chinês de como administrar essa montanha de dinheiro se tornou mais intenso depois que a agência de notícias Standard & Poors rebaixou a nota de crédito dos Estados Unidos, no último dia 5. “Nós sabemos dos riscos, mas não temos escolha, observou Li, em relação ao grande volume de títulos do Tesouro norte-americano detidos pela China _US$ 1,16 trilhão, o que coloca Pequim na condição de maior credor de Washington.
A saída para reduzir a dependência chinesa dos investimentos em dólares é mudar o modelo de desenvolvimento do país, com redução das exportações, aumento das importações e impulso à demanda doméstica. Outra medida defendida por Li é o abandono do uso do dólar como moeda de reserva global e restrições à capacidade do Federal Reserve de emitir moeda. Li acredita que a solução do dilema das reservas não está na apreciação rápida do yuan, que traria riscos consideráveis para o setor exportador. “Na história da China, nós sempre atingimos nossos objetivos gradualmente e não de maneira apressada.”
A seguir, trechos da entrevista:
As reservas internacionais se transformaram em um peso para a China?
Em certo sentido, elas são um peso. Em primeiro lugar, a segurança das reservas internacionais piorou. O volume é tão grande que não importa onde e no que a China planeje investir, o risco será sempre muito grande. Se as reservas são usadas para comprar moedas como dólar ou euro, a cotação dessas moedas sobe. Se forem usadas na compra de produtos como petróleo, o preço do petróleo também tem alta. Se a China comprar ou vender alguma coisa no mercado global, o preço vai subir ou cair.
Em segundo lugar, para evitar riscos financeiros, a China deveria diversificar seus investimentos em diferentes moedas, mas a grande quantidade de reservas faz com que o país tenha poucas opções e enfrente mais riscos. A mudança entre diferentes moedas também é muito difícil, porque grandes movimentos podem levar a flutuações no mercado internacional de moedas. Se a China vende dólares e compra euros, o dólar vai se desvalorizar e o euro, se apreciar.
Em terceiro lugar, o grande volume de reservas pressiona a inflação. De julho de 2010 até agora, as reservas aumentaram em US$ 800 bilhões e isso piorou a inflação doméstica. No modelo atual, o banco central tem que emitir renminbi [outro nome do yuan] para comprar moeda estrangeira das empresas [o que eleva a quantidade de dinheiro em circulação na economia].
Que lições a China tirou da crise em torno do aumento do teto da dívida dos Estados Unidos?
No curto prazo, ainda que a China tenha percebido o risco de tantos papeis da dívida norte-americana, é impossível mudar o grande percentual de ativos em dólares no total das reservas. Ficou claro depois dessa crise que os Estados Unidos podem sacrificar o interesse de seus credores em razão de interesses políticos. Portanto, a China enfrenta riscos ainda maiores. A elevação do limite de endividamento dos Estados Unidos indica que o dólar vai se depreciar e que a segurança dos ativos em dólar detidos pela China vai diminuir. A China está em um dilema. Nós sabemos dos riscos, mas não temos escolha.
O problema poderia ser resolvido por dois caminhos. Primeiro, nós precisamos reformar o sistema monetário internacional e reduzir a dependência do dólar. Isso significa que temos que mudar o cenário no qual o dólar funciona como uma moeda internacional, além de restringir a capacidade do Federal Reserve de emitir essa moeda internacional.
Segundo, nós precisamos diminuir o superávit comercial da China. Só dessa maneira nós podemos diminuir a dependência do dólar.
Mas é possível mudar o sistema monetário internacional em pouco tempo? Qual moeda deveria substituir o dólar?
É impossível resolver esse problema em curto prazo. É uma tarefa de longo prazo. A discussão em anos recentes é sobre o fortalecimento dos Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional e gradual redução da dependência do dólar. Essa é a razão pela qual eu acredita que o caminho é a redução do superávit primário e mudança do modelo de crescimento.
A China conseguirá deixar de acumular reservas sem mudar o sistema de câmbio que força o banco central a comprar dólares para evitar a apreciação do yuan?
Nós queremos reformar o regime de câmbio, mas não agora. O que podemos fazer é diminuir o superávit primário e controlar o fluxo de capital especulativo. Na história da China, nós sempre atingimos nossos objetivos gradualmente e não de maneira apressada.
O sr. disse que também é necessária a mudança no modelo de crescimento. O que isso significa?
Nos últimos seis meses, o crescimento das importações foi maior que o das exportações. No longo prazo, nós precisamos de tempo para mudar o modelo de crescimento baseado nas exportações. O 12˚ Plano Quinquenal [2011-2015] prevê o aumento do consumo doméstico. Todas as províncias elevaram o valor do salário mínimo e os investimentos na seguridade social aumentaram. Tudo isso cria um ambiente favorável ao aumento do consumo doméstico.
Se a China continuar a acumular reservas, existem opções viáveis de investimento além dos títulos do Tesouro norte-americano?
Esse é o dilema que enfrentamos agora. Nós queremos diversificar nossos investimentos, mas as opções são limitadas. Não temos escolha. No fim de 2010, por exemplo, o Japão ficou preocupado porque a China estava comprando seus títulos e provocando sua apreciação.
Por que é tão difícil para a China mudar seu regime cambial?
Por causa do modelo econômico tradicional. Nos últimos 30 anos, a China realizou sua abertura por meio das exportações e as exportações se tornaram um dos principais fatores de desenvolvimento do país. Se nós mudamos de maneira radical o regime de câmbio, a economia vai sofrer um baque severo, especialmente no momento em que as perspectivas para o futuro do mercado financeiro e a economia globais são bastante negativas.
A China conseguirá manter seu alto ritmo de crescimento em meio à desaceleração da economia global?
Esse é o maior desafio que o governo chinês enfrenta. A inflação em alta requer medidas de aperto monetário, mas as previsões para a economia global são pessimistas. Os responsáveis pela política econômica estão tentando encontrar um equilíbrio entre o crescimento e o combate à inflação.
A crise em torno do endividamento norte-americano e o rebaixamento da nota do país pela Standard & Poors evidenciaram a necessidade de a China transformar seu modelo de crescimento, o que implica mudança no regime de câmbio e apreciação do yuan, disse o diretor do Centro de Pesquisa em Reservas Internacionais da Universidade Central de Finanças e Economia de Pequim, Li Jie.
“Nós não podemos mais continuar a acumular reservas”, ressaltou Li. Para isso, a China tem de reduzir seu superávit externo, com aumento das importações e queda das exportações.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Qual o impacto da decisão da S&P para a China?
O maior impacto é sobre as reservas internacionais. A China é o país com o maior volume de títulos norte-americanos. Com o rebaixamento da dívida, deve haver elevação dos juros sobre a dívida americana, o que reduzirá o valor dos títulos detidos pela China. Eles vão em direções opostas.
Outro aspecto é o investimento futuro das reservas chinesas. O modelo de crescimento chinês depende das exportações e gera a acumulação de reservas. Se não mudarmos esse modelo, as reservas continuarão a aumentar e não há nenhum ativo financeiro líquido o bastante, grande o bastante e seguro o bastante no qual esses recursos podem ser investidos. Nós não podemos mais continuar a acumular reservas.
O que significa a mudança no modelo de crescimento?
Importar mais e reduzir o tamanho das exportações.
É possível fazer isso sem alterar o sistema de câmbio?
Não. O regime cambial tem de ser reformado, para permitir rápida apreciação do renminbi [outro nome do yuan]. Nós temos feito uma apreciação gradual, mas ela não é suficiente. Com a crise da dívida, nós temos que mudar isso.
Uma apreciação gradual pode deteriorar ainda mais o problema da acumulação de reservas, pois estimula a entrada de capital especulativo no país. A magnitude da apreciação tem que ser grande o bastante para desestimular esse fluxo de capital.
Há disposição política em Pequim para uma apreciação do renminbi?
Existe o temor de perda de empregos no setor exportador, mas esse modelo não é mais sustentável. Não há onde investir as reservas. Os Estados Unidos não podem mais sustentar um modelo baseado no consumo.
Isso significa que o modelo chinês baseado na poupança também não é mais sustentável, certo?
Nós temos discutido os desequilíbrios globais por longo tempo. Esse modelo podia ser mantido enquanto os Estados Unidos provessem o mundo com débito seguro [onde a poupança chinesa poderia ser investida], mas isso deixou de existir.
Toda a arquitetura econômica internacional tem que mudar. Esse é o momento para a China passar a consumir mais e os Estados Unidos pouparem mais.
O acordo que elevou o teto de endividamento dos Estados Unidos reduziu a ansiedade chinesa em relação à possibilidade de um calote norte-americano, mas o longo impasse entre republicanos e democratas evidenciou os riscos enfrentados por Pequim e aumentou a pressão para que o Partido Comunista reveja a política de acumulação de reservas internacionais, cujo valor já alcançou estratosféricos US$ 3,2 trilhões. Cerca de 70% dessa montanha de dinheiro estão aplicados em ativos denominados em dólar, incluindo US$ 1,16 trilhão em títulos do Tesouro, o que coloca a China na condição de maior credor de Washington. Isso significa que uma eventual depreciação persistente da moeda norte-americana provocará redução no valor dos recursos administrados pelo Banco do Povo da China (banco central).
O confronto político em Washington acendeu a luz amarela em Pequim, mas a acumulação de reservas criou uma armadilha difícil de ser desarmada. A China não pode se desfazer dos títulos do Tesouro e dos ativos em dólar sem arriscar derrubar seu valor, o que reduziria sua própria poupança. Além disso, o modelo de intervenções no mercado para impedir a apreciação do yuan torna inevitável o aumento das reservas, já que essa operação é feita por meio da compra de dólares pelo banco central. Editorial publicado ontem pelo jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista, afirmou que as reservas internacionais “enormes, mas em depreciação” são um peso para o povo chinês, ao mesmo tempo em que reconheceu que há poucas opções para aplicá-las. “Essa talvez seja a lição que a China aprendeu” com a crise em torno do teto de endividamento norte-americano.
A manchete do jornal China Daily, editado pelo Conselho de Estado, foi “O dilema das reservas internacionais da China”. O texto afirma que o acordo é um “alívio” para os credores de Washington, mas observa que Pequim enfrenta o desafio de diversificar suas reservas, “ameaçadas” pela possibilidade de desvalorização do dólar. Em artigo publicado no Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, o pesquisador Li Xiangyang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, defendeu o abandono do modelo atual. “É necessário mudar a atual concentração em ativos denominados em dólar, mas o que é mais importante é mudar no futuro a propensão para elevação dos ativos em dólar”. Segundo Li, isso exige um “ajuste fundamental” no modelo de crescimento econômico adotado pela China”.
Editorial veiculado no mesmo jornal ressaltou que os problemas da dívida soberana dos Estados Unidos continuam, apesar do acordo entre republicanos e democratas. “Eles foram apenas adiados e há uma tendência de que cresçam. Isso está lançando uma sombra sobre a recuperação da economia dos EUA e escondendo riscos e turbulências ainda maiores para a economia global”, sustenta o texto. O nacionalista Global Times adotou um tom irônico em seu editorial, no qual disse que a solução do impasse poderia render um filme hollywoodiano de efeito especiais “democráticos” com o título “Acordo de Último Momento”. Mas o desenlace não deve arrancar aplausos do restante do mundo, ressalta. “Ao usar nova dívida para pagar a velha, os EUA estão afundando ainda mais em areia movediça. Isso não é um sacrifício altruísta feito para salvar o mundo, já que os países que detêm títulos da dívida estão todos atrelados aos EUA.”
Não é fácil entrar em atrito com seu maior cliente, principalmente quando ele é a segunda maior economia do mundo, tem 1,3 bilhão de habitantes e possui dinheiro de sobra para investir fora de suas fronteiras. Mas quanto antes o Brasil tentar redefinir as regras do jogo do relacionamento com a China, maiores serão as chances de sucesso.
Tudo indica que a gestão de Dilma Rousseff está disposta a abandonar a posição benevolente de seu antecessor em relação a Pequim, manifestada entre outros aspectos pela ausência de crítica à desvalorização cambial que beneficia os exportadores chineses.
O câmbio nunca entrou nas discussões econômicas entre os dois países e o ministro Guido Mantega repetiu inúmeras vezes que o grande problema para o Brasil não era o patamar depreciado do yuan, mas a desvalorização do dólar _desprezando o fato de que a moeda chinesa é atrelada ao dólar e mantida em patamar artificialmente baixo graças a pesadas intervenções do Banco do Povo da China.
Não há nenhuma indicação de que Pequim abandonará no futuro previsível o seu sistema de câmbio semifixo, o que fomentará a pressão da indústria pela adoção de barreiras de proteção aos setores mais afetados pelas importações do país asiático.
Mas é óbvio que só medidas defensivas são insuficientes e têm que ser adotadas com prazo de validade. O Brasil tem que resolver suas próprias mazelas, aquelas que há décadas frequentam o debate nacional sem alcançar solução _infraestrutura precária, alta carga tributária, juros altos, excesso de burocracia, ineficiência etc.
Acima de tudo, o Brasil precisa definir o tipo de país que pretende ser no futuro e a relação comercial com a China é crucial nessa equação. A voraz demanda do país asiático por produtos primários e sua imbatível competitividade na indústria nos empurram para um modelo exportador de commodities e importador de bens de alto valor agregado.
Ao mesmo tempo, a demanda chinesa é irresistível, garante superávits na balança comercial e injeta bilhões de dólares nos setores produtores de minério, soja e petróleo. Para amenizar o impacto do boom de commodities, o país poderia transferir uma parcela maior dos lucros gerados pela exploração de recursos naturais _findos por excelência_ para investimentos em infraestrutura e aumento da competitividade da indústria.
Principal concorrente do Brasil no mercado de minério de ferro, a Austrália aprovou no ano passado um imposto adicional sobre a exploração de carvão, gás, petróleo e minério, que entrará em vigor no dia 1º de julho de 2012. A fórmula final é bem mais amena que a “supertaxa” proposta pelo ex-primeiro-ministro Kevin Rudd, que acabou deixando o cargo diante da violenta reação das mineradoras. Ainda assim, trará aos cofres australianos estimados US$ 10 bilhões anuais de arrecadação, que o governo pretende investir em infraestrutura e no apoio a pequenas e médias empresas.
O Chile, outro exportador de commodities, destina parte da receita obtida com o setor primário a um fundo de estabilização econômica, que deve ser usado em momentos de turbulência ou vacas magras. O fundo tinha US$ 20 bilhões no fim de 2008, dos quais saíram US$ 3 bilhões para financiar um pacote de estímulo fiscal durante a crise financeira global.
Além de serem finitos, os recursos naturais estão sujeitos a oscilações de preços no mercado internacional e suas cotações podem sofrer um baque caso haja algum soluço no crescimento chinês. Não há indícios de que isso ocorrerá em 2010, mas crescem as apostas de que a China viverá uma crise financeira até metade desta década e é bom o Brasil estar preparado para essa eventualidade.
Além da pompa e circunstância com que Hu Jintao foi recebido na semana passada em Washington, um fato mais corriqueiro evidenciou o novo peso da China no cenário global: a filha mais nova de Barack Obama, Sasha, está estudando mandarim. Aparentemente pouco significativa, a informação reforçou a aura de potência emergente que cerca a China e indicou que muitas outras mudanças virão com sua proeminência econômica. Por enquanto, são os líderes comunistas chineses que enviam seus filhos para estudar nos Estados Unidos _a filha de Xi Jinping, provável sucessor de Hu Jintao, frequenta a Universidade de Harvard.
O que não se sabe é quanto tempo vai perdurar o clima de bons amigos que envolveu a passagem de Hu Jintao por Washington, na qual o líder chinês atingiu o objetivo de ser tratado e visto como um igual ao lado de Obama. Nenhuma das divergências que opõem os dois lados foi resolvida ou amenizada e não há dúvida de que os conflitos voltarão a emergir. O relacionamento bilateral chegou ao mais baixo patamar da última década no ano passado, com ataques de lado a lado _ainda que publicamente a voz de Pequim tenha soado alguns tons acima da de Washington.
Em seus pronunciamentos, Hu Jintao disse esperar “respeito” aos “interesses fundamentais” da China, que incluem Tibete e Taiwan. Na prática, é um apelo para que líderes norte-americanos não se encontrem mais com o dalai lama _o que Obama fez há um ano_ e que o país deixe de vender armas e dar apoio material ao governo de Taiwan. É altamente improvável que alguma das duas coisas ocorra e será interessante ver como os chineses reagirão quando se considerarem “desrespeitados”.
As demandas de Washington também não serão facilmente aceitas por Pequim. Mesmo que se acelere em relação a 2010, o ritmo de apreciação do yuan continuará muito mais lento do que gostariam os norte-americanos _os mais otimistas prevêem valorização de 6%, o dobro da de 2010. E mesmo que venha a adotar uma retórica mais dura, a China não colocará o regime da Coreia do Norte contra a parede.
Mas é possível que a visita e seus desdobramentos permitam que ambos os países lidem melhor com suas divergências, com menos estridência de Pequim e mais tolerância dos norte-americanos em relação a um modelo político e econômico que desafia os seus valores. Uma coisa é certa: a versão chinesa do “the book is on the table” será cada vez mais disseminada. Quem quiser, pode começar a praticar: “shu zai zhuozi shang”.
Ontem eu vivi um desses momentos chineses memoráveis: recebi notas falsas de um caixa eletrônico!!! A pirataria é generalizada por aqui e cópias quase perfeitas das notas de 100 yuans são muito mais comuns do que eu esperava. Mas jamais imaginei que elas pudessem ser distribuídas pelos próprios bancos, por meio dos caixas eletrônicos que operam.
Logo depois do saque, peguei um táxi e tive uma discussão com o motorista que recusou uma das notas. Achei que ele estava paranóico. Só me dei conta de que ele tinha razão quando pedi comida em um restaurante italiano perto de casa, paguei a conta e recebi uma ligação do gerente, dizendo que a nota era falsa e perguntando se eu poderia trocar por outra. Respondi sim.
Sei que o episódio é uma exceção. Já usei inúmeros caixas eletrônicos na China e nunca tive problemas. Mas é um sintoma de uma disfunção da qual muitos chineses reclamam e que gera uma insegurança em relação aos produtos e serviços que os consumidores e cidadãos recebem.
Disfunção que permitiu a venda de leite em pó falso ou contaminado que provocou a morte de crianças ou que deu margem à construção de escolas de má qualidade que ruíram no terremoto que abalou a província de Sichuan em 2008. Receber notas falsas de um caixa eletrônico não é nada perto disso…
Depois de um ano marcado por uma sucessão de conflitos que foram da venda de armas a Taiwan a crises na península coreana, Estados Unidos e China tentam a partir de hoje reconstruir a confiança mútua, durante visita à capital norte-americana do presidente Hu Jintao, a primeira realizada no governo de Barack Obama.
Nos últimos dias, ambos os lados se esforçaram para minimizar as desavenças e ressaltar os laços que unem as duas maiores economias do mundo, protagonistas da que é considerada a mais importante relação bilateral do século XXI.
“Não há como negar que há algumas diferenças e temas sensíveis entre nós”, afirmou Hu em entrevista por escrito aos jornais Washington Post e Wall Street Journal, publicada domingo. “Nós temos que abandonar a mentalidade de soma-zero da Guerra Fria”, disse o presidente chinês, ressaltando que ambos os países têm a perder com a confrontação.
A mesma expressão havia sido utilizada na sexta-feira pela secretária de Estado Hillary Clinton, em discurso sobre as relações sino-americanas. “No século XXI não faz sentido aplicar a teoria de soma-zero do século 19 sobre como os grandes potências interagem”, declarou Clinton, depois de afirmar que os Estados Unidos não vêem a emergência da China como uma ameaça.
A secretária também lembrou que as economias e o futuro de ambos os países estão interligados. “Nós estamos no mesmo barco e ou remamos na mesma direção ou vamos, infelizmente, provocar turbulência e redemoinhos que vão impactar não apenas nossos dois países, mas muitas pessoas além de nossas fronteiras.”
No ano passado, ambos os lados discordaram sobre que rumo tomar em várias ocasiões, o que levou a relação bilateral a um dos mais baixos patamares da última década. Catapultada em 2010 ao segundo lugar no ranking das maiores economias do mundo, a China interpretou seu sucesso no enfrentamento da crise financeira global como evidência da superioridade de seu modelo econômico sobre o ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos.
A autoconfiança adquirida pelos líderes chineses se refletiu na avaliação de Hu de que o sistema monetário internacional dominado pelo dólar é “algo do passado”. Ao mesmo tempo, o líder chinês reconheceu que transformar o yuan em uma moeda de reserva internacional é um processo que ainda demandará muito tempo.
Na mesma entrevista, o presidente deu indicações de que rejeitará a pressão norte-americana por uma apreciação mais rápida do yuan em relação do dólar, ao afirmar que a mudança no câmbio não é o mecanismo adequado para o combate da inflação enfrentada atualmente pela China.
Todos os temas que provocaram atritos entre os dois países nos últimos meses estarão presentes nas conversas entre Obama e Hu, que permanecerá três dias nos Estados Unidos.
Do lado americano, além do patamar depreciado do yuan, a lista inclui o pleito para que a China contenha as ambições nucleares da Coreia do Norte, seja mais transparente em relação a seus investimentos militares e respeite os direitos humanos que os norte-americanos consideram universais.
A China vai reiterar sua oposição à venda de armas a Taiwan pelos Estados Unidos, exigir o respeito a sua integridade territorial e defender a não-interferência em assuntos que vê como internos, entre os quais estão o Tibete e o tratamento dado aos dissidentes políticos.
A divergência entre os dois países na questão dos direitos humanos se aprofundou em novembro, com a reação furiosa da China à entrega do Prêmio Nobel da Paz ao chinês Liu Xiaobo, elogiada pelos Estados Unidos.
É pouco provável que haja qualquer avanço concreto em relação a esses tópicos e os dois líderes vão se esforçar para ressaltar os pontos de cooperação entre seus países. Estados Unidos e China possuem uma enorme dependência econômica, fruto do comércio, investimentos e financiamento da dívida externa norte-americana por Pequim.
Mas a desconfiança mútua dificilmente desaparecerá. Maior potência global, os Estados Unidos vêem como um fator desestabilizador os crescentes investimentos militares do país asiático, enquanto muitos em Pequim acreditam que Washington tentará em algum momento bloquear a emergência chinesa.
Os chineses estão desenvolvendo o que seria o primeiro sistema de mísseis capaz de atingir navios e porta-aviões. Se tiverem sucesso, eles mudarão a correlação de forças no Pacífico, já que passarão a ter a capacidade de atingir a frota norte-americana estacionada na região.
Washington também viu com preocupação o primeiro teste de um caça chinês “invisível”, que não é detectado por radares, realizado há pouco mais de uma semana, no mesmo dia em que o secretário de Defesa norte-americano, Robert Gates, iniciava visita a Pequim.
Aí vai a lista dos principais conflitos entre os dois países desde o início de 2010:
Armas para Taiwan – Os Estados Unidos anunciam em janeiro a venda de US$ 6,4 bilhões em armas para Taiwan, a ilha que a China considera como integrante de seu território. Pequim reagiu com a suspensão da cooperação militar entre os dois países e a ameaça de imposição de sanções às empresas envolvidas na operação
Dalai lama – Apesar dos protestos de Pequim, o presidente Barack Obama recebeu o dalai lama em fevereiro na Casa Branca. O líder espiritual tibetano é considerado um separatista pelas autoridades chinesas
Google – O maior site de buscas do mundo, o norte-americano Google, anunciou em março o fechamento de seu site em chinês. A empresa afirmou que a decisão foi provocada pela intensificação da censura e pelo ataque de hackers que operam a partir da China
Coreia do Norte – Em maio, a Coreia do Sul acusou a Coreia do Norte de ter afundado dois meses antes o navio de guerra Cheonan, provocando a morte de 46 marinheiros. A China evitou condenar seu aliado e frustrou os EUA, que gostariam de uma ação mais incisiva de Pequim para controlar Pyongyang.
Coreia do Norte 2 – A China volta a frustrar os norte-americanos em novembro, ao deixar de condenar o ataque da Coreia do Norte à ilha sul-coreana de Yeonpyeong. Para os chineses, os sul-coreanos iniciaram as provocações, ao realizar exercícios militares em área disputada pelas duas nações.
Yuan – O patamar desvalorizado do yuan em relação ao dólar é um ponto de permanente atrito nas relações entre os dois países e ganhou mais proeminência no ano passado em razão do aumento do desemprego nos Estados Unidos
Expansão militar – A China investe na modernização de suas Forças Armadas e desenvolve o que seria o primeiro sistema de mísseis capaz de atingir navios e porta-aviões. Com isso, teria a capacidade de atingir a frota norte-americana estacionada na região. Há pouco mais de uma semana, o país realizou o primeiro teste de seu caça “invisível”, que não é detectado por radares
Nobel da Paz – A China reagiu com fúria à entrega do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo, em novembro, evidenciando as diferenças ideológicas que a separam dos Estados Unidos. A questão dos direitos humanos estará presente na pauta de discussões entre Hu Jintao e Barack Obama
Na excelente entrevista realizada por Patrícia Campos Mello e publicada domingo no Estadão, o chanceler Celso Amorim admitiu não ter construído uma estratégia para o relacionamento com a China nos oito anos em que comandou a diplomacia brasileira. O ministro também afirmou que um país que não tem uma política cambial de mercado não pode ser tratado como economia de mercado. Amorim só não lembrou que ele próprio deu aval à decisão de reconhecer a China como economia de mercado em 2004, a despeito dos fortes protestos do setor privado brasileiro, liderado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.
Se o ministro acredita que a política cambial chinesa atual não respeita as regras de mercado, com muito mais razão deveria ter essa opinião em 2004, quando o governo de que participa desconsiderou esse fato e atendeu à reivindicação de Pequim. Na época, a moeda chinesa estava congelada havia dez anos no patamar de 8,30 yuans por US$ 1,00. Hoje, a cotação ronda os 6,70 por US$ 1,00.
A concessão do status de economia de mercado dificulta a imposição de barreiras às importações chinesas e por isso foi tão criticada pelas empresas nacionais. Mas a promessa brasileira nunca saiu do papel, o que coloca o país como devedor de Pequim. Sempre que há reuniões bilaterais, os representantes chineses cobram os brasileiros e perguntam quando o documento assinado em 2004 será regulamentado. A julgar pelas declarações de Amorim, isso não ocorrerá tão cedo.
Até agora, o argumento de Brasília para justificar o não cumprimento da promessa era o fato de que Pequim não havia ampliado seus investimentos no Brasil, também frustrando compromisso assumido no mesmo documento de 2004. Com o espetacular salto nos anúncios de negócios de estatais chinesas no país desde o início deste ano é cada vez mais difícil sustentar esse argumento.
Ator central do espectro da “guerra cambial” que paira sobre o mundo, a China resistirá ao máximo ao apelo internacional para que aprecie sua moeda de maneira expressiva. A decisão do Japão de sucumbir à pressão dos Estados Unidos e aceitar a valorização de sua moeda em 1985 é uma das principais razões apresentadas por muitas das autoridades chineses para resistir ao coro global a favor da apreciação do yuan.
“A China não repetirá o erro do Japão”, avisou há duas semanas Li Daokui, economista e membro do comitê de política monetária do Banco do Povo da China. Depois de permitir a apreciação do iene, o Japão entrou em um período de especulação que levou à formação de bolhas de ativos. Quando elas estouraram, no início dos anos 90, o país mergulhou na chamada “década perdida”, da qual ainda não conseguiu se recuperar totalmente.
Ainda que muitos sustentem que a crise foi originada por outros fatores que não a mudança cambial, a China não está disposta a correr o risco de repetir a história do país vizinho, o qual acaba de deixar para trás na corrida pelo posto de segunda maior economia do mundo.
A mudança cambial do Japão ocorreu a partir do Acordo Plaza, assinado em setembro de 1985 em Nova York pelos países que integravam o G5 _Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e Inglaterra. O pacto decorreu da ação coordenada entre as maiores economias industrializadas, movimento semelhante ao defendido agora pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para enfrentar a ameaça de uma “guerra cambial”. O objetivo do Acordo Plaza era desvalorizar a moeda dos Estados Unidos, que acumulava grandes déficits comerciais, e apreciar o iene. A moeda japonesa estava cotada na época a 240 por dólar. Em 1987, já estava em 130 por dólar. Atualmente, gira em torno de 85.
A China considera seu sistema cambial uma questão de política interna, em relação à qual os demais países não devem se manifestar _mesmo que ela afete preços relativos do comércio global. O controle da taxa de câmbio é visto como elemento central da estratégia de desenvolvimento do país, na qual as exportações cumprem papel relevante. “A apreciação do yuan antes que a China seja realmente próspera vai prejudicar o desenvolvimento sustentável da indústria manufatureira”, escreveu no jornal oficial China Daily o economista Mei Xinyu, da Academia Chinesa de Comércio Internacional e Cooperação Econômica, ligada ao Ministério do Comércio.
Na opinião de Mei, a China sofreria mais que o Japão na hipótese de apreciação significativa da moeda, em razão dos diferentes estágios de suas economias. “O Japão havia entrado na fase pós-industrial e já integrava a lista dos países desenvolvidos naquela época [1985], enquanto a China ainda percorre o caminho da industrialização.”
Mas como a China de hoje, o Japão dos anos 80 tinha grandes superávits comerciais com os Estados Unidos, acumulava reservas estrangeiras e usava sua poupança para comprar títulos do Tesouro norte-americano. E como a China de hoje, o Japão também emergia como um país capaz de desafiar a posição dos Estados Unidos como grande potência mundial. Isso faz com que não poucos em Pequim tenham teorias conspiratórias, que vêem na pressão norte-americana pela valorização do yuan uma estratégia para minar a ascensão chinesa.
2012
2011
2010
2009
2008