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Cláudia Trevisan

Desde o dia 1˚ de agosto, um dos painéis luminosos da Times Square, em Nova York, estampa o nome da agência oficial de notícias da China, a Xinhua, no mais ostensivo símbolo do processo de internacionalização da mídia controlada por Pequim, que está levando à abertura de escritórios em todo o mundo e à multiplicação das línguas em que as informações são veiculadas. Mais do que retorno financeiro, o objetivo primordial da ofensiva é combater a suposta visão anti-China da imprensa ocidental, fortalecer o incipiente ‘soft-power’ chinês e veicular a posição do Partido Comunista em relação a temas domésticos e internacionais.

Além da Xinhua, os atores principais desse movimento são jornais em inglês, a Rádio Internacional da China e a rede estatal de televisão CCTV, que os propagandistas de Pequim sonham em transformar na versão chinesa da CNN. A emissora inaugurou no fim de 2010 um escritório em São Paulo, que terá a missão de coordenar sua atuação na América Latina, mas o projeto de lançar um canal em português _anunciado em 2009_ continua sem prazo definido.
A CCTV já tem canais em inglês, árabe, espanhol, francês e russo e correspondentes em 50 locais, que se reportam a escritórios centrais na Ásia-Pacífico, Oriente Médio, África, Europa, América do Norte, Rússia e América Latina _que é o de São Paulo.

“A China está competindo com os Estados Unidos não só em termos de desenvolvimento econômico, mas também na construção de imagem e na tentativa de definir a agenda internacional”, diz Li Xiguang, diretor do Centro de Pesquisa em Comunicação Internacional da Universidade Tsinghua. Segundo ele, a China é um dos únicos países além dos Estados Unidos que ostensivamente busca construir uma rede global de mídia para consumo de estrangeiros. Impulsionando esse movimento está a convicção de Pequim de que a imprensa estrangeira não reporta de maneira “justa e precisa” os fatos que ocorrem no país, especialmente nas áreas de desenvolvimento político e social, afirma Li. “A mídia ocidental ainda olha a China como olhava a União Soviética e ainda possui uma espécie de mentalidade da Guerra Fria.”

Ming Anxiang, do Instituto de Jornalismo da Academia Chinesa de Ciências Sociais, observa que o processo de expansão internacional da mídia chinesa ainda está no primeiro estágio, de construção da infraestrutura, por meio da abertura de escritórios e contratação de jornalistas. A segunda fase será a do fortalecimento do “soft-power”, com aumento da audiência e da influência dos veículos chineses.

Nesse processo, o maior desafio será a conquista de credibilidade, já que a mídia controlada por Pequim é frequentemente vista como um instrumento de propaganda oficial, mais do que de informação. No livro “Marketing Dictatorship”, a professora neozelandesa Anne-Marie Brady ressalta que o objetivo do Partido Comunista é transformar a CCTV em uma versão chinesa da CNN, com abrangência global e notícias 24 horas por dia. A diferença entre ambas, ressalta, é o fato de a CCTV ser porta-voz do governo chinês em questões internacionais e do Partido nos temas domésticos. “A rede ganhou recursos substanciais em termos de equipamentos, mas não tem nenhuma independência editorial. Os jornalistas estão sob constante pressão para apresentarem uma visão positiva da China”, escreve Brady no livro, no qual mapeia a máquina de propaganda controlada por Pequim.

A expansão internacional da mídia oficial chinesa ganhou velocidade em 2009, quando a imprensa ocidental enxugava custos sob o impacto da crise econômica iniciada no ano anterior. Naquela época, jornais de Hong Kong divulgaram reportagens segundo as quais Pequim havia aprovado um plano de 45 bilhões de yuans (US$ 7 bilhões) para a globalização de sua imprensa. A informação foi contestada pelas autoridades chineses, mas o ritmo de crescimento da mídia oficial além das fronteiras chinesas se acelerou desde então.

Em discurso proferido em janeiro de 2009, o ministro da Propaganda, Liu Yushan, enfatizou a relevância desse movimento: “Fazer com que a nossa capacidade de comunicação se equipare ao nosso status internacional se tornou uma missão estratégica urgente. Nessa era moderna, aquele que domina as técnicas avançadas de comunicação, a poderosa capacidade de comunicação e cuja cultura e valores são mais amplamente divulgados é capaz de influenciar o mundo de maneira mais efetiva”.

A chegada da Xinhua ao coração de Nova York é o principal símbolo dessa expansão. A agência oficial de notícias do governo chinês não está presente na Times Square apenas no painel luminoso: desde maio, seu escritório norte-americano funciona no local, que também é o endereço de ícones da imprensa ocidental, como o The New York Times e a Reuters. Com 16 mil funcionários e presença em 130 países, a Xinhua criou em 2009 uma TV online em inglês, a China Network Corporation (CNC), que Pequim pretende transformar em uma emissora de influência global até 2020, com a criação de canais em francês, japonês, espanhol, russo, árabe e português.

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Não há nenhum indício de que a China esteja prestes a experimentar algo semelhante ao que ocorre no Egito, mas os dirigentes comunistas não parecem estar tão seguros disso. A censura bloqueou o uso das palavras “Egito” e “Cairo” em posts e fóruns de discussão na internet e as notícias sobre a rebelião popular foram cuidadosamente editadas pela agência oficial Xinhua, cujos textos foram reproduzidos pela imprensa do país.

Principal tema dos jornais de quase todo o mundo, os protestos no Egito foram tratados de maneira discreta nas publicações chinesas e poucas vezes chegaram às primeiras páginas. O foco não eram as causas da insatisfação, mas o caos social e econômico provocado pela tomada das ruas pelos egípicios.

Os dirigentes chineses vivem assombrados pelo fantasma dos protestos na Praça Tiananmen, em 1989, que terminou em um sangrento massacre por tanques do Exército, no qual centenas de pessoas morreram. O paralelo se tornou especialmente constrangedor ontem, depois que o Exército egípicio anunciou que não reprimiria a marcha de um milhão na Praça Tahrir.

Depois das décadas de tumulto vividas com a Revolução Comunista (1949) e a Revolução Cultural (1967-1977) os chineses passaram a temer o caos de maneira especial e a cobertura dos protestos no Egito explora esse aspecto da psique nacional. O texto da Xinhua reproduzido ontem pela imprensa chinesa dá mais espaço para os egípicos que reclamam da desordem do que para os manifestantes que pedem a renúncia de Hosni Mubarak.

E no sábado, o jornal “Global Times”, ligado ao Partido Comunista, trouxe editorial com o título “Revoluções coloridas não trarão democracia verdadeira”. O texto fala das diferenças entre países ocidentais e grande parte da Ásia e da África para justificar a não-adoção da democracia representativa. “Em geral, a democracia tem um forte apelo em razão dos modelos bem sucedidos do ocidente. Mas se esse sistema pode ser aplicado a outros países é uma questão em aberto, na medida em que mais e mais exemplos de fracasso emergem.”

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 O governo chinês deu mais um passo para aumentar seu controle sobre a internet, com o anúncio da criação de um site de buscas que será operado pelas megaestatais China Mobile e Xinhua. A primeira é a maior empresa de telefonia celular do mundo, com 550 milhões de clientes. A Xinhua é a agência de notícias controlada por Pequim, que tem a função de refletir estritamente o que pensam e querem os dirigentes do Partido Comunista.

O anúncio foi realizado na quinta-feira, quase cinco meses depois de o Google ter transferido seu site de buscas em chinês de Pequim para Hong Kong, em protesto contra o aumento da censura e a atuação de hackers. Com a decisão, a empresa norte-americana deixou de praticar a autocensura imposta pela China a todos os sites que operam a partir do país. Mas as buscas continuam a passar pelo filtro da censura e as páginas relacionadas a temas “sensíveis” são bloqueadas.

As autoridades chinesas intensificaram nos últimos dois anos a censura na rede e não escondem sua intenção de ampliar ainda mais os controles sobre os 420 milhões de internautas, a maior população online do mundo. Site como Youtube, Facebook e Twitter são bloqueados no país, assim como informações relacionadas ao dalai lama e tibetanos exilados, independência de Xinjiang, defesa de reformas democráticas, falun gong e uma long lista atualizada constantemente pelos censores de Pequim.    

O Partido Comunista vê o controle da opinião pública como uma das principais ferramentas para garantir sua sobrevivência no poder. Todos os meios de comunicação do país são submetidos à censura e grande parte deles é de propriedade do Estado ou do Partido Comunista.

No anúncio do novo site de buscas o vice-presidente da Xinhua, Zhou Xisheng, disse que a iniciativa faz parte dos esforços do governo de “preservar a segurança da informação e promover o desenvolvimento robusto, saudável e ordenado de uma nova indústria de mídia na China”.

Ao contrário do que muitos esperavam, a internet não parece ameaçar a dominação do Partido Comunista, diz Rebecca MacKinnon, do centro sobre políticas para a tecnologia da informação da Universidade Princeton. “Os americanos têm essa suposição de que regimes não-democráticos não podem sobreviver à internet e eu acredito que isso é ingênuo. O Partido Comunista da China pretende sobreviver à era da internet e tem uma estratégia para isso. Por enquanto, está funcionando.”

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